COMO DECIDI FAZER O CAMINHO

- Andrea de La Torre

Relatos

"Meu nome é Andrea de la Torre. Sou argentina morando em Buenos Aires. Gostaria de compartilhar com vocês a minha chegada ao grupo de Santiago e a minha decisão em fazer o Caminho.

Embora seja argentina, toda minha vida me senti muito identificada com o povo brasileiro (nasci em noite de Carnaval, sou professora de português e amo o Brasil, a língua, a música e as pessoas). Numa das minhas tantas viagens a Maceió em abril de 2000 conheci meu amigo DD que acabava de chegar do Caminho. Ouvi seu depoimento com emoção e pensei que seria interessante fazê-lo algum dia.

No verão seguinte, quando voltei de férias a Maceió, DD me mostrou as 500 fotos que tinha tirado no Caminho, além do guia e até o livro que ele tinha escrito junto com outros peregrinos de Alagoas. Aí comecei a ficar mais envolvida no tema e achei lindo ter tempo para se encontrar isolado com os próprios pensamentos e ver como a gente age nos momentos de solidão. Sou cidadã duma grande cidade como é Buenos Aires e estou num corre-corre permanente atenta ao relógio e aos diferentes compromissos do dia-a-dia. Aí decidi fazer uma reportagem com DD contando sua experiência no Caminho a Santiago para passá-la nas minhas aulas de português junto com o capítulo de seu livro. Então eu fiz isso.

Voltei a Buenos Aires e comecei a passar toda a informação e experiência do DD aos meus alunos, os quais adoraram e ficaram muito emocionados também. (Este tema é desconhecido aqui na Argentina e só poucas pessoas sabem disso.) Um dia, uma aluna me ligou para dizer que haveria um programa sobre o Caminho a Santiago na TV. Eu assisti com certeza ao igual do que meus alunos. Era um programa especial de Paulo Coelho que passava imagens do Caminho enquanto ele contava sua viagem. De repente, senti uma força interna difícil de explicar e falei para os meus pais:

QUERO FAZER ESSA VIAGEM. DEVE SER SUPER EMOCIONANTE. PASSAREI O PERCURSO INTEIRO CHORANDO PELAS DIFERENTES VIVÊNCIAS QUE TEREI.

Minha mãe, como é lógico, falou que eu estava doida e que não imaginava o que seria caminhar tantos quilômetros todos os dias. Eu fiquei firme na minha decisão e comecei a planejar a data, que seria em agosto deste ano. Gosto mais do verão que do inverno e além disso teria tempo suficiente para me preparar. Nessa semana comuniquei minha decisão ao DD que imediatamente me deu a bem vinda ao grupo dos peregrinos e me mandou o endereço da NET.

Quando contei aos meus alunos, eles se alegraram e até houve alguns que se ofereceram para me acompanhar, mas depois fiquei sozinha no meu projeto e senti um friozinho ao imaginar-me no meio dos Pirineus caminhando só eu e minha alma. Quando contei isto aos outros peregrinos recebi a força de todos dizendo que no Caminho ninguém está só. Só está sozinho aquele que quiser estar sozinho. E acho que é verdade... A partir daí comecei a fazer uma pasta com toda a informação que recebia dos peregrinos mais experientes que já tinham feito o Caminho porque uma vez me disseram que todo o mundo é considerado peregrino desde o momento em que decidir fazer o Caminho (só que tem peregrinos iniciantes e experientes). Eu pertenço ao primeiro grupo...

Quando decidi a data da partida, pensei em sair no primeiro fim de semana de agosto para tirar o mês completo e coincidentemente vi que seria no dia 3 ou 4 de agosto, a mesma data de aniversário do meu avó falecido e a quem eu adorava. Senti ainda mais força para fazê-lo e pensei que ele estaria perto de mim acompanhando minhas pegadas.

Depois veio a situação ruim do meu país no mês de dezembro, com os "panelazos", os saques aos supermercados, a queda do presidente, o desfile constante de pessoas desconhecidas tomando posse e a chegado do ano 2002 sem presidente. Ninguém se animava a passar pela calçada da Casa Rosada, caso ele for escolhido para a presidência...O trabalho piorou bastante, perdi as duas reservas que tinha para minhas férias, a TV só mostrava violência e confusão nas ruas, os argentinos estavam todos de baixo astral. Então eu decidi tirar a parte positiva da situação.

Em vez de ficar em casa chorando pelos momentos que meu país estava atravessando, pelas férias que eu não tinha tirado, pelo dinheiro que faltava (sou o único suporte de meus pais, já que faz um ano que meu pai é mais um desocupado argentino), decidi trabalhar duro no meu preparo para o Caminho. Caminhava entre 9 e 12 quilômetros por dia, tomava sol no jardim da minha casa enquanto lia os diferentes livros do Caminho e imaginava que estava nas praias do Nordeste brasileiro, visitei vários médicos para saber se estava preparada fisicamente. Pela primeira vez na minha vida fiz uma ergonometria, visitei o cardiologista, a nutricionista, o traumatologista, e descobri que precisava de palmilhas, as quais já estou usando nas minhas caminhadas.

Em fevereiro, fiquei saudosa ao saber que alguns amigos tinham voltado das férias em Maceió, cidade que amo, enquanto eu tinha ficado aqui "vítima do curralito econômico". De repente Santiago me deu um sinal...Nessa semana ao ler meus mails recebi um convite em dobro - uma das peregrinas e por outro lado meu amigo DD me informavam que haveria um Encontro Internacional de Peregrinos do Caminho a Santiago em MACEIÓ!!!!!!!!! no final de abril. O preço do curso era bastante acessível e dois amigos de lá me ofereceram ficar hospedada em suas casas. Incrível!!!!! Imediatamente senti a presença de Santiago. Será que ele tinha reservado esta oportunidade para mim ? Até chorei só de pensar em conhecer o monte de peregrinos brasileiros com quem venho me correspondendo desde julho e que acho amigos embora seja à distância. Além disso poderia me informar bem de todas as dicas necessárias para o Caminho e compartilhar caminhadas, papos e treinamentos, já que aqui na Argentina ninguém sabe me informar sobre o assunto ou alguma associação de peregrinos. Todos me olham de maneira esquisita achando-me bêbada, louca ou sei lá...

Bom, gente, espero ter colaborado com meu "humilde depoimento" como peregrina iniciante no Caminho e espero encontrar vocês algum dia para compartilhar experiências e aprender de todos.

Tudo de bom e até mais.

Andrea (de Buenos Aires)

R E L A T O S