UM CAMINHO PARA DOIS

- Arthur Vianna

Relato

Muitas são as verdades do Camino. Con pan e vino se hace el Camino é uma delas. Mas o peregrino vai aprendendo as suas verdades, dos ali a Santiago de Compostela. Comigo, claro, não foi diferente. Aprendi muito. Comigo mesmo e com tantos outros peregrinos das mais diversas nacionalidades. Aqui e ali, fui colhendo os frutos e bebendo a água que o Camino me apresentava.

Conheci muitas pessoas incríveis (algumas poucas chatas, também é verdade). Numa pequena localidade, junto a uma fonte, conversei pela primeira vez com uma peregrina alemã, natural de Colônia. Lá estava ela com sua amiga Martine, francesa. E eu com o meu companheiro Chico, o Paco Camino. Foi uma conversa rápida, entre tantas outras com tantos outros peregrinos. Depois, a encontrei outras vezes pelo Camino, como sói acontecer a um peregrino. Como de todos, o destino era e foi Santiago de Compostela. Lá cheguei no dia 5 de junho, com um sorriso nos olhos e no coração.

A chegada em Santiago...bem, a chegada em Santiago de Compostela só mesmo chegando para sentir a emoção sentida e vivida. Lá na praça estavam vários turistas, inclusive alguns brasileiros querendo e tirando fotos junto a peregrinos que, de mochila e botas sujas, chegavam. Eu era um deles. Mas também lá estava aquela alemã que encontrei ao longo do Camino e que, vez ou outra, troquei frases em inglês e espanhol. Abraçamos sob os olhos de Thiago, apóstolo, peregrino e mata-mouros. E não é que Thiago (só pode ter sido ele), lá do alto da Catedral, decidiu que um novo Camino seria percorrido por aqueles dois peregrinos abraçados e felizes. Um era eu. Outro, a Evelyn. E assim foi. De Santiago e de mãos dadas, seguimos juntos. Primeiro, passamos por Lisboa. Depois Madrid, Barcelona. E, finalmente, fui conhecer a bela cidade de Colônia, na Alemanha. Voltei ao Brasil, deixando a Evelyn em sua cidade natal. Estávamos em julho de 2002, quando completei meus 57 anos. Em agosto, o aniversário era da Evelyn. E ela tomou um avião para soprar as suas velinhas aqui em Belo Horizonte. Passamos alguns dias juntos, conhecendo e caminhando pelas muitas belezas das Minas Gerais.

Cachoeiras na Serra do Cipó, Diamantina, Caraças e até um encontro festivo com peregrinos mineiros na casa da Dani, em Belo Horizonte. Hoje, ela já voltou para a sua terra. E eu estou aqui, em Belo Horizonte. E agora, José? - como diria o nosso Poeta maior. Pois, ainda sob a proteção (insisto: só pode ter sido ele!) de Thiago, vamos voltar ao Camino ainda neste ano da graça de 2002. Caminhando sim, mas estamos indo para dar, juntos, um pouco do muito que recebemos do Camino de Santiago: vamos ser, durante um período, entre setembro e outubro, hospitaleiros em um dos refúgios do Camino. Assim, vamos continuar um Camino que começamos separados, mas que traçado por Quem pode e manda, será um só Camino para dois.

Arthur Vianna - Peregrino em maio/junho de 2002 - Peregrino e Hospitalero em setembro/outubro de 2002.

R E L A T O S