MINHA PEDRA DO CAMINHO

- Marcos Lúcio Xavier Andrzejewski (Billy)

Relato

Uma vez passado Foncebadón se chega ao cume do monte Irago, de uns 1500 metros de altura onde encontramos a chamada "Cruz de Ferro ". Sobre um monte de pedras que os peregrinos vão ali através dos séculos depositando. No topo se ergue um tronco de carvalho de 5 metros de altura rematada por uma bela "Cruz de Ferro", da onde o monumento toma seu nome.

A origem e significado desta singular estrutura remonta segundo alguns ao período da ocupação Romana. Para outros se trata de um "Milladoiro" ou seja um amontoado de pedras que desde época ancestral formavam os caminhantes em determinados lugares para invocar divindades protetoras dos caminhos. Esta tradição, foi Cristianizada com a colocação da cruz.

Os peregrinos crêem que no dia do Juízo Final "Quando as pedras falarem" estas testemunharão que o peregrino cumpriu em vida sua peregrinação.

A Minha Pedra no Caminho

Parti do Brasil com a missão de levar três pedras. Uma pelo povo Brasileiro representada por uma ametista, outra de minha mãe contendo todas as suas energias e a minha com toda a esperança nela depositada. Mais uma, verdadeiramente uma do caminho, que apanhei entre os seixos do trecho Roncesvalles a Larrasoaña.

Peguei um seixo entre milhares que existem lá, de cor creme, bem claro, límpido, belo, polido pelos milênios em que esteve na natureza me esperando. Este me acompanharia pelos dias e horas de caminhada até ser depositado no alto do monte da Cruz de Ferro.

Foram belos dias que caminhei. O caminho era por vezes difícil, íngreme pesado com subidas que me tiravam o fôlego, pois sofro de bronquite de esforço. As vezes descansado, as vezes exausto por uma subida mais íngreme, as vezes apressado outras com a calma que traz a paz de quem caminha com um objetivo.

O seixo sempre esteve em meu bolso direito a disposição de um toque, de um afago, de um roçar de dedos quando procurava alguma coisa no bolso. Eu sempre o pegava e o segurava por algum tempo. Queria deixar marcado em minha lembrança aquele seixo.

Ele era bonito, bem liso, leve, mais de um bom tamanho. No inicio não reparei , mas surgiu uma mancha escura na superfície. Fiquei intrigado, com o passar dos dias ia surgindo mais e mais manchas. E as manchas aumentando tanto em numero como em tamanho.

Comecei a matutar o que aquilo representava. Eu estava levando o seixo para coloca-lo ao pé da cruz, ele deveria ser o mais bonito e belo possível, mas estava ficando feio com mal aspecto. Era a pedra que mais eu tocava, as outras estavam dentro da mochila, e com elas nada acontecia. Será que este seixo estava absorvendo alguma coisa de mim: Meus erros que pela vida tive ? Seria meu cansaço do dia a dia ! Poderia ser os acertos ! O bem que fazemos no contato com as pessoas pelo motivo de existir e ter boa vontade de ajudar, ou seria o altruísmo que temos ao fazer uma boa ação. Isto também podia a marcar.

Cada vez mais eu o pegava para observar, notava que as manchas aumentavam e com isso escureciam o meu seixo. Era tão misterioso que comecei a crer verdadeiramente que a pedra estava absorvendo para si energias que deveriam ser liberadas, ou que marcassem naquele ponto telúrico do Caminho.

Foram dias de magnifico caminhar. Dias de paz interior e comunhão com a natureza, que não me castigava nem com bolhas, nem com chuvas , nem com falta de energia. Me brindava com frutas, sombras e momentos de puro deleite aos olhos.

Os dias correram rápidos e prenunciavam a minha chegada à Cruz de Ferro.

Eu a vi de longe, quando o lençol de cerração a descobriu revelando para mim todo o seu misticismo. Escalei aquele monte de pedras feito por milhares de peregrinos durante séculos em deixar como testemunho de sua passagem uma pedra. Em nenhum lugar senti mais do que ali a passagem de tantos.

Após a meditação e oração de agradecimento depositei as três pedras a mim confiadas de serem levadas àquele local. Restava ainda a Pedra do Caminho! Segurei-a com força e a observei pela ultima vez. Toda marcada e escurecida.

Do fundo do meu intimo desejei que ali ficasse marcada a minha passagem como a pedra ficou marcada.

O que a marcou . . .

Billy

R E L A T O S