PASSO A PASSO

- Gisele Vilarino

Relato

A vida sempre vem nos pregando grandes surpresas e, como não podia deixar de ser, ela também nos pregou uma nesta história. Infelizmente, o autor não conseguiu escrever a conclusão da mesma. Por mais que efetuasse pesquisas ao longo do Caminho, não encontrou os dados necessários a elucidação total do assunto. Eu mesmo estive a frente de muitas pesquisas, sem resultado.

Um pé na frente do outro. Passo a passo; esse é o único jeito para se fazer uma caminhada!.

Lembrava-me do que havia falado o Seu Felisberto Barros, idealizador daquela caminhada pela região da Quarta Colônia Italiana no Rio Grande do Sul, num trajeto de apenas 65 km, percorrido em três dias.

Era Sexta-feira Santa, o dia estava absurdamente quente, eu já havia consumido vários litros dágua e pensava: O que será de mim lá na Espanha?.

Há apenas alguns poucos meses - cinco, para ser mais exata -, eu havia decidido retomar um antigo e esquecido projeto: trilhar o Caminho de Santiago de Compostela. Desde que tomei conhecimento dessa peregrinação, desejava fazê-la. Mas os estudos, os compromissos familiares, a busca por uma vida profissional me fizeram guardar esse desejo no fundo da minha alma, para além da consciência.

Viajar é uma vontade sempre presente em mim. Adoro conhecer lugares, pessoas, costumes. Expandir os horizontes que a rotina de casa-trabalho-casa insiste em tornar tão estreitos; tão distante da vida que, na infância, sonhava ter. Desde que comecei a trabalhar, economizava para, enfim, fazer a primeira de muitas viagens aos lugares que quero ver. Apesar de quase três anos terem se passado, ainda não sabia para onde iria, provavelmente seria Machu Pichu. Mas..., não sei porquê, a idéia não me satisfazia. Não era Machu Pichu que eu gostaria de conhecer primeiro.

Tento recordar-me de como me veio Santiago de Compostela à lembrança. Não consigo. Recordo de quase tudo naquele dia, após minha decisão. Da emoção inexplicável e incrivelmente forte, da sensação de que cada passo dado já começava a levar-me a Santiago. Sei, apenas, que nunca mais questionei o meu destino. O Caminho havia me chamado, e eu, merecedora ou não, já estou nele. A partir de então, assolou-me uma sede de saber, de conhecer tudo o que era possível sobre o Caminho, sua história, seus personagens. Passei noites na internet, li vários livros e reportagens, e participo de grupos temáticos. Minha vida toda está voltada ao Caminho: falo, como, trabalho, respiro, ando e todas as minhas ações são direcionadas para esse objetivo. Há vezes que nem eu me agüento, tal a minha obsessão. Então, atiro minha âncora e busco voltar à realidade.

Não é fácil. Sonho com o Caminho, e anseio por tudo o que ele pode me dar: desejo passar por aqueles lugares onde tanta história aconteceu, tantas lendas de solidariedade, de altruísmo, de gente simples, que supera como pode os obstáculos que o viver coloca à nossa frente. Quero pisar aquele chão por onde passaram não tão-somente os personagens históricos, mas também os anônimos que, há tanto tempo, peregrinam pelas mais diversas razões. Sonho com as pessoas que lá encontrarei, e penso que, talvez, eu também me torne uma personagem em suas vidas. Imagino o que poderei dar a elas e quais lições que receberei... (E, então, mais uma vez tomo consciência de que o Caminho já começou. Nem saí do Brasil, mas já conheci pessoas maravilhosas e que todo o dia me ensinam lições já aprendidas, mas nem sempre colocadas em prática. Lições de amizade, de companheirismo, de acolhimento. Compartilhar torna-se mais do que um verbo).

Quero a dúvida no começo de cada dia, passar pelos bosques, pelas carreteras, enfrentar as subidas e as descidas e seguir as setas amarelas. Quero, também, o cansaço dolorido, mas gostoso, de vencer cada etapa.

Quero as noites nos albergues e ouvir os relatos dos peregrinos, ou, simplesmente, partilhar de sua quietude. Quero olhar para o céu, e conferir, por mim mesma, se é verdade que o Caminho segue pela Via Láctea...

Quero chegar ao Monte do Gozo e cantar a canção que me vier ao pensamento (se a voz não me faltar). Ouvir os sinos da Catedral de Santiago. Abraçar o Apóstolo e orar, agradecer, pedir. Ir a Finisterre e assistir ao pôr do sol segurando a Vieira que ganhei de um amigo querido. É um sonho e é difícil conter todas essas expectativas.

Olho para as passagens já compradas, para a Credencial de Peregrino e custo a crer que o sonho está ao alcance da mão. E o medo me faz preparar-me para a possibilidade de que, talvez, como tantos outros antes, eu não consiga chegar. E, mesmo o não-chegar não importa. Se não for este ano, será em outro. E tudo o que viverei agora será mais um passo a levar-me a Santiago de Compostela.

Fico pasma como o certo pode ser tão simples. Há só um jeito para se fazer uma caminhada: com um pé na frente do outro; passo a passo.

Gisele

R E L A T O S