Dois Caminhos

- Luciana Cardoso

Relato

Muitos perguntam-me sobre a relação entre minhas duas peregrinações à Santiago de Compostela. Confesso que fiquei espantada com o número de pessoas que já manifestavam sua curiosidade antes mesmo de haver terminado a segunda peregrinação.

Para mim é sempre muito complicado falar de minhas experiências no Caminho de Santiago. Primeiro porque acredito que a peregrinação é muito mais que um exercício físico. Ela é, com certeza, uma vivência interna muito particular e intensa, uma explosão de sentimentos. Segundo porque em decorrência de minha definição de peregrinação encontro-me frente a frente com minha maior dificuldade que é expor meus sentimentos, quaisquer que sejam eles.

Contudo, eu sei muito bem que essa resposta não vai agradar de maneira alguma àqueles que tanto querem saber das semelhanças e diferenças entre a primeira e segunda caminhada. Portanto, tentarei colocar em palavras um pouquinho do que ambas experiências foram para mim.

O primeiro Caminho ficou adormecido por 13 anos, desde que havia lido, em 1988, uma reportagem onde Paulo Coelho falava do seu livro "O Diário de um Mago", livro que só vim a ler alguns anos depois. Quando a oportunidade de fazê-lo aconteceu, porém, foi com uma rapidez tamanha, que até hoje espanta-me. Em um mês e meio decidi viajar, fiz reservas de passagem, comecei a buscar informações junto a pessoas que tinham feito o Caminho, saí para comprar todo o equipamento necessário e fazer preparação física.

Surpreende-me também como aconteceu em um momento tão certo, quando encontrava-me tão desiludida, tão perdida, tão sem fé em mim e na vida.

Tudo correu maravilhosamente bem, e, em meio à euforia, emoção e sensação de estar sonhando, parti para a Espanha. Era setembro de 2001. Por que ia, não sabia. A única certeza que tinha era a de que precisava viver aquela experiência. Experiência, esta, que durou 36 dias duríssimos. Dias que certamente proporcionaram muitas alegrias, mas foram essencialmente de aprendizagem quase sempre precedida de muito esforço físico, dor, cansaço, insatisfação e reclamação diante da falta de privacidade e conforto dos albergues.

Muitos perguntariam o porquê de continuar e eu só tenho uma resposta: naquela época, a cabeça dura que sou jamais permitiria que eu parasse no meio de todo o processo. Eu precisava provar que também era capaz de fazer o Caminho. É lógico que em meio a essa teimosia, havia a maravilhosa experiência de estar conhecendo muita gente legal que me ensinava o tempo todo a respeito do mundo, dos seres humanos e de mim mesma. Gradualmente, o nível de insatisfação e reclamação foram diminuindo e, conseqüentemente, a caminhada foi ficando mais leve e agradável. Porém, confesso, sem orgulho nenhum, que quase tudo o que aprendi foi por meio de muita dificuldade.

Chegar a Santiago foi um misto de tristeza pelo fim da caminhada; perplexidade por ver tinha conseguido chegar e alegria pelo reconhecimento de que aquela peregrina que havia conseguido chegar, certamente, era uma pessoa muito diferente de quem havia saído de St. Jean Pied Port: uma pessoa mais tranqüila, mais aberta, mais emocional, mais flexível, mais positiva, mais otimista, enfim, uma pessoa bem longe da perfeição, mas muito melhor e mais feliz!

Quando terminei a peregrinação, não tinha em mente, de maneira alguma, voltar e passar por toda aquela provação novamente, embora, bem lá no fundo do coração tivesse uma leve sensação de que alguma coisa tinha ficado faltando.

Em 2002, voltei à Espanha para fazer turismo. Aproveitei também para visitar alguns peregrinos espanhóis com quem havia feito amizade. Reencontrá-los foi maravilhoso, assim como também foi recordar o Caminho. Na volta ao Brasil, começou a surgir, pouco a pouco, a vontade de voltar.

Contudo, eu queria fazer tudo diferente. Comecei por escolher um outro percurso: o Caminho Aragonês. Em seguida decidi ir em outra estação do ano: a primavera e por fim resolvi ir sozinha e falar muito pouco a respeito da minha viagem. Desta forma, ao contrário da primeira peregrinação, comecei a planejar a viagem com bastante antecedência para evitar a afobação da primeira vez. Apesar de tudo estar sendo diferente, a emoção que antecedia a caminhada não era menor que a da primeira vez.

Ainda em Zaragoza, de onde pegaria um trem para Canfranc Estación, saí para caminhando pela cidade, assim meio sem rumo, quando dou de cara com uma igreja muito bonita. Ao me aproximar levo aquele susto pois era a Igreja de Santiago o Maior. Fiquei ali parada olhando para cima e admirando a estátua do santo dentro de uma vieira. Deu uma tremedeira danada, não do susto, mas sim da emoção e certeza que eu estava sendo abençoada naquele instante e que estar ali era a atitude mais correta que havia tomado.

Parti de Somport no dia seguinte com o objetivo de fazer daquele Caminho a mais prazerosa das experiências. Não estava ali para provar nada. Isto havia feito na primeira peregrinação. Já tinha consciência do meu potencial, portanto estava de volta para curtir a vida, a natureza, as novas amizades e surpresas que Santiago havia reservado para mim.

Foi isso, portanto, o que tentei fazer o tempo todo: não me levantar cedo para caminhar, não me preocupar em encontrar lugar nos albergues, em ter silêncio para dormir e conseguir banhos quentes. Procurei caminhar com tranqüilidade, desfrutar das belezas da paisagem, escutar o canto dos passarinhos, cantar em alguns momentos e ficar em silêncio em outros...

Houve muitas ocasiões em que falhei, mas pude comprovar que, embora sendo a vida cheia de coisas boas e ruins, somos nós quem escolhemos aquilo em que queremos prestar atenção. A caminhada certamente não foi fácil. Existiram momentos de frustração, raiva, dor e cansaço, mas quando me voltam as lembranças, nada disso aparece. O que ficou forte foram os encontros com pessoas especiais, momentos de alegria compartilhados com outros peregrinos, momentos sublimes caminhando sozinha, algumas descobertas importantes, e muita paz e simplicidade essenciais à vida.

Luciana

R E L A T O S