O Pós-Caminho

- Leon Max Nahon

Leon

Não sei o que me levou a viajar perto de 10.000 Km até uma pequena cidade da França, na fronteira com a Espanha, e de lá caminhar quase 800 Km até Santiago de Compostela. Apesar da decisão ter acontecido somente 8 meses antes de partir, eu já havia me imaginado a caminhar há nove anos atrás.

Hoje, com a aventura realizada, me vejo cada vez mais precisando de uma resposta. Infelizmente, não aconteceu comigo o que vi acontecer com outras pessoas, que, se não tinham esta resposta antes de partirem, a encontraram durante o seu Caminho. Me sinto frustrado, pois convivo com um Eu inacabado.

A cada noite meus sonhos são buscas de algo a ser compreendido, criando uma ansiedade que persiste em se refletir nas primeiras horas de vigília. Nestes sonhos refaço o Caminho, onde vivo novas situações, ou as mesmas situações que vivi, porém com outros personagens e estórias diferentes.

Tenho medo que estes sonhos parem, pois são o que tenho de mais próximo à verdade que procuro.

Tenho medo de me esquecer de tudo que vivi no Caminho, de perder a lembrança da face de cada companheiro, dos momentos de medo, de alegria, de dor, de confraternização, de mágoa, de solidão.

Tenho medo de não mais me lembrar das minhas chegadas ou das minhas partidas.

Tenho medo de esquecer as coisas simples, como olhar em frente e ver trilhas intermináveis que para mim não terminavam nem no horizonte - iam além, muito além.

Tenho medo de esquecer o sabor das maçãs e das uvas roubadas pelas trilhas e daquele pequeno momento antes de dormir em que tentava, sem sucesso, apreender o sentido daquele novo mundo que me fascinava.

Tenho medo de sentir um frio diferente, um cansaço diferente, uma liberdade diferente. Tenho medo de não me perder novamente. É por esta razão que tento aprisionar o que me resta, escrevendo minhas interrogações e perplexidades - mesmo que, muitas vezes, tenha rasgado tudo, ao sentir que não conseguiam representar uma vírgula sequer daquela realidade fantástica.

Hoje, tenho dificuldade de lembrar alguns detalhes das cidades, dos albergues, dos trechos do caminho por onde andei e onde me senti herói. Recorro às fotografias e acho que são poucas, sem inspiração, e me critico por nunca ter lembrado que vi um ninho de cegonha ou que uma vez me desesperei com a chuva que caia pelas descidas e subidas que magoavam o meu corpo.

Não sei o que fui fazer lá e não sei o que trouxe de lá. Não sei de onde vem esta saudade que não para. Sinto a mente pequena e o coração surdo às palavras que antes ouvia pelas vozes da natureza.

Não sei se o Chamado é para ser atendido, porém não compreendido. Não sei sequer se o Chamado foi atendido.

Já nem sei se estive lá.

Por certo a lição não foi aprendida e, assim sendo, acho que me traí.

Hay que caminar un poco más...Hay que volver...O morir sin casi vivir...

Leon

R E L A T O S