O Peregrino de Ipanema

- Kenneth Rochel

Relato

Sempre me entusiasmo com a leitura dos relatos Peregrinos. Cheguei a descrever a minha Peregrinação e anexei a fotografia do meu corpo etéreo na Catedral de Santiago durante a Missa do Peregrino. Guardei as lembranças da "Peregrinação", acompanhando as minhas peregrinas (Inês e Selma) em suas andanças no Camino.

Desde a saída do Rio de Janeiro, quando ambas embarcaram cheias de entusiasmo e preocupação, acampei ao lado do telefone e junto ao computador.

Nas minhas 6 (seis) peregrinações, feitas nos livros e nos sites, esquematizei o itinerário e as etapas a serem cumpridas, dia a dia. Confesso que pouco deixava o escritório, temendo perder a resenha do dia que a Inês passava pelo telefone e que eu tinha que retransmitir aos parentes, tão ansiosos quanto eu, com os menores detalhes.

Um breve " intermezzo" : acho que a minha cara-metade , disfarçadamente, mantinha controle sobre o marido com os telefonemas diários.

Nos primeiros dias, comparando com o esquema que havia montado, a caminhada estava com uma média muito abaixo do presumido. Acalorados debates se desenvolveram com a minha observação. Mas, as peregrinas prosseguiam e recuperavam, paulatinamente, os quilômetros que haviam dado de lambuja nos primeiros dias. Por conveniência, visando vaga em albergues menos visados, cumpriam etapas fora das padronizadas e, fartamente, preconizadas pelos variados Guias, Manuais, Roteiros etc, tão badalados.

A emoção que elas viviam, na Espanha, era vivida por mim, nos meus mapas, quando as marcações iam se aproximando do objetivo. Dizem todos, à exaustão, que o Camino é de cada um. Inês e Selma fizeram os delas, caminhando juntas ou separadas. Eu fiz o meu, com o meu fiel mapa, o meu vigilante telefone, a calculadora e o computador.

Não cultivei bolhas, tendinites; não dormi em albergues com sacos de dormir ; não tomei banhos frios em sobressaltos pela nudez; não lavei roupa e não arrumei mochila. Mas tive bolhas de preocupação, dormi muito mal com o meu cachorro me "secando", levava o telefone para o banheiro, fiz muita comida, lavei muita louça e panela. Acho que o peregrino que fica em casa, tendo duas pessoas queridas em peregrinação, sendo uma delas a mulher que é a minha própria vida, é um exercício de companheirismo, de vivência espiritual, de pensamento conectado.

Estou sofrendo, com antecedência, pela minha próxima caminhada. É, vou fazer outra Peregrinação. Vou voltar aos mapas, ao telefone e ao computador. A calculadora vai ficar desligada, afinal já conheço e reconheço que o Camino é de cada um. Ninguém faz o Camino do outro. Com a graça de Deus, após esta nova Peregrinação, farei um novo relato.

Que o GADU abençoe, guarde e ilumine as minhas peregrinas e todos os peregrinos.

Kenneth

R E L A T O S