AO CAMINHO DE SANTIAGO

- Carla Trouche

Relato

Desculpem, meus queridos amigos.... Esta é a minha homenagem à maior aventura da minha vida, há exatos 4 anos...!! Nestes tempos tão ameaçadores, é bom lembrar que faço parte da tribo "Os loucos do caminho"... Uma reflexão para apenas deixarmos SER, fluir... viver a PAZ, como lá no caminho... Entrar na catedral e misturar-se à multidão, sob a luz dourada, é o momento que fecha o círculo iniciado em Roncesvalles um mês atrás . Impossível chegar a Santiago sem uma lágrima nos olhos, uma sensação de conquista, de merecimento, de realização. Mais do que façanha de que podemos nos gabar, porém, a trilha é algo para ser guardado no coração. As lembranças, os sons, as amizades, as paisagens e até os nomes dos lugares por onde você passou, formam um rosário do qual, espera-se, irá se lembrar para o resto da vida.

Ao Caminho de Santiago

Como em todos os anos, uma multidão de místicos e aventureiros começa agora a partir para a Espanha a fim de desafiar os quase 800 quilômetros do mais famoso trekking do planeta.

"Chegamos certa tarde às ruínas de um velho castelo da Ordem do Templo. Sentamos para descansar, Petrus fumou seu tradicional cigarro, eu bebi um pouco do vinho que tinha sobrado do almoço. Olhei a paisagem a nossa volta: algumas casas de lavradores, a torre do castelo, o campo com ondulações, a terra aberta, preparada para a semeadura. De repente a minha direita, passando pelos muros em ruínas, um pastor voltava dos campos, trazendo suas ovelhas. O céu estava vermelho, e a poeira levantada pelos animais deixou a paisagem difusa, como se fosse um sonho, uma visão mágica."

Dessa forma, entregue a uma mistura de realidade e misticismo, o autor Paulo Coelho ganhou o mundo com o livro O Diário de um Mago, centrado numa das mais fantásticas epopéias que um ser humano pode realizar em sua vida: a peregrinação pelo Caminho de Santiago de Compostela, pelo chamado Caminho Real Francês, o mais famoso, embora existam várias outras rotas que também levam a Santiago.

Muito bem, para quem pretende descobrir que loucura é essa, o momento chegou. Espalhado por todos os continentes, um exército solitário de pessoas das mais diferentes culturas prepara-se para essa grande (e temporária) migração rumo à Espanha. É verão europeu, quando a neve se derrete e os caminhos ficam livres.

Datas e números. Nessa estranha viagem eles se revelam de suma importância para os peregrinos, que só no ano passado foram 11 milhões. Afinal, cada pedaço dessa rota de quase 800 quilômetros entre Espanha e a França é recheado de significados e misticismo, conquistados em milhares de anos de História. Por lá passaram os celtas , o visgodos, os mouros. Cruzadas, magia negra, castelos conquistados e cidades destruídas: tudo junto, formando uma poeira densa, com cheiro de passado, que anima ou acaba com o viajante.

O clima de mistério, unido às palavras de Paulo Coelho, tem um efeito duplo sobre o Brasil. Por um lado somos o povo mais presente no Caminho, ficando atrás somente de Espanha e França, ou seja, dos donos da casa.

Por outro, um número considerável de brasileiros deixou-se levar pelo clima mirabolante de O Diário de um Mago e pode jurar por Deus que Santiago não existe: é só uma lenda inventada pelo nosso bruxo, tamanha é a carga de história que há por aqui.

E nem tente fugir dela. Você não vai conseguir escapar ileso. O Caminho de Santiago muda a cabeça das pessoas. Afinal, o que é que você esperava de uma trilha que segue por trinta dias passando por antigas calçadas romanas, atravessando pontes e cidades medievais, singelas ermidas e algumas das mais grandiosas catedrais da Europa.

Para Antônio Neito Magro, cônsul cultural da Espanha no Brasil, o imã Santiago é capaz de atrair qualquer um, por mais "normal" que essa pessoa seja. "O Caminho não é algo só para religiosos. Antes de tudo é uma desculpa fantástica para andar mais de 700 quilômetros, largar o emprego, a família e sair para pensar em você mesmo e na vida", afirma ele, com convicção.

Se delimitar com exatidão os motivos da peregrinação é quase impossível, pelo menos sabe-se quando tudo começou: século IX D.C. O alto clero da Igreja Católica assiste impotente ao avanço do islamismo na Europa, numa época em que religião era, acima de tudo, poder. É então que, vindos da distante Espanha, mensageiros chegam a Roma trazendo um tipo de notícia que há quase um milênio não se anunciava nessa terra: num bosque chamado Libredón, hoje região da Galícia, fora desenterrada uma arca branca e, dentro dela, estava o corpo intacto de um santo.

A notícia - ou lenda - correu como devia e, não muito depois, a peregrinação para o recém-encontrado túmulo do apóstolo Thiago já era a segunda maior da Idade Média, encontrando paralelo somente na rota para Jerusalém.

Mais de mil anos se passaram desde então e, nesse exato momento, um executivo coreano está em pé, com cajado na mão e uma enorme mochila colorida tentando vencer os íngremes Pirineus com passos pesados. Como os andarilhos de outrora, ele carrega uma concha de Vieira pendurada junto às roupas - objeto que representa o Caminho de Santiago. As curvas à frente já foram transportadas pela marcha dos exércitos de Napoleão e Carlos Magno e que agora levam até a famosa Catedral de Santiago, que , como rezam as tradições, foi erguida sobre o exato ponto onde fora encontrada a arca de mármore.

Subitamente, com um arrepio de entendimento, você percebe que caminha através da História. Pode acontecer já antes de partir, quando estiver lendo algum dos livros-guias disponíveis. Ou de repente, lá mesmo, ao sair do albergue e tropeçar, num dia qualquer, com uma das jóias arquitetônicas abandonadas ao forte sol de Navarra.

Como já foi dito, celtas, romanos, visigodos, mouros, monges, bandidos, santos e outros peregrinos como você. Todos já passaram por aqui. A própria palavra "peregrino" surgiu no Caminho de Santiago. Os devotos que iam a Roma visitar a Cidade Santa eram conhecidos como romeiros. Os que se abalavam a Jerusalém, carregando palmas, eram chamados palmeiros. Mas os que atravessavam a França e a Espanha a caminho de Compostela cruzavam pelos campos - per agro, em latim - ou seja, peregrinos.

Mas não é só isso. As pessoas podem dar muitas razões para lançar-se a essa aventura. Encontrar inspiração, um propósito de vida, uma revelação. Alguns querem simplesmente dar um tempo, afastar-se do agito cotidiano. Muitos nem mesmo sabem dar um motivo, apenas ouviram falar da Grande Peregrinação, e seguem sua intuição. Uma razão tão boa quanto qualquer outra, é que o Caminho está lá.

Saint-Jean-Pied-de-Port a Los Arcos - 134 km

Roncesvalles não chega a ser um vilarejo, é apenas um mosteiro, com um albergue. Em 1660, o abade anotou ter servido 25 mil refeições, acrescentando que em alguns anos eram mais de 30 mil os peregrinos que passavam. Quem não cruzou os Pirineus, chega aqui de ônibus, vindo de Pamplona. O momento culminante, antes mesmo da partida ao amanhecer, é a Missa e Bênção aos peregrinos, na noite anterior. É geralmente aqui, nesse momento de comunhão com outros, que o peregrino se dá conta do que se meteu a fazer. E que chegou a hora.

Já de cara, duas serras são cruzadas: o Alto de Mesquiritz e, horas depois, o Alto de Erro. A trilha atravessa bosques que séculos atrás escondiam bandidos, ursos e lobos. Ao final desse segundo dia, baixa a Zubiri (Povo da Ponte, em euskera, a língua basca). No dia seguinte chega-se a Pamplona, a primeira cidade do Caminho. Pamplona e suas corridas de touros foram retratados por Hemingway e Mitchener em dois de seus melhores livros. A Festa de San Fermim, de 6 a 14 de julho, atrai milhares de turistas, que vêm conhecer uma das tradições mais pitorescas da Espanha - e alguns até de fato correm com os touros. Mas, mesmo fora desta temporada, Pamplona é simpática, e vale a pena perder um dia por aqui, apreciando essa cidade milenar, capital de Navarra, e cujas origens romanas remontam ao ano 75 a.C.

O trecho seguinte da jornada passa pelo Alto del Perdón, encimado por um singelo monumento ao Peregrino, "onde o caminho do vento se cruza com o das estrelas". Duas ou três horas adicionais o levam a Puente la Reina, arraial nascido para o Caminho, com sua única e retilínea rua principal. Aqui cruzamos talvez a ponte mais bela do trajeto, construída por volta de 1030 por iniciativa de Doña Mayor, esposa de Sancho III, rei de Navarra: seis singelos arcos que, refletidos pela água, formam círculos sobre o rio. E que, para muitos, são a própria imagem da perfeição.

Mas o monumento mais encantador fica a pouco mais de uma hora daqui, no final do Caminho Aragonês, e portanto fora do Caminho Francês. É a capela de Santa Maria de Eunate, nome que em euskeka significa "cem portas". Edifícação octagonal construída no século XII pelos Cavaleiros Templários, a igrejinha é rodeada por um muro de 32 arcos, também octogonal, que o peregrino cruza, escolhendo o pórtico pelo qual irá passar.

De volta ao Caminho Francês, a 8 quilômetros de Puente la Reina, outro arraial que oferece um interessante contraste. Típica cidadela vista à distância sobre a colina, quando a adentramos, Ciruaque revela-se um saboroso labirinto de ruelas medievais. À saída, uma antiga calçada conduz à mais famosa ponte romana do Caminho, recentemente restaurada.

Em Estela, ao fim do quinto dia, temos o melhor albergue de todo o percurso. Camas macias, descontração, um jantar num restaurante um pouco melhor que a média. E eventualmente uma trégua para o peregrino que chega aqui com bolhas estouradas ou tendinite, por tentar seguir mesmo com os pés arrebentados.
Na saída de Estela o peregrino passa por um mosteiro, em frente do qual as bodegas de Irache reservam uma das mais gratas surpresas da trilha: uma fonte de vinho. Acima da fonte, abastecida com o bom vinho de Navarra, a saudação da figura acima.

No povoado de Azqueta, 3 quilômetros adiante, vive Pablito, "el de varas". Que quando está em casa costuma puzar um dedo de prosa com quem passa. E as vezes presenteia o peregrino com um bordão feito de aveleira, que ele mesmo corta. Depois do longo trecho plano - 3 horas monótonas, que prenunciam as longas mesetas que encontraremos entre Gurgos e León, ainda uma semana à frente -, Los Arcos encerra a primeira pernada (de seis dias) do Caminho.

Pedra com inscrição

Los Arcos a Burgos - 152 km

Passando Viana, dei- xamos pra trás Navarra e chegamos a Logroño, capital de La Rioja. Aqui Doña Felisa (de 83 anos) carimba a credencial dos peregrinos e recebe com muito carinho - e figos. A 18 quilômetros de Logroño (mas fora da trilha) o Castelo de Cavijo marca o lugar da histórica batalha de 844, em que Santiago Matamorros trouxe a vitória para os exércitos cristãos.

A província de Rioja agora se abre à frente, com relevo ondulado e vales férteis. Mas em largos trechos o asfalto cobriu o antigo Caminho, e é preciso dividir a peregrinação com os caminhões. É uma pena, porque estamos adentrando um dos lugares míticos do trajeto, a terra de Domingo, camponês nascido ali mesmo em Viloria, que tentou ser aceito como frade. Rejeitado, dedicou-se pelo resto de seus 90 anos de vida a melhorar o Caminho, pavimentando trilhas, construindo pontes, albergues e igrejas. Acabou passando à História como Santo Domingo de la Calzada. No lugar em que foi enterrado, em 1109, levantou-se depois a atual catedral, onde um galinheiro lembra um dos maiores milagres atribuídos ao santo: uma família alemã de peregrinos pernoitou na cidade. A criada se enamorou do rapaz, que no entanto não deu bola. Despeitada, ela escondeu uma taça de prata na bagagem dele - e depois o denunciou. O rapaz foi preso, condenado e enforcado. Os pais, desesperados continuaram a peregrinação a Santiago.

Mas, ao passar de volta, encontraram o filho ainda vivo, sustentado pelos pés, pelo santo. O juiz ao qual recorreram estava almoçando e não lhes deu crédito. E ainda zombou deles, afirmando que o rapaz estava tão vivo quanto a galinha que estavam lhe servindo.

esse momento, a galinha se levantou e cantou, dando origem ao refrão - "Santo Domingo de la Calzada, onde cantou a galinha, depois de assada". Mas essa pernada do Caminho tem algo mais além de lendas. A igrejinha de Redecilha guarda uma das jóias dali: a pia batismal, belamente esculpida, do século XXII. Navarrete, Nájera, Redecilla Del Camino, Belorado - uma ladainha de pequenos vilarejos pontilha a trilha em direção a Burgos. E confirma o ditado de "pueblo pequeño, gran hospitalidad".

Mas subitamente, pouco antes de San Juan de Ortega, o peregrino encontra os Montes Oca, outrora terríveis. A travessia hoje, claro, é bem mais fácil, e até agradável, cruzando por dentro da mata, longe, enfim, do ruído dos camihões.

San Juan recebeu o nome de outro santo que trabalhou mantendo e melhorando trechos do Caminho - e que ao morrer foi aqui enterrado. No interior da igreja, ampliada ao fim do século XV pela rainha Isabel, agradecida ao santo por sua oportuna gravidez, há uma série de imagens representando a Anunciação. E todo ano, no equinócio, em fins de março e de setembro, um raio de sol, entrando por uma janela da fachada sul, percorre o capitel de ponta a ponta, iluminando uma a uma as pequenas cenas, no que é chamado de o milagre da luz. Também em San Juan, no bar de Marcela, pode-se comer a tortilla mais gostosa de todo o percurso. Gostosa e grande.

No último dia dessa pernada o peregrino passa por Atapuerca, onde um menir marca uma batalha ocorrida em 1054 entre dois reis locais. A descoberta, em 1992, do Homem de Apuerca, talvez os restos mais antigos do homo sapiens já encontrados na Europa, trouxe à vila maior notoriedade. Mas pouca gente se abala ao visitar o sítio arqueológico, distante da trilha 3 quilômetros. Em mais cinco horas (os últimos 10 quilômetros por asfalto e avenidas) adentra-se a Burgos, capital da província e uma grande cidade - e, só por isso, já desinteressante, ruidosa, e alheia aos peregrinos. Mas cuja catedral é um dos maiores expoentes da arte espanhola - e a segunda catedral gótica mais importante da Europa. Ali está enterrado El Cid, outro matamorros, só que verdadeiro.

Burgos a Leon - 177 km

Mesmo caminhar com sólida trilha a seus pés pode revelar-se ingrato, pois alguns vilarejos nunca chegam, e acabam sendo avistados apenas 200 metros antes, quando se ultrapassa a borda da meseta e se contempla o vale logo abaixo. Por outro lado, as distâncias também enganam, e na planura levam-se horas para alcançar igrejas e povoados que, apesar da quilometragem declarada no guia, já pareciam tão próximos. É justamente nesse trecho espinhoso que muitos peregrinos desistem - e tomam um ônibus a Santiago, ou ao menos até Leon ou Astorga, retomando ali a caminhada.

No refúgio de Arroyo San Bol, Luiz, um templário moderno, nos brinda com sua hospitalidade, uma refeição, sua mística pessoal e bons conselhos. Uma hora depois, o dia se encera em Hontanas. Em Castrojeriz, no segundo dia, atravessamos um dos trechos pitorescos do Caminho, quase 1 quilômetro de típica aldeia cuja vida girava em torno da peregrinação: igrejas, albergues, casas, armazéns. E até ruínas de um castelo, remanescente das lutas contra os mouros, no século IX e X. Do alto da Colina de Mostelares, logo adiante, uma última vista dos morrotes ao redor, antes de nos enfiarmos na monótona "Tierra de Campos". Pois a partir de Itero de la Veja, 10 quilômetros adiante, a planura passa a ser total, com retas longuíssimas e poucos povoados. Pouco antes de Frómista, nosso destino do segundo dia, cruzam-se as eclusas do longo Canal de Castilha, sistema de canais para trânsito de barcaças, que começou a ser construído há dois séculos, acabou tendo mais de 200 quilômetros de via aquática em uso, mas não chegou a ser terminado. Em Fromista temos a Igreja de San Martín, parte do mosteiro fundado em 1066 por Doña Mayor (aquela de Puente la Reina) e uma das pérolas do estilo romântico na Espanha.

Pequenas povoações são cruzadas - Villalcázar de Sirga, Carrion de los Condes, Calzadilla de Cueza -, vilarejos de nomes sonoros e antigos. O refrescante arvoredo da Abadia de Benevivere vem quebrar a monotonia ao começo do quarto dia. Mas o calor da Palencia recomenda que se saia cedo, mal haja luz. Que se ande leve, para ir rápido. E se aproveite as horas frescas do dia para deixar os quilômetros para trás. Pois sombra não há. E poucas são as atrações.

A cidade de Sahagún, já na província de León, é uma delas. E sua principal característica é a arquitetura antiga, em estilo mdéjar, misto de mouro e cristão, com destaque para o uso de pastilhas nas paredes e fachadas; Sahagún vale uma parada. E depois, mais um dia e meio de marcha, para (atravessando o horroroso distrito industrial) chegar a Leon, cidade com 2 mil anos de História, antiga sede dos Cavaleiros de Santiago da Espada e capital mais importante da Espanha cristã nos séculos X e XI. Sua basílica também é um dos templos mais famosos de Espanha, pela imponência de seus vitrais - 1.800 metros quadrados.

León a El Cebreiro - 158 km

No segundo dia chega-se a Puente de Orbigo, que, a despeito do insignificante riacho que cruza, foi palco de famoso episódio cavalheiresco, muito ao gosto da época. Em 1434, Ano Jacobeu, num gesto de galanteria a certa dama (nunca identificada), Don Suero de Quiñones e mais nove companheiros postaram-se sobre a ponte, desafiando para uma justa (combate a cavalo) quaisquer outros cavaleiros que ali quisessem passar. Durante 30 dias os dez bravos cruzaram suas lanças com 300 oponentes, peregrinos ou não, muitos dos quais vieram de longe para lutar. Todos foram derrotados, e incrivelmente, só um morreu. Tudo isso para mostrar à dama seu valor e a força de seu amor. Cumprida a façanha, todos cavalgaram a Santiago, oferecendo ao apóstolo um cinturão de ouro que até hoje lá se encontra.

Fora isso, há poucas atrações no trecho de 52 quilômetros entre León e Astorga. Uma delas é o autêntico castelo de Walt Disney, desenhado por Gaudí e que hoje abriga o Museu de los Camiños, em Astorga. O relógio da praça, com suas figuras móveis, também chama a atenção.

Cenas do Caminho

Essa é a última grande cidade até Santiago. Voltam agora as pequenas aldeias, especialmente os vilarejos que até uma década atrás estavam morrendo pelo êxodo rural, e que agora estão renascendo graças ao redespertar da peregrinação e ao turismo. No terceiro dia dessa pernada, o peregrino se defronta com os Montes de Leon, cuja suave encosta inicial é vencida em menos de duas horas. Mas depois de Rabanal el Camino a encosta volta a atacar - nada que deva impressionar quem a quem cruzou os Pirineus. Duas horas adiante chega-se à Cruz de Ferro, um dos monumentos mais simples e antigos do Caminho: no alto de um simples tronco, uma cruz lá pregada por Guacelmo, um ermitão do século II. E ao pé do qual cada peregrino que passa joga uma pedra. Em Manjarin, logo depois, Tomáz, outro "mago", costuma tocar o sino para indicar a direção do alberque aos peregrinos perdidos no meio da neblina. E os recebe com música de Bach e um café. Não há, em alguns desses refúgios, as comodidades reclamadas por mutos, como banheiro.  Isso  em nada parece  perturbar

os caseiros. Que, aliás, usam a espartana escassez de conforto justamente para separar da multidão o que chamam de verdadeiros peregrinos, interessados mesmo no espírito da trilha. Em Ponteferrada, ao fim do quarto dia, chega-se ao Castelo dos Templários, ocupado pelos monges guerreiros durante o século XXIII. Todo ele um criptograma de pedra, repelto de runas, sinais e símbolos astronômicos, que fazem dele a Meca de muitos místicos e entusiastas de antigos ritos de iniciação.
Cena do Caminho

Depois de pernoitar em Villafranca Del Bierzo, no último dia a trilha passa por Pradela, para evitar a rodovia. Muitos andarilhos preferem dormir 10 quilômetros depois, em Veja de Valcarce ou Ruitelán, deixando a subida ao Cebreiro para a manhã seguinte, mas descansados. Não seria nada assustador , especialmente para quem andou 610 quilômetros. Mas a serra do Cebreiro é outro mito. Por ser a última. E por abrir as portas da Galícia ao peregrino.

No alto das montanhas que separam a Galícia de Leon, o Cerbreiro foi um dos primeiros refúgios a acolher os peregrinos que se dirigiam a Compostela. O local é povoado há 3.500 anos, e as típicas palhoças celtas de pedra, cobertas com telhados de palha, contrastam com a "moderna" igreja pré-românica do século IX.

Essa igreja também tem suas lendas. Por volta de 1.300 d.C., um camponês de Barxamaior subiu  em  plena  tempestade

para assistir à missa. Talvez decepcionado com a reduzida assistência, talvez aborrecido com a forte chuva que caía, o padre depreciou o esforço do rapaz "só por causa de um pouco de pão e vinho". Ao que, no momento da consagração, a hóstia realmente se transformou em carne e o vinho em sangue.

Conta-se que a rainha Isabel, 200 anos mais tarde, tentou levar o precioso cálice, peça de arte do século XXII, para um lugar mais condigno. Mas os cavalos se recusaram a seguir adiante de Pereje, a 20 quilômetros dali, o que foi interpretado como um sinal divino. E o cálice, devolvido, até hoje ainda ali se encontra, exposto num relicário doado pela rainha.

El Cebreiro a Santiago - 153 km

Outra coisa que aborrece é afluência de colecionadores de troféus, "peregrinos" interessados unicamente em prercorrer os últimos 100 quilômetros - e ganhar uma Compostela para exibir aos amigos. Eles chegam em grandes grupos, sem entender o espírito do Caminho, fazendo algazarra, jogando lixo, muitas vezes até acompanhados de um carro de apoio para levar seus pertences e carregar quase nada. E entupindo os albergues gratuitos, reservados aos verdadeiros peregrinos. Ou às vezes até tentando reservar lugar, por intermédio dos amigos no carro de apoio, que já chegaram horas antes e distribuíram as mochilas pelos colchões. Pois é, no Caminho há de tudo... A trilha aqui atravessa dúzias de pequenas aldeias, quase todas abandonadas pelo êxodo do último século - como diz o guia, "ricas em pedra, vacas e bosta, mas em cujas ruelas é difícil ver gente". Em compensação, tem-se a certeza de estar trilhando o milenar Caminho original, longe das estradas modernas e dos caminhões.

À saída de Tricastela, no segundo dia, podemos demandar o asfalto para visitar o Mosteiro de Samos, fundado pelos beneditinos no século VI. Mas a trilha mais agradável, mais histórica e mais direta vai pelo solitário vale de San Xil, através de aldeias perdidas e bosques de carvalhos. Os dois caminhos se juntam em Sarria, cidade cujo tamanho surpreende, depois de tanta solidão. Na saída, novamente cruza-se um matagal de carvalhos, faias pinheiros, para chegar a Barbadelo, onde a igreja já era citada no século XII por Aymeric Picaud em seu Codex Calixtinus. Nessa altura, porém, já não nos preocupamos mais em dar atenção a igrejas com menos de 800 anos.

Dez quilômetros adiante, logo depois de Brea, cruzamos o marco 100, indicando que agora só faltam 100 quilômetros para Santiago. Em Portomartin cruza-se o Rio Miño. O povoado original acabou submerso pelas águas. A cidade pela qual se passa foi construída há quatro décadas somente. Exceto pela Fortaleza de San Nicolas, construída pelos Cavaleiros da Ordem de San Juan de Jerusalén no século XII, e desmontada pedra por pedra, para ser reedificada na praça central da nova cidade.

Entre Ventas de Narón e Ligonde, no antepenúltimo dia, cruza-se por um carvalho, talvez contemporâneo do Cruceiro de Lameiros ao lado, este datado de 1670 e um dos mais interessantes de todo trecho.

Aqui já não restam mais grandes cidades, nem catedrais majestosas ou mosteiros importantes, só morrotes verdes e pequenas aldeias indistinguíveis umas das outras. E numerosos rios que correm para o sul, e que, atravessados no nosso caminho, nos obrigam a um contínuo sobe-e-desce. Arca é o último pernoite antes de Santiago. Partindo cedo, pode-se cruzar o Monte do Gozo, de onde se tem uma primeira visão das agulhas da catedral, e alcançar o fim da jornada a tempo para a missa do meio-dia!!

Carla Trouche - para sempre, peregrina...

R E L A T O S