VIA PODENSE

- Alfredo

Apresentação.

No mês de maio de 1999, junto com um amigo, desde St. Jean-Pied-de-Port, na França, eu percorri o Caminho de Santiago de Compostela. Foi uma experiência formidável que me marcou profundamente e me fez refletir sobre as minhas prioridades, valores, projetos, família, etc. Dentre as pessoas que conheci nessa minha caminhada, os franceses Catherine e, depois em Santiago de Compostela, o seu marido Serge, tornaram-se meus amigos fraternos. Ela havia saído a pé de Le-Puy-en-Velay, na França, até Santiago de Compostela, lá encontrou o seu marido Serge e, após 4 dias de descanso, retornou para fazer o mesmo percurso no sentido inverso e assim completar 3200km de caminhada. Coisa de doida! Pensava eu. A conversa que tive com eles me fez mudar essa avaliação. Disseram-me que se tratava de um percurso que passava por regiões da França muito interessantes, cuja natureza exuberante era bem preservada, além de exibir uma variedade imensa de magníficos monumentos construídos ao longo do Caminho. Nos anos seguintes procurei aumentar o meu conhecimento sobre as quatro diferentes rotas originárias da França e que se fundem em um só Caminho na cidade de Puente la Reina na Espanha. Em outubro de 2003 consegui organizar-me para iniciar a caminhada seguindo o meu roteiro escolhido: A Via Podense . As anotações que fiz durante dois meses de jornada, coloco-as agora aqui à disposição de vocês peregrinos, acreditando que poderão ser úteis nas suas decisões no futuro.

Diário de Viagem

04/10 - Le–Puy–en–Velay, cidade de onde vou iniciar a minha caminhada, fica na Região do Maciço Central da França. O seu acesso pode ser feito por via aérea, rodoviária e ferroviária. Interessei-me pela sua história e importância no Caminho de Santiago, quando conheci em 1999, peregrinando pela Espanha, o casal francês Catherine e Serge. Nos anos seguintes continuamos trocando informações e por fim consegui resolver agora os outros fatores que devem ser harmonizados com a vontade: dinheiro, tempo e disposição física. Cheguei à Paris no dia 01/10 e do aeroporto fui direto para a estação do trem que me levaria até Chamberry, cidade próxima do pequeno vilarejo alpino onde moram esses amigos peregrinos. Fiquei com eles até hoje quando a Catherine me trouxe de carro até Le-Puy-en-Velay onde chegamos logo depois das 10hs. Vale lembrar que no século X, Gotescalk, bispo desta cidade, fez a primeira peregrinação de autoridade eclesiástica para Santiago de Compostela. Quando retornou, construiu aqui uma das mais belas igrejas do Caminho de Santiago: St. Michel d’Aiguille que, juntamente com a sua Catedral de Notre-Dame e a enorme estátua vermelha de Notre-Dame-de-France, despertam nos visitantes o maior interesse. Ao lado da Catedral procuramos a “gîte” que acolhe os peregrinos que percorrem o Caminho de Santiago e ali dormi a primeira noite da minha longa caminhada que se iniciaria no dia seguinte. As instalações são confortáveis: calefação, banheiro com água quente, cozinha para preparar a comida e espaço para lavar e estender a roupa. À noite, além da Catherine e do Georges, outro peregrino francês que conheci em 1999 e que se deslocou da sua cidade até aqui para matar as saudades, ficamos na cozinha conversando com pelo menos outros dez peregrinos que no dia seguinte estariam iniciando as suas caminhadas.

05/10 – Pouco antes das 7hs chegamos à Catedral para assistir a missa da benção aos peregrinos. Uma hora depois, com os termômetros marcando 4°C, iniciei a minha primeira etapa até Monistrol-d’Allier, distante 31 km.. O Georges voltou ontem mesmo para a sua casa, 85 km. de Le-Puy. Achei muito bom ele ter vindo encontrar-me e ter trazido uma pequena matula com queijos, pães, chocolates e café solúvel. A Catherine, gentilmente, me fez companhia nesse primeiro dia de caminhada para que eu ganhasse confiança e coragem, segundo ela. Foi importante porque na minha estréia choveu, fez um frio danado e nevou. Fiquei assustado imaginando se os outros dias pela frente seriam assim. Em Montbonnet, entramos na “gîte d’étape” ( é assim que são conhecidos os albergues para caminhantes na França ) para abrigar-nos da neve que caía e comer alguma coisa. No período da tarde o clima foi mais ameno. Chegando a Monistrol-d’Allier, a Catherine apresentou-me ao hospitaleiro, repetiu todas as suas recomendações, que eu deveria seguir à risca, se quisesse chegar até Santiago de Compostela vivo; obrigou-me a aceitar o que sobrou das suas provisões daquele dia, deu-me um forte abraço e foi embora. Na noite anterior, ela e o Georges, cada um no seu carro, vieram até aqui e a Catherine deixou seu e retornou com ele para Le-Puy. Assim ela pôde daqui retornar direto para a sua casa.

06/10 – Nas primeiras duas horas de caminhada, já pude calcular as dificuldades que enfrentaria para atravessar esse longo trecho de montanhas que formam o Maciço Central francês e que, pelas minhas previsões, demoraria uma semana. Já na saída peguei uma subida interminável e, apesar do frio intenso, tirei o casaco porque estava transpirando muito. No alto da montanha o forte vento me fez vesti-lo novamente. Tinha programado chegar naquele dia até Domaine du Sauvage, caminhando assim 32 km., fiquei em Le Falzet, nove quilômetros antes. Neste segundo dia, já senti que tenho muito peso na mochila. Saí do Brasil com 8 quilos, mas deixei-me convencer pela Catherine de que deveria carregar uma matula que me parecia exagerada, algo como três quilos. Acontece que ela tem o hábito de fazer a sua própria comida ao longo das suas caminhadas e me fez acreditar que eu poderia fazer o mesmo. Esse peso poderia não ser exagerado se a minha caminhada fosse programada para durar uma ou duas semanas, por exemplo, mas estou calculando que vou demorar quase dois meses. Após o banho, fui testar os meus parcos conhecimentos de mestre cuca e, como era de se esperar, o resultado foi um macarrão cuja aparência desanimava qualquer recruta. O sabor, então, nem vou comentar... Enquanto isso, o alemão Peter e o francês Lorroin, que eu conhecera no trajeto de hoje, estavam se deliciando com um jantar que me dava água na boca e que havia sido preparado pela senhora hospitaleira da gîte.d’ étape. Eles me explicaram depois que aqui na França, a grande maioria das gîtes é explorada pelas famílias locais e que além da hospedagem, servem refeições aos peregrinos, quando solicitadas.

07/10 - Com menos peso, já que deixei parte dos alimentos que carregava para trás, saí às 8hs. O trecho de hoje, Le-Falzet-Les Estrets foi muito exigente, 25 km com muitas subidas e descidas. As bolhas incomodaram um bocado e senti fortes dores nas plantas dos pés. As causas desses incômodos devem ser o excesso de peso dos dois primeiros dias e a inadequação do meu calçado para o tipo de terreno que estou percorrendo. Percorri uma boa parte da manhã com o Lorroin cujo ritmo de caminhada era muito forte. Arquiteto de profissão e corredor de maratonas alertou-me para os detalhes das edificações da região por onde passávamos e, no campo, para a beleza e variedades dos cogumelos que encontrávamos, alguns comestíveis e outros venenosos, segundo ele. Depois de dois dias de improvisação, a fome apertou e almocei pr’a valer num restaurante em La Roche. Não vi mais o Lorroin. Antes, eu tinha decidido cortar caminho e não entrei na cidade Domaine du Sauvage, ameaçava chover e fui direto para dormir em Les Estrets. Tinha a intenção de chegar hoje a Aumont- Aubrac mas preferi poupar os pés. Fui o primeiro a chegar à gîte, escolhi a minha cama e tratei de acender a lareira na sala. Logo depois chegaram quatro peregrinos franceses, um homem e três mulheres, com idade acima dos cinqüenta. Elas perceberam que eu caminhava com dificuldade devido às bolhas e pediram-me para deixá-las examinarem os meus pés. Quando viram o estado deplorável que se encontravam, ficaram assustadas e me alertaram que daquele jeito não chegaria nunca até Santiago de Compostela. Em seguida, com muita paciência, fizeram-me um bom curativo.

08/10 – Saímos após as 8hs e caminhei com eles até o começo da tarde, passamos por Aumont-Aubrac, ali visitamos a igreja local e comprei filmes para a minha máquina. Próximos de Lês Quatre Chemins, fizemos um pic-nic e nos separamos. A caminhada deles seria de apenas uma semana, eu tinha várias ainda pela frente, precisava acelerar o ritmo e chegar até Nasbinals para dormir. Ali existem duas gîtes, uma particular e outra comunal. Dei preferência à primeira, embora um pouco mais cara, porque ficava logo na entrada da cidade. Paguei E$15,00 para dormir e servir-me de um bom café da manhã. O casal hospitaleiro, muito gentil, permitiu-me usar o seu computador e acessar a Internet para saber notícias do Brasil e comunicar-me com a minha família.

09/10 – Quando saí da gîte , o frio era intenso, havia neblina e garoava . Deu vontade de dar meia volta e deitar mais um pouco. As primeiras duas horas de caminhada foram pelos campos de Aubrac, cujas paisagens são belíssimas, embora a trilha exija muita atenção para não perdê-la. As cores do outono estão nas folhagens das árvores com todo o seu esplendor, qualquer que seja o lado que se escolha para apreciar. Na minha primeira caminhada pela Europa escolhi a primavera e não me arrependi pelo que vi e senti. Desta vez, sabia dos inconvenientes do frio e da chuva do outono, mas tinha certeza que seria compensado de outra maneira pela natureza. No pequeno vilarejo de Aubrac, sentei-me para descansar e comer uma torta de framboesa num restaurante local, enquanto observava no mapa o trecho que ainda tinha que percorrer até St.-Chely-d’Aubrac, meu ponto de chegada naquele dia. O percurso de hoje, embora curto, foi muito puxado, 17km com muita subida e descida, pedras e água que descia das montanhas pela trilha. Aqui a gîte é comunal, confortável e tem lareira, paguei E$ 6,50 para dormir e jantei num restaurante ao lado por E$ 15,00. Após as 16:00h, chegou o Peter (alemão), um casal e um senhor de idade, francês, o Patrice, todos reclamando das dificuldades para cumprir a etapa da hoje.

10/10 – Nesta região do Maciço Central, os bosques são uma atração à parte. Quando se está caminhando sozinho o silêncio é quebrado, às vezes, pela cascata de um pequeno rio ou pelo canto dos pássaros. A caminhada para Espalion foi tranqüila, no trajeto visitei e tirei algumas belas fotos em Saint-Côme-d’Olt. Cheguei à Espalion em torno de quinze horas e fui direto para a gîte comunal cuja hospitaleira é muito simpática e paciente com os peregrinos. Além do conforto por E$ 11,00 para dormir, lá é possível lavar e secar a roupa nas máquinas por E$ 3,00, o que é um alívio para quem está caminhando nessa época do ano na Europa, com pouco sol e muita umidade. A cidade é margeada por um rio, tem construções antigas e merece um longo passeio para conhece-la. À noite, fui procurar um orelhão para telefonar e levei no bolso do casaco o meu livreto de anotações diárias e que também continha os números de telefones e endereços eletrônicos dos amigos. Pela manhã, arrumando a mochila para partir, percebi que tinha perdido o livreto na rua e saí da gîte chateado com o fato. Após caminhar uns 50 mt, percebi na calçada uma pequena bola de papel amassado e peguei-a instintivamente, sem imaginar que ali estavam exatamente todos os meus registros. Sorte de peregrino.

11/10 – A caminhada de 12 km. até Estaing não foi dificil. Com um majestoso castelo e um conjunto arquitetônico medieval muito bem preservado esta é considerada uma das mais belas “villages” da França. Perto dali visitei a “église de Perse”, que embora esteja mal cuidada vale a pena conhecê-la. Aqui almocei e bati muitas fotos. Na saída da cidade encontrei o Peter e o Patrice rumando para Golinhac, distante 15 km, onde dormiríamos naquela noite. O tamanho das mochilas dos caminhantes por aqui é muito grande, me parece que eles carregam um supermercado nas costas. Quando encontram um lugar aprazível estendem a toalha no chão e fazem um pic-nic, ali comem queijos, pães, embutidos, geléias, etc. Para compartilhar tive que levar alguma coisa também, porém, não podia desconsiderar que a minha meta era Santiago de Compostela – 1600 km – e precisava administrar a minha resistência física. Na França, os “ randonneurs “, como são chamados os caminhantes, normalmente percorrem diferentes trechos do Caminho de Santiago a cada período de férias, durante 10, 15, ou 20 dias. Em Golinhac, éramos seis os peregrinos em um restaurante ao lado da igreja e que nos serviu muito boa comida, por sinal.

12/10 – Pela manhã, após comer, despedi-me do Patrice que terminou aqui a sua caminhada. No dia anterior, havia-me contado que viera pagar uma promessa que fizera à Santiago (St Jacques para os franceses ) três anos antes quando conseguiu sobreviver à um aneurisma cerebral. Segui com muita ansiedade até Conques, meu destino de hoje, distante 27km, lugar da “ Abbaye de Ste.-Foy “ que eu tinha muita vontade de conhecer, pela sua história e importância desde os primórdios do Caminho de Santiago. Ali estão as relíquias da Santa Fé, assim conhecida em português, venerada pelos franceses, e que foi uma das primeiras mártires do cristianismo, cujas relíquias foram roubadas no século IX do mosteiro de Agen, tornando-se assim um ponto de passagem, obrigatória, do Caminho de Santiago. A igreja é magnífica, na sua arquitetura externa e interior românico do século XI, além de possuir um tesouro em peças sacras medievais e renascentistas ricamente trabalhadas em ouro e pedras preciosas. Instalei-me na hospedaria da própria igreja, onde é possível tomar o café da manhã, jantar e dormir por E$ 20,00 que estava lotada de peregrinos que aqui também chegam de ônibus e carros e, neste mês, especialmente, porque se iniciavam as comemorações do jubileu de Ste.-Foy. À noite, após a missa, assisti a uma apresentação do coral da igreja de cantos gregorianos. Tomei a decisão de ficar em Conques mais um dia, para rezar e dar uma folga para os meus pés. Percebi que ali não era apenas mais uma etapa da minha peregrinação.

13/10 – Hoje foi um dia diferente: ajudei a limpar o meu quarto, fiz amizade com os hospitaleiros – voluntários franceses de diversas regiões – os padres me emprestaram o computador para acessar a internet, atualizei as minhas anotações, visitei o povoado, tirei várias fotos, entrei na igreja para rezar e meditar. Estes primeiros dias de caminhada também foram marcantes belas belezas naturais dos locais por onde passei, embora que as oscilações do terreno entre 600m e 1300m de altitude tenham sido muito exigentes.

14/10 - Tomei o café da manhã, fui para a igreja assistir a missa dos peregrinos e lá mesmo despedi os meus novos amigos que fiz naquele lugar, de agora em diante inesquecível para mim. A chegada e a saída de Conques é um exagero interminável de subidas e descidas de montanhas. Os pés e as pernas agüentaram bem. No trajeto conheci o Jean Pierre, médico suíço que estava caminhando há alguns dias com três peregrinas francesas, duas de nome Nicole e a Clôde, e que pretendia chegar até a Cahors. Junto com eles, parei para tomar um chocolate em Prayssac e ao saber das minhas bolhas elas me presentearam com alguns curativos. Uma delas olhou para os meus calçados e sentenciou: “você tem que troca-los porque eles são a causa dos seus problemas nos pés”. Passamos por Decazeville, cuja chegada e saída “cozinharam” as solas dos meus pés com as suas subidas e descidas acentuadas tomadas de pedregulhos. Paramos para dormir em Livinhac-le – Haut, onde aproveitei para me abastecer no pequeno supermercado local. Nos últimos dias adotei o hábito de alimentar-me com pequenos lanches nos intervalos da caminhada entre o café da manhã e o jantar que passei a desfrutar nas localidades onde dormia. Embora, quase sempre, seja possível aos peregrinos fazer a sua própria comida nas gîtes, desisti nos primeiros dias dessa aventura gastronômica em vista dos resultados nefastos que impus ao meu paladar e ao meu estomago.

15/10 – Saí para caminhar às sete e quarenta, nas duas primeiras horas andei rápido. Fui alcançado por um peregrino francês, conversamos um pouco e ele disparou na minha frente. O trecho não tem muitas oscilações, porém, tem predominância de asfalto que me provoca dor nos pés e nas costas. Procurei caminhar pela grama lateral acreditando que, embora estivesse bem úmida, seria menos traumática. Percebi que a minha tentativa de impermeabilizar o meu calçado tinha sido um fiasco e, à noite, fui obrigado a trocar todos os curativos dos pés porque estava com as meias completamente molhadas. A chegada em Figeac, depois de 26 km, foi um pouco mais complicada, por se tratar de uma cidade bem maior do que as outras por onde passei. Normalmente, nas pequenas cidades é muito fácil encontrar as gîtes para acomodar-se, seja pela sinalização nas ruas ou pelas informações dos moradores. Procurei no centro da cidade o escritório de informações turísticas e lá me deram o endereço de onde deveria instalar-me e os locais de acesso à internet. Para dormir, jantar e pelo café- da- manhã, paguei E$25,00. Fui até os correios para enviar de volta ao Brasil alguns objetos que estava carregando inutilmente: celular internacional, bússola, pequeno dicionário, etc. Alguns peregrinos foram direto para La Cassagnole, motivados pelas dificuldades de acesso e falta de atrativos em Figeac. Ela já está fora da Região do Maciço Central e perto dali começa o Sudoeste da França: Périgord – Quercy e Gasconha.

16/10 – Esta nova região que começo a percorrer, o Sudoeste da França, é de excelente comida, de bons vinhos e belíssima arquitetura medieval. Aqui a França “parou” no tempo e conserva a vida pacata do interior. A saída da cidade é uma subida de quase uma hora. Parei para descansar e apreciar a bela paisagem quando se aproximou o casal francês, Pascale e Jean Bernard, que, sabendo de um atalho, fizeram este pequeno trecho em vinte minutos. Hoje caminhei só o dia todo, embora no Caminho de Santiago, só, não quer dizer abandonado, esquecido. Aqui, sempre toma conta de nós a sensação de estarmos protegidos. Ao passar por Grealou perdi a sinalização do Caminho e entrei na cidade para pedir informações e com isso perdi uma hora ali. Chegando a Cajarc me deparei, logo na entrada da cidade, com um bom supermercado onde refiz as minhas provisões. Na gîte encontrei as duas Nicole, Clôde, Jean Bernard, Pascale e Jean Pierre e combinamos jantar juntos no restaurante aqui próximo. Perguntaram-me pelo estado dos meus pés e sobre as minhas impressões dos lugares por onde passei e, naturalmente, sobre o Brasil. O grupo me adotou como mais um e eu achei ótimo.

17/10 – Saindo de Cajarc, que fica em um vale, percebi-a mais interessante enxergando-a do alto de um morro. A etapa de hoje foi de 27km, o dia foi nublado, frio e com chuvas esparsas. A caminhada foi dominada por bosques, pedras e pouco asfalto. Aqui, nesta época, é temporada de caça e por isso encontramos muitos caçadores perambulando pelos bosques ou amoitados em pequenas choupanas camufladas, espreitando as suas vítimas. Perguntei aos peregrinos franceses se não corríamos o risco de sermos confundidos com ursos ou qualquer outro animal e levar uns tiros logo cedo. Pelas caras de preocupação que faziam, conclui que era possível sim. Novamente fui o primeiro a chegar a gîte em Varaire. Tem sido assim porque não tenho disciplina para descansar a cada duas ou três horas, como deveria. Com isso acabo ainda mais com os meus pés e aumenta a dor nas costas. Aqui as acomodações são boas e come-se muito bem, inclusive o café da manhã, tudo por E$ 26,00.

18/10 - Pela manhã está sempre muito frio e as poças d’água estão cobertas de gelo. Depois de meia hora de caminhada já espantei o frio e quando sai o sol dá até para ficar sem o casaco e seguir só com a camisa de mangas compridas. Na verdade o maior incômodo é causado pelas chuvas, quase diárias. Quando são mais fortes encharcam as calças e os calçados. Nada disso sequer arranha a satisfação de estar aqui no Caminho de Santiago, apenas ajuda a incrementar as nossas risadas no final do dia quando estamos todos juntos comentando as peripécias de cada um. Hoje, caminhando para Cahors, em cujo trajeto há muita pedra, tomei a decisão de comprar calçados novos. Realmente, errei feio na escolha que fiz no Brasil dos que estou usando. Relutei até agora em fazer a troca, porque me preocupava o fato de ter que usar os novos imediatamente sem poder amaciá-los. Em Cahors fiquei em um Albergue da Juventude, muito grande e pouco confortável, se considerarmos os locais por onde já passei. Paguei E$ 12,00 pela dormida e pelo café da manhã. Com os seus 2000 anos, a bela cidade de Cahors, dispõe de atrativos inesquecíveis: a Pont Valentré sobre o rio Lot, a catedral de St-Etienne, especial vinho tinto e a comida saborosa. No jantar comemos pato assado regado a vinho, num bom restaurante, para despedir-nos do Jean Pierre que terminava aqui a sua caminhada.

19/10 – Saí às 8hs, estava escuro ainda quando passei pela Pont Valentré e iniciamos a subida bem íngreme de um morro. Desde ali fiz algumas fotos da cidade e da famosa ponte. A caminhada de 32km até Montcuq tem pequenas oscilações de relevo e foi tranqüila com os novos calçados que comprei em Cahors, que só incomodaram um pouco nos dedos e tornozelos, nos últimos 5km. Entendo que caminhar 20km por dia seria o ideal, porém, considerando que tenho que chegar até Santiago no dia 01/12 para poder viajar de volta pr’a casa, não tenho escolha. Ainda no Brasil tentei alterar a data de retorno para o dia 05 ou 06/12, mas não consegui. A gîte aqui é muito legal, também a mais bonita dentre todas as que eu conheci até agora, sobretudo, pela simpatia do casal hospitaleiro. Logo na entrada nos deparamos com uma plantação de ameixas e comemos bastante. A senhora Simone, hospitaleira, trouxe água morna além de diversos apetrechos para iniciar as suas massagens e curativos nos nossos pés dilacerados, com a paciência, solidariedade e humildade sempre presentes no Caminho de Santiago.

20/10 – Saímos juntos, com muito frio e uma leve garoa, situação agravada pela lama da estrada que grudava e não se soltava dos calçados. Com algumas subidas e descidas o esforço de hoje foi compensado quando passamos pela bela cidade medieval de Lauzerte com a sua magnífica igreja de estilo românico. Na praça central procuramos um lugar para comer algo, mas não encontramos e, sem saída, apelamos para as nossas matulas. Caminhar na França exige sempre um bom guia para caminhantes (randonneurs ), à mão. Com ele, sabe-se dos estabelecimentos existentes, do seu funcionamento nos diferentes dias da semana, telefones das “gîtes”, preços e atrativos locais. Diariamente, alguém do nosso grupo, ligava para a gîte onde pretendíamos dormir no dia seguinte, fazia as reservas para a hospedagem e combinava o preço e o cardápio do jantar e do café da manhã – tudo em torno de E$ 25,00. Essas providências são muito mais apropriadas nos meses de grandes movimentações dos caminhantes como maio, junho, julho e agosto. Na saída de Lauzerte fiquei batendo umas fotos e fui surpreendido por uma forte chuva. Procurei abrigo na varanda de um restaurante e ali fiquei uns quarenta minutos esperando o tempo melhorar. Perdido do grupo, eu segui pelo caminho errado e andei mais de três horas na maior bobeira na direção errada. Com ameaça de chuva e o frio apertando decidi pegar uma carona de carro, sacrilégio para os peregrinos, e assim poder atingir Lacapelette antes do anoitecer. No trajeto de hoje, incorporaram-se ao grupo os alemães Francisco e Andréas, pai e filho. Ficamos hospedados num hotel antigo, reformado, nos arredores da cidade.

21/10 – O trajeto para Moissac foi curto e lá cheguei por volta das 3:00h. A gîte daqui é de uma ordem religiosa católica e possui boas acomodações. Dividi o meu quarto com o Iber, peregrino francês que inicia hoje a sua caminhada até St. Jean Pied-de-Port, onde ficará como hospitaleiro pelos próximos sessenta dias. A atração da cidade é a abadia de St.Pierre, construída no século VII, mistura os estilos gótico e românico. A sua portada é uma tradução artística da visão que São João teve do Apocalipse. Vale a pena conhecer, ali mesmo, o claustro ladeado por colunas de mármore verde, branco e rosa. Aproveitei o tempo perambulando pela cidade, batendo fotos, acessando a internet e comendo bastante. À noite fui com os peregrinos até um pequeno restaurante para jantar e despedir-nos da Clôde e do casal Jean Bernard e Pascale que chegavam aqui ao término das suas caminhadas.

22/10 - Na saída de Moissac, as duas Nicoles e eu, nos perdemos e caminhamos por 1:30h., em vão. Acontece que a sinalização para os peregrinos, nas cidades maiores, nem sempre é precisa. Retornamos próximo do ponto de partida e já com mais pessoas nas ruas, pudemos pedir informações e seguimos por uma variante do Caminho ladeado pelo rio Tarn e um canal lateral de construção antiga, sob frondosos plátanos. Entramos em Auvillar, pequena e belíssima vila sobre uma colina e que tem arquitetura medieval bem conservada e um traçado urbano planejado, com o seu imponente prédio do mercado na praça central. È um lugar completamente diferente de tudo o que já vi por aqui, além de uma vista magistral de um vale por onde passa o rio La Garonne. Auvillar, assim como Lauzerte, por onde passamos dois dias atrás, é uma das centenas de vilas e cidades-bastides, planejadas e construídas no século XIII, para povoar regiões desocupadas na França. Próximo de Saint-Antoine caiu um aguaceiro, de repente, parecia que estávamos em pleno verão. Surpreendidos e sem tempo para vestir os nossos casacos, corremos e conseguimos abrigar-nos no celeiro de uma fazenda e ali ficamos tentando secar-nos até a chuva passar. Paramos para dormir em Flamarens, cuja igreja de bela arquitetura românica e portal mozárabe, valeu a pena visitar. A gîte fica após o vilarejo, ao lado do Caminho, com acomodações simples e ótima comida.

23/10 – Os três saímos às 8hs, com frio e neblina forte, na primeira hora de caminhada, e alternando asfalto e lama pegajosa por três horas seguidas. Chegamos a Lectoure com muito frio e garoa e fomos até o escritório de turismo para pagar o pernoite e apanhar as chaves da gîte local que é comunal. A cidadezinha é típica do interior da França, possui uma igreja interessante e bela arquitetura. Decidimos fazer a nossa comida, a Nicole II fez as compras dos ingredientes, a Nicole I, cozinhou e eu lavei os pratos e as panelas. Francisco e Andréas, os alemães, compraram o vinho da despedida porque amanhã terminam o seu percurso no Caminho de Santiago.

24/10 – Quando saí da gîte com as duas Nicoles estava muito nublado e as poças de água, como sempre, congeladas, tive que usar luvas o dia todo. Na primeira hora caminhamos pelo asfalto, depois decidimos voltar ao percurso original do Caminho de Santiago e tivemos que enfrentar a lama. Essas dificuldades que nos desafiam no dia a dia, nunca nos provocam irritação ou desânimo, pelo contrário, o nosso espírito e determinação se reforçam e contribuem para estreitar os laços de amizade e solidariedade entre os peregrinos. Combinamos lanchar em Marsolan, mas ficamos frustrados por nada encontrar ali para comer e com a sensação de abandono do pequeno vilarejo. Nos deparamos com uma criança nas ruas, de aparência fantasmagórica, como se fosse a única moradora dali. Chegamos a La Romieu por volta das 12:30hs, almoçamos e nos dirigimos até La Colegiata, um belíssimo conjunto arquitetônico medieval, construído naquele local. Tivemos que conformar-nos em vê-la pelo lado de fora porque só estaria aberta após as 14:00h e não quisemos esperar. Seguimos para Condom, local do nosso pouso de hoje, cidade que centraliza o comercio do famoso conhaque francês Armagnac. Muito cara e de reduzida produção, esta bebida é, quase toda ela, consumida no próprio país. A cidade possui uma rica história de cidade comercial e tem na catedral de St. Pierre o seu principal monumento de atração turística.

25/10 – Saímos às 7:45h com o frio de 0°C. caminhamos pela manhã vendo a relva coberta pelo gelo. Entramos em Montreal-du Gers para comer algo e, mais tarde, quando o sol apareceu, improvisamos um pic-nic e comemos ao ar livre. Esse hábito dos caminhantes franceses é muito agradável e eles o praticam como se fosse um ritual do Caminho de Santiago. Quando eu estou caminhando com eles também participo, o que é muito bom para relaxar e apreciar melhor o trecho que se está percorrendo, porém, se estou sozinho, fico refletindo sobre tantas coisas e preocupado com as fotos que não paro para nada. Decidimos fazer um desvio e ir até Civiac para visitar as ruínas de uma “ villa gallo-romaine “. Quando chegamos a Eauze era tarde e estávamos muito cansados, fomos até o escritório de turismo para pagar e pegar as chaves da gîte. Lá encontramos apenas o Iber, futuro hospitaleiro em St. Jean- Pied-de-Port. As duas Nicoles compraram os ingredientes, improvisaram a comida do jantar, eu lavei as panelas e os pratos e fomos dormir cedo.

26/10 – Acordei com barulho no quarto, ainda estava escuro lá fora, e percebi que era o Iber se arrumando para sair, Continuei dormindo mais um pouco e depois me levantei para fazer o nosso chá. A Nicole I se queixou de dores no tornozelo e por isso decidimos que hoje iríamos somente até Nogaro, pouco menos de 20 km. de caminhada. Eu acredito que o motivo das dores seja os longos trechos de caminhada no asfalto, que enfrentamos nos últimos dias. Depois da Região do Maciço Central, optamos por fazer uma boa parte do trajeto do Caminho por estradas secundárias asfaltadas, para fugir da lama. Paramos para comer na pequena Manciet e, logo após, começou uma chuva forte quando caminhávamos por um bosque. A Nicole I estava mancando cada vez mais e reclamando sem parar, faltando três km. para chegarmos a Nogaro, ela se entregou e sentou-se à margem do asfalto. Ali ficamos algum tempo até que apareceu uma boa alma motorizada disposta a nos dar uma carona mesmo estando completamente encharcados. Paramos no centro da cidade e nos abrigamos da chuva dentro da igreja, aliás, muito bonita. Ali ficamos o tempo necessário para que a Nicole I se recuperasse da dor e a chuva diminuísse, pelo menos, um pouco. Uma hora depois, saímos procurando pela gîte que ficava três quilômetros fora da cidade, em Arblade-Le-Haut. A Nicole II, desde o dia anterior, como sempre o fazia, estava tentando, sem sucesso, um contato pelo telefone com os hospitaleiros para identificar a sua localização, combinar o preço da hospedagem, o jantar e o café da manhã. Com as parcas informações que obtivemos, fomos pela rodovia e, por pura sorte, chegamos até a gite. As instalações eram excelentes e os hospitaleiros o Sr. Gilbert e a Sra. Sonja Ketterer foram bem receptivos, inclusive, disponibilizando-nos um aparelho de som para tocar CDs. Normalmente, nas gîtes de propriedade particular, e aqui não foi diferente, os hospitaleiros sentam-se à mesa na hora do jantar com os peregrinos e ali se cria um ambiente muito agradável onde acontece uma troca de informações e idéias muito rica e positiva. Pelos lugares por onde passei percebi que o Brasil sempre despertava simpatia e curiosidade aos meus interlocutores e, naturalmente, desse tema é que me pediam sempre para falar. Aqui pagamos E$ 27,00 pela ½ pensão.

28/10 – O proprietário do hotel informou-nos o horário e onde esperar pelo ônibus para ir até a cidade onde pegaríamos o TGV, trem bala francês, que nos levaria até o Santuário de Lourdes. Demoramos 1:30h para chegar ao nosso destino, ansiosamente esperado por mim. A cidade é tipicamente de romeiros, com muitos hotéis, centenas de lojas vendendo artigos religiosos e gente que identifiquei, pelas roupas que usavam, pelo idioma que se comunicavam ou que eu mesmo perguntei, de diferentes partes do mundo. As manifestações de fé são emocionantes e elas dominam, de longe, os sentimentos naquele território que parece organizado para ganhar dinheiro dos que ali chegam. A Nicole II contou-me que todos os anos ela reserva três dias do mês em que se comemora a aparição da N. Sra. de Lourdes, para vir até aqui acompanhando doentes com problemas de locomoção. Visitamos o pequeno museu, rezamos nas igrejas e na gruta, andamos pela cidade, almoçamos e voltamos à estação de trens para retornar a Aire-sur-L’Adour.

29/10 – A saída foi triste, pois tivemos que despedir-nos da Nicole I que desistiu de continuar. As dores do tornozelo continuaram e ela entendeu que deveria voltar para a sua casa e evitar atrasar-nos. Daquele grupo que chegou a ter nove peregrinos ficaram dois: a Nicole II e eu. A saída da cidade é longa e nos descuidamos com a sinalização do Caminho, entramos por um bosque, margeamos um rio e, depois de caminhar 1:30h percebemos que havíamos voltado para o mesmo lugar. Abordamos um morador local que imediatamente percebeu que o guia da Nicole II tinha um erro e que este havia sido o causador daquela confusão. Caminhamos bem até as quinze horas, quando pegamos chuva pesada até chegar a Arzacq-Arraziguet. Depois do banho, fiz compras para reabastecer as minhas provisões e procurei um local de acesso à Internet. A gîte aqui é comunal, confortável para dormir e oferece jantar e café da manhã, tudo por E$ 19,00. Lá encontramos um grupo de oito peregrinos franceses que conhecemos em Condom, além do espanhol José Garcia Calvo, que nos assegurou estar caminhando ha cinco anos sem parar, tendo feito mais de 50.000km, inclusive passando pelo Nepal. Disse ter sido marinheiro de um barco de pesca que foi a pique no Mar do Norte e conseguiu salvar-se por suas preces à Virgem Maria. desde então, começou a andar e não parou mais.

30/10 – Com a Nicole II, já estamos caminhando pela Região dos Pirineus, no chamado País Basco, cujas características culturais, arquitetura nas cidades, no campo, além da geografia estupenda, são bem marcantes e únicas. Andando por aqui tenho a sensação de que atravessei uma fronteira nacional, tais são as diferenças que percebo. Realmente, trata-se de um grupo étnico que se estende até a Espanha, com idioma próprio, cioso das suas tradições e da sua história de lutas. Já levávamos três horas caminhando, estávamos com fome, cansados e não conseguíamos encontrar um lugar para abrigar-nos do vento frio para poder sentar-nos um pouco e comer algo. Ao longe vimos uma pequena igreja que tinha uma varanda lateral e lá fomos nós apressados. Ao chegar percebemos que ela estava no centro de um cemitério, localização muito comum das igrejas nas cidadezinhas francesas. Relutamos um pouco e, acho que nós dois pensamos a mesma coisa: igreja é igreja em qualquer lugar e por isso deve acolher a quem precisa. Lá nos acomodamos e encostados nas paredes, dividimos o nosso lanche. Chegamos a Arthez-de-Béarn e nos dirigimos até a gîte que é comunal e das mais bonitas que fiquei instalado até agora. Decidimos fazer a nossa própria comida e compartimos a cozinha com um casal alemão – Klaus e Carmem.

31/10 – Embora tenhamos enfrentado longos trechos de subida, e um percurso demorado, o dia foi uma festa com muito sol e uma paisagem indescritível das montanhas com os seus cumes nevados. Fizemos pic-nic com o casal alemão Klaus e Carmen e curtimos com mais tranqüilidade os lugares por onde passávamos. A gîte em Navarenx é comunal, barata, E$ 8,00, para dormir, e das piores que já nos hospedamos, embora possua uma ampla cozinha. Fomos à missa e fiquei admirado com a quantidade de pessoas, inclusive jovens, ali presentes. Nas vezes que estive nas igrejas francesas, ao longo desta caminhada, quase sempre estavam vazias e quando havia pessoas, normalmente eram turistas ou alguns idosos da comunidade local.

01/11 – As fotos que tenho feito nos vilarejos aqui da região do País Basco vão ficar ótimas, porque a população local se utiliza muito da cor vermelha para pintar as suas casas e com isso cria contrastes formidáveis. Na França, ao longo do Caminho de Santiago, nem todos os pequenos vilarejos possuem a sua gîte, seja comunal ou particular, mas é muito comum, encontrar neles pequenos espaços cobertos ao lado das igrejas ou centros comunitários que são disponibilizados aos peregrinos para que possam abrigar-se da chuva, do sol, fazer as suas refeições ou mesmo dormir. A nossa meta do dia era chegar ao pequeno vilarejo chamado Aroue, distante apenas 19,5km. Quando é assim, as costas e os pés agradecem muito. Não era o nosso dia de sorte para caminhar, pois erramos o percurso e fomos parar em Charrite-de-Bas, andando 5km. a mais do que o planejado. A gîte em Aroue é simples e confortável, entramos, nos acomodamos e aproveitando que havia sol fomos lavar as nossas roupas. Saímos à procura de algum estabelecimento para comprar mantimentos e encontramos tudo fechado porque era dia de Todos os Santos. Mais tarde chegou a senhora hospitaleira e nos informou que podíamos telefonar para um dos números existentes, nos diferentes avisos afixados num mural pendurado logo na entrada do prédio, e obter informações sobre onde jantar naquela noite. A Nicole II ligou e acertou que nos encontraríamos com eles, na igreja local, após a missa das 19:30h. A pequena igreja ficava dentro do cemitério que, naquela noite, estava tomado de flores e, terminada a missa, os seus participantes saíram do prédio e ficaram ali mesmo, uns conversando e outros rezando perto dos túmulos. Fomos abordados por duas garotas que se identificaram como filhas da senhora onde iríamos jantar e, num pequeno veículo, fomos com elas até uma típica residência da área rural daquela região. Lá nos deparamos com dois peregrinos franceses que tínhamos conhecido dois dias antes, Gilbert e Albert, que estavam hospedados ali mesmo na casa. O saboroso jantar, acompanhado de um bom vinho e na companhia da família que ali nos recebia, foi servido à vontade e com muito carinho.

02/11 – O dia todo tivemos sol e brisa gostosa, proporcionando-nos belas fotos e oportunidades extras para descansar. O trajeto tem boas alternâncias de asfaltos, bosques e montanhas com vistas deslumbrantes dos Pirineus. A subida íngreme de um morro foi de matar, mas ao chegarmos ao seu cume, nos deparamos com um imenso campo florido e uma pequena construção com bancos ao seu redor para uso dos caminhantes. Ali ficamos um bom tempo descansando e lanchando, maravilhados com a visão de toda a região que aquele lugar nos proporcionava. Chegamos cedo ao nosso destino do dia, Ostabat, vilarejo típico do País Basco, cuja gîte estava fechada. Ficamos num pequeno hotel e pagamos E$ 25,00, pela hospedagem, jantar e café da manhã.No jantar tivemos a companhia do simpático proprietário, falando-nos daquela região e fazendo-me perguntas a respeito do Brasil e Paulo Coelho, seu escritor predileto.

03/11 – Tão logo terminamos o nosso café da manhã, chegaram três amigas da Nicole II, trazidas de automóvel pelo marido de uma delas. Ela já tinha me avisado que essas amigas bascas viriam até aqui para caminhar conosco até St. Jean Pied-de Port, distante 23km, nossa última etapa na França. A primeira hora da caminhada foi para aplacar-lhes a curiosidade sobre o Brasil, a minha família, e os motivos de eu estar ali, tão longe da minha casa. Como em todos os países que conheço, as pessoas interioranas, por serem menos estressadas, acredito, mostram o coração mais facilmente e se abrem numa boa prosa. Quando eu senti que os assuntos se esgotaram, adiantei-me um pouco delas para que pudessem conversar à vontade e eu tirasse as minhas fotos. Chegamos a St. Jean Pied-de Port, que é uma cidadezinha das mais belas do Caminho de Santiago, às 15hs e fomos direto para a gîte a fim de que eu me instalasse e pudesse deixar lá a minha mochila. Lá encontramos o Iber, muito simpático, já trabalhando como hospitaleiro local. Fomos aos correios para retirar uma encomenda com roupas, que pretendia usar na minha caminhada pela Espanha e que a Catherine se comprometera a enviar-me para cá. Chegou a hora da despedida, primeiro das amigas da Nicole II, e depois desta, que se tornou uma grande amiga nesta minha caminhada. Fiquei com frio na barriga com a idéia de ter que continuar sem a sua companhia e proteção. Depois de um forte abraço e a promessa de que sempre rezaríamos um pelo outro, nos despedimos.

O4/11 – Acordei às 6hs, arrumei a mochila, comi e, ainda escuro, sai caminhando pela cidade, pouco antes das sete. No dia anterior, o Iber com muita paciência, deu-me todas as explicações de que eu precisava além um pequeno mapa, bem detalhado, que eu usaria para orientar-me na travessia dos Pirineus e poder chegar hoje até Roncesvalles na Espanha. Diferente da minha travessia em 1999, quando escolhi ir pela rodovia, porque chovia bastante e, na ocasião, acatei as recomendações do nosso hospitaleiro, desta vez, a minha decisão era seguir pelo verdadeiro caminho dos peregrinos: a trilha das montanhas. Esta etapa foi uma das mais exigentes do Caminho, com sete horas de subida íngreme, entre 180 e 1450 metros de altitude. O frio intenso era compensado pelo calor do corpo exigido ao seu extremo. O vento assobiava nos ouvidos e ameaçava, o tempo todo, jogar-me para trás com força. Com o sol iluminando até onde a vista alcançava, era possível enxergar várias cidadezinhas francesas e as montanhas com os seus cumes cobertos de neve. Com fome e sede, procurei uma grande pedra para proteger-me do vento, comi o meu sanduíche e tomei bastante água. Nessas condições, o descanso é de, no máximo, dez minutos, porque o corpo esfria rapidamente, uma vez que a roupa que eu estava usando era adequada para proteger-me do frio desde que eu estivesse em movimento. Cheguei a Roncesvalles às 3hs e fui direto para o local de atendimento aos peregrinos, mas fui informado de que só estaria funcionando após as 4hs. Aproveitei o tempo para visitar o esplêndido conjunto arquitetônico da La Colegiata. Os peregrinos foram todos instalados no albergue juvenil, porque a hospedaria da La Colegiata, que acolhe os peregrinos, estava em reformas.

05/11 – Na França, o meu despertador do relógio de pulso estava sempre programado para acordar-me às 7hs, mas em St. Jean Pied-de Port eu antecipei-o em uma hora, porque pretendia iniciar cedo a minha caminhada naquele dia. Esqueci-me dessa mudança, hoje o despertador tocou eram seis da manhã e lá fui eu para a rua com um frio terrível e totalmente escuro. Logo na saída de Roncesvalles, inicia-se um belo trecho pela floresta, dificultando, mais ainda, a identificação da minha rota que neste dia também teve longas subidas, lama e pedras. Cheguei cedo a Larrasoaña e fui direto para o albergue de peregrinos do Ayuntamiento, administrado pelo simpático hospitaleiro Santiago Zubiri. Lá já estava o peregrino espanhol Paco, de quem recebi a informação que o restaurante local estava fechado desde o dia anterior e não havia onde comprar algo comestível no vilarejo. Com essa notícia fui verificar o que eu tinha para distrair o estômago, pois ele já começava a reclamar, e constatei que durante a travessia dos Pirineus e no trajeto de hoje, consumi as minhas parcas reservas da matula. Chegaram outros cinco peregrinos espanhóis: Juan, Mercedes, Alba, Jose e David, além do hospitaleiro Santiago, que nos disponibilizou os ingredientes para o jantar coletivo à base de macarrão e omeletes.

06/11 - Saí de Larrasoaña eram sete e trinta e os outros peregrinos ainda dormiam. Esta etapa é curta e teve barro e calçadas, estas construídas para facilitar a vida dos peregrinos, mas que tiram o espírito de aventuras do Caminho de Santiago. Cheguei cedo a Pamplona, bela cidade do Caminho, com mais de dois mil anos de fundação, que possui monumentos imperdíveis: a Catedral e o seu belo claustro, a igreja de S. Nicolas, a igreja de S. Ignácio, o Ayuntamiento, o Palácio Arzobispal e outros mais. Fui até a sede da Associação dos Amigos do Caminho de Navarra, mas encontrei-a fechada. Nas redondezas, procurei um restaurante para almoçar e, depois, um local onde pudesse acessar a Internet e poder mandar notícias aos amigos e à minha família. Mais tarde fui para Cizur Menor, 4km depois de Pamplona, onde pretendia dormir. O albergue é particular, de acomodações muito simples e a hospitaleira extremamente gentil e solidária com os peregrinos. Como sol ainda estava no horizonte, aproveitei para lavar a minha roupa e tentar seca-la. Jantei no restaurante local com a Mercedes e o Paco, peregrinos que havia conhecido em Larrasoaña. Fui dormir cansado, acho que esses trinta dias de caminhada já estão provocando as suas conseqüências.

07/11 - Comi e tomei chocolate quente no restaurante em Cizur Menor, às 8hs. O frio foi espantado pelo sol e pela subida do Alto del Perdón com seus 750m. de altitude. Quando atingi o seu cume, lá já estavam a Mercedes e o Juan, apreciando a paisagem deslumbrante, enquanto comiam. A distância percorrida até Puente La Reina é curta, somente de 19km e, antes de chegar lá, é interessante desviar-se um pouco do Caminho para conhecer a igreja de formato octogonal de Eunate. No albergue de Puente La Reina, pertencente aos Padres Reparadores, estavam instalados dez peregrinos, sendo três ciclistas espanhóis. Esta cidade do século XI, margeada pelo rio Arga com a sua famosa ponte românica, é o local de confluência das rotas dos peregrinos procedentes de Somport ( o Caminho Aragonez ) e Roncesvalles ( o Caminho Navarro ) e possui belas igrejas, como é o caso da Igreja de Santiago ( séc. XII ) e da Igreja do Crucifixo, construída pela Ordem del Temple. Os gastos para caminhar na França são maiores do que os da Espanha, enquanto aqui eles giram em torno de, mais ou menos, E$ 20,00 por dia, lá atingem, pouco mais de E$ 30,00. Pode-se gastar bem menos, desde que o peregrino faça a sua própria comida, o que não é difícil para quem sabe fazê-lo, uma vez que, em quase todos lugares de hospedagem, existem boas condições para isso.

08/11 - Comecei a minha caminhada de hoje com frio e neblina, parei antes, no restaurante onde jantamos ontem para comer, e lá já estavam três peregrinos espanhóis, fazendo o seu desjejum. Passando por Mañeru e Cirauqui , deparei-me com pontes e calçadas romanas, além das igrejas de S. Román ( séc. XIII ), e Sta. Catalina ( séc. XIII ). A etapa de hoje foi curta, 19 km, e deu pra ver que o Caminho vem recebendo investimentos governamentais para torna-lo mais fácil e confortável de percorrer. Se por um lado essas providências o tornam mais atrativo do ponto de vista turístico, por outro lado, ele perde muito do seu lado místico e mágico, além de eliminar em boa parte os desafios físicos, que muito contribuem para fortalecer a fraternidade e a solicitude entre os peregrinos. Estella, o meu ponto de chegada, foi um importante centro medieval de comércio e acolhimento aos peregrinos desde o século XI e, ainda hoje, mantém bem conservados o seu casario antigo e monumentos. O albergue é confortável e pertence à Associação dos Amigos do Caminho de Santiago e, lá mesmo, eu recebi um folder com a indicação dos monumentos mais interessantes para visitação: San Pedro de la Rua ( séc. XII ); Nossa Sra. de Rocamadour (séc. XII ) a igreja do Sto. Sepulcro ( séc. XIV ) que possui uma bela portada gótica; a Igreja de Sta. Maria Jus Del Castillo, de estilo românico puro; a Igrreja de San Miguel de Arcangel; o Palácio dos reis de Navarra, em estilo românico etc. .

09/11 – Tinha planejado caminhar hoje até Torres del Rio, mas fiquei sabendo que o seu albergue já está fechado este ano e depois de percorrer um trecho curto e monótono de 20km fiquei em Los Arcos. Ao passar por Azqueta, procurei pelo Pablito, personagem carismática do Caminho de Santiago, e que está sempre preocupado em atender os peregrinos que por ali passam, oferecendo-lhes, gratuitamente, cajados por ele trabalhados. Quando estive peregrinando por aqui em 1999, passei ao largo de Los Arcos e fiquei com a impressão de que se tratava de um vilarejo sem atrativos. A igreja de la Asunción, no entanto, de estilo barroco, é muito bonita no seu interior e vale a pena conhece-la, sobretudo, à noite, com todas as luzes acesas.

10/11- Os dias estão mais curtos e não dá mais para sair antes das 8hs porque ainda está escuro para caminhar e, com tanta lama, corre-se o risco de tomar um tombo. Para compensar a preguiça dos últimos dias, hoje caminhei quase 30Km.e cheguei até Logroño, passando por dentro de Torres del Rio e Viana. Na Rota Jacobea, como também é conhecido o Caminho de Santiago, as pequenas igrejas octogonais românicas, de Eunate e Torres Del Rio, carregadas de valor simbólico e completamente desprovidas de ostentação, merecem um tempo do peregrino para visitação. Em Viana pretendia visitar a igreja de Santa Maria que, entre outras atrações, guarda o sepulcro de César Borgia, mas estava fechada. Decidi almoçar e voltar depois, mas continuava fechada e, não estando com disposição para esperar, segui para Logroño, entrando assim na Região de la Rioja, mundialmente famosa pela qualidade dos seus vinhos. Na entrada da cidade, lembrei-me da D. Felícia, já falecida, anciã que eu conheci quando caminhei por aqui em 1999, e que ali tinha a sua residência e ficava na sua porta, carimbando as credenciais dos peregrinos que passavam e ofertando-lhes figos secos produzidos no seu quintal. O albergue para peregrinos que ficamos, pertence à igreja católica, é confortável e bem atendido pelos hospitaleiros. Logroño é uma cidade de grande porte no Caminho de Santiago e que tem monumentos que vale a pena conhecer: a igreja de Sta. Maria del Palácio ( séc. XII ), a igreja de S. Bartolomé ( séc. XIII ), igreja de Santiago el Real ( séc. XVI ), a Porta de Carlos V e o Palácio de Espartero, onde está instalado o museu de Logroño. Aqui nos reunimos todos os peregrinos que conheci em Larrasoaña, e decidimos fazer um jantar coletivo que ficou por conta da Mercedes e do Juan.

11/11 - Em Logroño ganhei uma nova credencial de peregrino, porque a minha, iniciada em Le-Puy, já estava completa de carimbos. Na saída da cidade, caminhamos por uma calçada de mais de seis km., pegamos depois um pouco de lama, mas o relevo do trecho é de pequenas oscilações e fácil de percorrer. Passando por Navarrete, entrei na Iglesia de la Asunción, que tem no seu interior obras barrocas e flamencas que merecem a visita dos peregrinos. Em Nágera, onde parei para dormir, o albergue é razoável e fica na saída da cidade, no Monastério de Sta. Maria la Real ( séc. XI ), ao lado de um museu que vale a pena conhecer. O hospitaleiro, José Maria, é educado, mas de pouca conversa com os peregrinos, que eram doze aqui. Saí para jantar num restaurante próximo com o Jaime, peregrino espanhol que conheci em Logroño e que também pretende chegar a Santiago de Compostela, gastei E$ 10,00. Como já escrevi antes, as despesas para os caminhantes na Espanha são bem menores do que as da França, sobretudo, quando se trata de pagar para dormir nos albergues. Normalmente pertencentes à Igreja Católica ou ao Ayuntamiento ( prefeitura ) local, aqui na Espanha eles pedem uma contribuição espontânea ou pagamento de valor inferior a E$ 10,00. O número de peregrinos no Caminho tem aumentado a cada ano e com isso têm surgido novos albergues particulares e públicos, especialmente naquelas localidades onde não existiam ou os já existentes não atendiam a demanda.

12/11 – Eram 7hs quando o hospitaleiro José Maria acendeu as luzes do salão onde dormíamos e avisou-nos que até às 8hs todos deveriam estar fora para que se iniciasse a limpeza do recinto. Parei em Azofra para fazer um lanche e perguntei onde poderia encontrar a Hospitaleira do albergue local, Maria Tobia, que eu conhecera em 1999 e ficara impressionado com o seu zelo pelo bem estar dos peregrinos. Deram-me o endereço da sua residência e lá fui eu cumprimentá-la e tentar trazer-lhe à lembrança algum fato que tivesse marcado a minha passagem por ali, inclusive a foto que tiramos juntos e que lhe enviei posteriormente pelo correio. Como era de se esperar, depois de tanto tempo e centenas de caminhantes que haviam passado pelo albergue local, não consegui o meu intento. Mesmo assim, fiquei contente em reve-la e saber que continua com disposição e saúde para continuar a sua missão no Caminho de Santiago. Meu companheiro de caminhada neste dia foi o Jaime, peregrino espanhol que diz ser pedreiro, pintor de paredes, conhecedor de medicina alternativa e terapeuta amador. Acho que para convencer-me do seu domínio em cada uma dessas atividades, me fez ouvir longas exposições das suas vivências no uso delas. O trajeto de hoje tem pouco mais de 20km. e o desnível não é acentuado. Na chegada a Santo Domingo de la Calzada, aceleramos os passos porque a chuva engrossou muito e nos assustou. Aqui, o albergue para acolhimento dos peregrinos pertence à Igreja Católica e é bem confortável. Depois de instalado, fui visitar a Catedral (sec.XII), que contém no seu interior, entre outros tesouros artísticos, a tumba de alabastro de Santo Domingo. Nesta igreja, numa gaiola estão o galo e a galinha, brancos, como lembrança da lenda local mais famosa. No séc XVI, o jovem peregrino Hugonell que viajava acompanhado dos pais, é enforcado por ter sido acusado de roubo. Inconformados e convictos da inocência do filho, os pais se negavam a abandonar o local do enforcamento quando ouviram o garoto falar-lhes que estava vivo por milagre de Santiago. O juiz ao ser avisado do acontecido, deliciava-se saboreando um galo e uma galinha no almoço e reagiu com o seguinte comentário: “O garoto está tão vivo quanto estas aves que estão no meu prato”. Naquele instante, os animais puseram-se em pé e começaram a cacarejar e cantar sobre a mesa. Apesar da instabilidade do tempo, passei pelo Palacio del Obispo e o antigo Hospital, este agora destinado a Parador Nacional ( hotel ).

13/11 – A etapa de hoje é de 22km passando por alguns povoados, e vai até Belorado, já na Região de Castilha-Leon. Foi uma caminhada com o Jaime ao longo da qual encontramos bons lugares para descansar e comer. Na área rural havia intensa atividade de preparo da terra com máquinas agricolas e animais. Em Redecilha del Camino, na igreja local, paramos para ver a sua famosa pia batismal, trabalhada com o tema alusivo à cidade de Jerusalém e o numero oito. Belorado tem um albergue do Ayuntamiento e outro particular, sendo que os dois são bem simples. Dei preferência ao particular e assim ficamos juntos novamente aquele grupo que começou em Larrasoaña. Os hospedeiros são muito agradáveis, nos indicaram um bom lugar para jantar e depois sentaram conosco à mesa para tomar o vinho que trouxemos para beber no albergue. Eles irão para o Brasil no próximo mês, como convidados de uma Associação de Peregrinos, com isso, tivemos muito assunto para conversar. O David, peregrino espanhol, decidiu que amanhã irá de ônibus até Burgos, para poupar os pés tomados pelas bolhas.

14/11 – Partimos, Jaime e eu, com a intenção de dormir em San Juan de Ortega, 24 km. adiante. No trecho existem pequenos bosques e um pouco de subidas. Ao passar na pequena Villafranca Montes de Oca entramos na igreja de Santiago para ver a pia de água benta com formato de concha. È a maior do Caminho, asseguram os seus habitantes. Chegando a San Juan de Ortega fiquei surpreso com o volume das obras de restauração do conjunto composto pela igreja e a hospedaria. Quando estive por aqui, em 1999, era lamentável o estado de deterioração desses monumentos. Naquela ocasião, o padre José Maria, pároco responsável pelo Santuário e hospitaleiro, como sempre o fazia, ofereceu aos peregrinos um prato de sopa de alho no jantar e confessou-nos que tinha esperanças de receber apoio oficial para recuperá-los. Hoje visitamos a igreja que nos dias 21/03 e 21/09, sempre às 17:07 – horário solar – recebe no seu interior, um raio de luz que atravessa uma pequena janela e que ilumina as cenas esculpidas em uma coluna, seqüencialmente, da Anunciação, depois a da Visitação e por fim a do Presépio com o menino Jesus, seus pais e os animais, por dez minutos. Fomos informados que poderíamos ficar ali para dormir naquele dia como planejamos, mas não havia água quente para tomar banho. Para quem está caminhando, sobretudo nesta época do ano que chove bastante e faz frio, tomar um banho quente no lugar onde se pretende dormir é essencial. Optamos por continuar mais 6km e dormir em Atapuerca, cujo albergue é pequeno, bem simples e pertence a uma família local que mora ao lado dele. O jantar e o café da manhã foram na residência dos hospitaleiros. Lá também ficaram o José Olaso, a Alba e o suíço Ricardo.

15/11 – Saí pela manhã com o tempo fechado, ameaçando chuva. Uma hora depois, ela veio forte e piorou um trecho do Caminho onde já havia muita lama, devido às obras que estavam sendo executadas na construção de uma rodovia. Em Burgos, que é uma bela cidade de médio porte, é preciso atravessa-la num trajeto de seis km. para chegar ao albergue de peregrinos. Acaba sendo um passeio urbano forçado, porém, compensador pelas boas surpresas que a cidade oferece nesse percurso. A principal atração daqui é a Catedral com as suas maravilhosas capelas internas e o museu anexo, cujas obras de restauração são recentes. Quando cheguei ao albergue, do lado de fora do prédio, lá já estavam três jovens peregrinos canadenses que eu conhecera em Belorado, tentando proteger-se da forte chuva que caía. O hospitaleiro negava-se a deixá-los entrar porque ainda faltavam quarenta minutos para o inicio do horário oficial de abertura para o ingresso dos peregrinos. Foram em vão as nossas tentativas de convencimento do sujeito grosseiro que nos olhava do lado de dentro com cara de deboche, de óculos escuros e fumando um longo charuto. Os peregrinos ali presentes, acostumados com a solicitude dos hospitaleiros ao longo do Caminho de Santiago, estavam perplexos e decepcionados.

16/11 – Saí do albergue caminhando com o Jaime às 8hs, com muito frio, as poças de água congeladas e neblina. Decidimos que chegaríamos naquele dia até Hontanas. A forte chuva do dia anterior deixou o Caminho intransitável, tanta era a lama que se prendia nos calçados. O cajado salvou-me de alguns tombos. O trecho de hoje tem poucos atrativos e o horizonte na área rural é quebrado pela intensa atividade dos agricultores preparando a terra para o próximo plantio. Chegando a Hontanas fomos direto para o restaurante do Vitorino, figura conhecida no Caminho de Santiago pelas peripécias que faz com a jarra de vinho quando bebe. Apesar do tempo que nos ameaçava com chuva, decidimos continuar e dormir em Castrojeriz, nove quilômetros adiante. Esta é uma das mais interessantes localidades do Caminho de Santiago, pela sua arquitetura antiga e bem conservada, belíssimas igrejas e pelo ambiente fraterno existente no albergue de peregrinos do Resti. Percebi que as igrejas estão sendo restauradas, existem novas estalagens e melhor iluminação das ruas. Na minha última passagem por aqui, quatro anos atrás, ficou-me a impressão de ser um lugarejo esquecido pelo processo de modernização da Espanha. Hoje foi o meu dia mais longo de caminhada, 38km. Quando chegamos as luzes da cidade já estavam acesas e não encontramos ninguém nas ruas.

17/11 – A saída de Castrojeriz é dificultada pela subida de um morro de onde se tem uma visão quase infinita da região. O restante do trajeto foi tranqüilo e com poucas oscilações. Hoje a minha caminhada foi com o Jaime e o David, este peregrino espanhol que reencontramos em Castrojeriz. Daquele grupo originado em Larrasoaña, o Paco voltou para Madrid, a Alba terminou a sua caminhada em Burgos, a Mercedes e o Juan ficaram para trás devido a uma tendinite na coxa dela, e o José decidiu ficar mais tempo em Burgos. Chegamos às 15hs no albergue de Frómista – Região de Palencia - mantido pelo Ayuntamiento local, que dispõe de ótima estrutura de atendimento aos peregrinos. Ao lado está a igreja de San Martin ( séc. XI ) um dos melhores exemplos do românico palentino e é considerada Monumento Nacional.

18/11 – Eram 8:30hs quando saímos de Frómista, o David, Jaime e eu. O frio durante o dia impediu-me de tirar o casaco, mesmo quando senti o corpo mais aquecido pelo esforço da caminhada. A nossa meta era chegar até Carrion de Los Condes, pouco mais de 19 km. de caminhada. Cansado como estou, confesso que se eu não tivesse que estar em Santiago no dia 01 de dezembro para voltar ao Brasil, estaria enfrentando etapas menores. Antes de chegar ao nosso destino do dia, entramos em Villalcázar de Sirga, onde é possível visitar a belíssima Igreja Sta. Maria la Blanca – Séc. XIII – que funcionou, também, como fortaleza dos templários. Parte dela desmoronou por ocasião do terremoto que destruiu Lisboa em 1755 e que teve forte impacto em quase toda a Península Ibérica. Em Carrion de Los Condes, que estava com o seu centro urbano e duas igrejas em obras, optamos por ficar instalados no Convento de Sta. Clara ( séc. XIII ). Fundada pelos romanos, esta cidade desempenhou um papel importante no Caminho de Santiago, sobretudo a partir da construção do Monastério de San Zoilo (séc. X ) vinculado a Cluny na França. Diz a lenda, que em frente à portada da igreja, de estilo românico, Sta. Maria de la Victoria ( séc. XIII ) os peregrinos se aglomeravam para ouvir as explicações sobre o significado das figuras de touros, mouros e das donzelas, ali esculpidas.

19/11 - Decidimos que a etapa de hoje seria até Sahagún, distante 38km. Embora seja um trecho de fácil execução, a distância é longa demais, sobretudo para mim que estou muito cansado. O albergue em Sahagun é grande e muito confortável. Aqui já estamos na região de Leon, em cujas construções se utiliza o ladrilho, diferente de onde já passamos que tem a pedra como matéria prima. Vale a pena conhecer aqui as ruínas do Real Monastério de San Benito, a igreja de San Tirso ( séc. XII ), e a igreja de San Lorenzo ( séc. XIII ).

20/11 – Junto com o Jaime , saímos de Sahagun às 9 horas. O trajeto é continuação de ontem, plano, arrumado e muito maçante David, mais uma vez, querendo poupar os pés tomados pelas bolhas, embarcou num ônibus e foi para Leon. Tínhamos combinado dormir naquele dia em Mansilla de las Mulas, distante 38 km.,mas o cansaço nos derrotou e ficamos em Reliegos, 6 km. antes do nosso objetivo. O albergue é confortável e a hospitaleira, Sra. Iluminada, muito falante e gentil. No povoado compramos os ingredientes necessários para que o Jaime fizesse o jantar: “tortilla espanhola”. Dividimos os afazeres da cozinha com três jovens canadenses, nossos conhecidos de outras paragens. A garota que caminha com eles vem se arrastando há dias com uma gripe muito forte.

21/11 – Cheguei pouco depois das nove ao albergue de peregrinos em Mansilla de las Mulas, com a intenção de encontrar alguém para conversar, mas estava completamente vazio. Sequer os hospitaleiros estavam lá. Na saída da cidade, encontrei o Jaime e fizemos o trajeto até a entrada de Leon, onde parei para almoçar e ele continuou. Fui para o albergue das irmãs benedictinas, na região mais antiga da cidade. Depois do banho, apareceram o David e o José Olaso, peregrino espanhol que eu não via desde Burgos. Para comemorar o reencontro fomos tomar vinho e comer “tapas” em três diferentes bares próximos da Catedral, que é considerada monumento nacional da Espanha e cuja iluminação noturna acentua a sua majestade. A cidade é muito bonita e vale a pena conhecer os seus diferentes pontos de interesse para visitação: a Real Basílica de San Isidoro; o Panteón Real, onde se encontram as sepulturas de 11 reis, 12 rainhas e 23 príncipes; La Colegiata, considerada como o conjunto mais completo do estilo românico; o edifício do Ayuntamiento (obra de Vela Zanetti); La Casa de Botines  obra de Gaud ) e o Palácio de los Guzmanes. Tomei a decisão de diminuir ao máximo o peso da minha mochila, joguei algumas coisas fora e mandei outras, pelo correio, inclusive o meu saco de dormir, para Santiago. Acredito que não sobraram mais de três quilos. Realmente estou muito cansado! Tenho ainda 300 km para caminhar em nove dias.

22/11 - Quando saí do albergue, junto com o David, eram 8:30h, chovia e ventava muito. Esperamos mais um pouco e fomos tomar café perto da Catedral. Ficamos por ali até 10h e, em vista do tempo ruim, decidimos pegar um ônibus até Astorga, distante 48 km. Para um peregrino essa é uma decisão dolorosa, considerando que as suas pernas devem ser o seu único meio de locomoção, mas tornou-se impossível cumprir todas as etapas seguintes em tão pouco tempo, sobretudo com o clima tão adverso. Desde que iniciei a minha caminhada em território espanhol, procurei em três localidades alterar a data do meu retorno ao Brasil junto à empresa aérea, mas não consegui. Alguns dias atrás eu já percebera que se o tempo não melhorasse eu teria que adotar essa solução. Pensava que isso aconteceria mais próximo de Santiago, porém, com as péssimas condições do tempo em Leon, achei que chegara a hora de enfrentar o problema. Em 1999, quando percorri o Caminho desde St. Jean Pied de Port até Santiago precisei de apenas 26 dias. A diferença é que foi no mês de maio, enfrentando o sol ameno da primavera e chuvas rápidas que não encharcavam o solo. Em Astorga as principais atrações são : a Catedral ( séc XV ), o Museu Catedralício, o Hospital de San Juan ( séc. XII ) e o Palácio Episcopal (obra de Gaudí). Depois de algumas fotos e um lanche rápido seguimos para Rabanal del Camino, distante 19,5km.

23/11 - O albergue em Rabanal é bem precário, condição atenuada pela hospitalidade dos proprietários. Pela manhã fomos até o bar para tomar café e dali iniciarmos a nossa caminhada. Lá fomos alertados pelos moradores que ali se encontravam, de que deveríamos evitar o caminho tradicional devido às chuvas diárias e ao trabalho de algumas máquinas no trecho, tornando-o intransitável para os caminhantes. Com o David, optamos pelo asfalto. Passando por Foncebadón, percebi grandes mudanças: além de algumas casas novas foi construída uma nova hospedaria que possui bar e restaurante muito bons. Paramos ali para comer algo, tomar café e fugir um pouco do frio. O proprietário, morador da região, mostrava-se confiante no progresso do vilarejo. Quando estive por aqui em 1999, só haviam ruínas de um povoado completamente abandonado. Logo depois chegamos à Cruz de Ferro, o lugar mais emblemático do Caminho de Santiago. No horizonte viam-se os cumes nevados das montanhas. Rezei e lancei as pedrinhas que trouxe do Brasil com os respectivos pedidos da minha família e dos amigos. Chegamos a El Acebo para almoçar e, por sugestão do David, comi “Botillo”, prato típico da região, à base de carne suína, de difícil digestão, por sinal. Nos últimos dias tenho procurado comer mais porque já perdi quase oito quilos do meu peso original. Chegamos à Molinaseca já escuro e fomos até o albergue que estava fechado. Na porta, estava afixado um pequeno aviso com o telefone do hospitaleiro Alfredo. Ligamos e ele veio em cinco minutos para explicar-nos que não imaginara que alguém fosse chegar após as 18hs. Convenceu-nos de que deveríamos aceitar a sua carona até Ponferrada, distante 5km, local onde poderíamos ser melhor acolhidos naquela hora. Em Ponferrada o albergue para peregrinos é novo e muito confortável. Tem uma igreja ao lado e ali assistimos a missa dos peregrinos às 20hs. O padre convidou-me para rezar o pai-nosso em português, em alta voz.

24/11 – A saída de Ponferrada é longa e a sinalização do Caminho até Villafranca del Bierzo é muito ruim. Esta etapa é de fácil execução e bastante interessante porque atravessa pequenas cidades cujas edificações são bem antigas. Inclusive pude constatar que em Cacabelos se encontra um bom albergue para peregrinos. As obras de infra-estrutura com novas rodovias, restaurações de monumentos, novos hotéis, novos albergues, estão bem visíveis por onde passei hoje. De certa forma ganha-se com mais conforto e segurança, todavia, o Caminho vai perdendo assim a sua rusticidade, a sua ambiência mística, o seu resplendor. Corre o risco de tornar-se apenas mais um roteiro turístico europeu. Cheguei ao albergue de Jesus Jato, hospedeiro em Villafranca, logo depois das 15hs. Figura lendária do Caminho de Santiago, junto com a sua família, Jesus Jato é especialista na arte de bem receber os peregrinos e ter boas histórias para contar. Desta vez, ele estava no Brasil como convidado dos peregrinos brasileiros. Aqui vale a pena conhecer a igreja de Santiago ( séc. XII ), a igreja de São Francisco ( séc. XIII ), e a Colegiata de Sta. Maria ( séc. XVI ). A parte antiga da cidade é também bastante interessante, inclusive, lá existem boas opções para comer.

25/11 - A etapa de hoje, embora seja muito difícil pela subida constante das montanhas, é amplamente compensada pela beleza das paisagens. Passando por Trabadelo e Vega de Valcarce, constatei que ali já existem novos albergues para peregrinos. Em La Faba, já no alto da montanha, percebi a presença de alguns peregrinos em uma construção de pedras sobre cujo portal de acesso parecia que tudo se sustentava. Identifiquei ali a Carmele e o holandês Peter tomando chá. Aceitei uma xícara que me foi oferecida pelo proprietário do local e tomei aquilo que diziam ser um chá de alguma coisa que não consegui identificar. Valeu pela animação do ambiente. Quando cheguei ao albergue do local conhecido como Cebreiro, na altitude de 1073 metros, meu destino do dia, lá encontrei o David e o Joaquim, este, voluntário do albergue de Villafranca. Depois do banho e um passeio no local, fomos tomar vinho no restaurante. Para minha surpresa, lá estava esperando por eles, o Felix, que eu já conhecera como hospitaleiro de Navarrete em 1999. O Cebreiro, pelo seu valor pré-histórico, medieval e as boas referências de acolhimento aos peregrinos em toda a história do Caminho, sempre foi por eles bem aludida. Na pequena igreja do local pode-se ver o belo cálice, estilo românico ( séc. XII ), como prova do Milagre Eucarístico de O Cebreiro. Acontecimento registrado pelos moradores da região, durante a celebração da missa dominical, em princípios do século XIV, no momento da Consagração a hóstia converteu-se em Carne e o vinho em Sangue.

26/11 – Tentamos sair de O Cebreiro às 8hs, mas ficamos assustados com o frio glacial, o vento arrasador e a chuva para completar. Com o David e a Carmele, corremos até o restaurante para comer algo e esperar que o tempo melhorasse. Lá conhecemos a proprietária do lugar, uma inglesa que sentou à nossa mesa e contou-nos sua bela história de peregrina que percorreu o Caminho de Jerusalém em 1993. Vimos pela janela o Peter e o Xavier, destemidos, saindo com as suas mochilas enormes, e erguendo os seus cajados na nossa direção nos desafiavam a segui-los. Fingimos que não era conosco. Já eram quase dez horas quando nós três decidimos que não tínhamos outra alternativa senão encarar a realidade e partir rumo a Samos. Chegamos lá quase escurecendo. O prédio de fachada barroca do Monastério de Samos, remonta ao séc. VII. Nele, AlfonsoII, el Casto, fundador de Compostela, recebeu educação e ajuda financeira para esse propósito. O prédio é magnífico e possui bela arquitetura interna, claustros lindíssimos, além de rica pinacoteca e biblioteca. Nesse prédio, numa espécie de porão funciona o albergue para os peregrinos, cujas acomodações estão muito precárias. Conhecemos o hospitaleiro Victor, um jovem seminarista porto-riquenho, da ordem beneditina que está instalada no local desde meados do séc. X. Depois de tomar um café e ouvi-lo sobre a rotina do convento, fomos convidados por ele para acompanhar uma oração na capela local e também apreciar o coro do mosteiro.

27/11 – Apesar de sairmos após 8hs estava escuro e chovia. Desde o Cebreiro já estamos caminhando na Região da Galícia, cujo clima é muito instável, sobretudo, nesta época do ano. Num mesmo dia, enfrentamos a chuva, o frio, mas de repente o sol pode sair e iluminar tudo como se estivéssemos em pleno verão. Acredito que por eu ser originário e morador do Centro-Oeste do Brasil, cujo clima é cálido e sempre iluminado por um sol enorme o ano todo, cuja presença é aliviada nos dias de chuva, faz com que eu esteja sempre escrevendo sobre o clima nesta caminhada. Sob esse aspecto, agora não é a melhor época para caminhar por aqui. Todavia, algumas das dificuldades que se acentuam nestas condições, são facilmente compensadas pelo maior entrosamento e solidariedade entre os peregrinos. Nosso objetivo de hoje foi chegar até Portomarin, 34km de caminhada. No centro desta cidade está a Igreja de San Nicolás, que em 1929, juntamente com o povoado primitivo, foi transferida, depois de ter todas as suas pedras numeradas, para o local onde hoje está erguida. Hoje caminhei com o David e a Carmele e aqui conhecemos o alemão Gerhard. As condições do albergue aqui estão lamentáveis, em completo abandono. Imagino que a construção de um novo prédio ao lado para receber peregrinos no próximo ano seja o motivo.

28/11 - Hoje a caminhada foi curta, 24 km. Esta é uma das etapas mais bonitas ao longo do Caminho na Espanha. As construções das propriedades no campo são bem rústicas e típicas. Elas ainda mantêm intactas, as suas linhas divisórias entre si, com muros de pedras como eram séculos atrás. Fez-me lembrar da Região de Aubrac na França. Chegamos com o David às 17hs. ao albergue de Palas de Rei e, após um banho quente e um rápido descanso fomos jantar com o alemão Gerhad. A comida na Galícia é muito saborosa e variada: caldo gallego, sopa de pescado, mariscos, peixes, carne de ternera assada, etc. Acompanhada de um vinho Alvariño, ou Ribeiro, e para finalizar a Tarta de Santiago como sobremesa. A Carmele não dormiu aqui, acho que não vamos encontrá-la mais.

29/11 - Estava ainda escuro quando deixamos o albergue, apesar de que já passavam das 8hs. A etapa de hoje tem boas oscilações de subidas e descidas passando por belos bosques. Durante o dia a chuva nos perseguiu sem parar e chegamos ao albergue em Arzua ensopados. As instalações são novas e muito confortáveis e o sistema de calefação do prédio é feito pelo piso. Aproveitamos para estender a roupa e os calçados molhados no chão. Logo depois chegou o César, peregrino espanhol que iniciou a sua caminhada em Ponferrada. Depois do banho, jantamos em frente. Acessei a Internet e fiquei chateado com a notícia da morte de um dos meus cachorros no Brasil.

30/ 11 - Não acredito, hoje é o meu último dia de caminhada. A etapa é de 35 km até o Monte del Gozo, pouco antes de Santiago de Compostela, onde decidimos dormir. Paramos várias vezes ao longo do trajeto, o David, César e eu para comer e beber vinho. Lamentamos a ausência da Carmele que evaporou completamente. No penúltimo bar que entramos, conhecemos dois operários da construção civil, um espanhol e outro português. Eles portavam pequenas mochilas e nos disseram que estavam iniciando o Caminho de Santiago naquele dia, mas no sentido inverso ao nosso. Estavam indo para a Alemanha onde pretendiam trabalhar por algum tempo. Não tinham prazo definido para chegar lá, até porque acreditavam que deveriam fazer biscates na Espanha e na França, para reforçar as finanças e proteger-se do frio no inverno. Fiquei imaginando que aquela nossa conversa poderia estar sendo travada mil anos atrás e não exigiria reparos.

01/12 – O albergue do Monte Del Gozo é enorme. A ala que estava recebendo os peregrinos caminhantes estava sob a responsabilidade de um jovem brasileiro fazendo ali o papel de hospitaleiro. Acordei 2:30hs, ansioso, não conseguia dormir. Fui para a recepção e li alguns jornais que estavam por lá até às 4hs e retornei para a minha cama. Comemos às 9hs e fomos para Santiago, 4km, adiante. A emoção era incontrolável. Voltar a Santiago de Compostela depois de quatro anos, tendo caminhado 1600km em dois meses era a realização de um sonho. Viver um sonho. Depois de receber a Compostelana, o documento oficial da Igreja Católica que certificou a minha peregrinação, o David, César e eu fomos para a Catedral e lá encontramos o suíço Ricardo e um jovem peregrino japonês que eu encontrara antes caminhando, em diferentes ocasiões. Fui convidado a ler a Epístola do dia na missa dos peregrinos. Para mim foi a glória, o melhor prêmio que Santiago poderia ter escolhido para me alegrar naquele dia. Fomos almoçar, comemos, bebemos, demos muitas risadas e na saída do restaurante, nos desejamos boa sorte e cada um de nós foi para um lado e voltou para a sua vida terrena.

29/11 - Estava ainda escuro quando deixamos o albergue, apesar de que já passavam das 8hs. A etapa de hoje tem boas oscilações de subidas e descidas passando por belos bosques. Durante o dia a chuva nos perseguiu sem parar e chegamos ao albergue em Arzua ensopados. As instalações são novas e muito confortáveis e o sistema de calefação do prédio é feito pelo piso. Aproveitamos para estender a roupa e os calçados molhados no chão. Logo depois chegou o César, peregrino espanhol que iniciou a sua caminhada em Ponferrada. Depois do banho, jantamos em frente. Acessei a Internet e fiquei chateado com a notícia da morte de um dos meus cachorros no Brasil.

30/ 11 - Não acredito, hoje é o meu último dia de caminhada. A etapa é de 35 km até o Monte del Gozo, pouco antes de Santiago de Compostela, onde decidimos dormir. Paramos várias vezes ao longo do trajeto, o David, César e eu para comer e beber vinho. Lamentamos a ausência da Carmele que evaporou completamente. No penúltimo bar que entramos, conhecemos dois operários da construção civil, um espanhol e outro português. Eles portavam pequenas mochilas e nos disseram que estavam iniciando o Caminho de Santiago naquele dia, mas no sentido inverso ao nosso. Estavam indo para a Alemanha onde pretendiam trabalhar por algum tempo. Não tinham prazo definido para chegar lá, até porque acreditavam que deveriam fazer biscates na Espanha e na França, para reforçar as finanças e proteger-se do frio no inverno. Fiquei imaginando que aquela nossa conversa poderia estar sendo travada mil anos atrás e não exigiria reparos.

01/12 – O albergue do Monte Del Gozo é enorme. A ala que estava recebendo os peregrinos caminhantes estava sob a responsabilidade de um jovem brasileiro fazendo ali o papel de hospitaleiro. Acordei 2:30hs, ansioso, não conseguia dormir. Fui para a recepção e li alguns jornais que estavam por lá até às 4hs e retornei para a minha cama. Comemos às 9hs e fomos para Santiago, 4km, adiante. A emoção era incontrolável. Voltar a Santiago de Compostela depois de quatro anos, tendo caminhado 1600km em dois meses era a realização de um sonho. Viver um sonho. Depois de receber a Compostelana, o documento oficial da Igreja Católica que certificou a minha peregrinação, o David, César e eu fomos para a Catedral e lá encontramos o suíço Ricardo e um jovem peregrino japonês que eu encontrara antes caminhando, em diferentes ocasiões. Fui convidado a ler a Epístola do dia na missa dos peregrinos. Para mim foi a glória, o melhor prêmio que Santiago poderia ter escolhido para me alegrar naquele dia. Fomos almoçar, comemos, bebemos, demos muitas risadas e na saída do restaurante, nos desejamos boa sorte e cada um de nós foi para um lado e voltou para a sua vida terrena.

29/11 - Estava ainda escuro quando deixamos o albergue, apesar de que já passavam das 8hs. A etapa de hoje tem boas oscilações de subidas e descidas passando por belos bosques. Durante o dia a chuva nos perseguiu sem parar e chegamos ao albergue em Arzua ensopados. As instalações são novas e muito confortáveis e o sistema de calefação do prédio é feito pelo piso. Aproveitamos para estender a roupa e os calçados molhados no chão. Logo depois chegou o César, peregrino espanhol que iniciou a sua caminhada em Ponferrada. Depois do banho, jantamos em frente. Acessei a Internet e fiquei chateado com a notícia da morte de um dos meus cachorros no Brasil.

30/ 11 - Não acredito, hoje é o meu último dia de caminhada. A etapa é de 35 km até o Monte del Gozo, pouco antes de Santiago de Compostela, onde decidimos dormir. Paramos várias vezes ao longo do trajeto, o David, César e eu para comer e beber vinho. Lamentamos a ausência da Carmele que evaporou completamente. No penúltimo bar que entramos, conhecemos dois operários da construção civil, um espanhol e outro português. Eles portavam pequenas mochilas e nos disseram que estavam iniciando o Caminho de Santiago naquele dia, mas no sentido inverso ao nosso. Estavam indo para a Alemanha onde pretendiam trabalhar por algum tempo. Não tinham prazo definido para chegar lá, até porque acreditavam que deveriam fazer biscates na Espanha e na França, para reforçar as finanças e proteger-se do frio no inverno. Fiquei imaginando que aquela nossa conversa poderia estar sendo travada mil anos atrás e não exigiria reparos.

01/12 – O albergue do Monte Del Gozo é enorme. A ala que estava recebendo os peregrinos caminhantes estava sob a responsabilidade de um jovem brasileiro fazendo ali o papel de hospitaleiro. Acordei 2:30hs, ansioso, não conseguia dormir. Fui para a recepção e li alguns jornais que estavam por lá até às 4hs e retornei para a minha cama. Comemos às 9hs e fomos para Santiago, 4km, adiante. A emoção era incontrolável. Voltar a Santiago de Compostela depois de quatro anos, tendo caminhado 1600km em dois meses era a realização de um sonho. Viver um sonho. Depois de receber a Compostelana, o documento oficial da Igreja Católica que certificou a minha peregrinação, o David, César e eu fomos para a Catedral e lá encontramos o suíço Ricardo e um jovem peregrino japonês que eu encontrara antes caminhando, em diferentes ocasiões. Fui convidado a ler a Epístola do dia na missa dos peregrinos. Para mim foi a glória, o melhor prêmio que Santiago poderia ter escolhido para me alegrar naquele dia. Fomos almoçar, comemos, bebemos, demos muitas risadas e na saída do restaurante, nos desejamos boa sorte e cada um de nós foi para um lado e voltou para a sua vida terrena.

Alfredo

R E L A T O S