Um Caminho de Mudanças

- Kátia T. Fonseca

Relato

Quando cheguei do Caminho de Santiago, fiquei às escuras. Eu era loira e no mesmo dia que cheguei, fiquei morena. Demorei seis meses, para voltar habitar o meu mundo real. Embora a rotina continuasse. O Caminho transformou ou me mostrou o meu interior. Conhecendo-o foi difícil voltar a mim mesma. Mas consegui. Logicamente, que voltei não mais sendo a mesma. As mudanças sentidas ou percebidas, não foram como a natural nos dada pelo tempo e pelas experiências de vida. Foram extraordinárias mudanças de valores, de pontos de vistas, de visões, e de amor pelas relações que existem no mundo: Humanas, com a natureza e com os animais. Ter vivido essa transformação, permitiu-me tornar uma pessoa melhor, consciente de minhas limitações.

Para mim, demorou dez anos, entre o sonho de estar em Caminho de Santiago e a realização. Minha ida não foi planejada com antecedência. Foi decidida, um mês, exatamente, antes de minha partida. O suficiente para organizar a mochila, os documentos e ir. A viagem custa dinheiro, e neste sentido, é preciso haver patrocínio ou planejamento, evidentemente. Mas o que quero dizer, é que, se caso algum dia, pensamos ou sonhamos em fazer algo, tudo se conspira para que aconteça, e a vida ou a gente mesmo, nos levam para lá, e concretizam este algo. Reitero que minha decisão e preparos se deram em um mês, mas este um mês demorou dez anos para que acontecesse. Pois, mentalmente esta ida já estava pronta. Todavia, me imaginei em Caminho de Santiago, por volta de 1999.

Logicamente que foi por uma necessidade de estar no Caminho de Santiago, que parti para esta direção. A necessidade dita, partiu de um sonho encontrado em meio a muitas palavras de um livro. Livro, o qual me motivou a ir ao encontro de meu chamado, ou para os mais céticos, a este destino místico e rodeado por lendas. Livro, cujo autor caminhou mais de oitocentos quilômetros em Caminho de Santiago, para percorrer trinta centímetros: Da cabeça ao coração. E que muito me honrou em conceder suas ilustres palavras ao prefácio de meu livro, O Caminho de Santiago e a Espada da Fé (A jornada e a lenda de um caminho).

A minha ação em direção ao Caminho, aconteceu depois dos quarenta. Fase em minha vida, em que já tinha um trabalho e uma renda estável, em que meu filho já estava crescido e criado, e em que pouco ou quase nada esperava mais da vida. Contudo, concluo que decidi ir para o Caminho de Santiago, em busca de autoconhecimento. Mas nem nos meus mais profundos ensejos, eu poderia imaginar que encontraria em mim a pessoa que encontrei em Caminho. E é este encontro comigo mesma, que tornou cada passo dado em busca do sepulcro do apóstolo, no período, que embora curto, mais intenso e importante para o resto de minha vida.

Penso que ao terceiro ou quarto dia, já havia me encontrado comigo mesma e vivido o que inconscientemente, ali busquei. Foi nos primeiros dias, que me deparei com o silêncio e a solidão. Foram nestes dias que encontrei, com os meus limites: O físico e o mental. Foram nestes dias, também, que pude concluir: "Pensei que não fosse fácil, mas não sabia que era tão difícil". Essa minha frase me emociona a cada vez que a repito. Nos dias subseqüentes aos primeiros, os fatos se tornaram repetitivos, com cenários, estórias e pessoas diferentes.

Completamente sozinha em Caminho de Santiago caminhei por dezenas de quilômetros. A solidão me fez sentir. Somente quietos é que nos interiorizamos e podemos sentir alguma coisa. Senti-me sozinha por distâncias longínquas. As dificuldades no percurso me fizeram sofrer. No misto da solidão e do silêncio, coisas acontecem. Algo que de alguma forma me transformou. Algo que tornou o meu mundo melhor.

Por onde quer que iremos, e por onde quer, que partimos e chegamos, uma coisa é muito certa na vida: Possuímos raízes em nossa Terra Natal e em nossas famílias, assim como, devemos nos acostumar com nossas rotinas de vidas e entender, que o Caminho de Santiago, é uma via. Talvez a única, que possamos nos desprender da economia, da política e do social. Uma via de igualdades e diversidades.

Contudo, "O Caminho" transformou não somente os meus cabelos, mas também o que há por traz deles. Mudou a minha mente e me tornou mais humanamente sensível e condescendente, no bom sentido. Hoje, devo dizer que concordo plenamente com o conselho dado por uma amiga: "Muito cuidado com a volta. É mais preocupante o retorno, do que a ida ao Caminho". Lamento ter recebido este conselho somente meses após a minha chegada. Por isso, neste meu relato, lhe digo: Muito cuidado com o retorno. Ele faz parte do nosso caminho. 'Buen Camino', peregrino.

Ultreya & Sulseya,

R E L A T O S