DE UTERGA A EUNATE - Parte I

- Francis França

Relato

Acordamos cedo naquele dia, mas ficamos na cama até as 8h30min. Seria uma etapa curta até Eunate, onde pretendíamos pernoitar. Arrumamos nossas coisas e partimos rumo a Muruzábal para tomarmos café. O único bar do pueblo estava fechado, então seguimos mais 1Km até Obanos. Íamos voltando para Muruzábal a fim de pegar a rota para Eunate quando um senhor camponês nos chamou e indicou uma trilha que partia de Obanos direto para lá. Depois de 2km chegamos à ermida octogonal que eu tantas vezes imaginei contemplar. Na frente do refúgio, uma mulher cuidava do jardim.

Eunate correspondeu à fertilidade da minha imaginação e posso dizer que me surpreendeu por sua beleza simples e poder incompreensível. Caminhei até a porta principal e, de fora, ouvi uma melodia que vinha do interior, eram vozes femininas.

Quando entrei, uma confusão geral se instalou sobre meus sentidos: Os olhos chamavam a atenção para as paredes, rijas, cheias de histórias, testemunhas de um passado que nunca conseguiremos absorver totalmente. Os ouvidos empurravam para o coro das mulheres que, sem ensaio, entoavam uma melodia intensa e harmoniosa com a atmosfera do lugar.

Fiquei sem reação por um instante. Quando consegui mover-me, ajoelhei no chão, senti uma necessidade quase urgente de beijar aquele solo sagrado e cantei com elas. Eu me sentia expandindo, como se meu corpo não fosse grande o suficiente para me abrigar.

De repente, tudo passou, e, da confusão, se fez paz. Nunca esquecerei aquela sensação, como se a melodia reverberando nas paredes me completasse. Pela primeira vez, tive a consciência de viver apenas o momento, sem passado nem futuro. Parecia que toda a minha vida tinha me levado para estar ali, naquele instante.

Fiquei ali, ajoelhada, cantando com as outras mulheres. Há muito eu tinha desaprendido a rezar, a música foi meu elo de conexão com o universo. Quando o silêncio retornou, deixei-o retumbar dentro de mim e saí para escolher a minha porta.

A primeira vez que soube da existência de Eunate foi pelo livro de Máqui alguns anos antes, por isso a porta era tão importante para mim. Dei uma rápida olhada e logo encontrei, de alguma forma sabia que ela também tinha esperado por mim todo aquele tempo.

Parei diante do arco e pedi com toda a força do coração que o vento soprasse. Depois de um breve instante, ele gentilmente atendeu ao meu pedido e eu inspirei lentamente a energia do meu velho amigo. Observei as montanhas verdes ao longe, as nuvens no céu, o arco enquadrando a paisagem. Ocorreu-me a idéia de que nunca tinha visto aqueles horizontes antes e provavelmente não os tornaria a ver. No entanto, aquele era o meu caminho. Procurei guardar a imagem na memória, os tons de verde, marrom, o vermelho das amapolas, o cinza-azulado do céu.

Na hora de cruzar a porta, tive medo. Sabia que, feita a escolha, não haveria mais retorno. O vento soprou mais forte e encarei aquilo como um alerta de que o medo seria a porta para a tristeza, era ele que tornava qualquer caminho inóspito, que turvava os nossos olhos para a beleza da vida. Esqueci o medo, atravessei aporta antes que ele pudesse me paralisar. Enchi-me de amor para aceitar o novo caminho, a nova vida. Peguei minhas coisas e voltei até o refúgio.

Mariluz é um anjo celeste. Uma venezuelana com roupas típicas e um olhar transcendental, um olhar de peregrina. Ela continuava no jardim cultivando as flores, aproximamo-nos e perguntamos se podíamos ficar, ela disse que sim e nos conduziu ao interior da casa. Pediu-me para sentar e trouxe uma bacia com água. Perguntou se podia lavar meus pés, eu disse que sim, um pouco surpresa. Ela, banhada em serenidade, realizou então o antigo ritual do lava-pés, tradição praticada desde antes de Cristo, e pelo próprio Cristo.

Quando terminou, eu estava emocionada. Peguei as suas mãos e as beijei. Olhei profundamente nos seus olhos e com toda a força que pude, disse "muchas gracias", acrescentando que nunca conseguiria pagá-la. Ela sorriu suavemente e disse que a luz nos meus olhos era o suficiente. Eu sentia que algo de muito especial acontecia naquele dia, mais do que Eunate, mais do que as cerimônias, algo capaz de tocar o espírito.

Depois do banho, fui sentar-me nos muros da igreja, ao lado da minha porta, para escrever estas linhas. Senti que nunca estive tão em casa como naquele momento. Parecia-me que o Caminho era a única realidade, enquanto o Brasil não passava de uma lenda. O vento soprava, e ali estava tudo o que eu era: uma peregrina.

Francis

R E L A T O S