Paris-Tours - Santiago de Compostela

- Maria Francinette Pereira da Cunha

Relato

Saí de Paris dia 23 de abril de 2007 e cheguei a Santiago de Compostela dia 28 de junho. Foram 1620km a pé e 120km de trem. Na França segui o guia "Chemin de Paris et de Tours vers Saint-Jacques-de-Compostelle" de Jean-Yves Grégoire e Jacqueline Véron, RANDO édition, que me levou de Paris a Bayonne, onde a associação local me forneceu um pequeno guia para chegar em Irun, cidade espanhola na fronteira com a França. Na Espanha segui o guia ";El Camino de Santiago del Norte", EL PAIS AGUILAR, que me levou de Irun a Santiago de Compostela.

Primeira parte : Paris - Tours
Nesta primeira parte caminhei 288km em 11 dias e descansei um dia em Orléans.

23/abril, segunda-feira Paris – Palaiseau – Linas 33,5km

Foi um dia muito longo, saí do Albergue da Juventude na République às 9h da manhã e cheguei ao chambre d’hôte (CH) de Linas às 9h da noite. Pensava comprar o guia para o caminho em Paris e, no fim de semana, não consegui. Então comprei um mapa para os primeiros dias e um guia da Federação Francesa dos Randonnées pedestres (FFRP) para a parte até Tour. Não me sentia segura e quis passar na associação que dá apoio aos peregrinos que deixam Paris para obter mais informações. Às 10h, horário de abertura, estava na Associação2000, no Marais, e lá achei o guia para toda a parte francesa - ALÍVIO! Contava fazer as etapas pelos subúrbios de Paris pela RER, eles me desaconselharam,dizendo que esta parte do caminho era bonita, e que sair da Tour de St-Jacques era especial. Logo achei que tinham razão. Saí da base da Tour, passei pela porta da Catedral de Notre Dame e subi pela rue St-Jacques, o caminho medieval , passando logo pelo hospital dos peregrinos. Saída pela Porta de Orléans e lindo caminho por parques do cinturão verde de Paris até Palaiseau, onde previa ficar. Então descobri que o hotel c/ 84 quartos estava lotado. A recepcionista tentou um hotel próximo, também lotado, e telefonou para o CH de Linas que estava no meu guia - uma vaga - mais13km e já eram 18h. Fui apressada, tentando outros pousos pelo caminho, um lotado e outro custava mais de100euros.

Andei boa parte na ciclovia da N20 ( estrada nacional movimentadíssima), pois antes estive meio perdida. Depois de 20h cheguei a Linas. Passei na pizzaria da cidade e os entregadores de pizza me ensinaram o caminho. Quando estava a uns 300m da minha meta, levei um tombo de cara no chão, foi barra! Cheguei no CH atrasada e péssima. O dono foi muito gentil, mas madame não gostou do meu atraso. Comi uma barra de chocolate, bebi água e tomei um belo banho. Nariz, joelhos, mãos e cotovelos tinham sangue. Não tinha dor nas costas nem nas pernas.

Despesa em euros : pouso – 35, comida – 3

24/abril, terça-feira Linas – Arpajon - Etampes 30km

Saí após um ótimo pd ( petit-déjeuner) e tudo foi fácil até Arpajon, uma cidade c/ hotel e CH. Depois, não havia indicação dos lugares e mesmo por pequenas estradas estava difícil de seguir. Nenhuma balisage , contava apenas com a boa vontade de pessoas, que eram difícil de encontrar . No caminho larguei o guia da FFRP, que não servia de nada e fazia peso,redistribui a mochila, mas as costas não estavam bem,às vezes eu ficava tortinha. Consegui chegar à parte industrial de Etampes e tomei um ônibus para o centro. Havia feito uma reserva, mas achei que ficava no Ofício de Turismo, que estava fechado, fiquei indignada! Tentei outro hotel e era ruim demais, a essas alturas esqueci das costas. Finalmente, descobri que a minha reserva era para um hotel na saída da cidade, já na estrada. Quarto bem arranjado para viagem de trabalho, comida cara. Comi no McDonald ao lado, já tinha que fazer o pd no hotel,não havia nada próximo aberto cedo.

Despesa em euros : pouso – 60, comida – 16

25/abril,quarta-feira Etampes – Angerville 24,5km

O hotel ficava do lado contrário à saída do caminho. Voltei ao centro e fui fazendo um caminho bonito, passando por parques. Um gatinho belga me perguntou se eu estava fazendo o Caminho de Santiago, dizendo que ele também ia fazer, tinha vindo até a cidade de trem e estava num camping meio afastado. Queria que eu fosse com ele até o camping para ele desarmar a barraca e ir comigo – não tinha credencial, guia, nem mapa e queria ir até a casa da tia em Toulouse sem gastar dinheiro. Mostrei meu guia, disse que devia tentar achar igual na cidade, ele deu uma olhada e partiu. O caminho seguiu então pela via Romana entre campos de trigo e colza ( florzinha amarela, talvez canola) até Saclas, cidade bem bonitinha . Lá resolvi seguir pelas estradas distritais, as D, pois a via Romana era vazia demais. Cheguei logo a Méréville passando por belas casas que pareciam de fim de semana de parisienses, lá tomei uma coca e continuei pela D. Mais tarde, voltei às trilhas, sem sinalização, mas bem descritas pelo Grégoire (autor do guia, a essas horas já meu companheiro de caminhada) . Agora, de novo, campos com verduras, trigo e colzas.

Cheguei antes das 4h e o único hotel da cidade ( 100euros ) estava lotado, era bonitão. Fui para a prefeitura e me colocaram em um quarto bem localizado, com uma cama, uma mesa com cadeira e banheiro com pia e WC de pezinho. Banho, nem pensar! Mas era limpo e grátis. Comprei cartão telefônico e tentei reserva para amanhã em 3 hoteis – lotados. Sentei e comi um ótimo magret com um péssimo vinho. Primeira noite no saco de dormir , me senti segura.

Despesa em euros : pouso – grátis, comida – 18

26/abril,quinta-feira Angerville – Artenay 34,5km

Comecei o dia com um bom café-au-lait e pouco depois de 7h estava andando. O dia rendeu, às 4h da tarde estava em Artenay. Caminho por campos de feno, colza e beterraba. Raras pessoas e as aldeias ( hameaux ) com cara de abandonadas. Algumas igrejas e sedes de prefeitura. A descrição do caminho do Grégoire estava perfeita e minha chegada foi com dor nas costas e ansiedade quanto ao meu pouso. Fui direto para a prefeitura e eles confirmaram que estava tudo lotado (complet) e me colocaram num studio , que eles cedem ao pessoal da EDF ( Eletricité de France) quando estão fazendo algum serviço na cidade. Tomei ótimo banho, lavei roupa e saí para jantar bem num dos hotéis sem quartos livres.

Despesa em euros : pouso – grátis, comida – 18

27/abril,sexta-feira Arténay – Orléans 25,5km

Saí às 7:30h,após capuccino no studio. Início do caminho, como ontem, por campos e hameaux, até que entrei na Fôret d’Orléans. Boa mata para andar, mas as costas começaram a incomodar. Parei algumas vezes, mexendo na mochila e fazendo alongamentos, sem melhorar. Na entrada de Orléans, cidade de Jeanne d’Arc, uma senhora me ensinou como pegar o bus+train e saltei no centro. Fui andando na direção da catedral e passei por um dos hotéis do guia , lá fiquei. Tomei banho, me alonguei e a dor continuou. Comecei a pensar em ficar mais uma noite para ter um dia sem mochila nas costas. Andei pela linda cidade velha bem movimentada, comi e usei Internet. Voltei ao quarto e fiz um balanço dos pés, 2 unhas roxas, e das costas , nunca senti tanta dor. Feridas do tombo secando.

Despesa em euros : pouso – 42, comida – 9

28/abril,sábado Orléans

Hoje é o primeiro dia de um fim de semana longo, vai até terça-feira. Passei o dia curtindo Orléans e pensando o que fazer amanhã. Fui à Gare para ver as possibilidades de chegar às próximas cidades do caminho se não conseguir andar , fui até o Loire, para ver início do caminho amanhã, fui ao Ofício de Turismo para carimbar a credencial.

Quanto a Orléans, fui ao mercado, um luxo, tem até balcão para tomar espumante. No mercado almocei uma belíssima salada. Voltei à cidade velha e à catedral, admirei as ruas cheias de famílias passeando. Depois me estiquei no hotel e dormi no chão.

Despesa em euros : pouso – 42, comida – 25

29/abril,domingo Orléans – Beaugency 29,5km

Consegui chegar bem a Beaugency, o caminho foi muito bonito. Antes de 1km estava na margem da Loire e o caminho vai atravessando matos com muitos passarinhos cantando. Ciclistas, corredores e caminhantes aproveitando o dia. Uma parte é sobre o dique construído para proteção contra as enchentes do rio. O belga me passou com boa marcha e um guia igual ao meu na mão. Quando passei em Meung, 10km antes de Beaugency, ele estava armando a barraca num parque. Quase na chegada a Beaugency caiu chuva forte, tive que usar a capa da mochila e a minha. A cidade é à beira do rio, pequena e muito linda. Fui para o hotel que reservara ,num local bonito, mas a uns 500m do Loire, fui bem recebida e após banho delicioso fui conhecer o que sobrou da Abbatiale Notre Dame,a tour César e toda parte medieval da cidade. Jantei por lá um bom cuscuz com carneiro. Na volta para o hotel senti frio, um frio de maio meio atrasado.

Despesa em euros : pouso – 46, comida – 18

30/abril,segunda-feira Beaugency – Suèvres 21,5km

Resolvi partir a etapa que era de 36km, para ficar livre da dor nas costas. Dia amanhecendo sem chuva e com névoa sobre La Loire. Foi um lindo caminho, grande parte sobre o dique, com árvores, pássaros, alguns campos e até 3 coelhos. O belga passou quando eu dava um arzinho para os pés, ia direto para Blois e já sabia que seguiria andando até Dax, onde pegaria trem para Toulouse, já está esperto. Cheguei antes de 3h e fui para o hotel fuleiro que reservara, único na cidade, quarto enorme com banheiro completo, um camão, 2 cadeiras e TV. Fui ver os moinhos e os “lavoirs”, andei pelas duas ou três ruas, vi o caminho de saída para amanhã e voltei para jantar bem na birosca do hotel. Ótimos cogumelos , fartura de bons queijos e vinho bebível. No fim do dia caiu chuva.

Despesa em euros : pouso – 25, comida – 15

01/maio,terça-feira Suévres – Blois 14,5km

Saída, como sempre, entre 7h e 8h. Bati a porta do hotel e fui andando em chão molhado, mas sem chuva. O caminho foi bom. Inicialmente chegada ao Loire por aldeias, depois margem do rio com castelos ou os diques meus conhecidos com mata em volta . Logo estava cruzando com ciclistas, corredores e caminhantes, aproveitando o último dia do feriadão. Cheguei à entrada de Blois às 11h. Havia algumas gotas de chuva que decidi ignorar, deu certo. Localizei um dos hotéis do meu guia num mapa na rua , telefonei da cabine, tinha lugar, fui direto para lá. Só havia um quarto para dois. Quando estava pagando, chegou uma americana nova e grandona que não estava achando lugar para ficar. O rapaz me perguntou se ela podia dividir o quarto comigo e depois de alguma hesitação, topei. Valeu, o quarto era enorme com banheiro só para nós. Quando abria a mochila, descobri que estava sem o cajado. Corri até a cabine telefônica, bem longe, e ele me esperava lá, bem à vista. Saí então para ver a cidade velha, as igrejas, os parques. Andei bastante tentando lembrar se estive aqui antes. O hotel era na parte alta e comi uma boa mussaka num restaurante ao lado. Quando dormi minha companheira ainda não tinha voltado.

Despesa em euros : pouso – 19, comida – 20

02/maio,quarta-feira Blois – Chaumont 23km

Comecei a caminhar após um café-au-lait com um pain-au-chocolat antes de atravessar a ponte e começar a caminhar na margem esquerda pela primeira vez. Caminho passa logo a ser uma ótima ciclovia. Um coelho vem na minha direção, me vê, volta e some. O caminho sai da ciclovia, mas ela vai na mesma direção do caminho, para passar em Cande, continuo pela ciclovia. Em Cande, muito pequena há uma padaria. Sentei num banco perto para cuidar dos pés. Vi muitos carros parando lá para compras. Entrei , comprei um ótimo croissant com presunto e sentei ao lado de uma ponte medieval para comer. O tempo que estava bom começou a fechar. Quando faltavam uns 8km,o caminho começou a seguir a borda de um bosque, estava solitário demais. Apertei o passo, mas segui errado uns 500m, a bússola me ajudou e eu voltei para o caminho certo. Depois fui por campos sentindo medo da chuva cair . Às 2:30h estava no Ofício de Turismo, lá encontrei três mineiros indo para Barcelona de bicicleta. Fiquei num hotel velho e simpático , num quarto grande. Parecia estar vivendo seus últimos dias. Andei em direção ao castelo pela margem do Loire, vi um barco chegando com alguns turistas,não havia quase movimento parecia tudo meio morto após o feriadão.

No hotel, tornei a estudar todo o caminho e resolvi pular algumas etapas para conseguir chegar a Santiago. Depois saí para um bom jantar no único restaurante aberto e conversei com a dona que conhece os caminhos de bicicleta. Descobri que dia 8 também é feriado, mais 4 dias direto.

Despesa em euros: pouso – 23, comida – 21

3/maio,quinta-feira Chaumont – Amboise 22,5km

Saí às 8h e só consegui comprar uma barra de chocolate com biscoito saindo de Chaumont, depois nenhum comércio . Matas, vinhas, pequenas aldeias, margem do Loire. Passei por uma casa próxima à margem com marcas de enchentes anteriores a 1865. Às vezes o caminho ia por parte alta, com subidas gostosinhas. De novo pouca balisage, mas guia bem detalhado. Caminho ainda pela margem esquerda. Cheguei a Amboise com as costas doendo e morta de fome. Sentei e comi um bom coelho com salada e ¼ de rouge. Fiquei em hotel, lugares baratos eram mal localizados. O quarto era todo enfeitadinho, a vista da janela era medieval e linda, mas o banheiro era um andar abaixo – nem tudo é perfeito! Andei pela cidade, me lembrava de alguma coisa, usei Internet, fiz compras, vi o caminho de saída amanhã. Amboise não é muito pequena. Comi no quarto e dormi cedo.

Despesa em euros: pouso - 25, comida - 20

4/maio,sexta-feira Amboise - Tours 29km

Comecei o dia com medo da longa jornada. Tomei um bom pd numa boulangerie que eu tinha escolhido ontem e comecei a andar com dúvidas, que foram se esclarecendo. Tempo muito fechado, mochila encapada. O caminho era por uma estrada local gostosa e me recusei a ir para caminho de terra como dizia o guia. Logo tornamos a nos encontrar em Montlouis-sur-Loire e um pouco depois o caminho passa para a margem direita do Loire, por uma passagem para pedestres sobre a ponte ferroviária. Logo depois, afastada do Loire, Vouvray, com suas caves, em seguida estradinhas e um bom caminho à borda do rio. Então, é só atravessar a Passarela de St-Symphorien, sobre o Loire e entrar em Tours. Peguei um mapa da cidade e escolhi um hotelzinho no centro com um quarto gracinha e boas escadas. Albergue da Juventude, como sempre, longe do centro. Saí, comprei passagem de trem para Poitiers , jantei bem e passei na igreja com lindos vitrais. Dormi tarde pensando na decisão de fazer uma parte do caminho de trem para ter tempo para chegar a Santiago de Compostela, minha passagem de volta está marcada.

Despesa em euros : pouso – 32, comida – 27

R E L A T O S