MINHA VIA CRUCIS AO SANTUÁRIO DE FÁTIMA

- Solange Amador

Relato

No último dia da minha via crucis ao Santuário de Fátima, com dores, bolhas e pé direito inchado, solucei de desespero ao saber que havia errado o caminho e que teria que andar 6 km a mais. Eu agora teria que ir pela estrada nacional se quisesse chegar.

Já não bastasse o dia em que havia caminhado com os pés enfaixados e de sandália japonesa, o antibiótico que estava tomando para desinflamar o pé direito, os 5km de carona que tive que pegar, à noite, por medo de uma estrada deserta e com ciganos suspeitos, agora me encontrava em cima de um curral, chorando e me perguntando por que a peregrinação a Fátima tinha-me sido espinhosa.

Quando me acalmei, uma voz forte me disse que era porque eu deveria estar no Santuário de Fátima ao meio-dia do domingo.

Não foi à toa que me detivera um dia, em Santarém, esperando o pé direito melhorar: eu precisava estar no Santuário exatamente na hora marcada, para poder ver o espetáculo em que N. Senhora é elevada no alto, em cortejo, durante a missa. Observei que havia um ornamento de margaridas enfeitando a sua imagem, silenciosamente aplaudida, no cortejo, por lenços brancos de despedida.

Enquanto do alto de uma pilastra eu enviava a N.S. o meu adeus com um lenço branco que acabara de comprar, deixei as lágrimas escorrerem enquanto eu captava as fortes energias do Santuário, que procurei distribuir aos amigos, conhecidos e à humanidade em geral.

Vieram-me à mente, incessantemente, as duas vezes em que N.S. a mim se manifestou durante a minha via crucis: uma no campo, através dos raios do sol que delineavam o formato de seu manto, e outra por intermédio de uma senhora de 88 anos, que me ofereceu fruta e um livrinho ensinando a ler o rosário. Foi quando eu tive a resposta às minhas perguntas, pois desejava saber o que N.S. queria de mim, em prol da humanidade. Sim, ela deseja que eu reze o rosário, em prol da humanidade e do mundo que está se acabando.

Muitos afagos recebi, de pessoas condoídas com o meu estado físico. Recebi terço, santo, abraços e beijinhos, lágrimas de despedida de quem desejava vir comigo, e até dor de dente curei, imaginem! Pelo menos foi o que me disse um rapaz de Santarém que me conduziu ao centro de saúde. Ele me disse que tinha passado a noite toda com dor de dente, e que nem os médicos e os remédios o haviam curado! foi só eu chegar perto dele para a dor passar! (quem me dera ter curado minhas próprias bolhas!). Depois de algum custo, em que lhe disse ser pecadora como ele, e que provavelmente foram as energias do caminho que o curaram, energias estas impregnadas em minha aura,é que ele resolveu sossegar, pois além de me dizer que eu não sou deste mundo, ainda ameaçou ir à rádio e à TV contar o ocorrido! Valha-me, Deus, ainda bem que N.S. deu um jeito, pois já estava dando adeus à caminhada!

Como disse a Dona Bem-vinda, depois de lhe informar que eu ñ estava andando sozinha, e sim acompanhada de Deus: "Não há amigo igual, ah, ah, ah...Não há amigo igual, ah, ah, ah...Não há amigo igual, ah, ah, ah..."

Se eu penei por causa dos meus pecados, ou dos pecados dos amigos que estava carregando na mochila, ou se foi pelo sol quente, meias grossas, praga de urubu do rio Trancao, apitos de fábricas estridentes e barulho dos caminhões, pernas com peso de chumbo, no Caminho do Tejo, que nos dois primeiros dias simplesmente se transformaram no "Caminho do Tédio", eu não sei.

No entanto, posso garantir: os anjos da guarda existem. E eles estavam encarnados no meu caminho, ora me guiando nas setas, ora cuidando dos meus pés. O Caminho do Tejo foi um caminho que me deu vontade de desistir no primeiro momento da caminhada. Foi o mais doloroso, o mais sofrido, o que mais me irritou. Mas foi o caminho da minha redenção, da minha purificação, da descoberta das preciosidades da vida.

E é com os sentimentos mais elevados que peço a Nossa Senhora de Fátima para sempre proteger os que me deixaram em pé na minha via crucis, me socorrendo nos momentos mais difíceis da minha caminhada. Estou em estado de graça e espero continuar assim, por muito tempo. Amém, agora e para sempre.

Solange

R E L A T O S