MINHA AVENTURA NO CAMINHO INGLES

- Solange Amador

Relato

22/8/2004, véspera da aventura ao caminho inglês - Abasteci-me no dia anterior n´A Coruña, precisamente na Torre de Hércules e em seu parque de dólmens, tendo como fundo as fortes ondas que batiam nas rochas, anunciando a presença dos celtas e druídas. Sentada numa mandala gigante, ou melhor, numa roda com vários símbolos cabalísticos, escolhi, à minha esquerda, a caveira (representação do fim de um ciclo), e à minha direita, a serpente (o símbolo iniciático do Caminho de Thot, a busca do autoconhecimento, o início de uma nova vida). Eu estava justamente no ponto de interseção entre o velho e o novo. Dos dólmens invoquei a minha transcendência de sacerdotisa, e junto a Mercúrio enviei as fortes vibrações energéticas ao planeta Terra, e em particular aos meus anjos da guarda do Caminho do Tejo. Partiria a Ferrol no dia seguinte, devidamente energizada e trazendo comigo alguns druídas que me conduziriam às montanhas da Galícia. O tempo mudava. Do forte calor da Andaluzia deparei-me com o vento frio da Galícia.

23/8/2004 Dia da partida - Assim como no dia anterior, eu não havia encontrado o marco inicial do Caminho de Santiago. Ele estava escondido - assim me disseram os escoteiros peregrinos de Portugal que estavam no albergue de Miño - e era muito sem graça. De qualquer forma, eu já sabia que subindo por uma rua que fica de frente a uma base militar do porto das Curuxeiras, eu iria passar pela Igreja de São Francisco. Tendo saído do hostal às 6h10, iniciei então o caminho às 6h30 para só chegar no albergue de Miño às 18h50. Não sei por que as pessoas falaram que caminhei muito. Será? Com dois desvios desta parte inicial do caminho, é possível que eu tenha andado uns 46 km. Sem eles a etapa teria sido de 40 km. Na verdade é que muita gente gosta de usufruir dos albergues, e como existe um em Neda, a 18 km de Ferrol, há quem goste de apreciar a economia de Euros. Não me detive nesta peculiaridade. Meu negócio é caminhar, e como estava devidamente energizada com a força de Hércules, minhas pernas tinham a força do aço.

Passando pela Igreja de São Francisco, a única seta que encontrei foi a que estava no chão, ao lado da igreja, numa ladeira. Não sei se foi pela escuridão do dia que tardava a mostrar sua claridade, ou pela péssima sinalização na cidade de Ferrol (só aqui e na entrada de Pontedeume é que estava falha a visualização das setas), o fato é que segui direto até a Praça da Espanha, "passando batido" pela rua da Madalena e Arsenal. Mas como eu sabia que devia chegar ao polígono industrial de Gândara, a partir da Praça da Espanha eu fui descendo, descendo até chegar a Narón. Aqui eu também não vi a Rua da Pena, que leva ao mosteiro de San Martiño de Xubia (O Couto), então resolvi sair da grande avenida de Narón, baixar por uma padaria (o pão mais caro que comi, e só porque pedi um pouco de manteiga, saiu por 2,60 euros), para depois atingir o mosteiro por outro sendeiro. Foi quando, depois de cruzar a via do trem em companhia de um morador local que me disse ter havido um desvio do caminho devido à construção de uma autovia, é que eu vi a primeira vieira do caminho, num daqueles murinhos de pedra típicos da Galícia. O desvio (o segundo, só mais adiante) foi bonito de se ver. Antes de entrar em Neda, havia um caminho "peatonal" muito agradável sobre o rio Xubia. Com o desvio, não segui pelo caminho do salto, conforme mencionado no guia do caminho inglês fornecido pelo Parador de Turismo de Ferrol, já que a oficina de turismo não funciona aos domingos. Em Neda eu não conheci a Igreja de Santa Maria nem o hospital de peregrinos de Sancti Spiritus. Mas conheci a Igreja de San Nicolás (atenção, depois de conhecer a igreja tem que retornar na mesma rua para pegar o caminho. Não vá esquecer, hein?) O caminho segue bem até Fenes. Da saída de Neda já dá pra começar a sentir que a peregrinação vai ser cheia de subidas. A entrada de Cabanas é linda! Dá pra sentar, tomar uma "copa de vino" e ver os barcos atracados. A praia está cercada de pinheiros e há um passeio bastante agradável até a entrada de Pontedeume. Em Cabanas eu não vi a igreja de San Martiño do Porto. Em Pontedeume tem que ficar de olho na sinalização. Como eu não a vi, segui direto para a Igreja de Santiago, pois sabia que o caminho passava por ali. Segui direto para lá, deixando para trás possíveis visitas ao convento de Santo Agostiño, Capela das Virtudes, Torre da Homenaxe do Castelo dos Andrades. A Igreja de Santiago estava fechada. Daqui por diante é pedir a bênção ao apóstolo e começar a rezar, porque "o bicho vai pegar". É muita subida para o céu!. Ah, por favor, o Cebreiro vira cebreirinho no caminho inglês. Querem "melzinho na chupeta", é? Ai,ai, ai...

Depois de Pontedeume ainda tem a igreja de San Miguel de Bréamo (não vi). Passando por Perbe entra-se em Miño, para chegar ao albergue. Quem desejar ir a um cyber café, ou supermercado, ou ainda comer uma tortilla bem gostosa, é só subir à direita do albergue até encontrar uma espécie de avenida com vários bares e restaurantes. O albergue não é dos melhores da Galícia, mas tem cozinha, banheiro feminino e colchões duros.

24/8/2004 Segundo dia - Depois de uma noite mal dormida, em que lutei para conter o vômito por estar exalando a catinga de roupas suadas dos peregrinos que se amontoaram no meu recanto, eu me despertei às 5h45. Eu não sabia se iria caminhar até Bruma, e já tinha dos escoteiros peregrinos o convite para jantar com eles no poliesportivo de Vións, caso desejasse aí encerrar a minha jornada. A minha caminhada iria depender do tempo, que estava excelente, das minhas condições físicas e do próprio caminho, que indicava ser duro. Até Betanzos tem umas subidas, mas nada em que pudesse se diferenciar das do dia anterior. Cidade esquisita, povo esquisito, o de Betanzos. Antes de chegar aqui tem 3 igrejas: San Pantaleón das Viñas, San Martiño de Tiobre e o Santuário de Nossa Senhora do Camiño. Em Betanzos há várias coisas pra se ver, mas eu só vi a igreja de Santa Maria de Azougue.

Bem, amigos, o caminho agora é só de subidas, subidas, subidas....em bosques de eucaliptos, silenciosos, maravilhosos, lindos e impassíveis diante do esforço sobrenatural do ser humano para percorrê-los. Há vários mini povoados, e quando eu falo nesta redundância é porque só tem uma casinha aqui e acolá, e nem se pense em contar com bares, cafés ou algo do gênero. Há bosques super extensos, sem indicação de quilometragem, e não se sabe em que lugar do trajeto nos encontramos. Eu recomendo nem levar saco de dormir, apenas um lençol fino para forrar a cama, pois a inclinação do corpo é constante e dá dores nas costas. Quanto mais leve a mochila, melhor. Nos últimos 14 km eu não conseguia mais carregar a mochila, haja vista a dor nas costas que sentia. Queria dormir no quintal de uma casa, ou junto aos cavalos, não fosse pela intervenção do meu guia físico, enviado pela espiritualidade para conduzir-me montanha acima.

Sim...eu não sei até que ponto a companhia de alguém me foi benéfica, pois impediu-me, de uma certa forma, de passar por uma rica experiência de dormir nos campos, ou de pedir ajuda a uma alma caridosa para repousar o meu corpo cansado. No quintal da casa ele já havia me "impedido", preocupado que estava em deixar-me sozinha. Na minha segunda e última tentativa, ai, Meu Deus, era naquela casa, no paiol, que eu queria passar a noite. A senhora da casa se parecia com a mesma senhora que me passara a mensagem de N.S. Fátima na minha via crúcis ao santuário, tanto é que, depois de eu haver decidido continuar o caminho pela estrada, ela cruzou por mim ....e para minha surpresa, ela tinha mesmo um rosto bastante semelhante! Eu não fui até ela, mas ela veio em direção a mim, na estrada que o guia teimava em descobrir, a todo custo, o caminho de Bruma. Depois de ligar para a proteção civil, na tentativa de que viessem pegar a minha mochila, pois o meu único problema era a dor nas costas, ele chegou a dizer que eu estava passando mal! Eu havia lhe dito para não telefonar, e dito e feito! Nada fizeram, pois não era caso de vida ou morte!

Ora bolas! Eu sei que não poderia mandar o meu guia "ir à merda", pois ele estava preocupado comigo e não queria me largar sozinha no meio do "nada", mas ao mesmo tempo ele estava me atrapalhando, estava me impedindo de viver a minha experiência no caminho, fosse ela qual fosse! O meu guia, que estava no albergue de Miño e que é um dos membros da Associação dos Amigos do Caminho de Santiago de Sevilha (jurisdição que vai até Mérida), era por suposto o guia que a espiritualidade havia me mandado para conduzir-me montanhas acima, e que de fato me conduziu, auxiliando-me no transporte de parte da minha tralha (eu já havia despachado a metade para Santiago, antes de começar a caminhada, mas o fato é que a inclinação das montanhas provocou-me a dor nas costas). Não que houvesse perigo para uma peregrina solitária, pois toda a gente do lugar, inclusive a polícia autônoma da Galícia, encarregada exclusivamente de dar assistência aos peregrinos (981/153410), assim o disse, referindo-se aos moradores como sendo gente do bem (esta polícia passa de carro pelos caminhos, procurando saber se está tudo bem com os peregrinos. Os dois muchachos são gente finíssima. Eu tirei foto com eles em cima do carro da polícia).

Na cabeça do guia, sobrevivente de meningite, câncer e problemas do coração, ajudar-me tornou-se uma questão de honra. Diante desta inflexibilidade eu tive que abrir o jogo com ele. Eu fiz com que ele se sentasse para me escutar. Eu lhe disse:

- É o seguinte: eu já sabia, antes de sair do Brasil, que haveria um guia me esperando para conduzir-me através das montanhas da Galícia. Quando cheguei no albergue de Miño, tive a impressão que era você. O nome que me deram é diferente deste que portas agora, então eu acho que se trata de um nome que tinhas em outra encarnação. Não és obrigado a acreditar no que eu estou te dizendo, mas diante de uma decisão entre ir e ficar, compete-me revelar-te tal fato, para que decidas se queres continuar (sozinho) a tua peregrinação, pois de maneira alguma desejo ser responsável pelo insucesso de tua empreitada. Da minha parte te digo uma coisa: tudo o que eu faço na vida tem seus próprios riscos, assim como numa peregrinação. Eu tive a oportunidade de parar em Viós, onde existe um poliesportivo. E agora eu me encontro aqui, desejosa de parar a 14 km de Bruma, posto que minhas costas doem em demasia. Eu tive as minhas escolhas e calculei os riscos. Eu até posso chegar - no meu passo, até a meia-noite, se preciso for - mas acontece que eu estou mais preocupada consigo do que comigo, pois sei que você decidiu ir a Bruma porque viu em mim esta determinação. Quer continuar comigo ou prefere ir sozinho, mesmo sabendo que terá parte da tua peregrinação prejudicada?

- A minha natureza não permite deixá-la sozinha. Eu a acompanharei,disse-me resoluto.

Feitas as escolhas (agora eu tinha as rédeas do caminho nas minhas mãos), decidi ir pela estrada, para um pouco mais adiante encontrar o caminho mais uma vez, pegando a subida que tanto temia. E como o bosque era interminável, ao sair por um lugar aparentemente cheio de casas o jeito foi pegar a carona dos últimos 2 km, pois estava anoitecendo. Os hospitaleiros até podiam adivinhar, pois estavam nos esperando. Como não tem bares e restaurante em Bruma, ela nos dá a opção de entrega de comida no albergue. Eu pedi uma sopa, que dava para três pessoas, um pão e uma garrafa de vinho tinto. Só paguei 5 Euros. No dia seguinte acordaria um pouco mais tarde, para sair do albergue às 8h30. Neste dia eu ainda fiz reiki no pé de uma espanhola, que sentiu a energia muito forte (quando isto ocorre é porque o local onde está sendo aplicado o Reiki está realmente precisando dessa energia). Eu estava toda moída. Moída, moidinha......O albergue estava calmo. Bom demais....

25/8/2004 Terceiro e último dia - Último dia? Sei lá...queria parar em Sigueiros, só para ver como é ficar num polidesportivo com 50 pessoas. O caminho é plano e não tem mais subidas. Aqui a vegetação muda. Muito gostoso caminhar no último dia. É "melzinho na chupeta", ou "chupao", como disse a polícia autônoma, em seu riso constante. Pois eu cheguei em Salgueiro às 16h e fui almoçar. Quando resolvi ir ao Poliesportivo já eram 17h. Ah, não gostei, não... Aquela gente espalhada em colchões num ginásio de esportes...Pensei logo no banheiro, nos meus cremes, no desconforto...Preferi seguir adiante, andando mais 15 km.

Só fui chegar em Santiago às 22h30. Ainda fui ver se tinha vaga no Seminário Menor. Ilusão...um bando de peregrinos fazendo ruído em suas panelas. Arc! Detesto quem come fazendo barulho no prato, pois parece um esfomeado. E aqueles...ui, como faziam barulho em suas panelas, até pareciam mendigos! Que quadro grotesco de se ver! Tem vaga, moço? Não, disse secamente. Liguei para uma brasileira que havia me oferecido hospedagem em sua casa, mas o outro quarto já estava ocupado. Agora, só me restava rezar para ver se encontrava vaga nos hostais, minha única preocupação. Saí do Seminário chorando, pois havia caminhado 42 km e não havia vaga para mim, peregrina, quando eu sei que aquele Seminário estava cheio de turistas disfarçados de peregrinos! Depois de algumas tentativas,finalmente encontrei um lugar para dormir.

No dia seguinte, minha inquietação: ter de ficar 40 minutos numa fila de peregrinos, só para pegar a compostela; irritar-me com o falso entusiasmo de uma ciclista babaca que não soube tirar proveito do caminho, como tantos outros que fizeram o caminho só por diversão.... ter que ouvir aquelas pancadas de cajados nas ruas de Santiago, reflexo de ares imponentes de quem se acha importante só porque fez alguns quilômetros a pé. Por acaso a peregrinação já não havia terminado? Por que têm que andar com aqueles cajados (odeio todos esses pauzinhos) anunciando a sua presença em fortes pancadas no solo? Falta de respeito à memória do apóstolo, assim penso eu... Como eu havia dito ao Riera na minha primeira ida a Santiago, antes de ir a Málaga: "Eu quero, de volta, a Santiago de 1996, quando fiz o caminho francês. Eu quero a cidade de Santiago de 1996!"

Reencontrei o meu guia, que havia caminhado sozinho no último dia,assim como eu. Combinamos um encontro na missa do peregrino, mas como havia milhares de peregrinos se acotovelando com os turistas, só ficou no meu caderninho o seu endereço, para eu lhe mandar algumas fotos.

E para terminar, eu pergunto: qual foi o meu aprendizado no caminho inglês? Como nele só havia beleza, eu percebi que as escolhas na minha vida podem ser feitas assim, de paisagens bonitas, de encantamentos, de prazeres, de bom tempo, de brisa fresca, de deleites, não me esquecendo, porém, de agradecer a Deus por toda esta graça, pois a partir do momento em que comecei a reclamar do fato de o caminho estar sendo mais um passeio do que uma peregrinação, foi quando as dores começaram a surgir. O universo conspira a nosso favor. Saibamos pedir, saibamos agradecer. Então eu decreto: Deus, quero tudo de bom na minha vida. Fartura, prosperidade e felicidade nos três reinos da minha natureza: material, espiritual, sentimental. E sobretudo muitos anos de vida para dizer a todos que viver é muito bom.

Solange

R E L A T O S