DE UTERGA A EUNATE - Parte II

- Francis França

Relato

Quando voltei ao refúgio, depois de andar pela ermida, Mariluz estava servindo o jantar. Além de nós, estavam à mesa um casal de alemães que foi passar a lua de mel no Caminho, um francês e outros três alemães. Após o jantar, Mariluz disse-nos que haveria um culto na igreja e que, se quiséssemos participar, seríamos bem-vindos. Nós queríamos.

Cada um de nós pegou uma vela, um texto para ser lido e seguiu Mariluz até a igreja. Era uma noite nublada, não muito fria. A ermida mostrava-se em toda a sua excelência, dispensando a luz do luar. Tudo estava escuro, então acendemos as velas. Algumas apagaram e os outros peregrinos vieram até mim para reacendê-las, mesmo com outras velas acesas ao seu lado. Mais tarde no Caminho eu seria lembrada dessa passagem e choraria de emoção.

O silêncio se fez e Mariluz pediu que nos concentrássemos no que acontecera naquele dia. Era a hora de agradecer pelas nossas bênçãos. Nem o vento soprava, tudo era respeito. A voz de Mariluz rompeu a quietude como um raio, ela cantava uma canção que a mim tinha uma sonoridade celta, embora eu não tivesse certeza.

Apesar de eu ter muito pelo que agradecer, não conseguia me concentrar em nada que não fosse aquela voz. Mariluz não só tem um olhar de anjo como canta como um. O vento começava a soprar lá fora, a penumbra, as velas e suas chamas tamborilando, a voz daquela mulher ecoando nas paredes seculares...

O canto cessou e cada estrofe da oração foi lida em um idioma. Espanhol, inglês, francês e alemão, um ritual que ia além do verbo, vibrando uma energia além da compreensão.

Fui dormir ouvindo o vento lá fora sabendo que com ele ecoavam as vozes, através dos séculos, que estiveram em Eunate. O mais sutil sussurro do mais antigo dia continuava reverberando naquelas paredes, compondo uma doce melodia que fala de história, magia e fé.

Acordei mais ou menos às 8h. Foi a primeira noite de sono sem interrupções. Descemos para o café, quase todos os peregrinos já tinham saído, apesar do apelo de Mariluz para não sairmos muito cedo; o que foi engraçado, pois na maioria dos refúgios nos pediam o contrário.

Depois do café, colocamos as nossas coisas na mochila, fomos nos despedir e tirar algumas fotos de Eunate. No dia anterior estávamos tão envolvidos com os sentimentos que brotavam em nós que simplesmente esquecemos desse detalhe.

Ao voltarmos para a casa, Mariluz já tinha acordado e tomava café com seu marido, Juan. Conversamos um pouco e, quando ela terminou, pedi-lhe que se sentasse ao meu lado e tirei o pequeno peixe de pedra do bolso. "Eu comprei esse peixe para dar a Santiago Zubiri em Larrasoaña, mas não naquele dia o presente perdeu-se dentro da mochila. Eu quero que fique com ele," eu disse. Ela falou que poderia entregá-lo ao alcaide de Larrasoaña, mas eu disse que não, que por algum motivo aquele peixe chegou até ali, e que era a ela que eu queria dar o presente. Era a única coisa especial que eu trazia na minha mochila e Mariluz merecia tudo de especial que eu pudesse lhe dar. Ela agradeceu e me abraçou. Eu sabia que, mesmo assim, aquilo não seria o suficiente para agradecer, porque eu ganhara muito mais.

Despedimo-nos emocionados e Mariluz pediu-me que enviasse um abraço dela para Maria, em Burgos. Foi a vez de despedir-me de Juan. Ele me abraçou forte, como se estivesse despedindo-se de uma filha, e deu-me mais uma vez aquele olhar peregrino que eu conhecia tão bem.

Carimbamos nossas credenciais, fui à caixa de donativos e deixei lá mais do que se costuma pagar por um refúgio, mas muito, muito menos do que Mariluz e Juan mereciam. Isso, dinheiro nenhum conseguiria pagar.

Antes de cruzarmos a porta, Mariluz veio até nós e estendeu-nos uma cesta com vários papéis dobrados dentro e pediu que retirássemos um, seria a nossa mensagem. A minha era algo sobre não esperar pelo sorriso do próximo, mas oferecê-lo primeiro. No momento não entendi muito bem o que aquilo queria dizer, eu costumava ser gentil com as pessoas que encontrava, mas viria a descobrir mais tarde que aquela mensagem estava no lugar certo e na hora certa. Eu é que não abrira os olhos para a lição.

Na saída do refúgio vimos uma cena contrastante com a quietude de Eunate. Cerca de 50 meninas na faixa dos nove anos de idade, num ônibus de excursão, andavam pelos arredores da ermida. Elas nos olharam meio ressabiadas, nós com aquelas mochilas enormes, botas estranhas e aparência desgrenhada. Pensei comigo mesma que se eu me visse por aí, também me acharia um tanto estranha.

Não pude (nem quis) ignorar os olhares curiosos. Sorri para elas e disse "hola". Foi o sinal que elas precisavam, nos cercaram e "bombardearam" com perguntas sobre a peregrinação, nossos países, nossos motivos.

Olhares admirados quando dizíamos falar três idiomas, curiosidade sobre as mochilas, a vieira, algumas delas falando entusiasmadamente sobre o que sabiam a respeito do Caminho de Santiago, contando orgulhosas que faziam parte de uma companhia de dança.

Foi fantástico estar rodeada por aquele monte de "pessoinhas" na altura da minha cintura, fazendo suas perguntas inocentes, olhando com seus olhos cheios de pureza. Definitivamente, parecia que Deus tinha enviado uma legião de querubins para nos abençoar. Nós nos sentíamos muito confortáveis e ficamos conversando com as meninas por mais de meia hora. Elas continuavam nos seguindo para lá e para cá, pulando, sorrindo, perguntando.

Pegamos água na fonte, afivelamos as mochilas, demos um último aceno para nossos hospitaleiros e pegamos a estrada. Algumas meninas ainda nos seguiram por um tempo, nos dando "adios" e desejando um "buen camino". Agradecemos sorrindo. Eu estava completamente emocionada.

Quando subimos a última colina ainda pudemos ouvi-las, nos voltamos e demos o último aceno, para então desaparecermos para elas atrás do monte. E Eunate para nós.

A experiência em Eunate foi mais do que eu podia esperar. Eu sempre soube que vê-la seria algo mágico, mas não pude imaginar que seria naquela intensidade. Ao me afastar, fiquei pensando que, não importava tudo o que viesse a viver no Caminho de Santiago, aquele dia seria insuperável.

Francis

R E L A T O S