DIÁRIO DO CAMINHO

-Luciana Cardoso

Foto do Relato

Caminhante, são tuas pegadas
o caminho, e nada mais,
caminhante, não há caminho,
se faz o caminho ao andar.
Ao andar se faz o caminho,
e ao voltar a vista atrás,
se vê a senda que nunca
se voltará a pisar.
Caminhante, não há caminho,
e sim estrelas no mar."
(Antonio Machado, 1917, Campos de Castilha)

Este poema foi uma das primeiras coisas de que me lembrei após decidir fazer o "Caminho". E como bem disse Máqui "... o caminho começa quando você decide ir". para ser mais precisa isso aconteceu no dia 11/07/2001.

Estava sentada na Biblioteca Elmo Luz, em Brasília, onde realizo um trabalho voluntário junto a deficientes visuais que freqüentam o local buscando reforço escolar. Era aproximadamente 9:30 da manhã, e não havia muitos alunos. Desta forma eu lia o jornal "Correio Braziliense", quando chegou um senhor e se sentou frente a mim. Começamos a conversar, não sei sobre o quê precisamente, mas a conversa chegou ao assunto fotografia, uma das minhas paixões, que naquele momento estava super forte porque havia acabado de fazer um curso, com o que sonhava há anos. Comentei que no domingo anterior havia feito uma trilha em uma fazenda próxima à cidade somente com o objetivo de fotografar. Daí ele falou que gostava de caminhar e que havia acabado de fazer o "Caminho de Santiago" com a esposa.

Acho que naquele momento quem viu "estrelas no céu" fui eu. Desde que havia lido "O Diário de um Mago", do Paulo Coelho, em 1995, sonhava em um dia fazer o caminho. Mas, por um destes costumes dos seres humanos de achar que algumas coisas são muito difíceis, inviáveis até, havia enterrado bem no fundo de mim mesma este sonho.

E, de repente, boom, a idéia ressurgia muito tentadora ali.
Eu teria férias em menos de dois meses, mais precisamente em 1º/09 e não tinha nada planejado ainda. Curiosamente, desde o ano anterior planejava viajar para a Espanha. Inicialmente iria com minha amiga Rafaela, que desistiu por estar com problemas em sua tese de doutorado. Eu havia ficado só e desanimara bastante em fazer a viagem. Na verdade já havia desistido e estava procurando algo aqui no Brasil mesmo.

Bem, como dizia antes, a vontade de fazer o caminho tão sonhado adicionado ao fato de estar com férias marcadas e ainda não ter destino certo foram demais no momento. Fiquei "fora do ar" por alguns instantes, mas retomei a conversa com aquele senhor, perguntando, então, o nome dele (eu tenho a péssima mania de conversar com as pessoas sem perguntar o nome delas antes): Gustavo. Tenho certeza de que ele não sabia, mas naquele dia a missão dele ali na Biblioteca Elmo Luz era "iluminar" o meu caminho.

Nossa conversa durou pouco mais de uma hora, mas foi o suficiente para saber sobre a duração da caminhada, gastos e treinamento. Ele terminou convidando-me para ir à missa de Santiago que aconteceria em duas semanas, onde os peregrinos costumavam reunir-se. Falou também de uma reunião que acontecia todo primeiro sábado do mês no mesmo local da missa e do site www.caminhodesantiago.org.br onde poderia conseguir mais informações sobre a viagem.

Após anotar todas as informações, despedi-me pois mal continha-me de tanta ansiedade diante de tudo o que estava acontecendo. Naquele mesmo dia, à tarde, acessei a Internet, onde obtive mil dicas e informações. No dia seguinte entrei em contato com uma empresa de turismo no Rio, reservei minha passagem para a Espanha e em seguida, pedi minha credencial de peregrino.

Nem eu mesma podia acreditar que em menos de 24 horas havia decido fazer uma viagem que certamente mexeria muito comigo e que ela ocorreria em pouco mais de um mês.

Mais perplexa fiquei, duas semanas mais tarde, quando me toquei de que já tinha passagem, credencial e quase todos os apetrechos necessários para fazer o caminho. Eu, que sempre deixava para arrumar as malas na véspera da viagem, estava com tudo organizado um mês antes da partida.

Eu, certamente, não tinha idéia do que seria aquela viagem mas, havia algo diferente no ar que não conseguia identificar ainda. Além disso, o meu entusiasmo era algo fora do comum. Todo mundo notava.
Posso dizer que nunca, nos meus 31 anos, havia sentido tanto entusiasmo por alguma coisa. Nunca havia sentido uma certeza tão grande de que aquilo tinha de acontecer naquele momento.

Para aumentar meu espanto, também consegui companhia para a viagem, Jô, que fiquei conhecendo na caminhada das comemorações do dia de Santiago. Quem me conhece sabe que estou sempre viajando só por falta de companhia. E desta vez nem precisei procurar, ela veio até mim.
Perplexa, era assim que me sentia diante de tudo. Parecia que Tiago já realizava milagres na minha vida.

30/08/2001 – Brasil/Espanha

Após um mês e meio de treinamentos físicos e tentativa de amaciar a bota, finalmente o dia da viagem chegou. É claro que dormi muito mal naquela noite, tal era a ansiedade. Mas fui cedo para o aeroporto pois o vôo sairia às 8:15 da manhã. Contudo, devido a uma seqüência de problemas (não vou aqui ficar falando das mazelas das cias. aéreas nacionais) só decolamos às 09:15. O vôo até São Paulo foi estressante, saímos sob chuva e pegamos muita turbulência. Quase tenho uma síncope. Cheguei em Guarulhos com uma dor de cabeça enorme que só foi passar quando já estava no vôo para Madri.

No aeroporto de Guarulhos, encontrei-me com Marcos, um peregrino que havia conhecido na lista da internet sobre o Caminho de Santiago. Conversamos um pouco e nos separamos em seguida pois ele ainda precisa fazer o check in e eu e Jô íamos comer alguma coisa.

No vôo, acreditem se quiser, sentam dois casais logo na minha frente que também estavam indo fazer o caminho. Só nesse vôo, descobrimos, éramos nove peregrinos: Eu, Jô, Marcos, João, Gerusa, Otávio, Vanilde, Marcelo e D. Stela. E é lógico que conversamos e trocamos muitas idéias, atrapalhando também o serviço de bordo dos comissários espanhóis que não gostaram muito, mas fazer o quê né? A gente não estava ligando muito para a cara feia deles não.

31/08/2001 – St. Jean Pied de Port

Chegamos às 06:00 h da manhã em Madri e o desembarque foi tranqüilo. Passamos pela imigração e logo fomos trocar os dólares por pesetas. Em seguida nos dirigimos ao local do embarque para Pamplona. Qual não foi nossa surpresa quando vimos o avião: pequeno, de aparência muito antiquada e horroroso. Parecia muito pior que o da VASP (Brasília/São Paulo). Ficamos tão irritados e reclamamos tanto que esse foi, de longe, o melhor vôo da viagem. Tranqüilo, sem balanços ou qualquer coisa que o valha.

Chegamos em Pamplona às 09:00 h da manhã e fomos procurar táxi. Depois de muito pesquisar descobrimos um senhor que levaria nosso grupo, agora de 9 pessoas, a St. Jean Pied de Port. Bem, aqui vale lembrar que o número de pessoas tornou-se um problema, tendo em vista que os taxistas não podiam levar mais de quatro pessoas no carro e éramos nove. O motorista, Sr. Baltazar, disse que levaria um a mais e assim o fez. Contudo foi denunciado por outro motorista do aeroporto, furioso por não ter feito nosso traslado. Assim, começamos nosso dia na Espanha, sendo parado, logo na saída do aeroporto de Pamplona, pela polícia que multou nosso estimado motorista e o mandou chamar outro carro para redistribuir o grupo.

Seguimos, então, em direção a St. Jean Pied de Port, por uma estrada bem bonita e também cheia de curvas, que mostrava um pouco o que seriam nossos problemas futuros: muito sobe e desce. Socorro!!!

Paramos primeiro em Roscenvalles, onde a peregrina D. Stela iniciaria seu caminho. Chegamos em St. Jean Pied de Port por volta de 12:30 h e o Sr. Baltazar nos levou diretamente à Associação dos Amigos de Caminho, mas o pessoal estava encerrando e fechando para o almoço e não houve como conseguirmos alguma coisa com eles. Só nos pediram que retornássemos após 14:30 h. Quem ficou indignado foi o motorista que nos levou à casa de Mme. Camino, uma senhora que aluga quartos para os peregrinos. Ela não estava, mas a filha, um anjo, por não ter mais lugares em casa, nos conduziu a casa de uma vizinha francesa que alugava quartos, onde todo o grupo se hospedou.

Mais tarde, eu e o Marcos encontramos Mme. Camino, com quem conversamos e tiramos algumas fotos. Uma pessoa maravilhosa, que há muito ajuda os peregrinos e que nos abriu sua casa mesmo nunca tendo nos visto antes. Apenas disse que adorava os peregrinos brasileiros.

Depois de nos instalármos, o Marcos foi montar sua bicicleta e eu fui tirar algumas fotos da cidade que é um lugar super bonito e cheio de charme.

Após 14:30 h, voltamos à associação para nosso primeiro carimbo do caminho e fomos super bem recebidos pelo pessoal. A conversa foi divertidíssima pois falávamos um pouco de tudo: português, espanhol, inglês e francês (eles é claro) porque nós não entendíamos nada. Mas no fim, por um desses milagres do caminho, todos nos entendemos, ganhamos nosso selo e uma concha e saímos de lá mais felizes ainda. Até agora estávamos sendo muito bem recebidos pelos franceses e esse era o meu maior medo devido à "fama" deles.

Saímos de lá e fomos andar pela cidade, conhecê-la um pouco mais, tirar mais fotos e providenciar um lanche para a dura etapa dos Pirineus. Tivemos uma surpresa atrás de outra, visto que nem precisamos trocar dinheiro pois a maioria dos estabelecimentos aceitavam pesetas espanholas e conseguimos nos comunicar com todos sem falar uma palavra em francês, comprovando que quando há boa vontade entre os homens, tudo acaba muito bem.

Para um começo de caminho, o nosso não poderia estar melhor.
Tudo, mas tudo mesmo, estava sendo maravilhoso e a emoção já era muito, muito grande.

01/09/2001 – St. Jean Pied a Port/Roncesvalles

Não acordei. Fui acordada pelo Marcos. Dizem que choveu durante a noite, mas dormi feito pedra e não dei notícias de nada.
Preparamo-nos, tomamos café e saímos às 7:45 h, mas ainda ficamos tirando fotos. Logo na saída há uma ladeira de dar medo em qualquer um. Eu só pensava no que ainda estava por vir, mas já estávamos cientes da dificuldade da primeira etapa e lá fomos nós: eu, Jô e Marcos pois os outros nós ainda deixamos na casa tomando café.

Olha, quando todos reclamam da primeira etapa não é à toa não. É dureza. São mais ou menos 20 Km de subidas, com pouquíssimas tréguas. No início tivemos e sol e, à medida que subia, foi ficando nublado. Só choveu por alguns minutos e foi uma chuva bem fraquinha que não chegou a ser problema (para nós, porque mais tarde ficamos sabendo que havia chovido muito forte mais no alto da montanha), só deu um pouco de trabalho pois vesti a calça e blusa impermeáveis e o poncho que por sinal mostrou-se um suplício.

O caminho foi maravilhoso. Os Pirineus são lindíssimos e compensa toda a dificuldade da subida. Além do mais havia uma alegria interior por estar no "Caminho"!!!! Todo o tempo peregrinos cruzavam com a gente e nos cumprimentávamos com um sorriso e um "bon jour", pois a maioria era francesa. O que me fez meditar a respeito da minha aversão aos franceses. Esta viagem certamente acabou com meu terror deles. Pude conferir que, felizmente, há muitos franceses simpáticos.
Houve até um que conversou comigo em inglês... Não tivemos nenhum tipo de problema em St. Jean, muito ao contrário, fomos super bem tratados. Santiago certamente começava a operar seus milagres.

É claro que tirei muitas fotos: um filme só na primeira etapa. Tenho de conter, se não volto com uns quarenta. Acho que isso fez com que eu andasse mais devagar que os demais que chegaram com uma hora de antecedência em relação a mim e a Jô.

A parte da descida dos Pirineus foi a pior de todas.
Extremamente íngreme e, com o chão molhado por causa da chuva, acabei escorregando e caindo, mas foi só um susto e apenas sujei a caça de barro. O maior estrago ficou por conta de uma pequena bolha no dedão do pé, mas também é bem pequena e não acredito que vá tarnar-se um problema.

Chegamos a Roncesvalles às 16:30 h. Tempo muito bom para a etapa. O único incômodo foi os ombros que doíam um pouco. É lógico que estava cansadíssima, mas nada que me deixasse preocupada. A felicidade da primeira etapa cumprida era enorme.

Fomos carimbar nossa credencial e em seguida fui procurar o refúgio que se encontrava lotado. Após deixar minhas coisas sobre a cama fui tomar um banho merecido. Ah, ah... primeiro embaraço peregrino: banheiro misto, mas acho que fui bem sucedida após muita ginástica para adaptação. Um banho realmente é a glória e renova a todos. Esse, porém, foi o primeiro de uma série de banhos frios.

Fui cuidar da minha bolha e enquanto isso chegou a Gerusa perguntando se queria fazer uma reserva para o jantar. É claro que queria pois não agüentava muita coisa naquele dia, exceto a missa e a janta.

Depois encontrei-me com o Marcos, conversamos um pouco, ganhei um sanduíche que devorei imediatamente e fui escrever meu diário.

Às 19:00 h fomos à missa da benção dos peregrinos e a igreja estava lotada. Também pudera, havia uma multidão de peregrinos no refúgio. Só espero que essa multidão se disperse um pouco pelo caminho.

Durante a missa quase caio da cadeira por absoluta exaustão. Em seguida, fomos jantar. Primeiro menu do peregrino: sopa, trutas com batatas, vinho e sorvete de coco de sobremesa. Foi um jantar bem divertido. Retornamos ao refúgio e eram quase 10:00 h. Fomos diretamente para nossos quartos. Será que amanhã eu me levanto?

02/09/2001 – Roncesvalles/Zubiri

Dormimos todos muito mal por causa dos roncos estrondosos de um peregrino. Além disso não gostei nem um pouco de dormir presa em um saco. Sufocante. Levantei-me cedo, acordei a Jô, embora tenha demorado a localizá-la e por isso saímos mais tarde do refúgio.

Paramos em Burguete para tomar café, que por sinal estava maravilhoso. Seguimos, animadas pois o dia estava com muito sol e prometia ser bem melhor que o dia de ontem.

Saímos por uma trilha entre fazendas. A paisagem era belíssima. Fui fotografando como uma louca. Só para variar. Em dois dias de caminho, dois filmes. Passamos por Espinal, depois Alto do Mesquiríz, Viscaret e Linzoáin, todos pequenos povoados, mas cheios de casinhas lindas, enfeitadas com muitos vasos de flores.

Subir o Alto do Erro foi bastante penoso. A subida além de íngreme era cheia de pedras e não eram pequenas, eram enormes. Esta parte do caminho é relativamente fácil, se comparada à de ontem, mas não deixa de ter seus trechos difíceis, como por exemplo, a descida para Zubiri. Chegamos a Zubiri às 16:00 h aproximadamente. Na ponte, nos encontramos com a Gerusa e Vanilde que já estavam no refúgio.
Decidimos ficar por ali e fomos diretamente tomar um merecido banho, mais uma vez frio, em um precaríssimo banheiro e cuidar dos meus pés que ganharam uma nova bolha, mas nada que incomodasse muito.

O percurso levou quase o mesmo tempo de ontem, porém hoje paramos várias vezes e aproveitamos mais o caminho. Diverti-me mais também pois encontrei um alemão e conversamos em alemão que eu julgava ter esquecido totalmente. Depois conversamos por um longo trecho em inglês. Comi amoras silvestres. Divinas. Conversei com um casal australiano e depois com um grupo de espanholas.
Definitivamente o dia foi mais divertido.

Saí à tarde para fotografar o povoado e à noite fomos jantar no restaurante de um hostal pois, como era domingo, não havia "tiendas" abertas para comprar comida. Fomos dormir por volta das 10:00 h da noite.

03/09/2001 – Zubiri/Pamplona

Levantamos às 06:00 h e saímos pouco depois, ainda escuro, eu, Jô, Vanilde e Marcelo. Dormi melhor que a primeira noite, mas ainda não consegui me adaptar ao saco de dormir. Também há o problema dos roncos que incomodam, apesar de usar protetores de ouvido.

Paramos em Larasoaña para tomar café no famoso bar do Sangalo, que até nos tratou muito bem, depois passamos na prefeitura para carimbar nossa credencial. Conhecemos o famoso Santiago Zubiri, prefeito local, apaixonado pelo Brasil. Ele fez uma festa e tiramos várias fotografias juntos.

Saímos e andamos e andamos sob um sol forte em uma região bastante seca. Definitivamente não foi fácil.

Por volta de 13:00 h, paramos em Villava, subúrbio de Pamplona. Vanilde e Jô queriam ficar lá, mas acabamos decidindo seguir até Pamplona, o que mostou-se um grande erro. Andamos muito até chegar ao centro da cidade e o albergue estava lotado.

Santiago Zubiri havia dito que havia um outro refúgio. Aí tínhamos duas opções: ou procurávamos o tal refúgio ou seguíamos para Cizur Menor. Decidimos pela primeira opção, mas o referido lugar havia funcionado apenas no verão. Já estávamos todos mortos de cansaço. Eram 15:30 da tarde. Resolvi ligar para Cizur Menor para verificar se havia lugares e os dois albergues de lá estavam cheios.
Liguei então para o Albergue da Juventude de Pamplona e consegui lugar para nós quatro.

O único problema foi encontrar o local pois estávamos longe, mas o Marcelo foi perguntando até chegarmos lá, já no fim da tarde, totalmente esgotados e com os nervos à flor da pele.

Fomos tomar banho e eu cuidar das minhas novas bolhas. Grande não? Preparei-me tanto com botas, meias especiais e estou cheia de bolhas. Sei lá o que está acontecendo pois tenho tomado todos os cuidados recomendados. Pelo menos as bolhas antigas não estão incomodando.

Decidi que amanhã pela manhã sairei para conhecer Pamplona e depois caminharei até Cizur Menor para poupar um pouco minhas pernas.

Fui jantar no albergue e depois dormir. Nada como dormir numa boa caminha sem o barulho dos roncos e ter de disputar um lugar no banheiro. Outra coisa maravilhosa: a lavanderia que achamos no albergue. Uau!! Roupas limpas sem precisar usar nossas mãozinhas. Até que o "desastre" não foi tão mau assim. Teve suas compensações sim!!!
Deus sabe o que faz não?

04/09/2001 – Pamplona/Cizur Menor

A noite foi tranquila. Acordei cedo e já comecei a arrumar a mochila. Para nossa felicidade as roupas já estavam completamente secas. Arrumei tudo e fomos tomar café.

O café do albergue era muito bom e farto. Acabei fazendo um sanduíche para o almoço. E assim nós quatro fizemos. Eu e a Jô saímos às 8:40 h para fotografar Pamplona e em seguida rumamos para Cizur Menor. Na Citatela, fizemos a maior confusão com o mapa e paramos para nos localizar quando um senhor francês parou e nos deu a direção das setas amarelas. Ficamos muito felizes quando as encontramos. Nossa, será que daqui pra frente só nos sentiremos seguras com as setas?

Seguimos para Cizur Menor que fica bem perto de Pamplona.
Acho que não chegamos a andar uma hora e encontramos, bem na estrada, o refúgio da Cruz de Malta. Uma senhora que estava lá disse que abriria às 12:30 h. Sentamos do lado de fora e ficamos esperando.
Logo aparecerem o Marcelo e a Vanilde que também resolveram ficar em Cizur Menor.

De repente começaram chegar peregrinos e quando o refúgio abriu já havia bastante gente. O que me faz lembrar de uma peregrina reclamar da "neurose" de se correr para chegar cedo ao refúgio e não se aproveitar o caminho. Realmente é um problema.

Os hospitaleiros, dois jovens muito simpáticos, receberam- nos e logo arrumamos um cantinho. Deixamos nossas coisas, comemos nosso lanche e saímos para conhecer o povoado que é bem pequeno (como todos). Na verdade parece mais um bairro de Pamplona. Na volta encontramos com mais três brasileiros que haviam acabado de chegar.
Brasileiro quando se encontra é sempre uma festa. Conversamos e fui tomar um banho e lavar a roupa suja. Quando terminei, voltei ao quarto onde uma espanhola "costurava" suas primeiras bolhas. Conversamos sobre bolhas. A que ponto chega-se não?? Trocar informações sobre a melhor maneira de cuidar de bolhas.

Às 6:00 h eu estava faminta e como meus companheiros não queriam jantar, juntei-me aos outros brasileiros: Cristina (BA), José Manoel (RJ) e Fábio (SP) e fomos ao restaurante. Como ainda era cedo e o jantar só seria servido às 20:00 h, tomamos uma taça de vinho e conversamos. O que foi ótimo. Depois o jantar!!! Jantar abençoado. A comida estava ótima.

Voltei às 21:30 h ao refúgio e dormi, ou melhor, apaguei.
Foi, até o momento, uma das melhores noites.

05/09/2001 – Cizur Menor/Puente la Reina

Por causa da dificuldade enfrentada em Pamplona, decidimos começar a caminhar mais cedo. Fui acordada pela Jô às 5:00 da manhã.
Nossa, eu realmente apaguei. A Vanilde e o Marcelo já estavam de pé, arrumando suas coisas. Arrumei-me em tempo record e saímos precisamente às 5:20h. Estava, é claro, completamente escuro, mas a lua brilhava muito, iluminando o caminho bastante plano.

O único problema é que não tínhamos comprado nada para comer. Em Cizur Menor não havia padaria ou tiendas. Então saímos com fome.
Após andar cerca de uma hora e meia chegamos a Zariquiegui, onde sentamos num banco em frente à Igreja. A fome era enorme e eu comecei a ficar meio tonta. Eu não tinha nada para comer. Tudo o que os outros três tinham eram duas madalenas e um pedaço de pão meio duro com uma fatia de queijo que foram repartidos. Conversando, chegamos a conclusão de que aquela deveria ser a nossa lição do dia: dar mais valor ao "pão nosso de cada dia" que é tão farto!!! É claro que dali para frente, precisa prestar atenção de providenciar sempre um café da manhã para não sair de estômago vazio. Eu, pelo menos, não posso sair sem comer nada.

A subida do perdão não foi tão difícil e no alto da montanha há cata-ventos enormes, responsáveis por parte da energia de Pamplona. Chama bastante a atenção. A descida, como sempre, é bem pior. Em Uterga, a Vanilde encontrou uma figueira carregada de frutos maduros que foram prontamente atacados e devorados pelos peregrinos famintos. Seguimos viagem e em Muruzábal paramos para tomar um abençoado café com leite de donuts de chocolate. De lá a Puente la Reina foi um pulinho só.

Chegamos cedo e em menos de 15 minutos chegou o hospitaleiro que nos recebeu prontamente. O albergue é muito bom. Bem arejado e limpo. Sem perder muito tempo fomos tomar um bom banho pois o refúgio é bem grande e deveria estar cheio até o fim do dia.

Saímos para conhecer Puente la Reina. O povoado é uma gracinha, com suas casas antigas e flores nas sacadas, como todos os lugares por onde já passamos. Seguimos até a ponte antiga que deu nome ao lugar. Aproveitei para ir fazendo minhas fotos (se continuar assim irei à falência quando retornar). Na volta paramos em um bar e enquanto Marcelo e Vanilde bebiam uma cerveja, experimentei uma tradicional tortilha espanhola de bacalhau. Muito gostosa!!! Ah, essa vida peregrina... hoje disseram-me que já emagreci. Isso ainda não percebi. Vamos ver ao fim do caminho.

Voltamos ao refúgio às 15:30 h para uma soneca, o que foi merecido devido à hora em que acordamos hoje. Após as 17:00 h, quando acaba la siesta, fui ao supermercado comprar provisões para o café da manhã. À noite o Marcelo preparou uma sopa e me convidou. Tomamos a sopa com pão e demos por encerrada as atividades do dia.

Hoje conheci mais uma brasileira: a Maria José, médica mineira que mora no Rio de Janeiro.

Foi, até o momento, uma das melhores noites.

06/09/2001 – Puente la Reina/Estella

Dormir essa noite se mostrou quase impossível tendo em vista que um grupo de europeus ficaram bebendo, fumando e conversando muito alto até tarde. Dormi mal, acordei várias vezes durante à noite.

Levantamos às 5:00 h, tomamos café e saímos em seguinda. Logo no início, após um pequeno trecho plano, o caminho se mostrou muito difícil: uma subida fortíssima, mas fomos em frente.

Às 6:45 h paramos em Mañeru para descansar. Ainda era noite e nos sentamos numa pracinha onde havia um bar que tocava música no último volume. Parecia ser o fim de uma festa, dado o movimento de jovens na porta do tal bar. Logo fomos embora. Pouco tempo depois passamos por Cirauqui, uma vila bem bonita, procuramos por um bar para tomar um café, mas não havia. Informaram-nos que havia um no próximo povoado Villatuerta. Só chegamos lá por volta de 11:00 h, contudo havíamos parado em Lorca onde fizemos um lanche (sem o café).
A parada em Villatuerta foi ótima pois além de tomar o café pude ir ao banheiro. A senhora do bar informou-nos que Estella estava a 4 Km. Mal podíamos acreditar pois já estávamos mortos, mais em função do calor que fazia do que pela distância propriamente dita.

A parada em Villatuerta foi ótima pois além de tomar o café pude ir ao banheiro. A senhora do bar informou-nos que Estella estava a 4 Km. Mal podíamos acreditar pois já estávamos mortos, mais em função do calor que fazia do que pela distância propriamente dita.

A etapa de hoje não foi fácil e o caminho nem sequer era muito bonito. Chegamos a Estella às 12:30 h e o albergue só abriria às 13:00 h. Portanto, ficamos na porta esperando. Quando o albergue abriu, já havia uma fila razoável de peregrinos!!!

Após carimbar a credencial, subimos ao quarto, que não é dos melhores, visto as beliches ficarem encostados umas nas outras e não ter muito espaço para a gente passar. Além disso o banheiro é misto, apenas fechado por uma cortina de plástico. Pior do que este, só o que não tem porta nenhuma. Acho a parte dos banheiros a mais difícil de todas!!!

Saí com o Marcelo e a Vanilde e fomos caminhar pela cidade.
Decidimos então ir até a fonte de Irache (famosa fonte de vinho).
Três doidos que após caminhar 22 Km, ainda resolvem caminhar mais um pouco.

Voltamos e fui tomar um banho, lavar roupa e escrever o diário. Saí no fim da tarde para comprar um lanche para o dia seguinte e quando retornei a Jô havia preparado um belo macarrão que comemos com pão e vinho.

Após o jantar fui andar pela cidade e descobri que Estella é linda. Tirei algumas fotos e voltei ao refúgio. Resolvi tentar arrumar minha mochila. Parece que cada dia está pior.

07/09/2001 – Estella/Los Arcos

Dormimos todos como uma pedra, tanto que não acordamos no horário de sempre. Acordei com o barulho de alguém no banheiro.
Quando estava tentando descobrir que horas eram, vi o José Manoel saindo com a mochila. Eram 5:30 h, horário em que normalmente saímos.

Acordei o pessoal e nos arrumamos correndo. Enquanto eu a Jô tomávamos café o Marcelo e a Vanilde saíram e nem tchau disseram.
Além de sair sem falar nada, ela levou meu cajado. Acabou tendo de retornar para devolvê-lo.

Eu e a Jô caminhamos a manhã toda no nosso ritmo e eles foram sempre na frente. O que foi bem gostoso pois fiquei mais comigo mesma e pude pensar um pouco mais. Pude também conversar com os outros peregrinos, coisa de que tinha sentido falta depois de ter começado a caminhar sempre com o mesmo grupo. Conheci um senhor espanhol e viemos conversando, o que é muito bom. É, na verdade, uma das coisas de que mais gosto.

Chegamos bem cedo, às 11:30 h. Embora esse trecho, da metade para o fim, tenha sido basicamente uma reta, foi bastante cansativo e senti muito desconforto na planta dos pés. O dia hoje não esteve muito quente, aliás estava meio nublado. De vez em quando o sol aparecia tímido, mas fizemos a maior parte do caminho sem ele. Isso, com certeza, ajuda bastante. O tempo, de uma certa forma, tem colaborado conosco pois só choveu no nosso primeiro dia.

No refúgio de Los Arcos há uma hospitaleira brasileira: a Graça Duran e o marido, um belga chamado Karel. Muito simpáticos os dois. Após fazer o nosso check in, saí para procurar o correio, que por sinal já estava fechado, pode? Durante a semana funciona de 8:30 às 12:00 h. Esse horário comercial espanhol é um horror. Ficamos nos perguntando quando é que esse pessoal trabalha. Bem, mas descobri onde se compra selos e acabei comprando e deixando alguns cartões na caixa do correio. Espero que cheguem!!! Depois fui comprar comida.
Voltei ao albergue, comi e tomei um bom banho, o que já ajuda bastante a relaxar e fui escrever meu diário.

Mais no fim da tarde sentei-me junto a Maria José e ficamos conversando. Logo apareceram a Graça e o marido e mais tarde as duas baianas, Marisa e Aurora. Ficamos conversando e rindo por um bom tempo. Foi uma tarde ótima.

Às 19:00 h fui à missa do peregrino e para nossa surpresa era missa de corpo presente de um morador da cidade. A ocasião não era engraçada de forma alguma, mas a graça ficou por conta de uma confusão minha para entender o que o padre falava durante a cerimônia. A todo momento ele mencionava Jesus isso, Jesus aquilo e lá pelas tantas ele fala na mulher de Jesus... Mulher de Jesus??? Só então que entendi que o falecido se chamava Jesus... quase tenho uma crise de riso dentro da igreja. Depois voltei para o albergue rindo de mim mesma!

08/09/2001 – Los Arcos/Viana

Dormi como uma pedra. Não ouvi ninguém roncando o que é uma coisa maravilhosa, tendo em vista a sinfonia noturna peregrina. Aos poucos, vou me adaptando ao saco de dormir e aos barulhos ou vou dormindo por pura exaustão.

Acordei às 5:00 h, chamei a Jô, arrumamo-nos, tomamos café e saímos às 6:00 h. O susto do dia ocorreu quando acendi a lâmpada da cozinha e havia um peregrino dormindo debaixo da mesa, que obviamente, acordou. Não disse nada, levantou-se e foi preparar o café da manhã. Curiosamente era arroz integral com cenoura crua, ambos frios. Vê-se de tudo por aqui. Esse peregrino, em particular, era um americano que caminhava carregando sua mochila nas costas e puxando um carrinho do tipo que levamos para a feira, com toda a sua comida especial. Acho que era adepto da dieta macrobiótica e olha que, mesmo com toda a tralha que carregava, andava como ninguém.

Hoje saímos eu a Jô somente. Depois de uma hora fomos "ultrapassadas" pelo José Manoel, Marcelo e Vanilde.

Quando chegamos em Torres del Río, voltamos a nos encontrar pois eles haviam encontrado um bar aberto e estavam tomando café. Milagre do dia!!! Bar aberto às 8:00 h da manhã. Aproveitei para ir ao banheiro e depois tomar um café com leite.

Saímos de Torres del Río, somente as mulheres. Os homens ficaram. Caminhamos um bom trecho só as três. Depois fomos alcançadas por eles.

Chegamos em Viana cedo, às 11:30 h e para nossa surpresa haveria festa com corrida de vacas. Credo!! Fomos direto para o albergue e após tomar um banho fui lavar a roupa que estava imunda.

Depois fui às ruas para ver as festividades locais. havia uma bandinha, aqueles bonecos enormes (tipo os bonecos de carnaval pernambucano) e muitas crianças correndo: algumas atrás dos bonecos, outras com medo dos bonecos. As ruas estavam lotadas. Foi o primeiro dia em que vimos a população local nas ruas. Andei um pouco, tirei fotos, depois passei no mercado para comprar umas coisinhas para comermos amanhã que é domingo e só Deus sabe se haverá tiendas abertas.

Hoje foi o primeiro dia em que andei sem sentir muito cansaço, principalmente nos ombros. A mochila parecia mais leve. Já devo estar me acostumando ao caminho.

À noite saí para jantar com a Maria José, Marisa e Aurora (Salvador). Tivemos dificuldades de achar um restaurante que ainda não estivesse com lotação esgotada. Imagino que o povoado esteja lotado por causa das festividades. Por fim encontramos um bar bem ruimzinho. Depois de muito esperar, um senhor veio nos atender (padrão espanhol de qualidade) jogando talheres e pães sobre a mesa e quase os jogando no chão, mas no fim foi tudo divertido. A comida não foi das melhores, mas passou. Ri muito com as baianas. São pessoas muito divertidas e de bem com a vida, ao contrário de alguns peregrinos que só fazem reclamar de tudo.

Voltamos por volta de 21:40 h e fui dormir, o que demorei bastante pois havia dormido à tarde. Amanhã nada de dormir à tarde!

09/09/2001 – Viana/Navarrete

Dormi mal a noite. Acordei várias vezes com calor, incomodada com o saco de dormir. Até hoje estou brigando com ele. Levantei-me às 5:15 h, arrumei-me, e eu e Jô saímos às 6:00 h. Hoje aconteceu o inesperado: ficamos perdidas. Na saída de Viana havia (dizem) uma seta pequena que nós não vimos e ficamos indo e voltando até encontrar um senhor que nos mandou seguir pela estrada asfaltada. Saímos e andamos um bom pedaço até encontrar a placa de sinalização. Enquanto não a achamos fiquei furiosa com a falta de sinalização. Como eu e a Jô, várias pessoas tiveram problemas.

Pegamos a trilha de fato mais de meia hora após termos deixado o albergue. Bem, depois de tudo o humor não estava dos melhores. Andamos muito em trilha plana, mas na maior parte, dentro da cidade de Logroño e num parque, ou seja, andamos, praticamente por asfalto e calçada pavimentada, o que força muito os pés. A etapa não foi fácil e tínhamos a sensação de que nunca chegaríamos a Navarrete. Eu que pensava em seguir até Ventosa, desisti e fiquei por ali mesmo. Talvez todas essa dificuldade sentida tenha ocorrido muito mais em função do nosso estado de espírito do que pelo trecho ser puxado, o que não foi!!!

As hospitaleiras de hoje inovaram nos recebendo com um abraço, o que foi muito apreciado por todos. Isso nos fez ver que todos, até agora, haviam nos recebido muito friamente. Ali, certamente, havia um diferencial.

A dificuldade do dia me fez pensar no conforto de estar em casa numa manhã de domingo e senti saudades de casa. Cheguei e telefonei para lá. É sempre muito bom falar com gente querida. Infelizmente não dá para falar muito por causa do preço, mas foi o suficiente para melhorar os ânimos.

Após carimbar a credencial, tomei um banho para ver se o corpo melhorava. Estava todo travado. Passei Calminex e saí para dar uma volta, mas não há muito o que ver. Voltei, deitei-me um pouco para descansar, mas não dormi. Ao longo da tarde é de cor

Ao longo da tarde é de cortar o coração ver como chegam peregrinos e o albergue já está lotado. Hoje o hostal particular estava cheio e o albergue de Ventosa também. Há uma multidão caminhando e não lá lugar para todos. O mais cruel é ver alguns que usam carro de apoio e ainda ficam nos albergues tomando o lugar de quem caminha o dia todo.

No fim do dia fui até um mirante que fica logo atrás do albergue, de onde se pode ver todo o povoado e a região. Depois eu e Maria José paramos em um bar para comer um bocadilho e comprar um outro para amanhã. Voltei ao albergue por volta de 20:30 h, arrumei minha mochila, terminei minhas anotações do dia e me preparei para dormir.

10/09/2001 – Navarrete/Nájera

Mais uma vez, dormi muito mal, não sei porque pois a cama era muito agradável. Talvez sejam os roncos de uma "turma" que dormiu no quarto ou talvez seja minha eterna briga com o saco de dormir.

Às 5:20 h levantei-me e acordei a Jô. Saímos às 6:00 h rumo a Nájera. Estava bastante escuro e, infelizmente, o caminho começava com 5 Km de acostamento da estrada. Logo no início, trombamos com um espanhol perdido na escuridão, sem uma lanterna sequer e sem saber que direção seguir. Ao passarmos, cumprimentou-nos e nos seguiu. A parte da estrada é horrível pois os caminhões passam em alta velocidade e chega a nos balançar, tirando nosso equilíbrio. Dá o maior medo. O resto do percurso foi bem monótono. Chegamos a Nájera muito cedo, às 10:30 h e o refúgio só abria às 14:30. Ficamos esperando e, enquanto isso, aproveitamos para lanchar, ir ao supermercado e dar uma volta pela cidade. Às 14:30 já havia uma fila imensa esperando no sol bastante quente. Alguém falou que o hospitaleiro é bem grosso, mas quem nos atendeu, foi bastante gentil.

À tarde deitei-me um pouco, mas logo em seguida a Maria José veio chamar-me para jantar. O pessoal não havia almoçado e decidiu fazer uma comida para ambas refeições. A comida estava deliciosa e chamou a atenção de um grupo de alemães que também fizeram um boquinha. Ficamos conversando até quase 19:00 h, depois saí e fui tomar café com a Maria José, Marisa e Aurora. Conversamos até pouco depois das 21:00 h. Como anoitece tarde, a gente nem percebe o dia passar.

Dormi às 21:30 h e dessa vez dormi muito bem. Deve ter sido o cansaço de três dias dormindo mal.

11/09/2001 – Nájera/St. Domingo de la Calzada

Levantei-me às 5:00 h e já havia peregrinos saindo. Acordei a Jô e fui ao banheiro. Felizmente não havia muita confusão pois o albergue só contava com dois banheiros. Tomamos café e saímos.

Hoje nos perdemos no trecho de Azofra e fomos parar numa outra cidade. Felizmente, com a ajuda dos moradores conseguimos retornar ao caminho sem maiores problemas. Só andamos uns quilômetros a mais e pulamos Azofra.

Apesar do pequeno transtorno inicial, o caminho hoje foi bom e não muito cansativo. Foi basicamente de retas com uma ou duas subidinhas

Chegamos a Santo Domingo de la Calzada por volta de 11:00 h e reencontramos a Gerusa e o Otávio, de quem havíamos perdido contato desde Pamplona. Os dois estavam há dois dias na cidade esperando pelos amigos de Franca (Vanilde e Marcelo).

Fomos almoçar. Após o almoço fui procurar a internet e desta vez, felizmente, consegui encontrar e ainda com acesso grátis para os peregrinos. Mandei mensagens para os amigos. Após sair fui ao museu da catedral e pude visitar a igreja por dentro, mas o galo e a galinha recusaram-se a cantar. Fiquei indignada.

Retornei ao albergue, conversei com a Maria José e fui escrever o meu diário. Deitei-me para descansar. Por volta das 17:00 saí com Maria José para comprarmos um macarrão que ela faria para todo o grupo. Quando chegamos, recebi a terrível notícia dos atentados terroristas nos EUA. Dizer que fiquei chocada é pouco e nem de longe traduziria o que todos sentiam. Como as notícias que chegavam eram meio sem nexo, voltei à Internet, que estava lentíssima. Talvez por causa do acontecido. As notícias a que tivesse acesso não acrescentavam muito. Ao que tudo indicava a única coisa certa era que uma catástrofe havia acontecido e muito mais poderia vir a acontecer.

Depois do jantar, que foi ótimo, fomos a um café e assistimos a um noticiário espanhol que pouco acrescentava ao que sabíamos. Este será um dia inesquecível, mas definitivamente não será pelas razões boas que o caminho nos inspira. Agora só nos resta rezar muito para que não fique pior ainda a situação.

12/09/2001 – St. Domingo de la Calzada/Belorado

Não dormi nada bem. Fiquei muito impressionada como o ataque terrorista de ontem. Fico aqui pensando que qualquer um de nós poderia estar num avião usado por esses lunáticos. Fico pensando na pouca segurança que há nos vôos e que precisarei estar em um vôo internacional em um mês. Devo estar ficando paranóica, mas quem não ficaria?

Acho que o que não me deixa esquecer do acidente é o fato de que vai contra tudo o que estamos vivenciando no caminho: alegria, solidariedade, amizade e, principalmente, vida. Com certeza ficaria chocada em qualquer situação, mas agora é muito mais forte.

Saímos um pouco mais tarde, às 6:30 h. Como pegaríamos de início a "carretera", fiquei com medo de sair no escuro como em Navarrete, mas felizmente, havia um caminho paralelo por todo o percurso e não foi preciso caminhar pelo acostamento.

O caminho de hoje foi fácil. Praticamente todo reto. Fiz todo o percurso com muita energia e sem grandes desconfortos. Caminhei quase todo o tempo sozinha e isso estava fazendo falta na caminhada pois quando se caminha acompanhado a gente se distrai e, às vezes, sequer presta atenção na paisagem. Hoje foi um dia bem gostoso, sem calor forte, sem subidas ou descidas fortes, sem dores. Vim bem depressa e cheguei ao albergue mais ou menos às 11:45 h.

Além de andar depressa pude vir meditando a respeito da vida, minha vida. E uma vez quando olhei o céu, que estava muito azul e limpo e vi lá em cima o sinal de um avião passando, emocionei-me muito. Não havia como não lembrar do acontecido recente.

Hoje no albergue houve, finalmente, um quiproquó com o grupo de franceses que viajam de carro de apoio. Um grupo de espanhóis os entregaram aos hospitaleiros e foi um auê danado e merecido. Além disso, uma alemã chegou na frente e passou com seus amigos dizendo que o namorado ou marido estava doente.

Isso é outra coisa que dói: ver como o objetivo da peregrinação está sendo perdido. Não acredito que essas pessoas possam estar fazendo uma peregrinação quando vivem enganando e desrespeitando os demais. É revoltante!

Depois de me instalar, tomei um banho, lavei a roupa e saí para comer. No bar a TV noticiava o acidente. Infelizmente esse acontecimento vai fazer parte do resto do caminho.

Retornamos ao albergue e fui, mais uma vez, anotar os acontecimentos do dia. Após as anotações desci pois todos os brasileiros estavam na cozinha/refeitório. Fui conversar com os hospitaleiros (curiosidade é terrível) e perguntar de onde eles eram. Eram suíços. Daí comecei a falar meu alemão capenga e eles adoraram e não falaram mais em outra língua pois o espanhol deles era horrível e eu não falava francês.

Mais tarde saí para ir ao mercado. Vida de peregrino é assim. Chega, guarda as coisas, toma banho, lava a roupa, cuida dos machucados, come, descansa, escreve o diário e sai para comprar café da manhã/lanche para o dia seguinte.

Quando voltei, as baianas tinham preparado uma arroz com lentilhas que saboreamos com coca cola que eu havia comprado. Enquanto comíamos, chegou um brasileiro (Caco) e o hospitaleiro pediu que eu traduzisse o que ele queria falar. Bem, assim eu o fiz e descobri porque, afinal de contas, eu havia estudado alemão. Depois que voltei da Alemanha em 1997 foi a primeira vez que me foi útil. Viva!!! Pra alguma coisa serviu, né?

Hoje "perdemos" a Maria José, que ficou em Redencilla del Camino. Estava resfriada e não agüentou prosseguir. Cada vez que nos perdemos de um amigo ficamos tão tristes!!! Até parece que a gente se conhecia há muito tempo.

13/09/2001 – Belorado/San Juan de Ortiga

Mais uma noite em que dormi mal. Acordei às 2:00 h da manhã tremendo de frio. Vesti minha blusa e dormi de novo. Acordei às 4:00 h com vontade de ir ao banheiro. Levantar, atravessar todo o albergue em silêncio e voltar. Haja penitência, ou melhor, paciência!!! Às 5:20 levantei-me, acordei a Jô e fomos nos arrumar para mais um dia.

Hoje o dia começou com uma novidade: resfriei-me. Também pudera, além do frio que tem feito, ontem puseram um alemão muito gripado junto a todos nós. Agora, além de estar "naqueles dias", estou resfriada e precisando andar 25 km. Fazer o quê?

Saímos às 6:10, ainda escuro e gelado e andamos a primeira metade do caminho bem rápido pois o caminho era plano. Às 9:00 paramos em um café em Villafranca Montes de Oca, para, além de tomar café, ir ao banheiro. O bar era horrível. Legítimo bar de caminhoneiro.

Continuamos a segunda etapa de 13 Km. Subir e subir. Já estava com saudades das subidas. O bom da etapa é que são 13 Km sem paradas, sob um sol quentíssimo. Puxa, e como foram longos esses quilômetros!

Cheguei por volta de 12:30 h ao monastério de S. Juan de Ortega. O lugar, como já havia ouvido falar, é um lugar sem conforto nenhum. Neste dia em particular sequer tinha água quente. Tomei, como diriam na minha terra, um banho de gato! Jamais entraria debaixo de uma ducha gelada. Iria sair daqui com uma pneumonia dupla, se é que isso existe. Pouco depois do meu "banho", a bomba d'água estragou e ficamos sem uma gota de água nos chuveiros e sanitários. Pior do que isso não poderia ficar.

À tarde fui almoçar no único bar do local: uma salada de tomate, alface e azeitonas e pão. Um almoço digno de um mosteiro.
Em seguida fui telefonar para casa pois a Jô havia telefonado para a casa dela e todos estavam querendo que ela voltasse em virtude do ataque terrorista nos EUA. Liguei e felizmente minha mãe não estava preocupada. A ligação caiu duas vezes. Credo, neste lugar nem o telefone funciona. Ai, eu queria ir embora daqui.

No final do dia encontrei-me com mais três brasileiros: a Malu, de Curitiba, o Gonçalves e o Edson de São Paulo. Ficamos conversando e tomando vinho até tarde. A conversa serviu para compensar a decepção com o lugar onde eu estava.
No final da noite consertaram a bomba d'água.

14/09/2001 – S. Juan de Ortega/Burgos

Nessa noite não dormi de jeito nenhum. Além de não estar bem, foi um festival de roncos que nem usando protetor de ouvidos consegui dormir. Levantei-me às 5:30 h e saímos às 6:10 h.

A etapa de hoje não foi nada fácil. Até entrar em Burgos foi Ok. A entrada da cidade foi dureza: aproximadamente 5 Km em uma avenida e depois atravessar toda a cidade até o albergue que fica no meio de um parque.

Cheguei cansada, machucada e irritada. E lá na porta do albergue estavam os franceses boa vida do carro de apoio. Isso deu mais raiva ainda. Onde estão os peregrinos do caminho???

Para melhorar meu humor, fiz mais bolhas nos meus pés. Além disso, mais uma vez não havia água quente nos chuveiros. Mais um banho frio. Era tudo o que eu mais precisava.

No final da tarde, os peregrinos foram agraciados com um passeio de trenzinho pelos pontos históricos da cidade. Ainda bem, senão eu não teria conhecido Burgos. Não tinha condições físicas e psicológicas para mais esforço.

No passeio reencontrei o Eduardo (Campinas) que havia iniciado o caminho com a gente. Foi ótimo tê-lo reencontrado. Hoje acabei encontrando mais um brasileiro, o José Carlos de Campinas. No final da noite ainda chegaram três ciclistas brasileiros, mas não cheguei a conversar com eles.

Burgos é linda e vale a pena fazer uma parada aqui, mas o caminho me chama. Não tenho vontade de ficar e sim prosseguir.

À noite fui jantar com o Gonçalves, Edson, Marisa, Aurora e Cacá. A conversa é sempre muito boa. Voltamos em torno de 10:00 h da noite e as luzes do albergue já estavam apagadas. Deitei-me sem pensar nem em arrumar a mochila para o outro dia.

15/09/2001 – Burgos/Hornillos del Camino - 18

Não dormi, apaguei completamente. Acordei às 5:45 h porque o pessoal já estava saindo e fazendo muito barulho (o que é muito normal). Fiquei quieta só aproveitando o aconchego da cama, sem vontade nenhuma de me levantar e sair no frio. Tem esfriado bastante desde que chegamos. Está cada dia mais frio.

Logo depois a Jô veio chamar-me. Levantei-me e fui arrumar as coisas bem devagar, quase parando. Fiz os curativos nas bolhas novas e saí. Tomei café do lado de fora e saímos.

Cada passo parecia o fim do mundo, uma tortura. Logo depois parece que melhorou e fui caminhando mais rápido.

Em Rabé de las Calzadas encontrei-me com o José Carlos e Arnal, um espanhol de Barcelona e fomos caminhando juntos. Conversei um pouco com o espanhol e em um certo trecho senti novamente a bolha do pé e parei. A dita cuja havia aumentado de tamanho. Cuidei de tudo. Fiz curativo e me levantei. Doeu como nunca. Eu não conseguia colocar o calcanhar no chão. Continuei a caminhada mais devagar que antes. Na verdade eu prossegui arrastando-me porque não podia, de maneira nenhuma, dizer que caminhava.

Quando vi Hornillos del Camino do alto do moro quase dei pulos de alegria. Depois de mais meia hora de caminhada cheguei e fomos ao albergue que, embora fosse bem pequeno, era muito arrumadinho. Algo de diferente pois até agora só havíamos dormido em lugares grandes e lotados.

Tirei a maldita bota (não posso nem olhar para ela) e fui almoçar em um bar a 200 m do albergue. Os tais 200 m mais pareciam 2 Km tamanha era minha dificuldade para andar.

Encontrei-me com a Jô que já voltava do bar e ela voltou comigo. Comi um bocadillo de presunto e queijo e tomei um suco de laranja. Antes de terminar, chegaram a Vanilde e o Marcelo e ficamos conversando um pouco.

Voltei ao albergue para tomar um banho e descansar. Logo Marisa e Aurora chegaram com o jeito animado muito próprio das duas. Conversamos e Aurora foi tomar o banho e voltou com a boa notícia de que a água estava fria. Avisei de imediato que não tomaria banho. Depois Marisa foi tomar banho e voltou dizendo que a água estava quente e contou como regular a temperatura.

Fiquei animadíssima com a possibilidade de um banho decente depois de quatro dias tomando banho de gato e fui tomar meu banho. Foi a glória, a melhor coisa que me aconteceu nos últimos dias. Banho abençoado!
Depois do banho lavei umas peças de roupa e fui sentar-me em um banco ao lado da igreja. A paisagem, embora seca, inspirava poesia. Peguei meu diário para anotar minhas últimas peripécias.

Enquanto escrevia, Jaqueline, uma francesa sentou-se ao meu lado e começamos a conversar sobre a paisagem. Ela, então, ao saber que eu era brasileira falou um pouco de português e disse que já havia visitado Rio e São Paulo e que a filha estava de férias na Bahia. Definitivamente estou mudando de idéias com relação aos franceses (exceto os do carro de apoio). Há muitos muito simpáticos e felizmente tenho encontrado mais dessa espécie no caminho.

Após alguns minutos ela se despediu e foi descansar e eu fiquei com meus pensamentos e a linda paisagem a minha frente. Fui buscar minha câmera e tirei algumas fotos. Sentei-me no banco novamente e fiquei pensando na manhã de hoje, nas minhas dificuldades, nas minhas dores, no caminho e de repente, me veio a impressão de que meu caminho estava começando em Burgos. Tentei afastar a idéia pensando em outras coisas, mas aquela idéia continuou ali, bem presente.

Deitei-me no banco e fiquei sentindo o calor do sol. Uma brisa veio e tocou meu corpo como um alento para um dia que havia começado tão difícil. Bateu um sensação de que tudo iria melhorar. E aconteceu algo que eu ainda não havia sentido no caminho e havia sentido muito enquanto preparava para a viagem: uma emoção muito forte e chorei. E as lágrimas fizeram um bem enorme.

As famigeradas mesetas de Burgos estavam exercendo uma atração muito forte. Não sei bem como explicar, mas havia uma empatia enorme entre nós. Fiquei ali deitada, ao lado da igreja, de frente para as montanhas e os campos secos, sob o sol maravilhosos da Espanha, em Hornillos del Camino, um povoado do qual jamais me esqueceria e que seria sempre muito, muito especial.

Voltei ao albergue quando a turma também voltava do almoço. Já eram 16:00 h e todos se deitaram e eu também. Cochilei por uma hora e foi o suficiente para renovar as energias.
Na porta de entrada do albergue está escrito o seguinte provérbio chinês: "Caminhos fáceis não levam longe." Curioso, muito curioso.

16/09/2001 – Hornillos del Camino/Castrogeriz

Dormi bem. Acordei por volta de 6:00 h da manhã e comecei a me preparar para a caminhada. Hoje saímos mais tarde, eram quase 7:00 h. No início estava nublado, ventava muito e fazia frio. Andamos com o tempo assim até 9:00 h quando um sol tímido surgiu.

Paramos para tomar café às 9:30 em Hontanas. Só havia um bar imundo: o Bar do Vitorino! Fazer o quê, tendo em vista que eu também precisava muito ir ao banheiro.

Saímos e seguimos para Castrojeriz. Após ter andado mais ou menos uma hora, de repente me encontrei numa estrada maravilhosa. De um lado havia plantações de girassol e a estrada ainda trazia de ambos os lado, carvalhos enormes que sombreavam o caminho sob o sol do meio-dia.

A visão era tão linda que até me esqueci da dor dos meus pés, que não doíam tanto como ontem, mas certamente ainda incomodavam bastante. Andei tão devagar hoje que todos deixaram-me para trás. Estar só foi muito, muito bom. Aquela sensação boa de ontem retornou e me enchi de felicidade por estar ali, caminhando sozinha. Era uma sensação de paz muito grande.

Parei e me sentei em um tronco caído em um dos lados da estrada e fui checar meus curativos. Retirei as botas e meias e fiquei um pouco ali sentada apreciando a paisagem e sentindo o sol. Depois prossegui com calma. Parei algumas vezes para fotografar e após uma meia hora avistei Castrojeriz. De longe a visão da cidade é encantadora. A cidade fica no pé de uma montanha e possui as ruínas de um castelo no topo.

Gostei antes mesmo de entrar no povoado. Ao entrar, encontrei dois ciclistas brasileiros e parei para cumprimentá-los. Segui caminhando e em frente a um bar, um senhor chamou-me perguntando se era brasileira. Conversamos e ele contou que já havia estado no Brasil e que gostava muito e sugeriu que eu ficasse no albergue novo e me indicou a direção. Esse senhor era o Antonio, dono do Bar La Taverna, grande admirador do Brasil, pessoa de gentileza ímpar com todos os peregrinos!

Quando cheguei, a Jô, Vanilde e Marcelo já estavam esperando. Após deixar minhas coisas e tomar o melhor banho das últimas semanas e fui para o bar, entrar na internet. Passei uma mensagem para o pessoal, comi um bocadillo e voltei ao albergue, onde decidi ir até as ruínas do castelo. Até lá é uma subida pesada, mas de lá do alto pode-se ver toda a região. É bem bonito.

Desci e retornei ao albergue para descansar um pouco e recolher a roupa que já estava seca. Depois liguei para Araxá e conversei com a mãe. Falar com a família sempre traz um alento quando estamos longe! Quisera eu poder fazer isso mais vezes.

À noite fui jantar com as baianas e lá chegando, encontrei o Eduardo de Campinas que resolveu jantar com a gente.
Voltamos às 9:30 h e o albergue já estava com as luzes apagadas. Tentei organizar minha mochila que está o caos. Escovei o dentes e fui dormir.

Dormi como uma pedra. Acordei às 5:30 h e fui ao banheiro, retornei e me deitei novamente. Levantei-me de fato às 6:30 h. Arrumei a mochila e quando me preparava para tomar café, a hospitaleira Marisa veio convidar-nos para tomar café. havia água quente para o preparo de café ou chá, leite e bolachas. Nada melhor para um brasileiro que um cafezinho quente de manhã.

O albergue novo de Castrojeriz e seus hospitaleiros é realmente especial. Foi a primeira vez que um hospitaleiro estava presente quando nos despedimos. Saí de lá triste por não poder ficar mais um pouquinho.

Hoje saímos mais tarde. Eram 7:30 h e pegamos logo a subida de uma montanha. Ao chegar lá em cima assistimos a um nascer do sol espetacular. São essas coisas que fazem com que levantar cedo valha a pena.

Tenho lido sempre que as mesetas são cansativas, mas até agora achei tudo lindíssimo. A vastidão das planícies dão-me uma sensação de liberdade muito grande. Andei a primeira metade do caminho com muita facilidade. Ao cruzar a fronteira de Burgos e Palência, comecei a sentir minhas pernas mais pesadas, em especial a direita. E a partir dali a situação foi ficando pior.

Pouco antes de Boadilla del Camino, parei para descansar e encontrei três brasileiros: dois gaúchos e uma paranaense. Conversamos um pouco e segui caminhando com um deles, o Geraldo. Como minhas panturrilhas estavam doendo cada vez mais, parei em Boadilha e retirei as botas para ver se relaxava um pouco os músculos da perna.

Para minha tristeza a bolha que eu julgava ter sarado, estava cheia de novo. Tendo em vista que o curativo havia saído do lugar, machucar novamente era bem natural. Refiz o curativo, lanchei e segui o caminho. Faltavam só 6 Km para o destino final: Frómista. Contudo, antes mesmo de sair do povoado, vi que a coisa estava feia.

Minhas panturrilhas estavam travadas. A perna direita pesava muito e mal saído do lugar. Fui arrastando-me pela estrada e pedindo a Deus que o percurso terminasse logo. Cheguei a parar e passar Calminex para ver se melhorava. Mas foi em vão. Doía demais.

Cheguei em Frómista por volta de 14:00 h e assim que me registrei subi ao quarto, tomei um banho e me joguei na cama. Como o comércio já estivesse fechado para a siesta, nem saí para comprar alguma coisa. A Jô ofereceu-me o lanche dela que comi no quarto mesmo.

Estava escrevendo no diário, quando Marisa, Aurora e Eduardo chegaram. Todos arrasados com a caminhada do dia. Ao que tudo indicava não fora só eu a única afetada pelo exercício.

O que tinha o albergue de Castrojeriz de aconchegante e agradável, o de Frómista tinha de frio e desagradável. A estrutura do prédio, beliches, banheiros é muito boa, mas o hospitaleiro é frio e meio grosso. Infelizmente esse é o padrão mais predominante no caminho.

Às 5:00 h fui ao supermercado fazer compras. Quando voltei, as baianas e a Jô estavam lanchando e sentei-me com elas. Conversamos um pouco e resolvi sair para fotografar a igreja e ter pelo menos uma lembrança da cidade, embora não me tenha causado nenhum tipo de sensação especial.

Estava fazendo um frio horrendo e ventando muito. Todos por aqui dizem que a tendência é de esfriar mais ainda. E olha que estamos nas tais mesetas espanholas, região árida. Só que faz um frio... o tempo todo. Tenho andado durante toda a caminhada com blusa de frio. Só quero ver quando chegar a Galícia.

Por volta de 19:00 h comi um sanduíche e fui arrumar minha mochila. Como não havia muito o que fazer fui dormi às 20:30 h.

18/09/2001 – Frómista/Carrión de los Condes

Não dormi bem. Desta vez nem posso reclamar do barulho pois estava bem tranqüilo. Acho que meu desconforto vem do resfriado que me acompanha a mais ou menos uma semana. Em vez de melhorar parece estar piorando.

Saímos do albergue às 7:10 h e seguimos para Carrión de los Condes. A etapa de hoje continuou pelas mesetas espanholas e não apresentou nenhuma novidade. Praticamente seguimos uma via paralela à estrada, sempre em linha reta.

Meus pés ainda incomodam. Minha panturrilha continua um pouco travada e as bolhas do calcanhar não saram por nada, o que vem dificultando bastante minha caminhada. É duro saber que posso caminhar mais do que estou caminhando e, no entanto, tenho tentado fazer percursos menores para poupar meus pés e não tem ajudado também.

Estou bastante frustrada com a situação porque, é claro, sempre existe a possibilidade de não continuar o caminho ou pular etapas. Ambas possibilidades nem passam pela minha cabeça e procuro não pensar nisso.

Viemos parando muito e não senti tanto o caminho como ontem. Chegamos em Carrión de los Condes por volta das 12:00 h e preferimos ficar no albergue particular que oferecia cama, lençol e toalha de banho, um luxo de que há muito não usufruíamos. Além disso, permitia até um pouco de privacidade, pois o quarto era só para três pessoas.

Cheguei, tomei banho, lavei roupa e saí com a Jô para almoçar. Dei uma voltinha na cidade retornei ao albergue para descansar.

Após as 17:00 h, quando as lojas abrem novamente, fui procurar a internet para me comunicar com a turma. Felizmente desta vez achei o lugar mais barato. Li as mensagens e enviei outra.

Passei no supermercado em seguida e voltei ao albergue. Como não encontrei a Jô, saí novamente e me encontrei com ela chegando, pois havia comprado um casaco e luvas. Como eu também estava precisando de luvas fui ao mesmo lugar e comprei um par. Nas últimas duas manhãs estava tão frio que nossas mãos ficaram duras e doeram muito. As luvas tornaram-se então extremamente necessárias.

Voltei ao albergue onde Jô havia preparado um sopa que tomamos com pão. Foi ótimo, um jantar bem leve.

Após o jantar, Jô foi dormir e como ainda eram 20:00 h eu resolvi ir ao albergue municipal onde os outros estavam para saber notícias da Marisa que havia chegado com dores fortes no joelho. Ela e Aurora haviam ido para o restaurante, para onde também segui. Fiquei lá conversando com as duas enquanto ambas jantavam.

Retornei ao albergue às 21:30 h. Estava muito frio e o termômetro da praça marcava 13 graus. Ouvi dizer que daqui para frente vai ficar cada dia pior. Socorro!

23/09/2001 – Manzilla de las Mulas/León

Falar que dormi mal novamente seria muito repetitivo, então seria melhor dizer que um peregrino nunca dorme bem, ou seja, quase nunca. Essa noite, além de tudo, houve uma festa nas proximidades do albergue e como meu quarto dava para a rua... cochilei e acordei à 1:30 h da manhã com o barulho da música. Fui ao banheiro e na volta, Marisa que também estava acordada quis saber que horas eram. Respondi e me deitei. Demorei a pegar no sono novamente.

Fui acordar novamente já no início da manhã. Imagino que fosse por volta de 6:00 h. Já ouvia o barulho de peregrinos saindo e também escutava o barulho de chuva, o que muito me desanimava. Além de estar gripada, tossindo muito, ainda teria de me molhar durante a caminhada.

Mas Deus olha por nós e teve piedade pois quando saímos não chovia mais e durante toda a caminhada, embora o tempo estivesse muito carregado e com ares de muita chuva, não caiu uma gota sequer.

Antes de sair do albergue fui agradecer e me despedir do Wolf pela acolhida e ajuda com as bolhas. Encontrar pessoas como ele faz com que o caminho esteja valendo a pena. Despedimo-nos com um abraço e ainda ganhei uma moeda de 100 pesetas com o desenho da vieira, símbolo do caminho.

Saímos às 7:50 h e estava bastante escuro. Eu e Jô decidimos vestir nossos impermeáveis para facilitar no caso de começar a chover rapidamente, mas nos precipitamos pois como já disse não caiu uma gota de água.

A caminhada foi bastante tranqüila e chegar a León não foi nem de longe tão ruim quanto chegar a Burgos. Fomos para o albergue municipal considerando ser mais perto que o albergue "das Monjas". Além disso esse negócio de monjas não me atraiu nem um pouco. Já chega ter morado num pensionado de freiras.

No caminho, paramos em uma esquina, pois não encontrávamos mais as flechas amarelas e para nossa surpresa, avistamos o Ronaldo e Júlio que acenavam mostrando o caminho certo pois já haviam localizado o albergue. Chegamos, assim, com facilidade e ainda não eram 12:00 h. Tivemos de esperar um pouco mais pois só abria às 12:30 h. Fomos umas das primeiras e logo que nos alojamos, tomei um banho e lavei a roupa suja. Quando saí encontrei Marisa e Aurora chegando e combinamos de ir almoçar.

Fomos almoçar num restaurante chinês só para variar um pouco. Acabamos tendo a agradável surpresa de descobrir que o menu do peregrino era só 800 pesetas e a comida, bastante gostosa e farta.

Saímos de lá e fomos para o centro da cidade. Quando chegamos, a idéia era fazer um tour, mas as meninas não estavam interessadas e não gostei muito do lugar onde devam as informações sobre o passeio. E como teria de esperar um pouco, acabei mudando de idéia. Tiramos algumas fotos e as duas resolveram voltar para o albergue. Eu fiquei por lá mesmo pois queria visitar a catedral. Enquanto andava, encontrei um português e uma húngara, ambos peregrinos, e fiquei andando com eles. Fomos até ver uma exposição de esculturas em madeira de um artista espanhol, nada muito especial.

Voltamos em torno de 17:00 h, quando a catedral abria para visitação. A catedral é realmente maravilhosa. De todas as igrejas góticas européias que visitei, esta é a mais bonita de todas. Valeu a pena ter esperado para visitá-la.

Na saída, acabei encontrando vários peregrinos, inclusive a turma de brasileiros. Falei oi para todos e voltei ao albergue. O termômetro marcava 17 graus e para mim estava bem frio, ainda ventava. mas, mesmo com o céu encoberto não choveu durante a tarde.

Hoje liguei para casa e as notícias não foram muito animadoras. Ainda bem que não estou lá. De problemas bastam os meus, os dos outros a eles pertencem!

À noite fui conversar com Marisa e Aurora e depois chegou Beth e César. Conversamos até 22:00 h, o horário do silêncio, quando me recolhi para dormir.

24/09/2001 – León/Villadangos del Páramo - 27

Levantei-me às 6:30 h por não agüentar mais ficar na cama. Acordei várias vezes durante a noite por causa da tosse. Em uma delas, tossi tanto que resolvi ir para o banheiro e ficar por lá até a crise passar. Um horror!

Saímos às 7:00h pois tudo indicava que a saída de León seria demorada e alguns ainda diziam que também seria difícil e que muita gente se perdia. Bem, lá fomos nós. Saímos da cidade sem problema algum pois o caminho é até bem sinalizado. O único detalhe foi que demoramos duas horas e meia para sair de León. Devemos ter andado mais de 6 Km até sair realmente da cidade. Depois vieram vários povoados até chegarmos a Villadangos del Páramo, nosso destino, por volta de 13:10 h.

A caminhada de hoje foi muito boa. Agora que me livrei do fantasma das bolhas, estou caminhando com bastante tranqüilidade. Graças ao bom Deus, a chuva passou e tivemos uma temperatura bem agradável e o sol não estava muito quente.

A paisagem não foi das mais bonitas por que caminhamos pela periferia e área industrial de León e depois viemos acompanhando a rodovia.

O albergue fica localizado bem na rodovia e o trânsito é intenso. O local é bem simples, precisa de uma reforma urgente, mas a senhora responsável foi bastante cordial ao receber-nos.

Cheguei e fui logo tomar meu banho, enquanto Jô ia ao mercado comprar nosso almoço. Depois ela foi tomar banho e eu fui tentar preparar o almoço. Tarefa um tanto difícil considerando a situação precária do fogão que não esquentava de jeito nenhum até que pedi socorro à hospitaleira, que não foi de grande ajuda pois o problema era com o fogão mesmo.

Enquanto Jô cozinhava, falava que faria muita comida pois acreditava que Marisa e Aurora não iriam até a próxima cidade como haviam dito ontem e que se passassem por ali teriam comida. Eu não acredita muito nisso mas a Jô sim. Contudo, quando estávamos terminando de comer, as duas entraram no albergue perguntando se havia almoço para elas. As previsões de Jô de fato confirmaram-se e elas ficariam no povoado com a gente.

Lavei roupas e no final da tarde fui procurar um mercado. As baianas fizeram o jantar que prontamente comemos. Temos dividido as refeições e isso tem sido bastante divertido.

Lá fora ventava muito e fazia mais frio ainda. Fiquei pensando no que ainda vinha pela frente, principalmente quando começarmos a subir o Cebreiro na próxima semana. Vamos todos nos tornar picolés. Definitivamente não estou preparada para viver no hemisfério norte.

25/09/2001 – Villadangos del Páramo/Astorga

Depois de uma boa e restauradora noite de sono, saímos às 7:00 h de Villadangos del Páramo, um povoado que não tinha nada de especial porém nos ofereceu um teto e acomodações, o que para um peregrino cansado é um tesouro!

Ainda estava bastante escuro, mas fomos andando com a ajuda da lanterna. Logo começou a clarear e aí pudemos prosseguir com tranqüilidade. Caminhamos os 12 Km iniciais paralelo à estrada até chegarmos a Hospital de Órbigo, um povoado bastante simpático, com uma ponte bem bonita conduzindo ao centro.

Embora estivesse frio, a manhã estava bem bonita e agradável para a caminhada. Caminhei com bastante facilidade, parando umas duas vezes para trocar os curativos das antigas bolhas a fim de proteger o local que ainda estava bastante sensível.

Por volta de 11:00 h passamos por um vilarejo e procuramos um bar, mas fomos informadas de que estava fechado. Continuamos andando e encontramos o albergue. Aproveitei para ir ao banheiro. Depois fomos em frente. Pouco depois de termos saído, passamos por uma plantação de maçãs, pêras e uvas. Não pude resistir, tamanha era a fome que sentia. Eu e Jô atacamos as frutas. As maças e as uvas estavam super gostosas e tivemos um ótimo almoço frugal.

O trecho seguinte até o próximo povoado foi longo e cansativo e só chegamos lá às 13:00 h. Como ainda tínhamos mais 4 Km até Astorga, que já víamos à distância, entramos em um bar e comi um bocadilho com Coca-Cola. Descansamos um pouco e seguimos para Astorga.

A entrada de Astorga é meio confusa (faltava sinalização) e precisamos pedir informações a uma moradora, mas felizmente deu tudo certo e chegamos bem e rápido ao albergue.

Fomos muito bem recepcionadas por um hospitaleiro francês: Jean Paul que nos conduziu ao quarto e nos contou que ali havia uma hospitaleira brasileira: Vera que conhecemos mais tarde.

Fui logo tomar um banho, aproveitando que havia pouco gente no albergue e depois fui lavar roupa. Em seguida chegaram os brasileiros Júlio e Ronaldo e André. Conversamos um pouco e fui anotar meus relatos do dia.

Saí, mais tarde, para ir ao mercado e encontrei o Ronaldo e Júlio almoçando (embora estivesse mais para um jantar pois eram mais de 16:00 h), que me convidaram para comer. Acabei comendo também e depois fui às compras. Voltei ao albergue, onde consegui um mapa da cidade e saí para conhecê-la. Antes, porém, passei pela internet para checar meus e-mails e responder aos amigos.

Astorga é bem pequena, aproximadamente 14 mil habitantes, mas é um charme, cheia de história. Eu jamais imaginaria que a cidade tivesse sido fundada pelos Romanos por volta do ano 40 d.c. Ainda hoje há ruinas de edificações da época. Contudo pela hora (mais de 18:00), não pude mais visitar o local. Apenas passei pelos lugares mais próximos e aproveitei parar tirar algumas fotos e retornei ao albergue.

Discuti os próximos roteiros com Jô e ficamos muito tranquilas com o restante do caminho planejado.

Por volta de 19:30 h chegaram Rosa, Beth e César super cansados da caminhada de 30 Km. Conversamos um pouco e fui arrumar minha mochila. Depois fui me preparar para dormir. Como o tempo passa rápido no caminho.

26/09/2001 – Astorga/Rabanal del Camino

Dormi muitíssimo bem e se alguém roncou não ouvi nada. Também pudera, acho que com a etapa duríssima de ontem todos estavam tão cansados que simplesmente apagaram.

Acordei bem cedo com o movimento daqueles que saíam cedo. Fiquei um pouco deitada só ouvindo o barulho das pessoas arrumando suas mochilas e saindo. Às 6:30 h fui ao banheiro, escovei os dentes e comecei a arrumar minhas coisas. Jô acordou e também foi-se arrumar. às 7:00 h já estávamos prontas, contudo com o frio que fazia, resolvemos esperar mais um pouco. Despedimo-nos do Jean Paul e saímos precisamente às 7:30 h.

Ainda estava bem escuro e fazia muito frio. Andamos por volta de uma hora até que o sol nascesse e começasse a esquentar. Até que minha blusa esquenta, mas a calça parece papel. Minhas pernas quase congelaram.

Às 8:00 h chegamos a Murias de Rechival onde paramos para tomar um café com leite e ir ao banheiro. Não demoramos muito e seguimos. Perto de 9:00 h paramos em St. Catalina de Somoza onde parei novamente em um bar para ir ao banheiro.

No bar, encontrei-me com o Ronaldo e Júlio com que continuei caminhando e conversando até El Ganso, onde paramos para outro café e banheiro. Peregrinas nunca perdem a oportunidade de ir ao banheiro quando encontra um. nessa etapa houve vários felizmente. Nem sempre é assim.

Saí antes dos rapazes e fui caminhando com Jô e depois sozinha. Em um trecho um outro peregrino pediu-me para tirar uma foto dele e continuei o caminho conversando com ele. Descobri que era Argentino e que depois de terminar a faculdade andava passeando pela Europa. Bastante simpático o rapaz.

Chegamos a Rabanal del Camino às 12:30 h onde nos despedimos pois eu ficaria ali e ele seguiria caminhando.

Inicialmente paramos no albergue mais antigo (da confraria inglesa), mas como só abriria às 14:00 h a turma resolveu ir para o novo e não nos arrependemos pois o pessoal era bastante simpático e as instalações bem boas.

Tomei um banho e enquanto isso os "rapazes" prontificaram-se a preparar o almoço, que só foi sair às 15:00 h. Enquanto isso fui escrever o diário. Quando estava escrevendo chegou um brasileiro Mircos (Santos/SP) e se apresentou. Ele estava em Rabanal estudando no mosteiro e também trabalhava como hospitaleiro no albergue.
Conversamos por um longo tempo. Uma figura bastante interessante.

Depois fui almoçar. O almoço foi bem divertido com todos brincando e elogiando os dotes culinários da rapaziada. As mulheres hoje limitaram-se a comer e Jô no final foi lavar a louça suja.

Após o almoço fui ao mercado comprar ingredientes para preparar um jantar e passeei um pouco pelo povoado. Passear não é bem o termo pois Rabanal é minúscula e se conhece em 10 minutos, mas é bem bonitinha e super diferente de tudo o que vimos antes. Há um estilo diferente na forma em que foram construídas as casas.

No final da tarde chegaram mais dois brasileiros o Sílvio (São Paulo) e José Alfredo (Pernambucano radicado nos EUA). Resolvemos fazer um grande jantar. Doei minhas coisas e a italiana (namorada de um dos brasileiros) fez um macarrão. Embora a janta tenha sido boa, faltou um pouco do nosso tempero brasileiro. Nosso macarrão é bem melhor!

27/09/2001 – Rabanal del Camino/Molinaseca - 30

Dormi muito bem, embora muitos tenham reclamado dos roncos. Não ouvi nada, felizmente. Acordei com o movimento dos que saíam e me levantei por volta de 6:45 h. Como no albergue havia um bar, tomei meu café ali mesmo e saí às 7:50 h.

A manhã foi clareando e nos mostrando paisagens belíssimas das montanhas de León. O início da caminhada era subida e fomos subindo, subindo, subindo até chegar a Foncebadón, povoado em ruínas, famoso pela cena de luta entre Paulo Coelho e um cão no livro "O diário de um mago". Atravessamos as ruínas e seguimos adiante, sempre subindo até chegarmos à Cruz de Ferro, outro marco do caminho.
Paramos, lanchamos, colocamos nossa pedra junto à cruz e fizemos nossas orações. Seguimos nosso caminho sempre subindo até Majarin, onde vive Tomás que diz ser um cavaleiro templário. O lugar me pareceu uma bagunça, sujo e cheio de animais andando em meio a peregrinos curiosos. Há quem goste e se divirta com a história toda, eu, porém, resolvi seguir a caminhada que se mostrava bem pesada. Devemos ter andado mais uns 3 Km pra cima até que começou uma descida vertiginosa rumo a El Acebo!

Aqui ou escala-se uma montanha ou despenca-se dela. É duro!!! Meus joelhos doem só de me lembrar. Não é brincadeira. É necessário muito cuidado pois uma possível queda poderia, em alguns trechos, ser fatal mesmo.

Fomos passando por povoados super bonitos e paisagem deslumbrantes. Embora pesadíssimo o trecho de hoje foi também maravilhoso.

Chegamos a Molinaseca às 15:00 h. Estávamos cansadíssimas, eu a Jô. Fomos diretamente ao albergue e fomos surpreendidas pela notícia de que éramos as primeiras brasileiras do dia. Entramos e fomos escolher nossas camas quando o Ronaldo e o Júlio chegaram. Conversamos e fui tomar meu banho e checar minhas novas bolhas. Puxa, não sei o que acontece comigo e essas bolhas. Mas, assim que cheguei fui à farmácia comprar o remédio que usaram para curar as antigas bolhinhas. Antes, porém, passei num restaurante e ainda consegui almoçar, embora fosse já mais de 16:00 h.

Voltei ao albergue e cuidei de fato das tais bolhas. Agora espero que essas não dêem problemas maiores. No final da tarde o restante dos brasileiros chegaram ao albergue.

Fui dormir às 20:30 h. Acordei às 10:30 h com uma algazarra dos brasileiros. Depois fiquei sabendo que havia um grilo no quarto e que eles tentavam matá-lo. Adormeci pouco depois e só acordei novamente às 5:30 h.

28/09/2001 – Molinaseca/Villafranca del Bierzo

Dormi bem e me levantei às 6:30 h. Acordei Jô, arrumamo-nos e saímos às 7:00 h. Estava escuro e para piorar o céu estava super carregado ameaçando chuva. Como não dava para pensar em ir/não ir, saímos logo e fomos andando.

Demoramos duas horas para chegar em Ponferrada e cheguei sentindo muita dor na bolha do pé direito. Depois de tirar uma foto, sentei-me em frente ao castelo, principal ponto turístico da cidade, tirei as botas, meias e fui costurar a tal bolha que estava cheia novamente.

Em seguida fomos tomar um café em um bar lá perto, eu, Jô, Rosa, Beth e César. Após o café, deixei o pessoal lá e fui caminhando pois imaginava que com o pé do jeito que estava não ia chegar no meu destino nunca. Mas para minha surpresa caminhei muito bem, isto é, sem dor, até Fuentes Nuevas, onde parei para trocar o curativo do pé e trocar as meias. Quando terminava chegou Jô e o José Alfredo. Continuei o caminho com eles até Camponaraya onde entramos num mercado para comprar comida. Já eram 12:00 h e eu estava faminta. Parei em uma pracinha e fui lanchar ali mesmo. Meus companheiros deixaram-me lá e seguiram.

Após o lanche, segui o caminho e um pouco na frente reencontrei meus bons companheiros lanchando. Passei por eles, acenei e segui. Um pouco depois encontrei-me com um espanhol e fomos caminhando e conversando até Cacabelos onde nos sentamos, ele para lanchar e eu para, mais uma vez, trocar o curativo e meias. Ficamos ali uns 15 minutos.

Deixei o rapaz lá terminando o lanche e continuei a caminhada. Atravessei a cidade, passei por uma feira bastante movimentada, comprei um salgado e um pedaço de bolo e continuei caminhando. Saí da cidade e fui andando pela estrada até chegar em Villafranca del Bierzo às 15:30 h, quando começava a chuviscar. Minha sorte foi enorme, ou talvez, seja proteção de Santiago. Até agora não choveu durante nossa caminhada. Chove sempre depois que chego ao albergue.

Por ter perdido um desvio para Villafranca e seguir diretamente pela estrada asfaltada, acabei chegando diretamente no albergue Ave Fénix, albergue de Jesus Jato, figura lendária no caminho. Queria muito ficar no albergue da família Jato e acabei chegando primeiramente nele. Coisas do caminho....

Quando cheguei os brasileiros, Sílvio. Ronaldo e Júlio já haviam chegado. Fui colocar minhas coisas no quarto e tomar um banho. para minha alegria a água estava completa e inteiramente gelada, mas nesta altura do campeonato não dá para ligar para esses detalhes.

Tomei o banho e fui, mais uma vez, cuidar das tais bolhas, que não me deixam em paz. Depois fui para o bar/restaurante do albergue conversar com os amigos. Depois fiquei sabendo que o Jesus Jato não se encontrava pois estava viajando.

O restante dos brasileiros só chegou às 19:00 h completamente molhados e a Jô foi parar no outro albergue. Da nossa turma foi a única a ficar lá. Como estava chovendo desde que cheguei e continuou ainda mais forte, nem saí ou fui ver o pessoal no outro albergue. Aliás, não saí do albergue. Quando cheguei tomei um café com leite e à noite jantei lá mesmo.

Fui dormir às 10:00 h, com a recomendação de não sair antes das 8:00 h da manhã por causa do mau tempo que poderia tornar a estrada perigosa devido à neblina. Há que se ressaltar que tem amanhecido por volta das 8:00 h e os 10 Km iniciais seriam feitos por auto-estrada muito movimentada.

29/09/2001 – Villafranca del Bierzo/Cebreiro

Acordei bem cedo e fiquei deitada esperando a hora certa para me levantar. Levantei-me por volta das 7:30 h, arrumei-me e fui tomar café. Ao chegar ao bar do albergue, encontrei Jesus Jato em pessoa que conversava com alguns peregrinos. Não cheguei a conversar de verdade com ele. Infelizmente havia muita gente e ele tentava atender a todos.

Tomei meu café e fiquei esperando para sair com o Ronaldo e Júlio, os únicos da turma que já estavam prontos. Contudo, como estavam demorando, pedi informações sobre a saída e fui sozinha.

Saí pela estrada e, felizmente, era sábado e não havia muito movimento. Se bem que o pouco movimento para mim já foi demais. É horrível andar pela estrada, pois mal existe acostamento e os carros passam perto demais da gente. Além disso, o trecho de hoje, pela estrada, foi de 10 Km, uma eternidade.

Após 4 Km, em Pereje, encontrei-me com a Jô e o José Alfredo tomando café. Conversamos, fui ao banheiro e segui o caminho sozinha.

De Pereje passei por Trabadelo e depois, Vega del Valcarce. Fui andando só eu e Deus. Embora estivesse nublado, não chegou a chover de fato, só caiu uma garoa no início e no fim da tarde.

De Vega del Valcarce em diante a paisagem foi tornando-se deslumbrante pois o dia clareou e andei por estradinhas num vale espetacular.

Os últimos 11 Km, no entanto, foram pesadíssimos pois iniciou- se a subida ao famigerado Cebreiro. Encontrei-me com o Sílvio que, sabiamente, havia enviado sua mochila com o Sr. Jato e que subiu com bastante rapidez. Eu fui andando devagar. Que subida!!! passei duas horas e quarenta e cinco minutos subindo e subindo. O que realmente era um grande incentivo durante a escalada era a vista das montanhas.

Cheguei ao Cebreiro pouco depois das 16:30 h e o local estava repleto de turistas. Isto é o pior daqui em diante: os turistas. E ainda estava chovendo. Não quero nem imaginar como estaria em dia de sol. Além disso, cheguei meio desnorteada devido ao cansaço da caminhada e, é claro, da subida. Atravessei o povoado até chegar ao albergue que se encontrava um pouco afastado.

Dirigi-me ao albergue, identifiquei-me e fui para o quarto onde conheci outro brasileiro, o Ronaldo de São Paulo, que havia chegado de ônibus por causa de uma tendinite e que tentaria fazer a pé os últimos 151 Km. Conversamos um pouco e fui tomar um banho. Ah, um banho quente! Era recompensa merecida depois de tanto esforço. Tomei o merecido banho e fui procurar o resto da turma que já havia chegado. Entrei o Júlio, Ronaldo e Sílvio. O restante ainda estava por chegar.

Saí para comer alguma coisa pois estava faminta. Como ainda eram 17:00 h, lanchei em um bar. Em seguida voltei ao albergue e peguei minha máquina para fotografar o vilarejo, muito embora estivesse chovendo.

Dei uma volta, visitei a igreja que, em sua simplicidade, é muito bonita, tirei fotos e retornei para escrever meu relatos do dia, embora só tenho iniciado pois o Sílvio chegou falando da missa às 20:00 h e resolvi ir também.

Enquanto nos encaminhávamos para a igreja, encontramo-nos com as baianas, o César, e a Rosalina que acabavam de chegar. Falamos sobre a missa e seguimos.

A missa foi rápida e às 20:30 h já voltávamos para o albergue, onde retornei ao diário. Contudo não consegui escrever muita coisa pois a turma conversava e fazia muita farra e não pude concentrar-me nos relatos. É claro que conversar após a caminhada é muito bom e ajuda bastante a relaxar.

Fui deitar-me por volta das 10:00 h e tive muita dificuldade para dormir pois o camarada ao meu lado roncava muito.
Tem noites que dormir torna-se um exercício árduo e impossível.

A Jô que já reclamava de cansaço e dizia não conseguir ir até o Cebreiro, realmente não chegou e penso que será difícil encontrarmo- nos novamente antes de Santiago. Mas, de repente, estar só será uma experiência importante para mim neste caminho.

30/09/2001 – Cebreiro/Triacastela

Levantei-me por volta de 6:30 h, fui ao banheiro, voltei e fiquei deitada mais um pouco. Mais ou menos às 7:00 h comecei a arrumar a mochila. Como não tinha comprado nada para o café da manhã, saí e fui a um dos bares locais tomar café.

O bar estava lotado e só havia um senhor muito lento no atendimento e uma moça que parecia ser filha dele. Devido à demora em ser atendida saí de lá às 8:30 h quando comecei a descida do Cebreiro. Pois é, para toda escalada há sempre a temida descida que vem logo em seguida. Além disso, pelas informações que tinha, depois do Cebreiro o percurso é só descendente.

O dia estava nublado, ventando muito o que carregava as nuvens para longe. Pelo menos era o que eu esperava. Se iria chover era uma incógnita. O início do caminho era pela "carretera" e, felizmente, era domingo e o trânsito, quase inexistente. Depois de uns 3 Km pegamos um caminho que descia paralelo à estrada e o início foi um sobe e desce sem fim, em meio a muita lama, pegando alguns desvios por trilhas, mas sempre voltando à estrada. Um pouco na frente encontrei o Ronaldo que ia pela estrada para poupar seu joelho. Tiramos uma foto junto a uma estátua de um peregrino e nos despedimos pois eu iria pegar a trilha novamente.

Após mais ou menos um hora voltamos a nos encontrar. Eu já estava cansada de andar na lama. Além disso, o caminho cortava, o tempo todo, pequenas propriedades rurais que criavam gado. Então além da lama.... Saí para a estrada e fui caminhando com ele por uns 2 Km até que o caminho passou a seguir apenas pela trilha no campo.

Aqui começava a descida de fato e que descida!!! Um pouco depois paramos para fazer um lanche pois já era meio dia e ainda havia muito o que andar. Tomei um suco e comi um bocadillo e segui deixando-o para trás, pois ele andava mais devagar poupando o joelho. Fui descendo... e desci por umas duas horas até chegar a Triacastela, meu destino final naquele dia.

Embora o caminho tenha sido uma grande descida, não foi tão árduo como imaginava. Além disso o percurso foi de apenas 21 Km e a paisagem das montanhas galegas era maravilhosa, o que tornava a difícil tarefa muitíssimo agradável.

Para minha sorte não choveu, ao contrário fez até o sol no trecho final.

Ao chegar no albergue, tomei um banho e fui lavar roupa, pois tudo estava muito sujo e precisava rezar para que secasse até o outro dia, senão não teria o que vestir. Esse tempo de chuva para o peregrino é dureza. Se não pela caminhada, pode ser também pela dificuldade de concluir tarefas simples como lavar roupas. Assim, além de andar com as roupas encardidas/mal lavadas, amassadas, anda também, às vezes, sujo mesmo.

No final da tarde, acabei resolvendo meu problema, dividindo as máquinas de lavar e secar roupas com Marisa e Aurora. No final do dia tinha todas as roupas limpinhas.

Após terminar minhas tarefas domésticas saí para telefonar para casa quando me encontrei com o Júlio chegando. Ficamos conversando quando surgiu mais atrás o Ronaldo. Despedimo-nos e fui telefonar.

Ainda bem que as notícias de hoje não foram tão ruins quanto as da semana passada. Se não fosse pela notícia de que havia recebido uma multa de trânsito... mas isso é para me preocupar quando voltar no próximo mês.

E por falar em próximo mês, hoje está fazendo um mês que cheguei e iniciei o caminho. Como passa depressa!! Mas a experiência tem sido fantástica. Só tenho o que agradecer a Deus por esse presente enorme, pela oportunidade de viver tanta coisa em tão pouco tempo, por conhecer tanta gente legal, por ver tanta beleza, por simplesmente estar aqui.

Nos últimos dois dias passei por mais uma nova experiência: a de caminhar completamente só. É realmente importante estar só no caminho. Não digo o tempo todo, mas fazer alguns percursos é muito bom. E só estou tendo esta oportunidade agora no final do caminho, o que me permite estar inteiramente comigo mesma, pensando e repensando, ou, às vezes, em comunhão com a natureza, apenas apreciando esse beleza toda a minha volta.

No final da tarde chegaram Marisa, Aurora, Beth, Rosa, César e José Alfredo. Jô realmente resolveu andar menos... é o que ela quer, não?? Eu, contudo, ainda quero visitar outros lugares depois de chegar a Santiago. Além do mais, sinto uma necessidade enorme de andar mais. Fisicamente estou muito bem.

Por volta de 19:00 h fui checar minhas mensagens na internet, que está funcionando até neste fim de mundo. Retornei ao albergue e me encontrei com as baianas e gaúchas que estavam indo jantar e então resolvi ir com elas. No restaurante encontramo-nos com o restante dos brasileiros. Só retornamos ao albergue por volta de 22:45 h pois o serviço do restaurante estava devagar quase parando. Na verdade, acho que eles não contavam com um grupo tão grande no fim do domingo.

1º/10/2001 – Triacastela/Sarria

Dormi relativamente bem. Levantei-me às 6:45 h e fui-me arrumar. Às 7:30 h fui para o bar tomar café. Logo depois chegou o Ronaldo e tomamos café juntos. Saí antes dele, pois ele estava esperando pelo Júlio

Hoje havia duas opções de caminho e peguei a que o guia considerava a mais bonita, por San Xiu, e não me arrependi. Caminhei a manhã toda por estradinhas em meio a bosques, atravessando algumas fazendas. O caminho teve essencialmente natureza. Tudo muito bucólico. Deu vontade de fotografar tudo para depois dividir com os amigos. Contudo estava bastante nublado, o que tornava as trilhas muito escuras e não sei se as fotos ficariam muito boas, portanto limitei-me a tirar algumas.

Uma coisa excelente que ocorreu foi eu ter caminhado o tempo todo praticamente sozinha. No Brasil quando lia ou ouvia as pessoas dizendo que era bom fazer o caminho sozinho tinha lá minhas dúvidas. Agora tenho de concordar inteiramente. Estar só durante a caminhada é essencial.

Mais ou menos no meio do caminho, Ronaldo e Júlio alcançaram- me, mas logo passaram e seguiram. Fui caminhando atrás até que parei pois meus pés doíam e antes que fizesse uma bolha nova, resolvi dar mais atenção a eles.

Cheguei a Sarria por volta de 12:45 h e encontrei o Júlio e Ronaldo sentados na calçada e ficamos esperando para que o albergue abrisse, o que só ocorreria às 13:00 h. Encontrei também uma outra brasileira, a Maria, que estava em Sarria há alguns dias recuperando- se de uma infecção de garganta.

Deixamos a mochila sobre as camas e fomos almoçar em um restaurante perto do albergue, recomendado pela hospitaleira, por ser mais barato. No restaurante encontramo-nos com o André e a namorada e o segundo Ronaldo. Sentamos todos juntos enquanto esperávamos ser atendidos. O André já estava super aborrecido pelo mau atendimento do restaurante e reclamava o tempo todo. A senhora responsável era extremamente grosseira e parecia que queria mais era que fôssemos embora. Infelizmente encontramos muita gente assim no caminho. Até parece que não vivem disso. E talvez, por já estarmos acostumados, resolvemos ficar ali mesmo. Eu, particularmente, não estava nem aí para o mau humor dela.

Enquanto conversávamos, virei-me e dei de cara com um rapaz desconhecido (Miguel) sentado em nossa mesa. Bem, mas isso não é problema pois nós peregrinos nunca desprezamos companhia. Mais tarde fiquei sabendo que o dono do restaurante havia mandado que ele se sentasse junto a gente. Coitado, chegou quando todos reclamávamos do atendimento. E eu, ao saber que ele era espanhol, não resisti e perguntei... "É sempre assim aqui na Espanha?". Ele prontamente respondeu que não (obviamente).

Ao retornarmos ao albergue, encontramos Marisa, Aurora, Beth e Rosa que chegavam. Resolvi tomar um banho pois estava imunda e mesmo tendo sido alertada de que a água estava gelada, enfrentei com coragem o chuveiro.

Após o banho fui com a turma ao supermercado comprar o jantar e o café da manhã do dia seguinte.

No final do dia fui novamente à internet, a maior tentação do caminho. Enviei uma pequena mensagem aos amigos, dei uma olhada no meu extrato bancário e voltei.

Jantei com a turma e por volta das 22:00 h fui dormir.

02/10/2001 – Sarria/Portomarin

Tivemos uma noite bem agitada. À meia noite acordei com os roncos do nosso amigo Ronaldo, de um lado, e a tosse de uma garota, de outro. Levantei-me e fui ao banheiro, voltei e finalmente apaguei. Não sei como ou porque!!!

Acordei novamente às 6:00 h, fui ao banheiro e voltei para a cama de onde só saí às 6:45 h. Arrumei minha mochila e fui tomar café.

Saí do albergue às 7:45 h, ainda escuro e fui andando. Na saída de Sarria encontrei-me com um espanhol chamado "Txema" que saía bem apressado e resolveu caminhar comigo. Justo agora que estava no céu andando sozinha. Fazer o que né?

O caminho iniciou-se outra vez em meio a bosques e a zona rural galega. Tudo muito verde e bonito. O dia amanheceu e logo o sol surgia. A manhã estava começando bem mais alegre que a de ontem.
Mesmo diminuindo o ritmo e tentando deixar o espanhol seguir em frente, o camarada não seguia, parava para me esperar. Não teve jeito mesmo e fizemos todo a etapa do dia juntos.

Chegamos a Portomarin às 13:00 h e não havia ninguém no albergue, embora estivesse aberto. Entramos, escolhi a cama, preenchi o registro, carimbei minha credencial e fui tomar um banho maravilhoso pois havia água quente.

Fomos então ao supermercado e em seguida almoçar. Embora o homem dissesse que ainda queria andar mais um pouco naquele dia, não dava sinal de que ia embora de jeito nenhum. Retornamos ao albergue e fui lavar roupa (Ah! Vida doméstica!) enquanto ele dizia que iria descansar antes de prosseguir.

Quando retornei para dar uma organizada na mochila que havia deixado sobre a cama tive a grande surpresa do dia. O espanhol deu-me um bilhete onde dizia que havia gostado muito de mim, blá, blá, blá.. e que não sabia se prosseguia ou fica ali comigo e perguntava no fim qual era minha opinião.

Quase tive uma síncope. Era só o que me faltava... então respondi a ele que naquele momento o caminho era o mais importante e que ele devia segui-lo. Pensei que ele entenderia a "recusa" e ele pareceu ter aceito tudo muito bem, mas também não fiquei no albergue pois saí e na saída encontrei-me com o César que havia chegado e estava indo ao um bar próximo. Santo César!! Saí com César, fomos para o bar de onde retornamos só fim da tarde depois que o espanhol já tinha ido embora.

Mais tarde saí para ir a internet. Agora sou uma cyberperegrina, vivo mais na internet que no caminho. Quando voltava chegaram a Beth e Rosa, que havia sofrido um pequeno acidente e que chegava de carro. Logo depois chegaram Marisa e Aurora. César foi com Rosa ao posto de saúde, porém o médico não estava e retornaram logo ao albergue.

À noite Rosa retornou ao médico cujo diagnóstico não foi nada animador pois ela não poderia mais caminhar. Embora ninguém tenha entendido qual era exatamente o problema, sabia-se que era sério pois o joelho estava muito inchado e ela sentia muita dor. A tristeza foi geral pois faltava apenas 90 Km para Santiago. Ficamos sempre pensando que a mesma coisa poderia acontecer a qualquer um de nós, pois acidentes fazem parte da vida e não temos muito controle sobre eles.

Nesta noite, César resolveu fazer o jantar, considerando que havia cozinha no albergue. Como ele já havia comprado tudo, peguei carona com o Miquel e fui ao mercado comprar suco e um torta Santiago de sobremesa.

Jantamos, e é claro que o assunto do jantar foi a condição de Rosalina. Estávamos todos tristes com o acontecido.

03/10/2001 – Portomarin/Palas del Rey

Dormi relativamente bem e acordei às 6:45 h. Como já havia gente arrumando as mochilas para partir, levantei-me também e fui-me preparar para mais um dia.

Enquanto tomava café, um espanhol, Antonio, veio informar de que havia muita neblina por causa do tempo chuvoso (havia chovido no final da tarde e durante toda a noite). Aconselhou que saíssemos mais tarde, somente após as 8:00 h quando estivesse mais claro. Terminei o café, fui até o quarto de Marisa, Aurora, Beth e Rosa, conversei um pouco com elas e às 7:45 h saí. Com a chuva e neblina o céu estava completamente escuro naquela hora.

Como havia várias pessoas saindo, fui seguindo atrás delas. Na saída encontrei-me com um casal, Moema e Frank, ela brasileira e ele alemão, moradores de São Paulo. Saímos e fomos conversando boa parte do caminho até que em uma parada eu segui e eles ficaram descansando.

O caminho de hoje não deixou nada a dever aos trechos dos últimos dias. Muitos bosques, fazendas, campos e enfim, muito verde. Esteve nublado quase todo o trecho, mas não choveu de fato, apenas caiu uma garoa por uns 10 minutos, o que me fez vestir o poncho. Mas não reclamo. O bom mesmo é que não choveu e pude caminhar com bastante tranqüilidade.

Cheguei a Palas del Rey por volta de 14:15 h e as nuvens haviam-se dissipado e já havia sol e fazia calor. Fui diretamente para o albergue onde me registrei e para meu "terror", vejo o nome do espanhol de ontem (Txema) no livro de registro. Deu vontade de sair e ir a outro lugar, mas seria besteira minha, não é mesmo? Respirei fundo e fui procurar o quarto, onde trombei com a criatura que saía. Ao que tudo indica ele sempre parava nos albergues no meio do dia para fazer a "siesta". Ele, então, ao me ver, veio falar novamente, com a mesma história de ontem. Desta vez fui curta e grossa e mesmo assim ele continuou insistindo em me esperar em Santiago.

Para que santo eu rezo??? Sei lá, mas terminei a conversa falando que não sabia se chegaria no sábado ou domingo e que não iria marcar nenhum encontro com ninguém. Depois fiquei pensando seriamente em chegar no domingo pois ele disse que ficaria somente até o sábado. Credo, aparece-me cada coisa!

Graças a Deus ele foi embora e eu fui tomar um banho para em seguida lavar roupa. Essa vida de Amélia não está agradando-me muito. Ainda bem que acaba logo. Esse é o lado ruim do caminho. Tudo pronto e saí para ver se ainda encontrava comida. Acabei almoçando numa pensão simples, perto do albergue, onde a comida não era cara e relativamente boa.

Voltei ao albergue onde encontrei-me com os brasileiros. Depois encontrei-me com Miquel, conversamos, fomos a uma papelaria onde comprei um livro para passar o tempo pois não havia nada o que fazer na cidade e estava cansada de dormir cedo demais.

Lanchei a noite e fui dormir por volta de 23:00 h pois antes ficara conversando por um longo tempo com Moema, Frank e Ronaldo.

04/10/01 – Palas del Rey/Ribadiso de Baixo

Levantei-me às 6:45, e é claro, comecei a me arrumar. Ultimamente todos têm-se levantado à mesma hora. Na verdade, é impossível dormir depois que o primeiro levanta-se.

Tomei café e saí às 7:50 h e fui caminhando com um casal espanhol muito simpático, D. Maria e Sr. Vicente e uma americana, Gloria, também muito simpática que ainda não havia encontrado. Fomos conversando, eu e Gloria, e descobri que ela havia pulado uma boa parte do caminho por não ter muito tempo disponível e que somente havia chegado ao albergue bem tarde.

Em um ponto do caminho, ela parou e continuei até parar em um bar. Enquanto tomava um café com leite, chegou Miquel, conversamos um pouco e segui deixando-o terminando seu café.

Passe por Melide e não quis parar. Besteira enorme. Deveria ter almoçado por lá mesmo. Acabei parando no fim da cidade e fazendo apenas um lanche que havia trazido.

Continuei o caminho e mais a frente voltei a me encontrar com Gloria que trocava de botas (ela tinha dois pares, às vezes caminhava com um, às vezes com outro). Parei, conversamos enquanto ela arrumava as botas e continuamos juntas mais uma vez conversando em meu inglês horroroso. Tinha horas em que ela falava e falava e eu não entendia nada. Mas o importante é que conseguíamos nos comunicar.

Caminhamos bastante até um povoado onde encontramos um bar. Enquanto fui ao banheiro, ela pediu um bocadillo. Quando voltei e também pedi um, fui informada de que não havia mais pão. Deixei-a ali comendo e continuei pois ainda havia uns 5 km até Ribadiso de Baixo, meu destino final e eu estava andando devagar pois sentia um pouco de dor na perna direita.

Os últimos quilômetros sempre parecem mais longos. E estes em especial pois minha perna doía cada vez mais e caminhei com muita dificuldade. Mal acreditei quando cheguei a Ribadiso, um povoado minúsculo onde só havia um bar e nada mais. Eram 15:30 h mais ou menos. Na entrada do povoado encontrei-me com Moema e Frank e nos dirigimos ao albergue.

A recompensa foi que o albergue era ótimo. Cheguei e fui tomar um banho que, felizmente, era quente. Lavei roupa e depois fui ao bar comer alguma coisa pois estava faminta. No bar, não havia muita opção e comi um bocadillo de queijo e café com leite.

Voltei ao albergue e logo chegaram Aurora, Marisa, Beth e César. Contudo resolveram seguir até a cidade mais próxima, Arzúa, que era maior e ficava somente 2 Km adiante.

Eu que sentia dor na perna, achei melhor ficar quieta ali. Depois encontrei-me com Gloria e em seguida chegou Miquel fazendo uma festa, embora se queixasse de muita dor nas pernas.

Infelizmente começou a fazer frio e tudo indicava que choveria, mas isso era algo para se preocupar depois.

Por volta de 19:00 h fui jantar com Miquel no único bar do povoado. Não ter opções é ótimo, economiza tempo e neurônios. Já estou cansada, como todos os brasileiros, da comida espanhola. Conversamos bastante. Penso que foi nossa primeira conversa séria, antes estávamos sempre conversando sobre amenidades, mas há sempre um dia em que sentimos necessidade de desabafar com alguém. Acho que esse era o dia de Miquel. Se antes tinha a impressão de que era um jovem despreocupado, de bem com a vida, depois da conversa passei a considerar que ele, como muito outros, se esconde sob essa aparência. A verdade é que me pareceu alguém carente e um tanto solitário.
Fiquei desejando que o caminho trouxesse a ele algumas respostas que ele devia estar procurando.
Acabei comendo mais que precisava e ficando com o estômago e a consciência pesados. Voltamos ao albergue por volta de 20:00 h e já estava escuro. É muito interessante ver como o tempo vai mudando com o passar dos dias. No início de setembro estava claro às 7:00 h e escurecia por volta de 21:00 h. Agora ainda está escuro às 8:00 h e às 20:00 h também. Cada dia está mais frio, embora meu medo não tenha- se concretizado. Ainda não está frio demais.

05/10/2001 – Ribadiso/Arca - 38

Choveu a noite toda, mas não fez frio pois a hospitaleira ligou o aquecedor. Dormi muito bem e acordei somente às 7:00 h. Levantei-me e vi que manhã realmente seria de chuva, embora ainda não estivesse chovendo naquele momento.

Arrumei-me e saí. Já saí de roupa impermeável. Já na saída de Ribadiso começou a garoar e assim a intensidade da chuva foi aumentando. Pouco mais de meia hora depois cheguei a Arzúa onde parei em um bar para tomar café da manhã. Depois passei pelo albergue onde me encontrei com Marisa. Conversamos rapidamente e segui caminhando na chuva.

O caminho de hoje foi como todos os dias desde que entramos na Galícia. Muito bonito, entre bosques. Se não fosse pela chuva teria sido perfeito. A chuva, por sua vez, alternou entre chuvinha e chuva grossa o tempo todo mas, até que a caminhada foi agradável considerando que nunca gostei de andar na chuva. Hoje caminhei com prazer e a chuva foi um mero coadjuvante no meu dia. Mais uma mudança do caminho?

Por volta de 12:00 h parei em um bar para comer um bocadillo e café com leite pois a fome estava apertando e não tinha idéia de quanto tempo levaria até chegar a Arca.

Aproveitei também para dar uma olhada no meu pé esquerdo que doía e descobri uma bolhinha pequena. Enquanto pensava no que fazer, uma senhora inglesa chegou e me deu um tipo de band-aid, que coloquei e agradeci obviamente. Despedi-me dela e voltei ao caminho, não muito animada pois a chuva caía mais forte.

Como no caminho a gente não pode perder muito tempo, assim continuei, pois tudo indicava que choveria o dia todo. Caminhei por volta de uma hora até que me encontrei com César e continuamos junto até Arca, onde reencontramos Rosalina que havia acabado de chegar de Portomarin com o espanhol Antonio que havia ficado lá para ajudá-la.

Enquanto caminhava com César cheguei a pensar em ir com ele até o Monte do Gozo, pois queria pegar minhas coisas no correio de Santiago ainda no sábado. Contudo, ao me informar com a hospitaleira de Arca, fiquei sabendo que o correio só fecharia as 14:00 h, horário que eu acredita já estar lá, podendo assim ir buscar a caixa sem problemas.

Resolvi, então, ficar. Tomei um banho e fui ao mercado onde comprei algumas coisas para lanchar. Após voltar, lanchei e fui aos meus relatos.

Quando Marisa, Aurora e Beth chegaram já anunciavam que fariam um jantar. Resolvi participar e dividir as despesas. Logo elas foram ao mercado comprar os ingredientes para o referido jantar e dividiram as tarefas do preparo entre Aurora e Beth. A comida chamava muito a atenção dos peregrinos do albergue porque cheirava muito bem. Mais tarde comprovamos que não era apenas o cheiro que estava bom. Na verdade, a comida estava realmente maravilhosa.

Após o jantar voltei para o quarto e fiquei conversando com Gloria e descobri que ela era "numeromancista" e também "lia" a mão. É claro que não pude resistir e pedi que ela desse uma olhadinha na minha. Logo uns jovens espanhóis que estavam por perto ficaram interessados e também vieram pedir que ela lesse a mão deles. Foi super divertido. Por volta de 22:00 h fomos dormir.

Hoje perdi contato com o Miquel que, na última semana, se tornara um bom amigo. Fiquei preocupada pois ontem ele havia-se queixado muito de dor nas pernas e, provavelmente havia tido problemas para caminhar hoje. Eu só não sabia é se ele havia decidido parar ou prosseguira de ônibus.

06/10/2001 – Arca/Santiago - 39

Dormi bem à noite, mas acordei cedo demais e resolvi levantar- me, arrumar minhas coisas, tomar café e sair cedo mesmo. Saí ás 7:15 e fui caminhando. A ansiedade para chegar a Santiago era enorme e só faltavam 22 Km.

Ainda estava escuro. Havia chovido bastante por toda a noite mas, quando saí havia parado. Contudo optei por sair já vestida com a roupa impermeável. Enquanto caminhava dei-me conta de quanta sorte havia tido na caminhada pois só havia realmente chovida nos últimos dois dias. Andar na chuva não é muito ruim, é mais difícil. Demanda muito mais esforço que normalmente e se corre o risco de molhar o conteúdo da mochila.

No início da caminhada precisei usar a lanterna pois caminhava em bosques o que tornava o caminho mais escuro ainda. O tempo colaborou bastante. Caminhei até as 9:30 h, aproximadamente, sem chuva. Quando me aproximava de Lavacolla, no meio de caminho, começou a chuviscar, mas tudo não passou de uma garoa e pude adiantar a caminhada.

Enquanto caminhava pensava no Miquel e, ao cruzar o povoado de Lavacolla, encontro-me com ele que havia dormido ali. É claro que foi muito bom reencontrá-lo. No caminho tornamo-nos tão próximos de algumas pessoas, em tão pouco tempo, que o que acontece a elas sempre nos afeta também. Fomos tomar café, assim pude ficar sabendo que ele, por estar sentido dor, havia tomado um ônibus até Arca, onde havia decidido caminhar, parando em Lavacolla por causa da dor.

Quando saíamos resolvi que caminharia com ele para dar uma força pois pensava que andando e tendo companhia a caminhada tornar- se-ia mais fácil para ele. Nem perguntei se ele queria companhia, somente fui caminhado junto. E assim caminhamos juntos os últimos 10 Km até Santiago, o que foi bom para mim também porque ele é uma ótima companhia, que tornou os últimos quilômetros super divertidos.

Aproximadamente às 12:30 avistamos Santiago do alto do Monte do Gozo, mas chegar a Santiago já era outra história. Ainda precisamos caminhar mais um pouco, em torno de uma hora e meia. Chegamos mais ou menos às 14:00 h na Praça do Obradoiro. Era sábado e a cidade estava lotada de turistas e mal podíamos caminhar pelas ruas.

Na praça havia uma multidão e uma banda tocava músicas típicas galegas. No meio de tanta gente pude reconhecer um brasileiro, o José Eduardo para quem pedi que tirasse uma foto minha e de Miquel. Logo, alguém tocou-me no ombro e quando me virei encontro a Vanilde e logo depois o Marcelo. Abraçamo-nos e sem seguida fui encontrando todos os brasileiros conhecidos e outros peregrinos que havia encontrado no caminho. A emoção era enorme. Mal acredita que havia conseguido tamanha façanha: andar 800Km. Na verdade era muito mais que isso. Eu havia percorrido o mágico Caminho de Santiago de Compostela. E quantas bênçãos havia alcançado!
Quantos novos amigos havia encontrado! Quanto havia aprendido!

Depois de tantos abraços, o pessoal nos informou onde buscar a compostela, para onde seguimos. O processo todo foi bastante rápido e como tínhamos fome, fomos procurar um lugar para almoçar.

Como estava cansada fui, em seguida, para o albergue e Miquel foi passear pela cidade. O albergue fica um pouco afastado do centro e no alto de uma colina. Depois de tanto sobe e desce, um morro a mais não fazia diferença, pois tudo o que eu queria era um bom banho.

Cheguei, registrei-me e decidi ficar por três noites, pois queria curtir a cidade com calma e tempo.

Mais tarde voltei para cidade para passear um pouco, tirar fotos, internet. A turma de brasileiros havia combinado de jantar por volta de 20:30 h na Casa Manolo, próxima à Catedral.

No restaurante fomos encontrando todos os outros brasileiros. O jantar foi animadíssimo. Retornei ao albergue por volta de 22:00 h. Fui diretamente para a cama pois estava cansadíssima.

Foram tantas emoções, muitas vezes difíceis de serem entendidas, digeridas, explicadas. Seria preciso muito tempo para absorver tudo o que tinha vivido em cada passo do Caminho de Santiago.

Luciana

R E L A T O S