CAMINHO SENTIMENTAL

- Clinete Lacativa

Saí de Viena, depois do Congresso, no dia 9.

O Congresso foi bom, sempre é, a gente vê coisas novas e revê muitos amigos. Além do que Viena é uma cidade encantadora, com seus museus e palácios, igrejas - desta vez, passei um tempão na Karlskirche e fui a casa do Freud - seus cafés e a Sachertorte. E ainda teve um concerto do Andrea Bocelli que é um jovem simpaticíssimo e comovente com sua voz e sua adaptação às agruras da vida.

Foto do Relato

O avião saiu com uma hora de atraso e já antevi: perderia a conexão para Santiago. Não deu outra. Em Madri, mais de 11 da noite, não adiantou correr. E de repente, me vi só, já que da conexão para Santiago era a única. Consegui descobrir o caminho das pedras e me vi num hotel gigantesco, perto do aeroporto, Auditorium, absolutamente repleto de pessoas que perderam seus vôos, por culpa das companhias. Este transporte aéreo anda muito complicado. O que ouvi de gente reclamando, aqui e na Europa...

Jantei com uns brasileiros, que tinham sido vitimas de overbooking e estavam irados. Um casal do Rio de Janeiro e uma moça de S. Paulo. Impressionante como, após um mês rodando de carro pela Espanha, eles tinham uma visão negativa do país. A conversa terminou sobre o Caminho e eu lembrei de como o Caminho me reconciliou com a Espanha...

Consegui ligar pra casa, pro André avisar ao Lyra, estava com medo que ficassem me esperando.

No dia seguinte, Santiago enfim. E vi que Santiago já tinha colocado a mão na minha cabeça: no dia anterior ventos de 140 km/h, um horror! Não sei como os aviões conseguiram aterrisar.

Cheguei e vi uma cidade em pandarecos: chuva, névoa, guarda chuvas quebrados por tudo quanto era lado - faziam pilhas enormes! milhares de pessoas em filas para entrar na porta santa, as portas da igreja fechadas porque não cabia mais gente... uma loucura, num dia de domingo.

Era andar na rua e achar brasileiro. Os primeiros foram Suzana e Leon, que estavam estrategicamente chegando a Praza de Galícia, onde param os táxis que não conseguem entrar no casco viejo, e me ajudaram com minha bagagem nada peregrina: mala, pasta cheia de livros e cds do congresso e minha mochila... Inês e Selma me esperavam no Mapoula, num quarto que tinha virado a sucursal da AACS em Santiago. Foi colocar um casaco e sair, pra encontrar todo mundo.

Vi que chegar perto da igreja, nem pensar. E fui encontrando, nas Praterias, além do pessoal do Caminho Português, já se preparando para voltar a Portugal e seu protetor no Caminho, Alex Rato, o trio cantante, Guilhermina, Ana Leda com amigos espanhóis, Jane e mais gente que estou esquecendo o nome... velhice... chegando do Caminho Primitivo, da via de la Plata, do Francês.

Fiquei tentada a ir logo a Finisterre. Mas a chuva, a multidão em Santiago, o medo de atrapalhar a caminhada do Renato, que, jovem com é, deveria andar a mil... resolvi ir mesmo fazer o Caminho sentimental, pelas mesetas e montes de León.

Com Selma e Inês, saímos cedo para a rodoviária, na segunda feira. Seu Manolo guardou minha mala, o presente gigante do Acácio - uma rede, só eu mesma... e os excessos da Inês.

Minha mochila, muito mais pesada que o sensato, as de Inês e Selma, levinhas, embora cheia de presentes para os amigos. Chegamos em Burgos e o ônibus para Castrojeriz, de onde iniciaríamos a caminhar, estava ao lado. Foi só trocar as mochilas de ônibus e sair.

No ano passado, havia me prometido conhecer melhor Castrojeriz. Uma cidade da época dos romanos, dizem que o próprio Julio César andou por lá, e daí, vem seu nome: o castro, acampamento romano, de Julio César. Tem um conjunto imponente de igrejas e da outra vez, cheguei tarde e saí cedo.

Saímos logo em busca de La Taverna, da Maria Jesus e Toño. Quem encontramos na rua? Graciliano, que já estava hospedado no albergue de San Esteban, com José e Santiago. Depois da emoção, Inês chorando, claro, fomos todos atrás da comida de Maria Jesus. La Taverna fechada. Pessoal, atenção. Não pode chegar em Castrojeriz na segunda. É a folga semanal e nada de passar bem com os quitutes de Maria Jesus, indiscutivelmente a melhor comida peregrina do Caminho francês.

Alojamo-nos com o Resti, que fez a maior festa. Encheu a gente de presentes e nós também lhe demos alguns, e fomos tentar ver os donos do Bernie. Conseguimos, e apesar de estarem guardando as compras, nos fizeram sala com presunto e queijos e o vinho, especial para brasileiros, que Toño tem sempre guardado. Mais presentes pra lá e prá cá e a promessa de vir tomar um café antes de sair.

No albergue, conhecemos um austríaco, Charly, que andava com uma parafernália eletrônica: guitarra, laptop com gravador de cd, equipamento fotográfico. Nem consegui levantar sua mochila! E o cara ainda era magro! Antes do café, ainda tocou pra nós uma música do caminho e Imagine. Uma gracinha, ele. Parecia o Cat Stevens, alguém lembra?

Deixamos as mochilas no Toño e fomos para San Antón. Começamos a encontrar peregrinos, que nos olhavam meio assustados: "seriam bruxas fazendo caminho ao contrário?" Encontramos brasileiros, uma águia magnífica nos montes perto de San Antón, que não consegui fotografar, embora ela tivesse aberto as asas, se mostrado bem. Acabamos com a tortilla de Maria Jesus, conversamos com uma alemã que anda puxando um carrinho, por causa de sua osteoporose e fomos ver a igreja de San Juan.

Estava engalanada, era dia de N. Sra. do Pilar, padroeira da Espanha. Ainda consegui conversar um pouco com o padre, jovem e simpático, mas não vi o fenômeno da luz na sua rosácea. Acho que deve acontecer no por do sol, não sei.

Foto do Relato

Saímos de Castrojeriz por perto do meio dia, rumo a Boadilla, nosso destino. Graciliano, a esta hora, já deveria ter passado por lá. O homem anda uma barbaridade.
40 km, no mínimo por dia. Levávamos mochilas pesadas, com 2 vinhos ainda que eu havia comprado em Santiago, com uma torta de Santiago. A torta tínhamos dividido com os peregrinos no café. Um dos vinhos, tomado com o Gracialiano e o Resti. Mostelares, lá vamos nós!


2 de outubro

Uma visão bem diferente da do ano passado, quando saímos ao amanhecer. Agora, a colina estava toda sob o sol. Não havia aquele jogo de luz e sombra, que me permitiu fazer uma foto tão bonita, lembrando os ciprestes de van Gogh.

Foto do Relato

A subida da colina de Mostelares foi bem menos cansativa. O clima mais frio, mais agradável, facilita muito o caminhar. No alto da colina, paramos para começar a diminuir o peso das mochilas. Abrimos a garrafa de vinho que eu levava e teríamos ficado mais tempo se a área de descanso não estivesse tão suja, cheia de mato e lixo.
As lixeiras repletas, com lixo não recolhido. O mato alto, cheio de urtigas e espinhos. Tão perto da cidade! Por que não são limpas?

Passam tantos peregrinos...
Um jovem americano sentou perto, mas não quis provar o vinho. Fiz nova foto na colada do caminho francês, no mesmo local onde fotografei o André no ano passado, para verificar as mudanças no céu e nas cores da terra.

Na fonte do Piolho, nova redução do peso das mochilas. Mais vinho. Um vento agradável soprava e levou um saco de plástico. Inês correu atrás e ficou brincando de pega-pega com o vento. Mas não deixou o saco nas plantações. Oh moça ecológica! Que diferença de quem é o responsável pela limpeza da colina de Mostelares! Logo chegou o rio Pisuerga e o albergue dos italianos. Fechado. Nunca vou conseguir conhecê-lo?

O tempo continuava agradável, sem muito sol e com uma brisa leve. Logo, logo, chegamos a Boadilla. Novo albergue, fechado, num galpão, logo na entrada da cidade, ao lado da fonte do peregrino. Outro, municipal, quase colado.

E finalmente a casa rural e albergue do Dudu, o En el Camino.
O jovem Dudu já nos esperava. Graciliano tinha passado cedo e avisado que iríamos ficar ali. Dudu guardou nossos lugares com grandes ancinhos, da decoração da sala. Estava engraçado.
A música brasileira rolou solta, Dudu está cada vez com mais cds de música brasileira. Fiquei de mandar um Antonio Carlos Jobim, pra contrabalançar as "axé music", mas ele tinha também os Tribalistas, menos mal.

Tentei fazer contato com o pessoal através da lista, penando naquele teclado de matar, até a hora do jantar.

D. Begoña, sr.Jesus e a avó, muito simpáticos e atenciosos. Distribuímos nossos presentes, Dudu vestiu logo a camisa da AACS e conversamos longamente sobre Caminho, albergues, hospitaleiros. Dudu nos pareceu bem mais maduro e ficamos meditando sobre sua vida de jovem tão exuberante em um povoado tão minúsculo.

Quando voltamos ao dormitório, as luzes apagadas nos proporcionaram uma visão extasiante: a via Láctea brilhava intensamente no céu. Era uma bela estrada estrelada, naquele céu azul profundo. Nunca a havia visto tão bela! No Tururu, e mesmo no sítio de meus bisavós, onde não havia luz elétrica, nunca pude vê-la em tal esplendor. Foi difícil largar aquele espetáculo para ir dormir... Era um sonhar acordado, aquela estrada cintilante a cortar os céus da Espanha, a nos indicar o Caminho. O Caminho de Santiago.

13 de outubro

Depois do café e das despedidas, fomos com Dudu até Carrion de los Condes. Ele iria para a faculdade e era seu caminho. Lá, eu poderia tentar descarregar minha máquina digital ou até comprar uma memória nova.

A gente vai vendo os peregrinos caminhando naquele caminho reto entre Fromista e Carrion, e lembra como demora para chegar. De carro, tão perto e tão sem graça. Um dia todo de caminhada e só alguns minutos de carro... Alguns peregrinos já conhecidos, de Castrojeriz, passavam vergados ao peso de suas mochilas.

Em Carrion de los Condes, uma visita a linda igreja de Santa Maria del Camino.

Estava aberta. Uma triste notícia: o padre Mariscal se aposentou. Agora há um novo pároco, d. Geraldo. Não sei se d. Margarita continua no albergue, estava fechado

Enquanto Selma e Inês se abasteciam no supermercado, fui em busca de um local para descarregar as fotos. Não existia, só em Sahagun!

Procurei as memórias e, felizmente, numa loja que tinha de tudo, de louça a instrumentos agrícolas, estava lá. Poderia esperar mais tempo para descarregar a máquina.

Foto do Relato

Caminhamos até Calzadilla de la Cueza e mais uma vez pude comprovar como é tão mais agradável caminhar com tempo frio.

Num campo sem plantação, resolvemos sentar para acabar nosso vinho. Inês tinha renovado seu estoque de azeitonas. Frutas secas, queijo, pão e nosso vinho galego - fizemos uma festa.

De repente, aparece nosso Cat Stevens. O Charly vienense, com sua guitarra.

Sentou conosco, comemos e ele resolveu mais uma vez cantar. Cantou uma canção austríaca, de um pai ensinando para o filho que as coisas tem cores.
Uma linda canção, que fui traduzindo para Selma e Inês.
Aparecem três franceses, que haviam estado com Charly em Vilalcazar. Lá, em frente a igreja, Charly cantou algumas canções. Disse que foi muito emocionante.

Falei para ele ficar em Calzadilla, para que ele conhecesse o calor de um hospitaleiro brasileiro. Ele pretendia ir até Sahagun, pois tinha encontro marcado com a esposa em Leon, mas resolveu ficar. Caminhamos todos juntos até Calzadilla.

Na chegada a cidade, vê-se primeiro uma torre que fica no cemitério, depois, um depósito de feno, um lindo muro, muito antigo, e o albergue Caminho Real, onde Acácio e Orieta dão aulas de bem receber.

O albergue está muito bem cuidado, com banheiros arrumados e limpos, internet. O quintal tem uma boa área de descanso, uma piscina, que deve ser maravilhosa no verão e tanque, com espaço para secar a roupa.

Foi uma festa. Depois de alojadas, fomos conhecer o povoado. Igreja fechada, para variar. No hotel do César Acero, que também é o dono do albergue, encontrei um isqueiro em formato de vieira. Fui tentar acender e quase me queimo, não tenho mesmo familiaridade com isqueiros, mas isso divertiu bastante os espanhóis que estavam no bar. Sempre só os homens, mulheres em casa...

O jantar foi lá também. Muito gostoso, embora com aquelas grandes quantidades e diversidade de pratos para comer e ir logo deitar. Eu, que sigo a máxima "café como rei, almoço como príncipe e jantar como mendigo", me ressinto sempre deste costume espanhol de comer muito à noite.

A lua brilhando no céu sobre aquele descampado de terra plana, sem plantação, parecia uma paisagem de filme de ficção científica. A Via Láctea estava lá, mas sem aquele fulgor visto em Boadilla.

14 de outubro

Acordamos e começamos a ajudar Acácio e Orieta a arrumar o albergue.
Os peregrinos se foram todos e fizemos uma arrumação geral.
Orieta tem uma habilidade incrível em deixar as camas perfeitas.
Arrumei ainda um tempo pra mandar uma mensagem pra casa e pra lista.

Tomamos café no hotel do César, que já foi personagem no livro da Shirley Mc Laine e é muito simpático.
Colocamos mais algumas coisas em ordem e fomos com Acácio para Sahagun, tentar resolver o problema da minha máquina digital.

Foto do Relato

Com o pouco tempo que tínhamos, precisávamos dar alguns saltos para conseguir fazer tudo: andar um pouco nas mesetas, trecho menos cheio neste Ano Santo, rever os amigos do Caminho e caminhar também na parte mágica: o monte Irago e outros montes de Leon e Galícia.
Selma e Inês planejavam ainda, caminhar do Cebreiro a Santiago.
Eu não tinha tempo, do Cebreiro iria de ônibus para Santiago.

Queria ficar mais em Sahagun, ver a Virgem Peregrina, mas não deu.
Resolvemos, e a um custo bem barato, a gravação das fotos em cd e ainda copiei minha palestra sobre o Caminho para o Acácio.
Tocamos para Mansilla (foto), para ver Laura e Wolff.

Laura fez muita festa, é muito garota e eu adorei seu jeito despojado e franco. Colocou-nos num lugar muito bom, ajudamos um pouco com a arrumação, jogamos conversa fora tomando capuccino, o Wolff rindo das coisas que a Laura dizia como um pai orgulhoso. Jefa! dizia ele, e ia cuidar das suas flores, gerânios tratados a pão de ló, que correspondem crescendo viçosos, frondosos e gigantes.
Saímos para andar pela cidade. A igreja, pra variar, fechada.
A praça principal é bem tipicamente espanhola e me lembrou Cuzco, embora em dimensões muito menores.
As muralhas, ao lado do rio, não deixam ver as casas mais modernas e se tem a sensação que voltamos no tempo.

Não pensei que uma cidade de nome tão despretensioso pudesse ser tão interessante.
Inês resolveu tomar um orujo e eu acompanhei, o frio estava um pouco mais forte. Foi ótimo, aqueceu a alma. Mas acompanhei também na tortilla francesa, embora com medo da gastrenterite que tive no ano passado em Rabanal e que pode ter sido provocada pela tortilla que comi em Murias de Rechivaldo ou pela água de Rabanal; até hoje não tenho certeza de quem foi o vilão.
Não deu outra: conversando com a Laura, de repente, sinto náuseas e só deu tempo correr pro banheiro: vomitei tudo! Felizmente ficou só no andar superior, não se estendeu para a enterite da outra vez.
Fiquei logo a chá e chá.

À tarde, surpresa. Chega Graciliano.
O homem é um espanto! Havíamos feito 2 trechos de carro, que corresponderiam a 3 dias de caminhada e ele nos alcançava!

Logo depois chegaram Márcia Schiavon e Gustavo, que estavam fotografando o Caminho, os aspectos humanos do Caminho, para uma exposição itinerante pelo Brasil e Europa.
Como se não bastasse encontrar tanta gente boa e amiga, chegou o Alfredo, o grande hospitaleiro de Molinaseca, um dos famosos anjos do Caminho! Estava começando seu Caminho de Outono - Inverno.
A conversa rolou solta.

A noite, fiz companhia para o jantar a Selma, Inês e Graciliano, mas só tomei uma sopa rala.
Inês comeu um frango e á noite teve também vômitos. Ficamos as duas irmanadas nas indisposições estomacais.
Precisávamos melhorar para poder enfrentar os montes de León.

15 de outubro

Ajudamos Wolff a arrumar o pátio.
Tivemos que esperar por ele para lavar o saco de dormir da Inês. Não conseguíamos ligar a máquina. Enquanto esperávamos, conheci todo o albergue, que é bastante grande, com comunicação para duas ruas. Um novo albergue está sendo arrumado, creio que ao lado.

Laura chegou e fomos tomar mais um café com ela num bar em frente.
Iríamos até Leon, de ônibus, e de lá, até Astorga, onde voltaríamos a caminhar.
No caminho para a estação de ônibus, passamos em frente a Igreja de N. Sra. das Graças, padroeira de Mansilla, mas estava ...fechada!

Tivemos que ficar fazendo hora no bar da rodoviária, esperando o ônibus.
Conversamos com uma senhora que ia para um povoado próximo: pedimos orientação, mas ela nunca tinha ido a León! Contou-nos ter um filho único, que era jesuíta e trabalhava na Colombia, e ela só o via quando ele vinha de férias. Ele já não é muito jovem e exerce um cargo de direção na Companhia de Jesus. Deu-me uma tristeza, aquela saudade resignada do único filho.

Mais uma vez, chegando em León, o ônibus para Astorga já estava saindo. Foi só mudar de um para o outro.
Chegar tão fácil em Astorga foi até engraçado. Lembrei do ano passado, quando cheguei tão cansada, aos prantos, não conseguia dar nem um passo a mais. Não sei como consegui atravessar o jardim junto as muralhas e chegar ao albergue. O cansaço era tanto, que eu tremia e por duas vezes, deixei cair a bala que o hospitaleiro, gentil, me oferecia. O Caminho é de sofrimento, disse ele. Mas eu não via o Caminho como sofrimento. O Caminho é como a vida - é complexo, engloba tudo que é emoção, boa e má. Alegrias e tristezas. Mas muito mais alegrias. O cansaço logo se dissipa e só restam as alegrais...
Entramos no casco viejo por trás do Palácio de Gaudi.

Não consegui resistir e fiz, mais uma vez, várias fotos da fachada da catedral, uma belíssima obra de arte, maravilhosa, de qualquer ângulo que se veja.
Fomos ao albergue do Javier, para saudá-lo, dizer que seu pai estava bem - ele estava com Alfredo em Mansilla, e fomos procurar um lugar para comer.
Não encontrei o restaurante decorado com cantores e músicos famosos e entramos em um lugar mais simples, mas com um dono atencioso e comida bem razoável.

Foto do Relato

Saímos da cidade e não reconheci o Caminho até quase chegando a ermida Ecce Homo. Vai ver, no ano passado, passei "em transe". Uma igreja moderna, cheia de pinturas e inscrições, estava no Caminho. Fechada.
Paramos em um bar, para comprar chocolates e mantecadas, as madalenas de Astorga. Estava repleto de homens, só homens, que fizeram silencio quando entramos.
Fumavam, bebiam e sujavam todo o chão. Ele jogam tudo no chão! Ficam montes de lixo!

Rapidamente, chegamos a Murias de Rechivaldo (foto).

Acácio tinha nos falado do novo albergue e resolvemos ficar lá. Sandro, "baiano", é um dos sócios. Rapaz muito educado e atencioso, tem muita visão e fez um albergue confortável, bonito, acolhedor. Banheiros muito limpos, com muita madeira na decoração, um pátio de chão de cascalho, uma velha casa maragata convive com uma decoração contemporânea e confortável. Camas com lençóis e cobertores limpos e arrumados.

É um albergue privado, o preço é de 6 E. Café da manhã, 3 E e jantar que V. dá um donativo. Com este dinheiro eles fazem o próximo jantar. Havia cerca de 20 peregrinos, de umas 5 diferentes nacionalidades. Havia um peregrino de Finisterre, ele tem lá um bar.
Pela Internet vimos previsão de neve na Cruz de Ferro!

Mandei mensagens para a lista, antes do jantar, que foi uma salada muito gostosa e uma boa macarronada. Rabanal nos esperava no dia seguinte e dormimos sob bandeiras, entre elas as da Espanha e do Brasil.

16 de outubro

Depois de um bom café, e quando todos saíram, fomos com o Sandro ver o resto do albergue.

É bastante grande, tem 3 grandes salões com beliches de boa qualidade, colchões com travesseiros, lençóis e cobertores.

Os lençóis bem estendidos, como no tempo de internato... Diz o Sandro, que são arrumados por uma senhora da aldeia. Não consegui esticar a roupa de cama como a encontrei...

Foto do Relato

Tem uma lavanderia bem equipada, espaço para um bar - lanchonete, os banheiros, para homens e para mulheres, dos quais já falei, sala de jantar e internet e cozinha.
Do outro lado, em reforma, uma linda cozinha maragata, ainda uns quartos e um enorme quintal, onde pode funcionar até um campo de futebol.
No centro, como nas casas espanholas, um pátio aberto, todo calçado de pedras, com mesinhas para os peregrinos.
Tudo decorado com muita madeira e pedra.

Realmente um albergue que já é bom e que tem potencialidade para muito mais.

Começamos a caminhar e logo um vento forte começou a soprar. Ás vezes, dávamos um passo para frente e dois para trás. O capim, ou mato ralo, na lateral direita daquele trecho, pois na esquerda fica a estrada para carros, ficava completamente colado ao solo pela intensidade do vento.

Começou a chuviscar, às vezes um pouco mais forte. A temperatura estava agradável, o vento é que castigava mais.
Logo surgiu um lindo arco íris, com começo, meio e fim.
Pois geralmente só se vê o início e o meio dos arco-íris. Geralmente o final fica pelo céu.
Esse era completo: Consegui enquadrar Inês bem no meio dele e fiz uma boa foto. Pena que as máquinas nunca conseguem captar toda o coloridos dos arco íris.

Logo começamos a ver as pichações do que chamei "Intolerância no Caminho". Aqui, uma suástica ao lado de uma seta amarela ( o padre Valina iria tremer...), Castllla sin Leon ( ou vice versa) e outras mais. Comecei a documentá-las em fotografia.

Castrillo de los Polvazares ao lado, mais uma vez, deixei para conhecê-la em outra oportunidade. O Sandro nos falou que de lá sai um caminho celta, que vai até Compludo.

Um ônibus de turismo passou por nós, e logo em Santa Catalina de Somoza, encontramos o quadro já familiar. Um turista querendo fotografar uma aldeã e ela se recusando. Ainda não consegui uma explicação adequada. Será, que, como nossos índios, eles acham que terão sua alma roubada pela foto?
Ou simplesmente querem resguardar sua privacidade? Um aldeão me falou uma vez que ele não pode estar num lugar e em outro ao mesmo tempo, num jornal ou num álbum. Será isso?

No ano passado, na Galícia, um casal com roupas bem características, a senhora carregando a vaca e o homem só olhando, como sempre, Marcelo, filho da minha amiga, pegou a máquina, e antes que pudesse abrir a boca para pedir permissão, a mulher, furiosa, soltou-lhe alguns palavrões, que, pela proximidade do galego com o português, entendemos tudo.
Marcelo, que é tímido, ficou extremamente vermelho e pediu desculpas, mas a senhora ainda mandou...bom, deixa pra lá. Ainda vou descobrir este mistério.
Deixa eu afiar o meu galego.

Em Santa Catalina encontramos um novo casa rural, El Caminante, com um pátio de lindos gerânios - lembrei do Wolff, e um bom e limpo bar, onde tomamos café e acabamos com nossas mantecadas de Astorga. Muitas enormes abóboras decoravam o bar e o pátio.

Em El Ganso, Cowboy fechado, chuviscando, já íamos saindo quando uma senhora nos disse que o bar ao lado - nem sabia que tinha um! - estava aberto. Era a mãe da dona. Assim, ficamos na La Barraca, tiramos as botas, comemos alguma coisa, quando chegaram uns alemães. Comecei a conversar com eles e qual não é minha surpresa ao descobrir que eram da cidade onde morei na Alemanha, Wuerzburg. Foi uma festa. E eles ainda se chamavam Manfred e Gernot, como meus dois maiores amigos na Alemanha. Conversamos sobre aquela linda cidade, os vinhos, o palácio do bispo, as festas, o Main. Inês deu-lhes uma das suas famosas setinhas - marcadores de livros, em crochê e eles ficaram encantados. Achei que eles eram padres, mas não falaram nada e não perguntei. A senhora que tinha nos indicado o bar sentou numa mesa ao lado com seu marido, que começou a ler uma grande e colorido livro para ela. Uma cena encantadora, mas não consegui fazer uma boa foto.

Na saída de El Ganso, casas com os muros ou as fachadas, decoradas com vieiras.

Antes de Rabanal, foi feito um desvio pelo bosque e se caminha, em vez de ao lado da rodovia, por uma trilha larga sob as árvores.

O roble del peregrino estava lindo, como sempre, e apesar do dia nublado, fizemos algumas fotos. O acesso a ele está melhor e pude também melhor admirá-lo, já que no ano passado, foi impossível, pois já começava a ter sinais de desidratação que culminaram numa gastrenterite que me fez perder alguns quilos.

A igreja de São José estava aberta e pudemos ver lindas imagens de São José, algumas Marias e São Miguel Arcanjo.

O albergue Guacelmo só tinha 2 vagas e as irmãs não quiseram ficar. Assim fomos todas para o N.S. del Pillar, ao lado da rodovia.

Vi o banco, onde quase desmaiei no ano passado, tentamos comer cozido maragato, mas já estava fora de hora.

Na livraria do convento compramos livros e postais, enquanto esperávamos a hora das vésperas.

O canto gregoriano dos beneditinos encerrou nossa noite.

No albergue estavam Manfred e Gernot. Talvez eles não fossem padres.

17 de outubro

Foto do Relato

Pela manhã, um bom café preparado no albergue de Ntra. Sra. del Pillar, em Rabanal, e muitos jovens ciclistas. Os novos amigos alemães estavam lá. E os padres do mosteiro beneditino também. Então eles não eram padres mesmo,porque ocuparam mesas separadas e não se cumprimentaram. Eu ainda tinha algumas cruzes de ágata e dei para um dos frades do Mosteiro.

Um casal de ciclistas era formado por um espanhol e uma brasileira. Conversamos com eles.

Garoando levemente, começamos a subir para Foncebadón. Fomos pela trilha. No ano passado, estava em obras e fui pela carretera. A trilha estava com poças d´água, mas é sempre muito mais agradável que os acostamentos das rodovias. Como sempre, íamos cantando.

Inês desfilava o repertório de bossa nova de garota de Ipanema e eu ia atrás. Às vezes, eu cantava uns Luiz Gonzaga ou alguma coisa do folclore nordestino.

Ensinei pra ela e Selma, a "Burrinha do meu amo", inspirada numa característica da Selma, e elas se divertiram a valer. De vez em quando, passávamos a cantar a burrinha.

Já avistando Foncebadón, encontramos duas brasileiras. Inês começou a conversar com a que ia a frente e eu, com a de trás.

Eram de Manaus, e cantei pra elas O encontro das Águas, de Euclides da Cunha. De repente, a que ia a frente, falou que conhecia uma médica que deveria estar fazendo o Caminho Português. A Inês disse que tinha acabado de fazê-lo e quis saber quem era. Clinete, disse a moça.

Aí a Ines disse que eu estava ali atrás, conversando com a irmã dela. Foi muito engraçado.
Ela havia sido residente do hospital e trabalha atualmente com um meu amigo cirurgião plástico. Eu até mandei convidá-la para ir a umas reuniões da Associação. Mas, não sei porque, ela não foi.

Resultado: a irmã, que mora em São Paulo, pegou a credencial lá, elas estavam sem orientação, reservaram hotéis e estavam tentando fazer Rabanal a Ponferrada, com calçados justos e sem nenhuma prática de caminhada dura.

Fiquei preocupada, elas não conseguiriam chegar a Ponferrada! Depois soube que não conseguiram mesmo. Destruíram os pés, pegaram um táxi para não perder a reserva do hotel e não conseguiram chegar a Santiago caminhando... Ainda tentei que elas parassem um pouco em Foncebadón, falei da aldeia fantasma que estava revivendo, mas elas não tinham tempo para ver... Foi uma pena.

Foncebadón está com 2 albergues. A Taberna de Gaia reconstruída. Um hostal, muito bom, com um belo mural representando as grandes figuras da história espanhola, e cheio de caçadores. Caçadores de javalis, uns 50! Pensei: espero não cruzarmos com nenhum deles pelas trilhas.

O albergue da igreja é simples e pequeno. A capelinha estava aberta, com um ar moderno que não combina com Foncebadón. Cães demônios e meigas e ciganos parecem ter sido expulsos de vez da aldeia outrora fantasma...

Continuei encontrando sinais de discórdia e intolerância no Caminho: Leon sin Castilla, Castilla sin Leon, suásticas ao lado de setas amarelas... ah a espécie humana tão admirável e tão intolerante!

O ar estava agradável, e só com uma pequena garoa, chegamos enfim a Cruz de Ferro. Que diferença do ano passado. Eu me sentia bem, ao contrário da outra vez, quando achava que ia desfalecer a qualquer momento, com a gastroenterite e desidratação que me faziam exausta. O céu tinha um tom de chumbo, completamente diferente daquele céu azul do ano passado.

Os preparativos para o Ano Santo fizeram com que fossem construídos cercas de madeira, locais para piquenique, com mesas e bancos.

A capelinha continuava desarrumada, cheia de galhos e fitas. Coloquei a de São Francisco, de Canindé, arrumei meu cajado ao lado e tirei uma foto.

Depositadas nossas pedras, cantei a canção de São Francisco, que sempre me deixa muito nostálgica, mas logo passou.

Vamos a Manjarin!

As trilhas estão limpas e amplas, e logo chegamos. Já eram mais de 11 horas, a cerimônia já tinha acabado e Tomás havia ido a Ponferrada. Mas o chocolate continuava aquecendo os peregrinos. Compramos cartões, um pretexto pra deixar algum dinheiro por lá, contemplamos a espada templária, tomamos o chocolate, um dedo de prosa com um amigo galego do Tomás e lá fomos nós.

A trilha está cercada com cerca elétrica dos dois lados. A paisagem do monte Irago era linda, com o sol brilhando nas gotas de chuva. E os tons verdes, laranjas e marrons do outono a compor telas inspiradas.

De repente, o silencio da mata é quebrado por motores potentes. São vários rapazes, de moto, numa estrada ao lado, fazendo enduro. De repente, voam com aquelas motos barulhentas. Que contraste com o silencio da natureza. Pouco antes eu estava tentando atrair pássaros, com meu apito de chamar nambu. Será que os pássaros espanhóis conheceriam o piar nordestino?

As cidades e aldeias entrevistas ao longe, o vale de Compludo, torres como de usinas atômicas surgem e desaparecem a distancia. De repente, os telhados de El Acebo. Começamos aquela difícil descida. Caí, felizmente sentada, naquela ladeira de cabras. Ao chegarmos ao sopé, na fonte, um homem pequeno, com um lindo cão nos esperava e ajudou-nos a descer. Ele nos perguntou: Por que não vieram pela trilha nova?

Para o Ano santo, fizeram uma nova trilha, de que não vimos as indicações, pegando a antiga e perigosa trilha...

Ele nos ofereceu sua casa. Tem um pequeno hostal, com 2 quartos. Ainda era cedo, mas resolvemos ficar.

Cumpridos os rituais de banho e lavagem de roupas, lutando com a água que teimava em não esquentar, fomos caminhar pelas duas ruas de El Acebo.

O hostal na calle Mayor era um horror de fumaça de cigarro. Carimbamos as credenciais e ficamos contentes de ter decidido ficar na Trucha del Arco Íris. Voltada para o vale de Compludo, a casa é muito acolhedora, cheia de velas, flores colhidas recentemente, marcela, alfazema, camomila... Uma lareira aconchegante, ao lado da qual tomamos chá e uns pães com geléia de maçã e tomate seco, tudo feito pelo Jaime. A cadela, Linda ficou ao nosso pé.

O quarto, de três camas, uma de casal, era limpo e com lençóis cheirosos. Mais tarde, chegou um casal da Catalunya, que ocupou o outro quarto. Jaime fez o jantar, que foi a luz de velas, com um bom vinho del Bierzo, a região onde estávamos penetrando. Uma sopa de lentilhas e uma macarronada - Jaime é vegetariano e na sua casa não entra carne - divinas, encerrou nosso dia, com as conversas sobre o Brasil - ele já morou aqui - e sobre a Espanha.

Também sobre Santiago. Ele é meio cético, mas, de alguma forma, vive do Caminho, como 99% das pessoas das aldeias ao longo da via das estrelas.

19 de outubro

Foto do Relato

Acordamos devagar, querendo prolongar os últimos momentos juntas no Caminho. A chuva torrencial havia se transformado num chuvisco frio.
Os peregrinos iam pela carretera, evitando a trilha enlameada e escorregadia pela chuva que varou a noite. Voltamos ao hostal ao lado da igreja.
Durante o café, Inês ainda me fez uma proposta de ir com elas até Triacastela. Fiquei bem tentada, veria o padre Augusto, ficaríamos mais um dia juntas.

Mas eu tinha pouco tempo e muito a fazer em Santiago além de que, iria tentar ir a Finisterre.

De Pedrafita, tinha ônibus para Santiago, de Triacastela, não. Elas prosseguiriam a pé até Santiago. Eu perderia uns dois dias. Resolvi ir mesmo para Pedrafita do Cebreiro.
Chamamos um táxi, Inês e Selma iriam comigo até Pedrafita e depois iriam a Triacastela. Levavam ainda a mochila de uma peregrina belga.
É, a Inês encontrou uma belga...

O sol começou a aparecer, fazendo arco-íris nas folhas orvalhadas.
Poucos minutos e estávamos em Pedrafita.
Fiquei num bar. O ônibus deveria passar em uma hora.
Que nada! Não seria mais às 10 e sim às 14 h.
Que fazer numa cidade de duas ruas?
Pedi ao homem do bar para guardar minha mochila e lá fui conhecer Pedrafita, casa por casa.

Entrei em todas as lojas e vi todas as coisas. Comprei algumas.
Fui no correio, mandei postais, peguei um carimbo... e ainda eram 11 h.
Encontrei um senhor de idade, andando com dificuldade e puxei conversa.
Ele morava em cima da fábrica de queijos. Fui até lá.
Sua esposa, dona Matutina cortava couves.
É para um caldo galego? Ante a afirmativa dela, combinei vir comer à uma hora da tarde.
E tomei um vino xoven, vino Laxeiro, com queixo do Cebreiro, pelo qual ela me cobrou uma ninharia. E deixou a garrafa sobre a mesa.

Eu só tomo uma taça, e lembrei que falta a Inês estava fazendo.
Fui à igreja. Fechada, pra variar. Um cãozinho me seguiu pelas ruas, pelas duas ruas.
Voltei ao bar, mas o ar estava irrespirável, de tanto cigarro.
O chão já estava repleto de papéis, restos de cigarros... Não tem jeito, eles jogam tudo no chão.
Voltei pra rua. Meu cãozinho tinha me abandonado.

Às 13, D. Matutina me esperava, com seu caldo galego, um pão feito em casa, e vinho.
Comi como um padre. 3 e 50 euros!
Comprei mais queijo do Cebreiro, para trazer para o Gordo - são os presentes que ele mais ama: comida!

Esperei o ônibus. Vinha de Madri e só passou às 15 h. Vamos lá.
Por estradas muito bonitas, com pontes imensas e modernas, uma obra prima de engenharia, lá fomos nós: Lugo e suas muralhas, depois, Betanzos! Estávamos indo para o norte da Galícia.
Não esperava aquele passeio turístico, foi bom!

Cheguei às 19:30 em Santiago. No hostal, minhas malas do congresso de Viena me esperavam.
Tentei falar com Riera, não consegui. Mas falei com a mãe de José Manuel, o professor de galego, numa mistura de espanhol, galego e português. Ela não fala bem espanhol e eu não falo bem galego...Combinamos visitar algumas igrejas no dia seguinte.

Ainda fui a Porta Santa, vazia na hora de fechar.

20 de outubro

Foto do Relato

As seis horas eu já estava de pé. No dia anterior, havia perguntado ao guarda que trabalhava na catedral a que horas abria a Porta Santa. Às seis.
Uma pequena garoa e um pouco de frio na rua. Um café na Praza de Toural, Galeón Toural, com aquele chocolate cremoso que só os espanhóis tem, e O Correo Galego para dar uma folheada. Maciel, nosso Perna Elétrica havia chegado dia 18. Estava lá na primeira página.

Ninguém na Praza das Praterias e nem na Quintana.

Entrei pela Porta Santa, uma missa estava sendo celebrada na capela à direita. Subi até o Santo. Ninguém. Abracei-o, mais uma vez, todo bonito com seu manto novo, a prata a reluzir. Conversei com ele longo tempo. Fotografei os ornamentos dourados, vi lá de cima a igreja em semi-obscuridade, um padre indo e voltando, do seu confessionário até a porta que dá na Obradoiro.
Desci a cripta. Um padre celebrava em italiano, só com um homem a servir de coroinha.
Assisti a missa até o final. Na hora da comunhão, o padre abriu o portão de ferro, que estava entreaberto. Ficamos os três com a urna que abriga os restos do Santo.

A igreja continuava silenciosa e resolvi ir até o Pórtico da Glória, colocar, de novo, a mão na coluna da árvore genealógica de Jesus. O padre continuava lá, andando de um lado para outro. Era relativamente jovem e no confessionário estava escrito: Español, galego e português.
Resolvi dar um pouco de trabalho para o sacerdote ansioso para exercer seu ofício. Foi uma confissão serena, na tranqüilidade daquela igreja imensa e vazia. Um confessionário ao lado tinha talhado na parte da frente: Penitenciária!

Rezei mais um pouco, eram 8 e meia e começaram a chegar os turistas. Hora de ir embora.

As 9, José Manoel me encontrou no elegante café ao lado do hostal, na Porta de Mámoa, esquina com a Praza da Galícia. Passamos pela catedral e da Praza da Imaculada fomos ao Seminário Maior. José Manoel foi seminarista, iria ser um “cura de aldeia”, um crego, como eles dizem em galego. Fomos conversar com um seu professor, padre muito simpático, que trabalha numa sala rodeado de livros. Aproveitei para fazer minha queixa das igrejas fechadas, mas como a jurisdição deles é na Galícia e aqui, as igrejas estão quase sempre abertas, não adiantou muito. Creio que devo escrever para os bispos de Pamplona, Burgos, Leon... Conversamos sobre muitas coisas, o Caminho, livros.
O prédio é lindo, o claustro belíssimo, mas não pode ser visitado sem permissão. Só entramos porque José Manoel disse o nome do padre, que eu não guardei.

A primeira igreja que visitamos foi San Martin Pinário. É uma igreja museu, imensa, que fica por trás do Seminário Maior. Beneditina, um imenso órgão e imagens preciosas. A gente se sente muito pequena dentro daquela grandiosidade. Ao lado, um museu com um acervo rico e bem apresentado. Andamos pelo centro de Santiago, passamos pela casa onde Rosalía de Castro morou e fomos a San Paio ante Altares. A igreja, aliás, um complexo igreja, convento, hoje de monjas beneditinas, remonta ao século IX. Ao lado o museu de arte sacra. Um menino Jesus barroco está vestido como um peregrino: cajado, manto com vieiras bordadas... Uma santo menino mártir, de quem nunca ouvi falar, San Silviano, do século III, jaz ricamente vestido sobre uma manta púrpura.
No altar a esquerda, na igreja, a aparição de N. Senhora a San Paio ou San Pelayo, onde Maria aparece amamentando o divino Filho.
É uma igreja preciosa que merece bastante tempo de visitação.

Fomos a universidade, passando pela estátua de Alfonso II, o que fez a primeira capela para Santiago e que eu nunca havia visto.
Uma igreja ao lado, San Fiz de Solovio e entramos para vê-la também. Creio que é uma igreja jesuíta. Na rua da Raiña, comemos uma comida típicamente galega, com viño: Chipirones, Zorza e Orejas. Sim, orelhas de porco. Aliás, o restaurante se chama Orejas.
E é bom. Não havia mais lugar para os pimientos de Padrón... Fica para outra vez.
Pegamos o carro e fomos ver a Colegiata de Santa Maria del Sar. Já chovia muito e estava fechada. Hora da siesta.
Para ir lá, se atravessa uma ponte romana sobre o rio Sar, que não é muito grande, diferente de quando atravessa Padrón.
Resolvemos então ir ao Seminário Menor, onde José Manoel estudou e morou por vários anos.
Lá fica o Albergue de Peregrinos de Santiago.

Foto do Relato

As portas, imensas, tem grandes cruzes de Santiago. Um pátio, a transpirar tranqüilidade se debruça sobre uma muralha, deixando ver a cidade a distancia. As torres da catedral são vistas de vários ângulos.
Uma pequena capela tem um Cristo muito antigo, ainda com os pés lado a lado, mas não havia indicação de quando foi esculpido. A capela maior, tem um lindo vitral de Santiago e uma Madona em madeira, lembrando as virgens de Riemanschneider.

A chuva continuava, de pingos grossos e fortes. Uma ventania destruía tudo quanto era guarda chuva.

Como no dia em que cheguei a Santiago, centenas de guarda chuvas destruídos jaziam pelas ruas. No dia seguinte, O Correo Galego noticiou ventos de 180 km/h! E a foto da capa era um amontoado de guarda chuvas destroçados.

Fomos ao Museu do Pobo Galego, no Mosteiro de San Domingos de Bonaval, onde a cultura galega é muito bem mostrada, com as embarcações, os hórreos, as rendas e ao Museu de Arte Moderna, Centro Galego de Arte Contemporânea, ao lado.
A siesta havia acabado e dali, fomos para a Follas Novas, no outro lado da parte nova da cidade. Um terço do andar de baixo é de livros sobre o Caminho. Comprei algumas coisas, me contendo ao pensar no peso para despachar para o Brasil.
Ainda voltamos a Praza da Imaculada para ver uma livraria no térreo de Seminário Maior.

Eu queria comprar um livro de dois autores, um deles, monge, José Antonio Torres Prieto ( que eu havia ganho da Inês e que considero um dos melhores livros sobre o Caminho: Caminho de Santiago – Viagem ao interior de si mesmo), que não havia encontrado na Follas Novas. Queria dá-lo ao José Manoel. Felizmente, o achei e os preços desta livraria eram melhores que os da Follas Novas. Assim, ainda comprei mais alguns livros.
José Manuel foi para casa, ele mora em A Estrada, cidade a uns 20 km de Santiago, cansado e molhado.
Eu voltei para o hostal e tive a surpresa de encontrar Inês e Selma. De Triacastela, elas tinham ido para Sarria e tomado um ônibus para Santiago. Não havia parado de chover e elas desistiram de caminhar na lama.
Já tinham feito o Caminho Português, tinham uma Compostela de Ano Santo, pra que mais?
Conversamos um tempão e combinamos sair juntas no dia seguinte. Fiquei de acordá-las cedo para irmos a Catedral com tranqüilidade, sem turistas.

21 de outubro

Precisava pegar o pacote que despachei em Carrión de los Condes e comprar uma grande caixa para despachar os livros.
Nos Correios havia uma exposição de fotos sobre o Caminho. Muito bonitas. Passei também no Correio Galego, a procura do Mario Clavell para saber do meu prêmio de fotografia. Eu havia tirado o segundo lugar no concurso do Correo Galego e o Mario era o responsável pelo contato com os ganhadores. Havia recebido um e-mail dele e queria encontrá-lo. Na sede do Correo havia outra exposição, dos fotógrafos do jornal, sobre o Caminho, com lindas fotos. Aproveitei para encomendar um exemplar do dia 8, onde havia saído uma reportagem sobre as fotos vencedoras, que encontrei me esperando no hotel, junto com um simpático bilhete de Selma e Inês, e do dia 19 sobre a chegada triunfal do nosso Maciel, o Perna Elétrica, peregrino de pernas amputadas, usando próteses.
Arrumei todos os livros, panfletos, cds, do congresso de Viena e de Santiago e despachei. 11 kg, mais de 50 euros. Por navio!

Encontrei Inês e Selma e fomos flanar pela cidade: Praza de Abastos, a procurar uma vieira dourada, como a que o Sergio Mariano comprou. Encontramos numa cutelaria perto da Igreja de San Fiz de Solovio, que eu havia visitado no dia anterior. Ficamos vendo as pessoas vendendo os produtos da terra, típicos agricultores da Galicia. Inês quis me mostrar a igreja de San Bieito. E valeu a pena. A igreja, beneditina, - San Bieito é o nosso São Bento - tem um alto relevo da Adoração dos Reis Magos que é deslumbrante, uma linda Sagrada Família e a santa protetora dos dentistas, com um enorme alicate nas mãos. Acho que é Santa Apolônia. Pela Porta do Caminho, fomos caminhando até o Centro Comercial Área Central, que nos havia sido indicado pela Laura, hospitaleira de Mansilla de las Mulas.

Quase chegando a Porta, encontramos Maciel. Que alegria! Abraços, tiramos fotos, contamos experiências. Ele iria embora no dia seguinte. Tentamos marcar alguma coisa, mas sabendo que o tempo não iria dar. Já nos despedindo, vemos três peregrinos, com uma grande bandeira brasileira a tremular. Era um carioca, com dois amigos, também brasileiros, que encontrou no Caminho. Estavam chegando naquele exato instante. Choro, abraços, quanta emoção... Estavam estropiados. Botas remendadas com fita adesiva, o cansaço visível, mas também o brilho peregrino do olhar. Mais fotos, mais abraços e eles foram em direção a Catedral. Área Central é um shopping sem muita atração. Andamos por ali por algum tempo, descobrimos um supermercado, para comprar almendras molidas para uma torta de Santiago, frutos secos, chocolate Paladin.
A fome apertou e resolvemos almoçar por lá mesmo, na praça de alimentação. Selma e Inês resolveram voltar para o hotel e fiquei vendo mais igrejas.

Fui ao convento de São Francisco, onde, na igreja há um conjunto escultórico lindíssimo da morte de São José e na capela ao lado, dos irmãos franciscanos, há um grande São Francisco peregrino, com cajado e cabaça. Na igreja, todos os altares tem uma descrição das imagens com informação da época em que foram feitas.

Na Praça do Obradoiro, observei com mais atenção a portada do Colégio de San Xerome, atual sede da reitoria da Universidade Compostelana. Um conjunto escultórico rodeia Maria e nele estão São Pedro, São Paulo, São Francisco com um cajado encimado por um tau e Santiago peregrino, e outros que não identifiquei. Muito lindo! Entrei num bar, por trás da praça da Quintana, tomei um café e perguntei a garçonete onde poderia fazer um xérox colorido. Era um material que eu queria deixar com o jornalista do Correio Galego. Um senhor, magro, se ofereceu para me levar ao local. Eu agradeci, pedi só para me dar o endereço que eu acharia, ma ele insistiu em me levar. Alguma coisa no olhar dele não me agradou e fiquei pensando em como não ir com ele, sem ofendê-lo, se estivesse mesmo só querendo ser gentil.

Passando em frente ao Correo Galego, disse a ele que precisava entrar, tinha um amigo que me encontraria lá e poderia já ter chegado. Entrei e pedi que me esperasse um pouco. Ele imediatamente foi embora. Não sei se é paranóia de quem vive em cidade grande, mas... acho que me livrei de "uma boa". Encontrei com Selma e Inês e voltamos a catedral, agora com bastante gente, mas sem muita fila na Porta Santa.

Hora de arrumar as malas, ainda consegui falar, finalmente, com o Mario e marcamos um encontro para o dia seguinte no Café Casino. O Riera estava inalcançável, uma pena.
Combinei com José Manuel sairmos no dia seguinte pelos arredores de Santiago. No cibercafé da Rua Nova, copiei fotos e fiquei atualizando as listas na Internet por longo tempo.


22 de outubro

De manhã bem cedo, novamente a Catedral.
Desta vez, havia um pouco mais de gente.
Na missa da cripta, umas quatro pessoas, além das que estavam ao lado da urna de prata de Santiago.
A missa, era, novamente, em português.
Os turistas, embora poucos, flanavam pela igreja.
Uma senhora brasileira, do lado de fora, chamava insistentemente a filha, que estava com o marido assistindo a missa.
O padre, ao sair, teve a preocupação de fechar a porta. E logo veio um guarda conferir se tudo estava bem.

Às nove horas, desci para encontrar José Manuel. Ele estava chegando na Praza de Galicia e disse que iria me mostrar um lugar jacobeu.
Perto do hospital da Universidade, uma árvore tinha sido arrancada e jogada do outro lado da rua, ferindo uma mulher, felizmente sem gravidade. A ventania de dois dias atrás tinha sido um vendaval.
Saindo da cidade, logo chegamos ao Picosacro.

Lá existe uma capela muito antiga, um marco, bem no alto e uma “rua”, uma passagem entre duas pedras, que é chamada rua da Rainha Lupa.
Foi aqui, que, reza a tradição, Teodoro e Atanásio, os discípulos de Santiago que recolheram seus restos mortais e transportaram para a Galícia, foram pegar os touros bravos que a rainha Lupa lhes dera. Os touros ficaram dóceis e a rainha então se converteu e lhes deu o Monte Libredón para que enterrassem lá o Apóstolo. Lá de cima, se vê Santiago de Compostela, o antigo monte Libredón.
Existem duas grandes entradas de cavernas no alto do monte. Dizem que as galerias ligam o Picosacro à catedral de Santiago e serviam para a fuga de religiosos quando da guerra com os mouros, ou das invasões de piratas. Mas elas nunca foram exploradas.
O lugar é muito bonito e de lá se tem uma visão muito boa de todas as vilas e fazendas ao redor. Infelizmente a capela estava fechada. Ela está com reboco e pintada de branco, mas em um local se vê que é feita de pedra.

Foto do Relato

Fomos em direção a A Estrada, terra do José Manuel. Muitas pequenas fazendas, uma minúscula capelinha de Santiago, cruzeiros.
Chegamos ao Pazo de Santa Cruz de Rivadavia. É uma propriedade muito bonita, de um político famoso, mas aberta a visitação. Não podemos visitar a casa, pois não estava aberta, mas andamos um pouco pelos jardins.
Uma linda fonte, toda em pedra, encimada pelas armas da família, uma capela, a casa e árvores maravilhosas ao redor.

Um conjunto de oliveiras, plantadas lado a lado, formam uma galeria vegetal. As árvores são antiqüíssimas e me lembraram as plantations do sul dos Estados Unidos.
Claro que as de lá é que se inspiraram nas que estava vendo agora, mas vi as plantações primeiro...
Uma construção de colunas de pedras, com algumas lavradas com motivos diversos, sustentava velhas parreiras nodosas.
Algumas castanheiras com troncos seculares.
Na entrada da propriedade, um velhíssimo cruzeiro.

Foto do Relato

O próximo Pazo foi o Pazo de Oca, considerado uma das belezas maiores da Galícia.
Realmente, é muito lindo. Fica em A Estrada, e é uma construção tão imponente e importante, que a estrada nova que foi construída ao lado, teve que ser feito o trecho próximo, dentro de um túnel, para não estragar o conjunto nem danificar a edificação. É um imponente conjunto de palácio, igreja, praça e jardins.
A Igreja, consagrada a Santa Bárbara, só pode ser vista do lado de fora. Ela tem algumas rachaduras, talvez por isso não possa ser visitada por dentro.

A propriedade é habitada, mas se pode visitar os jardins, que são imensos. Plantações de frutas, vi maçãs, uvas e kiwis - pela primeira vez, vi um pé de kiwi – são comercializadas, e se iniciam depois dos jardins.
Estes são muito lindos e bem cuidados. Uma cruz de Santiago, toda em hera, fica na parte atrás da igreja, antes de um grande lago.
Um lavadoiro – onde as mulheres lavavam a roupa, de pedra, ocupa um grande espaço.
Grandes vasos de porcelana branca com desenhos azuis – portugueses? – de pássaros, índios, fidalgos, estão espalhados na parte mais perto da casa.
Outro lago, ou riacho, corta o jardim e tem no seu centro dois grandes barcos de pedra. Um tem na sua proa uma figura feminina com uma cabeça de loba, segurando o escudo da família, e no outro, um homem.
O escudo familiar, presente nos muros, em vários lugares, é muito bonito, encimado por uma bela coroa que se destaca, projetada para a frente. Muitos bancos de pedra espalhados pelo jardim, onde as pessoas da cidade costumam vir passear nos fins de semana.

Ao lado da casa, uma bela fonte no meio de uma praça, outra fonte na entrada dos jardins que ficam atrás da casa, com outra fonte de pedra enfeitada com vieiras.
Um lindíssimo jardim em estilo francês, com as plantas formando um grande labirinto, inacreditável de tão simétrico e tão grande.
O telhado da casa, todo sustentado com gárgulas.
Um grande hórreo parece uma escultura num dos lados da casa. Dizem que na Galicia se aquilata o poder da família pelo tamanho do hórreo... No pátio da entrada, um carro de bois e l
uminárias lindíssimas, forradas de espelhos, talvez para aumentar a luminosidade.
Ao abrir a pesada porta, vi que a fechadura tinha uma viera esculpida.

A Estrada é uma cidade moderna. Como só passei de carro, não vi muito os detalhes. Fomos visitar a fábrica de pães do pai do José Manuel. Sim, porque aquilo não é uma padaria.
O pai estava a trabalhar e havia feito um maravilhoso pão galego para eu trazer para o Brasil. Delicioso e cheirosíssimo! Ainda me deu madalenas e outro pão, de nozes.
Numa sala de reunião, uma viera de verdade e tão grande como um prato estava em cima da mesa. Não tive coragem de pedir pra mim, mas bem que tive vontade. Servia de cinzeiro.
Na parte de trás da fábrica, A Fogaza, as caminhonetes de transporte de pão. A ponte antiga, românica, fica ao lado de uma ponte moderna, na estrada nova. Uma grande cheia, quase carrega a ponte nova. A velha ficou impávida.
No meio da ponte velha, um marco – a divisa entre A Coruña e A Estrada.

Almoçamos num velho e elegante restaurante, ao lado da estrada, não lhe guardei o nome; uma maravilhosa tortilla, a melhor que comi em toda Espanha. Diz José Manuel que vem gente de longe comer esta tortilla. !Vale!
Corremos pra Santiago, José Manuel tinha aulas a dar.

Finalmente consegui falar com Riera. Combinei deixar suas coisas com o Manolo, o do restaurante.
E fui encontrar com Mario Clavell, no elegante Café Casino, na rua do Vilar. Foi uma conversa muito interessante, sobre o Caminho, como ele é visto no Brasil, como eu o via e sentia.
Mario ficou impressionado com a quantidade de livros que existe sobre o Caminho, escrito por brasileiros. Ele conhecia Ana Sharp, Paulo Coelho e Sergio Reis.
Perguntou-me quem havia sido o primeiro brasileiro a fazer o Caminho. Eu não sabia. Mas falei do trabalho importante de divulgação que fazem as associações e os peregrinos no Brasil.
Fiquei de lhe mandar minha lista de literatura brasileira sobre o Caminho e um cd com minha palestra.
Ele ainda quis saber detalhes da foto, me deu o dinheiro do prêmio – deu pra pagar o hotel! – e me disse que publicaria nossa conversa na Libredón, a revista da Associação de Amigos do Caminho de Santiago na Galicia. E já o fez, segundo informações do Riera. Estou esperando receber a revista. Voltando ao hotel, ainda conversei com Selma e Inês.

23 de outubro

Hoje, nada de catedral de manhã cedinho.
Iremos para a missa do Peregrino, ao meio dia.

Malas arrumadas, prontas para a partida, fui visitar Inês e Selma no seu quarto. Resolvemos sair para ver ainda a igreja de San Paio antealtares.

Foto do Relato

Eu queria que elas vissem a Nossa Senhora grávida e a amamentando. Infelizmente havia começado uma obra e a Maria grávida estava atrás de um andaime. Mas a aparição de Maria a São Paio, ou San Pelayo estava sem entraves e podemos admirá-la a vontade.
Resolvemos ir cedo para a catedral. Sentamos na nave do botafumeiro, na base da gigantesca pilastra, do lado de Zebedeo, a imagem do pai de São Tiago. Mesmo cedo, 10 horas, já estava cheia.

E chega gente e mais gente.

Instalaram cordões de isolamento, e as pessoas fervilhavam, nas escadas, até as portas, tudo repleto de gente. Os brasileiros que encontramos na Porta do Caminho ainda conseguiram um lugar, marcado pela bandeira do Brasil. Eles estavam emocionadíssimos, de olhos vermelhos, lágrimas correndo pelo rosto. Às 11, começou uma cerimônia, que nunca havia visto igual. A cerimônia da Penitência. Vários padres ocuparam os bancos ao redor do altar e pessoas foram chamadas para a confissão.
Formaram-se filas dos três lados do recinto do altar e as pessoas entravam, sentavam e se confessavam, frente àquela assistência toda. A igreja repleta. E silenciosa. Achei estranhíssima aquela cerimônia. Confissão merece recolhimento, acho. Como tê-lo, sendo alvo de todos os olhares? Não sei como as pessoas conseguiam. Poucos minutos antes do meio dia, foram encerradas as confissões, os padres se recolheram, os sinos tocaram.

Entraram em cortejo 54 padres – um dos brasileiros contou – o arcebispo de Santiago, d. Julián, acólitos, e ocuparam todo o recinto delimitado do altar. Jovens uniformizadas organizavam os fiéis nas laterais repletas. Até com alguma energia. A missa, foi como sempre, emocionante. D. Julián fez preces em galego, espanhol, português, francês, italiano, inglês e alemão! A freirinha de voz de anjo deveria estar de férias e os cantos foram feitos por um padre de bela voz. Mas a freirinha fez muita falta. Ela é tão angelical, que no ano passado o Marcelo, filho da minha amiga Ângela, foi falar com ela e levar o retrato dos filhos para ela benzer. Quando ela disse que só um padre poderia fazê-lo, o Marcelo contestou: Mas a senhora parece um anjo!

Os turibuleiros deram, como sempre, um show com a exibição do botafumeiro. Neste Ano Santo, eles, talvez por usarem o incensário todos os dias, não utilizam aquele grande. É um bem menor, que deve ser muito menos pesado. Terminada a missa, Inês chorando, pra variar, fomos almoçar no Manolo. Ainda não tínhamos ido lá. Eu estava querendo comer uma comida mais galega, o que fiz nestes dias em Santiago. Estava repleto. Filas, gente impaciente e o Manolo, tranquilão. Deixei com ele as coisas para o Riera, e finalmente almoçamos, aquela infinidade de pratos da cozinha espanhola. No final, ele nos ofereceu um digestivo e disse que pretende vir ao Brasil.

Na saída, numa esquina, encontramos com o Renato. Havia voltado de Finisterre e estava indo para Portugal. E a Inês havia acabado de falar dele, sem saber se já havia voltado para o Brasil. Dobramos a esquina e o encontramos! Do hotel, Inês e Selma me ajudaram com a bagagem nada peregrina, até alcançar o taxi. No aeroporto ainda consegui comprar um livro de lendas galegas e mergulhei no imaginário ibérico. Adeus, Santiago, até a próxima!

Clinete

R E L A T O S