MARIVI

- Inês Serpa

Relato

Nesse último Caminho de maio de 2002, eu e Selma, minha querida irmã, pra quem não ouviu falar ainda, dormimos em Burgos, em um hostal, para nos recuperarmos do cansativo trecho San Juan de Ortegas-Burgos.

Tínhamos traçado dois planos para o dia seguinte. Talvez um dia a mais em Burgos para um bom descanso e matarmos as saudades da Maria Neném (Maria de Rananal), ou seguiríamos para Hornilhos, como fizemos em 2000.

Na manhã seguinte, o frio estava intenso (ô lugarzinho pra fazer frio, esse tal de Burgos..), chovia muito, a cama estava quentinha e resolvemos aproveitar mais um pouquinho a mordomia do hostal.

Às 9:00h saímos , passamos no albergue que já estava sem peregrinos mas aberto, cantamos um mantra que a Maria havia nos ensinado em 2000 no albergue de Ponferrada e uma porta se abriu e aqueles olhos imensos nos olharam, misto de alegria, espanto!

Quem estaria cantando aquele mantra lá das Minas Gerais, àquela hora a manhã? Foi uma emoção única, um choro só, três corações transbordantes de alegria, um misto de saudade e surpresa. Uma concentração de energia boa, passada de peito a peito, rostos colados, abraço daqueles que não quer desgrudar. Era a alegria pelo reencontro dois anos depois e que parecia ter sido ontem...

Conhecemos o quarto de Maria, seu gatinho, suas fotos, sua intimidade. Tomamos chá, contamos sobre a vida, falamos do Caminho (o nosso e o dela, de branco no inverno), ganhamos uma credencial , energização,uma prece e todo o carinho do mundo. Difícil foi convencer que não ficaríamos em Burgos, que o Caminho nos chamava (já havíamos decidido continuar -até onde? ... (só Santiago sabia).

Saímos sob chuva fina, em silêncio, deixando que ela molhasse nossos corpos e nossas almas, purificadas por Maria, santa e doce Maria.

"Que o eterno sol te ilumine,

que o amor te rodeie,

que a tua luz pura e interior,

ilumine o teu caminho..."

o teu destino..."

Foi um Caminho difícil por causa da chuva, da lama, mas estávamos felizes, tranquilas. Quando chegávamos a Rabé, cedo ainda, uns dez km depois de Burgos, vimos pelo guia que havia albergue no pueblo e resolvemos ficar. Ainda fechado, só dois peregrinos austríacos aguardavam a hospitaleira. O albergue é gracinha, fica em um larguinho, eu e Selma sentamos na mureta em frente e aproveitamos para "almoçarmos" o pão com queijo dormido feito com carinho pelo Manoel do único bar de San Juan de Ortega, e azeitonas sem caroço (que luxo!) que hacíamos comprado muito muito antes, nem lembro onde. Educadamente levantei e ofereci o meu sanduíche, para o austríaco, sentado em frente, ao lado da porta do albergue. Quem sabe queria um pedacinho? Sim, ele quis. O sanduiche t-o-d-o!

Agradeceu, lambeu os beiços, me virei e vi minha irmã de costas, dobrada de tanto rir. Bem feito, peregrina oferecida!

Duas da tarde. Uma moreninha lindinha, olhos meigos e tristes chegou e abriu o albergue. Aparentando uns trinta e cinco anos, simpática, nos convidou a entrar. O albergue era uma gracinha. Uma sala aconchegante, música clássica, muitas revistas sobre o Caminho, um mural para recados, muitas orações, cozinha, dois banheiros e dois quartos peregrinos. Muito bom.

A hospitaleira disse seu nome: Maribí. si, Maria Vitória e fazia com os dedos o "V" de Vitória. Mas na hora de falar... maribi, com "B" . Entendi. É a troca do v por b. (Como diz o nosso amigo Gustavo: Meu nome é Bito, Gustabito). Maribi explicou que não havia nada para comprar no pueblo (ao contrário do guia que falava em tienda ou bar, não me lembro) e que ela faria um jantarzinho (por alguns euros) e dava um café da manhã em troca de donativo. Adoramos a idéia.

Após o banho, resolvi dar um "rolé" pelo pueblo e descobri linda Igreja, conversei com freiras de um convento,vi rosas lindíssimas, imensas e descobri um bar . ..fechado, pertencente a uma cooperativa. Por sorte chegava um caminhão de entrega de sorvete que ligou para o responsável no pueblo vizinho e meia hora depois este chegou e me atendeu muito amavelmente, mas nada havia a me oferecer: só uma garrafa de vinho e amendoim. Nem o sorvete, pois ainda precisava conferir. Era tudo o que havia naquele bar, além de cigarros.

Voltei ao albergue com meu vinho, Selma descansava e já haviam chegado mais peregrinos. Fiquei na sala lendo, esperando a hora do jantar. Adorei o jantar. Marivi fez uma saladinha, serviu um caldo com batatas, ovo frito e de postre, iogurte. Foi maravilhoso ver aquela babel feliz, algumas palavras ouvidas em vários idiomas.

Depois do jantar e da louça lavada voltamos à salinha e aí ficamos batendo papo com Marivi por longo tempo, tomando o vinho e aprendemos a gostar dela como se irmã fosse. Falamos de Maria Neném também sua amiga (Marivi mora em Burgos) e ficamos realmente muito à vontade naquele albergue.

De manhã, quando acordamos, Marivi já estava a postos na cozinha, café preparado, pão, manteiga, iogurte. Nem dava para acreditar no café com leite quentinho.

A despedida foi daquele jeito. Choradeira inevitável. Marivi mandou uma mensagem (via meu gravador) para todos os peregrinos brasileiros, que eles ao passarem por Rabé, vindos de Burgos (onde a maioria dorme), que entrem no albergue, onde sempre tem um cafezinho quente para aquecer o coração do peregrino do Brasil. Eu acrescento: o que mais aquece o coração é a hospitalidade daquela moça , seu abraço carinhoso, seu olhar triste e meigo. A emoção daquela despedida, o que ela nos passou, a mim e a minha irmã é inesquecível ! É algo pra se guardar e cuidar pra que todo o minuto seja relembrado.

Marivi é outra daquelas que se ama por todo o sempre. Obrigada, amiga, por tudo o que fez por mim, pela Selma, por tantos outros peregrinos que tiveram o privilégio de contar com sua hospitalidade. Só Deus sabe como devia estar cansada, como não desistiu de tudo, como a vontade de servir foi grande em sua vida.

Estou falando isso, porque queria dar meu depoimento e demonstrar o carinho e admiração por essas duas pessoas que fazem o Caminho melhor -e tem muitas outras criaturinhas que fazem com que o Caminho seja mais suave e feliz e que vou contando pra vocês que tiverem paciência de ler. São pessoas que vivem para o peregrino, para dar aquela palavra de conforto, carinho, passar alegria, entusiasmo que é a maneira como se deve fazer esse Caminho sagrado.

Desculpem se me alonguei, mas o coração ditou assim. Sei que muitos acham que não se deve colocar expectativas nas pessoas do Caminho, mas o que escrevi é experiência pessoal e como dizemos sempre em nossas reuniões, experiências não são verdades absolutas.

Inês

R E L A T O S