CHILE

- Solange Amador

Relato

A Finisterre dos Andes, em sua patagônica majestade, soprava um gélido hálito de seus imponentes glaciares de 70 metros de altura e 13 km de extensão. As lágrimas brancas das montanhas nevadas, esparramadas no lago cristalino e condensadas em variáveis formas humanas e animalescas de cores azuladas, estabeleciam a fronteira entre o humano e o divino.

Não pude ultrapassar aquele mundo misterioso do Perito Moreno, ao mesmo tempo eterno e quebradiço, com seus ruídos explosivos de gelos se desprendendo e reconstituindo-se rapidamente em icebergs, mas pude sofregamente sentir na cabeça e nos dedos a energia que vinha do seu interior.

A cada rodada do barco eu captava uma emoção diferente, divisava estranhos monges formados de gelo, largatos ameaçadores, figuras magníficas....porém diferentes das paisagens que vi no passeio do barco Navimag, de 3 dias e 3 noites de Puerto Montt a Puerto Natales.

Foram horas cruzando o Golfo Corcovado, o Seno Reloncavi, o Golfo Ancud, o Arquipélago de Chiloé, o Canal Moradela, o Canal Pulluchi, a Bahia Anna Pink, o Golfo de Penas, o Canal Messier, o Bajo Cotopaxi, a Angostura Inglesa, o Puerto Edén, o Paso del Abismo, o Canal Sarmiento, o Estrecho Collingwood, o Canal Santa Maria, o Paso White.

Em Puerto Edén, representantes de uma raça indígena em extinção subiram ao barco para vender suas "artesanías". Emoção ao ver pequenos barcos se aproximando para recepcionar os turistas (120, no total, entre latinos e europeus). Daí por diante teríamos companhia, principalmente nas filas das refeições, que se tornaram um pouco mais compridas.

E por falar em refeições, jamais irei esquecer-me do esforço que fiz para não escorraçar do meu estômago um delicioso frango preparado pelo cozinheiro José, sempre tão simpático. Mal terminara de jantar aquela iguaria, o barco começou a balançar com o movimento das águas. Eu já estava entalada com a comida, pois nem os ossos sobraram do coitado do "pollo", quando subitamente veio aquele sobe e desce na minha garganta. Cantei para ver se os males espantava, tentei assistir a um filme, mas terminei por acomodar-me na minha "caixa de defunto", como apelidei a minha cama, dada a sua semelhança a um sarcófago. Um segundo a mais .... e teria me borrado toda, sem direito sequer a uma latrina. Músculos congelados para aquietar o frango na barriga, esforço compensado. Porém....agora eu sei como se sente a água dentro de uma garrafa, quando sacudida de um lado para o outro. Que noite....

Noite pior foi no refúgio Las Torres, no parque Torres del Paine. Refúgio sem eletricidade, e eu sem lanterna no quarto mais distante do banheiro, piso de madeira barulhenta, quarto dividido com mais cinco pessoas, como iria aventurar-me no breu, para urinar? De duas uma: ou eu molharia o meu saco de dormir ou tentaria dizer para mim mesma que a dor no baixo ventre era puramente psicológica. Preferi esta última opção. No dia seguinte fiquei sabendo que no banheiro havia luz de um gerador. Ai, ai....

Uau!!!Quando o dia amanheceu saí finalmente para o meu único circuito de trekking no parque, haja vista que o meu projeto de visitá-lo por completo (o fiz somente de carro) frustrou-se, dada a falta de companhia de um aventureiro para acampar comigo. Muitos o fazem .... e como sofrem! O cansaço no rosto das pessoas é tão visível quanto a beleza das montanhas nevadas, dos vales coloridos de flores, dos rios, lagos e cachoeiras. Que paraíso! O ser humano não deveria morrer sem antes visitar este colosso da natureza. Eu me senti numa floresta encantada, nas minhas 8h de ida e volta à base das Torres.

Uma subida numa montanha de pedras - somente pedras, dos mais variados tamanhos - quase me fez desistir de chegar ao mirador das Torres. Não sei se pelo suor que escorria da nuca com o peso das roupas de frio, ou se pelo nervosismo de nunca chegar ao topo principal, pois a cada topo de pedras que chegava havia outro montão, e outro montão....e nesse esforço todo, cada pedra que eu tocava era um pecado que ficava. Creio que agora posso ser beatificada (ih,ih).

Ufa! Finalmente cheguei! Que visão e que sorte, pois não havia nuvens tapando as Torres! E que lago cristalino, de cor esmeralda! Que silêncio. Que paz! Quanta energia! Em contemplação conjunta, um casal de australianos com um guia, e uma turista lá embaixo....deitada numa pedra gigante, pertinho do lago....Que coragem...depois de toda aquela subida, ainda descer mais um bocado, só sendo mesmo muito desportista!

Ai, finalmente...a descida! Putis! Minha máquina fotográfica caiu da minha cintura e ficou lá em cima, no mirador! Que ódio! Depois de todo aquele alpinismo, depois de ter conseguido uma foto legal, eu perdi minha máquina? Eu vou chorar....pois subir de novo, nem pensar! E também não dava mais tempo, pois teria que regressar ao refúgio ainda de dia. Dizem que pão de pobre, quando cai do céu, cai com a manteiga pra baixo. Deixe estar...

Mas como Deus é paraibano, ele me deu a idéia de escrever três recadinhos para os que vinham atrás, em inglês e espanhol, dizendo que se alguém houvesse encontrado uma máquina fotográfica, que a deixasse por gentileza no refúgio Las Torres. Sorte que o refúgio estava no caminho de quem ia acampar em outros lugares. E como havia muitas árvores para fincar os meus apelos, eu teria sorte, certamente!

Pois não deu outra! Daqui a pouco grita alguém: "Hey, your camera!" Did you find it? "No, but a canadian girl is 5 minutes behind us and she is bringing your camera!" Eu nem acreditei no que ouvi. Ali fiquei esperando a minha salvadora chegar. Eu fiquei tão contente que lhe dei meus dois pacotes de biscoitos, com a promessa de lhe dar a metade da minha garrafa de vinho quando chegasse ao refúgio, pois ela estava hospedada lá. E daí por diante nos tornamos grandes amigas....

Um dia retornarei ao Chile e à Argentina, e principalmente à Patagônia fronteiriça, lugar onde a Terra termina. Voltarei ao Parque Torres del Paine, a visitar o Vale Francês, a maravilha que não pude alcançar. Por que será que o vento me chamou ao Parque, e quando lá cheguei ele parou de soprar? Talvez ... quem sabe .... porque ainda não estivesse na hora de eu voar....e por não ter sentido vontade de andar, deixei no lugar o desejo de voltar...

Solange

R E L A T O S