Como Fui "Chamada"

- Janaína

Meu nome é Janaina, sou de Natal/RN, tenho 29 anos. Atendendo a um convite do amigo (posso te chamar assim?) Leon, resolvi compartilhar com vocês a minha história com o Caminho de Santiago.

Estava eu, no ano passado, com a vida num verdadeiro turbilhão (sabe aqueles momentos nas nossas vidas, quando a gente passa por tantas coisas que fica meio anestesiado" e passa a fazer tudo meio no automático?) e numa noite de setembro fui para academia mais para desopilar do que malhar.

Chegando lá, fui (confesso, com muita má vontade) para a bicicleta, peguei uma revista qualquer para ler.

Logo de cara, abri numa página com um depoimento de um senhor, cujo nome não me lembro (me perdoa? Apesar de você ter sido um marco na minha vida, fico te devendo os créditos...), sobre como o caminho de Santiago tinha modificado sua vida.

Ao ler aquelas letras, meu coração foi ficando apertadinho e fiquei tão tocada que meus olhos encheram-se de lágrimas.

Estava ali o que eu estava precisando, o grande Apóstolo tinha me chamado das trevas onde me encontrava para ver as luzes das suas estrelas, e dar uma chance para mudar a minha vida. Era a resposta que eu tanto pedia a Deus.

Naquela mesma noite, eu falei para mim mesma: - vou fazer a peregrinação até Compostela!" (embora não soubesse como ela era, de que forma era feita - me lembrava vagamente de algumas reportagens que tinha lido sobre o caminho, mas não de detalhes).

Ainda naquela noite, comuniquei a minha mãe: - vou fazer o Caminho de Santiago nas minhas férias!" (e eu tiraria férias em novembro, ou seja, menos de dois meses depois disso!).

Ela, talvez por não ter idéia de como era efetivamente a peregrinação ou por ser muito católica, disse na mesma hora:

- Muito bem! Será ótimo para você!"

No outro dia, corri para Internet para pesquisar sobre o caminho e para verificar o custo de passagens; procurei saber onde poderia comprar os equipamentos e quais seriam, etc.

Na mesma semana, quando comecei a ler como era a peregrinação, vi que não era um projeto" a ser executado com tão pouco tempo de antecedência, e, além do mais, seria muito frio, se resolvesse viajar no final de novembro (quando estaria de férias).

Quase desisti de fazer o caminho de Santiago quando vi que teria que adiar a ida.

De repente, eu tomei conta do que era realmente a peregrinação, e, confesso, tive medo. Não de caminhar sozinha, de passar fome, de ter que dormir no chão, de ter bolhas, tendinites, de me perder, etc. Amigos, confesso, tive medo de ficar comigo sozinha, no silêncio do meu eu, com meus problemas, meus defeitos, minhas manias.

Mais uma vez, o Apóstolo não me abandonou e me deu forças, no momento em que comecei a me sentir perdida novamente. Uma conhecida, que nada tem de religiosa, ao me encontrar, do nada me perguntou:

- Janaína, você já pensou de fazer o Caminho de Santiago?"

Diante da minha expressão de perplexidade (já que eu não tinha comentado com ninguém o meu projeto de peregrinação, além da minha mãe), ela continuou: Ouvi falar que é um caminho de transformação..." Mas logo em seguida, ela passa para um assunto completamente diferente.

Confesso que não me lembro das outras banalidades" que ela falou, só lembro que fiquei o resto do tempo rindo, pensando que esse era o sinal" que eu precisava. Era tempo de mudar, de repensar várias coisas e de ficar sozinha comigo, embora isso pudesse me trazer medo. Mas a partir daí o medo de tudo isso veio acompanhado com aquela vontade de enfrentar tudo, de vencer o desafio".

Marquei, então, minhas férias deste ano (2003) para logo depois da semana santa, de forma que poderia viajar no feriado, passar 25 dias, e, ainda ter alguns dias, no retorno para descansar.

Continuei e continuo a ler sobre o caminho, na internet, em livros, trocando e-mails com o pessoal da associação (que são sempre super disponíveis) e me preparando para esta verdadeira viagem".

Sairei no dia 19/04/03, da minha cidade, começando o caminho em Leon.

Já comprei meu equipamento, estou me preparando fisicamente (não com tanto vigor quanto deveria, também confesso...risos) e, nesses últimos dias, arranjei até uma companheira de peregrinação (que já fez o caminho e está retornando comigo), que tem sido maravilhosa e super paciente com minhas dúvidas de peregrina iniciante...

Para finalizar, o que espero do caminho? Vou encontrar respostas para todas as minhas perguntas? Vou me transformar numa pessoa melhor? Vou acabar com meus medos? Vou viver alguma situação mística?

Não sei...

Só sei que o fato de me sentir chamada" a fazer o caminho de Santiago e de me preparar para fazê-lo, me fez sentir mais forte, menos medrosa, e refletir mais sobre a vida.

Se é verdade o que dizem: O IMPORTANTE É O CAMINHO, NÃO A CHEGADA", o meu caminho começou aqui, na minha terra natal, mais especificamente naquela noite de setembro de 2002, na academia, enquanto fingia para mim mesmo fazer bicicleta...

Janaína

R E L A T O S