A PRIMEIRA MOCHILA A GENTE NUNCA ESQUECE

- Inês Serpa

Relato

Lembro muito bem quando eu e Selma fomos ao shopping comprar a mochila para o Caminho de Santiago. Estávamos as duas eufóricas, ela já tinha a sua, 65litros (na realidade, empréstimo da filha, recém chegada de viagem) e eu ansiosa por ter a minha, para começar a arrumá-la para a viagem dos sonhos. Lá estava ela, linda, verde como as minhas esperanças... e da loja saí com aquele troféu ... de 75 litros! Ah, como estava feliz! Era a certeza de que iria atravessar a Espanha! Daria tudo lá dentro, tudinho...

Cheguei em casa mostrei para o marido, que foi logo ajustando as alças, barrigueira, peiteira. Estava me sentindo a peregrina. Semana seguinte comprei o saco de dormir (de camping, bem confortável (1,200kg) quase um colchonete de tão macio). Coloquei-o dentro da mochila, pois queria vê-la cheinha para começar a preparar-me, fazer longas caminhadas para "sentir" como seria no Campo das Estrelas. Outra semana e fomos assistir a primeira reunião da AACS e... surpresa! Vi que havia feito uma grande bobagem, tendo comprado uma mochila tão grande! Meu argumento de que sou uma mulher grande, gorda, preciso de grande espaço, não convenceu aos "mestres" peregrinos, que sabiamente diziam sempre que não podemos levar muito peso, que o supérfluo pesa e que ao longo do Caminho vamos abandonando coisas não essenciais e que mochila grande convida a levar o que não precisamos.

Paciência, disse eu, vai ter que ser ela mesma. Descobri então que só o saco de dormir ocupava todo o interior, pois não havia divisão entre o corpo da mochila e o compartimento para o saco de dormir. Que "saco", pensei eu, mas a "Santa" Selma, irmã de sangue e peregrinação fez o fundo falso, a mão, para que alhos não misturassem com bugalhos, ou seja, que quando eu tirasse o saco para dormir, o resto da roupa não despencasse para o chão. Bom, fui comprando o restante do enxoval conforme foram orientando os "anjos" da AACS: meia fina, meia grossa (de coolmax para o pé "respirar", para manter o pé seco etc e tal), usando-se as duas, simultaneamente, evita-se o atrito e assim, as temíveis bolhas. Calça de tactel com fecho-eclair vertical na bainha para que ao tirá-la, não se precise tirar as botas, bermuda de suplex (seca rápido), T-shirt de dry fit ou similar, toalha de natação (ótima para torcer a roupa, depois de enxugar o corpo), agasalho, 3 calcinhas, 2 soutiens ou 2 tops, papete, canga de praia que vira cortina, saia, xale, um charme para as tardes depois da sessão de lavanderia e do banho reparador no albergue.

E a mochila está enchendo... E eu não canso de admirá-la, de arrumar e desarrumar o seu conteúdo. Quero mostrar tudo a todos. Hiiii, ainda faltam os remédios (hipoglós, anti-inflamatório, pomada tipo calminex, salompas, band aid de vários tamanhos, micropore, etc, e é nesse etc que mora o perigo... Colocamos coisas demais, além da parafernália de higiene (desodorante, de preferência aqueles de ação prolongada,, papel higiênico, sem o canudo interno; protetor solar,sabonete, para lavar o corpo e a roupa, xampu, hidratante, fio dental, escova, pasta de dente), filtro solar, óculos de grau e escuros, câmera fotográfica, capa, cantil, protetor auricular, contra roncos e outros ruídos, alfinetes de fralda, canivete com abridor de latas e de garrafa, importantíssimo para o vinho, uma colher de plástico, um caderno pequeno e caneta para anotações, isqueiro, chapéu ou boné...

Meu Deus, como está cheia a minha linda mochila, mas para mim, que a coloco nas costas só para olhar no espelho, está de bom tamanho. Quanto orgulho e carinho por aquela que irá me acompanhar na Rota Jacobéa!

E continuo a arrumar e desarrumar, pensando: o que falta? Será que devo levar isso, aquilo e o que mais? Quanta dúvida!

Chega o dia da partida: Despedidas, aperto no coração, check-in. Grande surpresa. A minha companheira pesava 14kg! A primeira reação: a balança está com defeito. Com defeito estava eu, que não enxergara o quanto a pobre coitada havia crescido.

Claro que despachei muita coisa no correio de Pamplona (primeiro lugar da rota francesa com agência de correios) para a lista de correos de Santiago.

Apesar de não ter sido a mochila ideal, a minha querida não me causou transtornos, nem dores de coluna, nem dores nos ombros, enfim, cumpriu seu glorioso papel de amiga e companheira nas horas boas e nas horas más. Foi um bom casamento. Tanto que sempre a guardei envolta em saco de plástico azul (esses de lixo), mas não que eu a estivesse desmerecendo, mas é que ela tinha que estar sempre arrumada para levar às palestras da AACS. É, agora eu já sou peregrina e posso orientar, ajudar iniciar novos aspirantes à arte de peregrinar.

E não é que a danadinha voltou ao Caminho antes de mim? Um peregrino muito querido (não foi, meu amigo Chico Vartulli?) não hesitou em levá-la para mais uma viagem mágica pelo caminho francês rumo a Santiago.

É, minha mochila! Grande mochila! (nos dois sentidos, é claro).

2002 e lá vamos nós, eu e Selma novamente ao Caminho. Companheiros solidários (Lyra, Solange, Lillian, Ana Cristina... Tantos mais) insistem para emprestarem suas mochilas mais adequadas. Aceito, mas meu marido acha que devo comprar uma nova, (ele me conhece e sabe que não vou ficar só nessa peregrinação), insiste e eu acabo acatando a idéia, pois sei que será melhor para mim. Penso em deixar a verdinha de stand by, caso alguém precise. Terá um futuro honroso, não ficará esquecida.

Vou ao shopping e compro a mochila nova, poderosa, de um vermelho intenso, na medida certa, nem de mais, nem de menos.

Desço do armário a velha companheira envolta no saco de lixo azul, para recomeçar a dança do arruma- esarruma. Deixo-a na sala, vou fazer outros afazeres, amanhã quem sabe vai dar tempo para a transferência. Esqueço...

Dia seguinte, hora do almoço, meu coração dispara, minhas pernas bambeiam. Onde a minha ajudante colocou a minha velha companheira? Mentalmente percorro a casa e não a vejo!

Um grito de desespero: Meu Deus! E grito ao meu marido, aquele grito misturado ao choro, não querendo acreditar no que havia acontecido: a minha ajudante jogara fora a minha companheira. Viu o saco de lixo, não sabia o que lá dentro havia e lá se foi ela, com todos os seus pertences para um fim triste, sem despedidas, talvez achando que eu a tivesse desprezado por outra mais nova, mais jeitosa, mais bonita.

Que ela tenha encontrado alguém que precisasse de uma boa companheira. Em seu interior tem um bom saco de dormir, agasalho, capa de chuva, cantil, meias, boné, uma vieira e um guia do Caminho de Santiago. Quem sabe eu não a encontrarei por lá. Ela sabe o caminho. Ultreya, amiga! Buen Camino!

Inês

R E L A T O S