Tres anos de conclusão do Caminho de Santiago

- Fernando

Vocês já se deram conta de como é difícil começar a escrever uma mensagem, ainda mais se tratando de um grupo constituído por pessoas tão especiais a ponto de serem contaminados de forma irremediável pelo vírus "peregrinuns satiaguensis".Já me falaram que escrever é muito fácil..."Basta pensar na letra inicial e no ponto final, depois rechear o restante".

Verdade é que depois de passado algum tempo (ou quem sabe muito tempo) da conclusão física do Caminho de Santiago, no longínquo e saudoso maio de 2000, ainda consigo reviver (e com um certo banzo) os momentos de grande emoção vividos e sobretudo convividos.

Depois daquela etapa, tivemos oportunidade de rememorar todos os momentos, nos diversos encontros promovidos ou acontecidos, aqui em Porto Alegre, no Rio de Janeiro, em Maceió e no melhor lugar de todos, no coração de cada um, pois como dizem os "caminheiros" o Caminho está a espera de todos, mas cada um constrói e sente o seu caminho de modo próprio.

Na verdade, estou revivendo neste momento tudo o que de bom aconteceu antes do Caminho, durante o Caminho e depois do Caminho. Penso na excitação juvenil da preparação do Caminho: a novela do enxoval, a angústia de enfrentar o monstro da distância, do fantasma da solidão, o trauma das bolhas e das tendinites, o "conseguir carona, amigo para rachar o táxi", o peso ideal da mochila, o estoque de remedinhos e "otras cositas", enfim todo o cenário de tentar prever o que aconteceria...

E a chegada para o Caminho, então... Os encontros nos aeroportos, a comparação inevitável das "tralhas", as informações reunidas, os macetes, as anotações, os "me disseram que", "conheço alguém que". O nervosismo do primeiro dia, a confirmação de que na teoria a prática é outra, até aquele olhar desconfiado para o lado, o sentimento de quase competição, mas também os primeiros gestos de carinho e de solidariedade explícitas. (Cada um guarda na lembrança estes momentos e situações e reconhece o valor das coisas que por mais simples que possam parecer assumem valor imenso no momento de necessidade e não existe como mensurar ou mesmo descrever as emoções e os sentimento).

E o Caminho, como é gostoso relembrar (com um certo sabor agora salgado de saudade) aquela estradinha sinuosa, a vontade de chegar ao final da etapa e ver que quanto mais a gente caminhava o "bendito albergue, a divina cidadezinha, o santo lugarejo" ficavam teimosamente mais distantes. E lembrar que ao final do dia os quilômetros se tornavam cada vez mais quilométricos e a mochila que deveria ser uma pluma se convertia em pesado fardo...E o albergue construído na nossa imaginação, que às vezes ficava longe da mais favorável das expectativas... E as bolhas, aquela sensação de "você ainda vai ter uma"...ou da tendinite,enfim da confirmação de que cada coisa deve, como na vida, ser encarada diretamente e ao seu tempo...

Mas, chegados, ou trazidos, ao final da jornada diária, que bom ou "que tri-legal" o bate-papo para atualizar a fofoca do dia (e sempre tinha), recordar e comentar os fatos marcantes do dia e a confirmação de que no mesmo trecho cada um viu um Caminho diferente e individual. O banho, o descanso e o desfile dos "modelitos peregrinos de gosto duvidoso", a meia branca (dizem que o brasileiros ou só os brasileiros usam meias brancas) com a indefectível papette (aliás no meu tempo era sandália franciscano mesmo), a reunião para a ceia (desculpa para tomar uma doses, às vezes exagerada de vinho, com as inevitáveis conseqüências sonoras de roncos. Para um peregrino, a reunião do final da tarde é a confirmação de que está tudo correndo da maneira que o caminho nos concede e que o "negócio é ir em frente..."

E, a reunião mais importante, a que fizemos conosco mesmos, com nossos sentimentos e emoções, com nossos objetivos e eventuais frustrações, o nosso repensar e promessas de mudanças (que nem sempre podemos ou queremos realizar). A consciência do nosso pouco tamanho na comparação com a natureza, com o tempo, com a vida, com o destino e o reconhecimento de que, por menor que sejamos ou por menor que seja nossa contribuição, temos que fazer a nossa parte, seja no viver, no compartir, no conviver, no buscar a felicidade e alegria, no respeitar e entender o irmão, no amar sem limites, no ser fraterno, ser peregrino, e o que é mais difícil, manter-se peregrino.

O conjunto de lembranças e de emoções vividas e revividas em cada encontro, em cada e-mail, telefonema, aceno no trânsito, naquele "aparece lá em casa, te ligo pra gente combinar uma janta, no finde estaremos lá" e que nem sempre acontece, nos faz pensar como vale(u) a pena trilhar o Caminho e, assim, ficar exposto à tantas recordações, alegrias e saudade.

E por falar em saudade... fico por aqui, deixando o melhor dos meus abraços e a certeza de que sempre que alguém estiver pensando no caminho e nas "coisas do caminho" consolidando toda uma aura especial que nos une, nos fortalece e nos desafia a sermos melhores conosco mesmos e com os outros.

Um abração do tamanho da tristeza que sinto em não poder estar sempre no Caminho e na companhia de vocês, ou melhor, do tamanhão da minha alegria e felicidade por ter amigos e conviver com todos vocês.

Fernando

R E L A T O S