LEMBRANÇAS DO CAMINHO, 10 anos depois!

- Lilia Setenareski

Relato

Eu e minha inseparável irmã (Ligia) e companheira de todos os caminhos chegamos a Saint Jean de trem, depois de passarmos uns dias passeando em Paris, antes de iniciarmos nossa jornada. Nos instalamos em um Hotel no centro da cidade, colocamos vestidinhos, perfume, batom,... e coisa e tal, afinal só iríamos iniciar o Caminho no dia seguinte. Fomos até a casa da Mme Debril para pegarmos nossos passaportes de peregrinas. Ela nos olhou de cima a baixo, fez uma careta, perguntou-nos somente o que era necessário, entregou os passaportes e nos dispensou rapidinho. Fiquei decepcionada pois fui àquele encontro imaginando que seria um ritual mágico.

Comentários preliminares

Em 1994 os passaportes (credenciais) eram entregues somente nos trechos do Caminho;
Todos os refúgios eram gratuitos e havia uma caixinha em cada um deles para
aqueles que quisessem fazer contribuições (eram raros os peregrinos que contribuíam);
O refúgio de Logroño era uma exceção.Os peregrinos eram gentilmente convidados a contribuir. Mesmo assim, a tal cobrança era interpretada como um insulto, já que naquela época havia pessoas sem dinheiro algum e faziam o Caminho na base da ajuda de outros peregrinos e do pessoal dos vilarejos;
Todos os peregrinos carregavam sacos de dormir. Em alguns refúgios dormia-se no chão ou em cima de colchões imundos;
Os refúgios abriam a partir das 16 horas. Às 8 horas todos já deveriam ter saído. Só se podia passar uma noite em cada refúgio (acho que ainda é assim); Paulo Coelho era idolatrado por uns e odiado por outros;
Os peregrinos também eram considerados por alguns como a maior riqueza da Espanha e por outros como vagabundos que se aproveitavam do Caminho para fazer turismo barato.

02.06.1994 - 1º dia - de Saint Jean Pied de Port à Roncesvalles

Iniciamos o Caminho num maravilhoso e gélido dia de sol dos Pirineus "vestidas de peregrinas" e com nossas mochilas e concha de vieira trazidas desde o Brasil. Lembro que subia, subia, subia e as pessoas que passavam de carro buzinavam e acenavam para nós, abençoando-nos. Minha mochila pesava uns 18 quilos e eu comecei a perceber que pagaria um preço bem alto pela minha vaidade. Isso sem contar o cantil, comida, máquina fotográfica e sei lá mais o quê, que eu carregava pendurado por todos os lados. Setas amarelas e vermelhas (utilizadas em terras francesas) nos indicavam o caminho a seguir.

Não encontramos um vilarejo sequer no trajeto e chegamos a pensar que estávamos perdidas no meio daquele imenso bosque. Em determinado trecho olhei para o chão e estava escrito ULTREIA. Aquilo me deu forças para continuar meu primeiro dia de caminhada. Segui feliz. Paramos várias vezes para lanchar e agradecer a Deus por estarmos ali. Chegamos em Roncesvalles no final da tarde mortas de cansaço, com dor nos pés, pernas e com vergões na cintura por causa do peso da mochila. Um brasileiro chegou para nos dar as boas vindas no refúgio e falou que ele, esposa e duas amigas tinham acabado de chegar para iniciar o Caminho no dia seguinte, partindo dali. Em seguida falou - sou marido da Baby, vocês conhecem? E minha irmã mais que depressa "só a Baby Consuelo". E ele: pois é ela mesmo! Rimos juntos. Reservamos nossas beliches, fomos carimbar nosso passaporte com o padre Vicente e depois fomos jantar. Em seguida (sem condições físicas para assistir a missa dos peregrinos) deitamos em nossos sacos de dormir e "apagamos" enquanto o pessoal foi assistir a missa e aproveitar os momentos pré-caminhada.

- Cada um paga um preço pela sua vaidade. Dentro das nossas mochilas havia muita coisa desnecessária que compramos num impulso de consumidoras compulsivas em Paris, mesmo sabendo que aquilo sairia muito caro.

03.06.1994 - 2º dia - Roncesvalles à Zubiri

Acordamos com o barulho dos brasileiros ansiosos para iniciar o Caminho e esperamos que todos saíssem para arrumarmos nossas coisas. Minhas pernas estavam travadas e eu queria mesmo era ficar dormindo o dia todo. O refugio era lindo e limpíssimo.

Primeira coisa que fizemos ao chegar em Burguete foi tentar despachar o excesso de bagagem para Santiago, mas não conseguimos. Fomos em frente e quando entramos num pequeno bosque encontramos a Baby procurando um cajado para ela, que nos contou que com o tempo eles iam ficando dourados(e com o passar dos dias ficaram mesmo!). Fizemos o mesmo procurando um cajado para nós como mandava o ritual. Caminhamos em procissão. Várias vezes paramos para descansar, comer e conversar. Ficamos sabendo através dela que a Ana Sharp estava vindo para o Caminho a fim de vê-los e ainda ser guia da Shirley Maclaine que estaria chegando por aqueles dias. Ficamos eufóricas pois antes de iniciarmos o Caminho havíamos lido o Livro da Ana, assim como o do Paulo Coelho, Máqui (que mantivemos correspondência pré-caminho) e outros.

Naquela época não existia o AACS e tudo que se sabia sobre o Caminho era através dos livros e algumas reportagens em revistas. O trajeto foi um dos mais maravilhosos do Caminho.Em determinados momentos eu já não sentia o chão. Eu simplesmente flutuava. Chegamos em Zubiri ao anoitecer. Achamos uma pensão e alugamos um quarto.Jantamos e depois subimos para tomarmos banho. Sentíamos muitas dores pelo corpo e por isso ficamos fazendo alongamentos enquanto ouvíamos uma gravação da Ana Sharp falando sobre a magia do Caminho. Tiramos das nossas 3 mochilas o que não era necessário, colocamos tudo numa caixa e pedimos para o dono da pensão enviar para Santiago no dia seguinte. Dormimos mais leves.

- Autoflagelação não! Estamos aqui em busca da felicidade.

04.06.1994 - 3º dia - Zubiri à Arre

Fiquei com uns 12 quilos na mochila, mesmo assim o estrago físico já estava instalado. Arrumamos nossas coisas, compramos mantimentos e saímos somente na hora do almoço. Combinamos com a Baby que nos encontraríamos em Larrazoanã e seguimos na frente. Tiramos fotos mas algo estranho aconteceu e perdemos todos os registros desde este ponto até Sto Domingo. Neste dia a caminhada foi feita por caminhos repletos de flores e picadas na mata. Em alguns trechos havia muita lama e poças de água, o que dificultava um pouco os passos. Como nos dias anteriores parávamos para descansar e fazer piquenique com pães, queijos, salames, frutas, chocolates e até saladas. Eu sentia ferroadas nas costas e as bolhas começaram a querer aparecer muito discretamente, assim como quem não quer nada, mas querendo tudo. E eu pensava - como diria o Máqui "isso é penitência e devemos oferecer a Deus".

Dias depois eu deixava um recado num dos tantos livros do Caminho dizendo a ela que foi exatamente o contrário. Chegando ao refugio de Arre minha irmã se enturmou com uma das brasileiras (Cida), amiga da Baby e eu fiquei deitada pensando em tudo que estava fazendo de errado com meu corpo.

- Respeite os limites do seu corpo, pois ele é sua fortaleza.

05.06.1994 - 4º dia - Arre à Puente la Reina

Minha irmã veio me falar que gostaria de continuar o Caminho sozinha. Fiquei preocupada, mas topei. Combinamos que a partir do dia seguinte daríamos um intervalo entre a saída de uma e de outra, mas para isso precisaríamos de um guia para podermos nos organizar.

O refugio era bom, mas tivemos que dormir no chão da sala pois estava lotado. Saímos de lá com frio e garoa.

Na saída de Arre comprei um guia (com aquelas espirais de caderno) para ir lendo e jogando fora os trechos já percorridos. Minha irmã abandonou o relógio de pulso e não quis saber nem do Guia, que acabou sobrando para mim. Nesse ponto do Caminho já andávamos pior que faveladas. Como não encontramos no Brasil capas de chuva que cobrissem também as mochilas, tivemos que improvisar...

Em Pamplona percorremos as ruas onde são realizadas as festas de São Firmino. Conhecemos a Igreja, passamos pelo Castillo e seguimos em frente achando tudo muito movimentado, muito barulhento...Encontramos a Cida e um espanhol que reclamava dos pés forrados de bolhas. Minha irmã ficou com eles e eu segui em frente.
Fui subindo por uma montanha escutando sinos tocando ao longe e o vento tocando meu rosto. A minha frente um tapete de flores vermelhas e amarelas me convidavam a parar, bem em frente a "Fuente de la Reniega". Deitei e fiquei pensando em tudo que estava acontecendo comigo. Ainda não acreditava que estava ali. Depois lavei meus pés, fiz massagem, comi e segui em frente. Um pouco antes de chegar a Puente la Reina fui, pela primeira vez, apresentada às famosas cerejas do Caminho.Era um pomar maaaaraaavilhooooso. Havia uma placa onde estava escrito "Cerejas Envenenadas". Pensei comigo - se for verdade, vai com veneno e tudo! Que felicidade. Senti como se estivesse com 10 anos de idade, quando ainda roubava frutas dos vizinhos (e que jogue a primeira pedra quem nunca fez o mesmo, eh, eh).

Cheguei em Puente de la Reina no final da tarde com um sol escaldante. Percebi que havia adquirido 3 pequenas bolhas. Em frente ao refúgio havia uma pracinha e os peregrinos que iam chegando se estiravam na grama e na mureta tirando suas botas e mostrando com orgulho suas bolhas enormes. Usei pela primeira vez meu kit (fio/agulha) para costurar minha coleção de bolhas (até isso é gostoso lembrar). Depois disso tomei banho, lavei roupa, conversei com alguns perês, saí para conhecer a igreja, carimbar o passaporte, passear, comprar mantimentos, jantar... e nada da minha irmã chegar. Sentei em frente ao refugio e fiquei me perguntando- afinal por que eu estava ali se eu podia estar viajando pelo resto da Europa só no bem bom? E minha irmã onde estava? Comecei a entrar em pânico achando que ela havia se perdido. Muito faceira, ela chegou as 22:30 horas, pois resolveu passar em Eunate. A sorte dela e de quem chegou junto, foi que eu havia comprado bolachas, sucos, refrigerantes, iogurte..., pois àquela hora já não havia mais um lugar aberto na cidade.

- O valor de cada pessoa não é medido pelos bens que ela possui nem pela posição que ocupa na sociedade. O que vale sim é a sua essência.

06.06.1994 - 5º dia - Puente la Reina à Estella

Fui a primeira a sair após tomarmos café todos juntos. O refúgio era meio desorganizado e estava lotado. Algumas pessoas tiveram que dormir pelo chão. Passei pela ponte "onde todos os caminhos se encontram" e senti uma forte emoção por estar pisando aquele chão abençoado.

Segui em direção a Estella curtindo a paisagem e parei numa ponte medieval. Desci e fiquei embaixo dela para me esconder do forte calor e para colocar meus pés de molho em suas águas geladas. Todos nós (os brasileiros) carregávamos sacos de lixo e íamos guardando os papéis de bala, latas de refrigerante, pacotes de salgadinhos e tudo que íamos devorando, além de juntarmos também o lixo que encontrávamos pela frente. Neste dia recebi o primeiro dentre vários convites para entrar em casas de pessoas que nunca me viram e sequer sabiam quem eu era. Para essas pessoas basta que tenhamos uma mochila nas costas, uma concha e um cajado. Esse povo do Caminho é surpreendente! Em Villatuerta um senhor me ofereceu água e me convidou para fazer um tour pela Igreja datada do século XII. Suas palavras demonstravam o orgulho que ele tinha de tudo que ía mostrando. Como é bom quando sentimos orgulho da nossa história!

Cheguei na Ermita São Miguel e dormi um pouco. Depois disso acabei me perdendo e tive que refazer o Caminho. Não tinha boné que bloqueasse o forte sol que ia derretendo o cérebro (acho que foi por isso que me perdi, eh, eh...). Na entrada de Estella parei no estacionamento de uma empresa e ali fiquei para esfriar um pouco meu corpo. Nesse momento sai de dentro da tal empresa um cara boa pinta. Mais uma vez fui medida de cima a baixo, mas desta vez por outro motivo. Agora eu estava toda mulambenta. Puxou papo perguntando de onde eu vinha, o que fazia em minha terra,.... e daí me falou que não fazia o Caminho porque era espanhol e se sentiria envergonhado se seus amigos o vissem caracterizado de peregrino. Olhei pra cara dele sem saber o que dizer. Ele pegou seu carro e foi-se. Fiquei pensando - estaria esse cara querendo insinuar que estou, digamos....mal vestida?

Segui direto para o refugio que era muito bom mas ficava no alto de uma ladeira. Me instalei e fiz tudo aquilo que todo perê faz quando chega da caminhada (lavar roupa, estender roupa, olhar mapa, tomar banho....). Fui conhecer a cidade e parei numa confeitaria para comer tudo que tinha direito. Minha irmã apareceu e eu não neguei fogo e fui pra segunda rodada de doces e xícaras de cafés. Logo que voltamos apareceu um peregrino ajudado por um médico, com os dois pés enfaixados até os tornozelos. Ele andou mais de 40 kms naquele sol escaldante e com uma bota quase nova. Seus pés ficaram tomados de bolhas e suas unhas descolaram. Todos ficamos muito chocados e fizemos de tudo para tentar animá-lo, pois além das dores ele sabia que, pelo menos naquele momento, o Caminho havia acabado para ele.

- A humildade é algo que vamos adquirindo aos poucos e devemos estar sempre atentos para não perdê-la.

07.06.1994 - 6º dia - Estella à Los Arcos

A noite foi dura. O peregrino que estava com os pés enfaixados passou gemendo a noite toda. Foi de cortar o coração. O silêncio reinou cedo e acho que cada um de nós ficou pensando "e se fosse comigo"? Já na estrada passei por um hotel e quando olhei pela janela dei de cara com um farto buffet. Não tive dúvidas, entrei e me fartei. Minha irmã a tiracolo (e vice-versa), porque percebemos que aquele negócio de andarmos separadas não estava dando muito certo.Tínhamos quase o mesmo ritmo e acabávamos sempre parando nos mesmos lugares para ver as mesmas coisas. Seguimos em frente percebendo que as setas a cada dia diminuíam, fazendo com que nossa atenção ficasse redobrada.

Chegamos a uma ruína perdida no meio de um trigal e ali ficamos. De repente uma barulheira quebrando o silêncio.Uma turma de franceses com idade entre 50 e 60 anos vinham até nós na maior animação.

Nos convidaram para tomar um vinho com eles. Aproveitamos então para convidá-los para o nosso pequeno piquenique. Cada um acabou contribuindo com o que tinha na mochila. Ficamos sabendo que eles estavam fazendo apenas um trecho até Logroño e com um carro de apoio. Nem sabíamos que existia essa "modalidade" de caminhada e aí ficou explicado o por quê de eles estarem só com umas mochilinhas pequeninas.

Continuamos em frente e minha irmã se enturmou novamente com a Cida e eu segui meu caminho observando as plantações, quando um pastor (de ovelhas) veio ao meu encontro, me abraçou e beijou. Coisas do Caminho!

Em Los Arcos desanimei, pois o refugio era terrível. Coisas do Caminho! Passei na Igreja para agradecer mais uma vez a Deus por estar ali e ganhei de uma freira um santinho com a imagem de Nossa Senhora. Minha irmã e os brasileiros (Nando, Magda e Cida) chegaram em seguida. Alguém ficou dizendo que havia um bando de tarados no Caminho e que ficavam tentando agarrá-la (????). Contou ainda que sempre teve pavor de cobras e de repente ali no Caminho o tal medo desapareceu (????). Me retirei dali. Minha irmã e o Nando também. Fomos conhecer o pequeno povoado e aproveitamos para comer por ali.
O calor era tanto que nossas mãos e pés estavam inchados de uma maneira que nunca vi. Voltei ao refugio e coloquei as pernas pra cima. Santiago fez chover durante a noite para refrescar o ambiente e os ânimos. Neste dia fiquei pensando em meu pai que completou 80 anos, mas não consegui ligar para ele.

- Não julgue as pessoas sem antes conhecê-las. Quando apontamos um dedo para nosso semelhante, todos os outros estarão voltados para nós.

08.06.1994 - 7º dia - Los Arcos à Logroño

Saí cedinho. Fui pegando a dianteira do pessoal que saiu antes. Magda voltou desesperada, pois lembrou que esqueceu seus documentos no refúgio. Mais tarde fiquei sabendo que ela havia jogado no lixo por engano. No primeiro povoado encontrei o Nando. Hora conversávamos, hora ficávamos em silêncio, cada um com seus pensamentos. Seguimos até a praça de Viana onde tiramos os calçados e nos lavamos no chafariz. O dia estava lindo. Ficamos observando as crianças brincando, os idosos batendo papo, os pássaros vindo beber água. Parecia que todos estavam em paz curtindo sua vidinha tranquila de cidade pequena. Aquela paz tomou conta de nós. Sentamos em um banco e tiramos toda a comida que tínhamos nas mochilas para almoçarmos. Sempre carregávamos comida porque não sabíamos quando, nem onde, encontraríamos um lugar aberto para compras (em alguns povoados não existia nada, além de algumas casas). O peso era maior, mas nos sentíamos mais seguros e livres para nos alimentar a qualquer hora.

Cada povoado tinha seu próprio horário para abrir suas"tiendas" e como não tínhamos hora marcada para chegar nem para sair....

Nando ficou me contando sobre sua vida profissional, enquanto descascávamos algumas laranjas que compramos por ali. Minha irmã chegou falando que não aguentava mais lanchar, queria mesmo almoçar de verdade. Fui com ela, depois segui novamente só. Na entrada de Logroño encontrei o Nando novamente. Muitos acabaram se perdendo nesse dia pois a sinalização era péssima naquele trecho. Como chegamos antes do refugio abrir, fomos tomar um café e bater papo. O refugio era lindo. Havia divisórias entre as camas, colchas em cima dos lençóis limpos, travesseiros... A cozinha era completa. O banheiro limpíssimo e com água quentinha. Enfim...o paraíso!

Eu e minha irmã fomos conhecer a cidade e as Igrejas, que achamos lindas. Numa delas pegamos a saída de um casamento. Jantamos e voltamos para dormir.

- Quando estamos em paz nossa energia se irradia dando um colorido especial a tudo e a todos que estão a nossa volta.

09.06.1994 - 8º dia - Logroño à Azofra

Minha bolhas secaram e eu sentia dor apenas na planta dos pés. Com o passar dos dias as coisas foram se ajeitando. Começamos a levantar mais cedo, evitando o sol forte. Com isso chegávamos mais cedo nos povoados e a tempo para o almoço. E já que ninguém é de ferro e estávamos na Espanha, nada mais justo que aderir a "siesta".

Encontrei com minha irmã desde cedo e fizemos todo o percurso juntas. Nos trechos onde havia movimento de carros, o pessoal buzinava e acenava para nós. Em alguns pontos haviam placas com inscrições de incentivo, como "ultreya", "falta poco, venga!" e "animo". Achamos aquilo tudo muito simpático e realmente nossos ânimos foram se renovando.

Em Nájera estava havendo uma festa. Bandeirinhas nas ruas, bandas de música e jovens com fantasias regionais. Paramos em um pequeno restaurante para almoçarmos e deixei meu cajado do lado de fora. Quando saí ele já não estava mais lá. Fiquei pensando se era uma lição para eu cuidar melhor das minhas coisas, se ele já tinha cumprido sua função comigo e por isso foi parar em outras mãos ou se simplesmente algum engraçadinho me sacaneou. Acho que foram as três coisas. Fiquei divagando. Na verdade não era apenas um pedaço de pau tirado do chão de um bosque. Para mim tinha um valor não somente prático, mas também emocional. Afinal eu o adotei! Como queríamos ficar em silêncio, atravessamos a cidade e seguimos em frente enquanto a maioria dos perês ficaram por lá para se divertirem.

Na saída da cidade atravessamos uma linda ponte. Embaixo passava um rio com águas cristalinas e flores brancas flutuando. Chegamos em Azofra e fomos para o refúgio. Como havia cozinha, minha irmã saiu para comprar mantimentos e fazer um jantar maravilhoso para nós.

O refúgio era ótimo e fomos as primeiras a chegar. Pequeno, mas aconchegante. Ainda bem que resolvemos parar ali porque ficamos sabendo que em Nájera estava lotadíssimo e não conseguiríamos acomodação em lugar algum. Conhecemos 3 holandeses com mais de 60 anos de idade que estavam fazendo o Caminho desde a Holanda e já haviam percorrido mais de 3 mil quilômetros movidos pela fé. Meus olhos encheram-se de lágrimas ao ouvi-los.

Naquela noite chegaram ainda mais 4 espanhóis que não encontraram lugar para ficar em Nájera. Eles aproveitaram o que sobrou do nosso jantar e foram se ajeitando. Nós duas dormimos no chão da sala, pois não haviam camas suficientes e resolvemos ceder nossos lugares para os mais cansados.

- Temos que ter fé naquilo que acreditamos, pois ela nos impulsiona a realizar nossos sonhos.

10.06.1994 - 9º dia - Azofra à Belorado

Começamos cedo nossa jornada. Havia sol. Passamos por várias plantações que estavam sendo irrigadas. Fiquei observando-as enquanto passava e um arco-íris apareceu no meio delas. Todos os dias somos agraciados por cenas lindas que a natureza nos oferece, porém nem sempre prestamos atenção e com isso, deixamos de apreciá-las.

O trecho até Sto Domingo foi um pouco monótono mas de muita beleza. Uma reta cheia de cascalhos, subidas, descidas e a sola do pé....ai,ai. No meu caminho havia uma pedra, havia uma pedra no meu caminho! Chegando lá, levei minha máquina fotográfica para o conserto e não me cobraram nada pelo serviço. Em seguida sentei em frente a Catedral que só abriria as 10 horas da manhã. Uma turma de alemães vieram até mim. Havia entre eles uma mulher que falava português e pediu permissão para me filmarem dentro da Catedral. Fiquei tentada a dizer não, pois sou envergonhada, mas disse que aceitaria desde que não tivesse que falar nada. Dei umas voltas pelas imediações e quando entrei na igreja fiquei arrepiada com o som de música sacra. Parecia que eu tinha entrado no céu. Fiquei emocionada, aliás tudo é pura emoção no Caminho e chora-se muito. Olha que eu não faço o tipo chorona, mas a situação toda nos deixa muito sensíveis a tudo.

Minha irmã já havia chegado e estava sentada num degrau em frente ao "galinheiro". Dizem que o galo tem que cacarejar para dar sorte aos peregrinos que ali entram. Verdade ou mentira, ficamos ali - canta galo, canta.... Cantou. Ufa! O pessoal nos filmou, depois contou-nos sobre a Lenda do Galo. Eles estavam fazendo um documentário para a TV alemã, mas não sei bem se era sobre todo o Caminho ou somente sobre a cidade de StoDomingo.

A sinalização diminuía a cada dia e a estrada também. Pedregulhos, lama e poucas árvores. Andamos um trecho de quase 20 km de asfalto e isso acabou com minhas forças. Cheguei em Belorado quase me arrastando. As solas dos pés latejavam. Sentindo calafrios pelo corpo entrei no refugio, que era muito ruim, e deitei na primeira cama que encontrei. Lembro de ter me perguntado novamente o por quê de estar ali e em seguida apaguei. Quando acordei já havia escurecido. Na parede a minha frente havia um poster com um fundo negro, em primeiro plano uma vela iluminava uma das paredes da Catedral de Santiago e embaixo estava escrito "luz en el camino". Aí estava a resposta para minha pergunta.

Levantei e tomei uma sopa que minha irmã preparou para todos que estavam por ali. Em seguida fui até a Igreja que ficava ao lado e sentei para assistir a missa e selar a credencial. O padre resolveu também fazer uma reunião com os paroquianos e eu tive que esperar até às 21 horas. Enquanto isso encontrei outro aviso na parede que dizia assim: "El señor es mi pastor, nada me falta, en verdes praderas me hace reposar. Me guia hacia fuentes tranquilas y repara mis fuerzas". Voltei a dormir feliz!

- Devemos aprender a perdoar e principalmente a pedir perdão. Pedi perdão a Santiago por ter sido tão cega a ponto de não perceber tudo aquilo que o Caminho estava me ensinando. Pedi perdão a Deus e a todos pelos erros cometidos.

11.06.1994 - 10º dia - Belorado à San Juan de Ortega

"Não pergunte por quem os sinos dobram. Eles dobram por você". Cada povoado que chegava, ouvia os sinos tocarem. Parecia que havia alguém nas torres das Igrejas, esperando cada peregrino que chegava. Em todos os lugares era assim e todos comentavam sobre isso.

O sol se foi, dando lugar a muitas nuvens e frio. Tudo correu tranquilamente. Eu caminhando na frente e minha irmã vindo algumas centenas de metros atrás, como costumávamos fazer.

Em Villafranca paramos para nos abastecer com água e comida, pois de acordo com o Guia, não haveria mais nada até San Juan, que também quase não possuía infra-estrutura. Aproveitamos para comprar bastante coisa, pois a esposa de um dos espanhóis que conhecemos na noite anterior, estava de carro e ofereceu-se para carregar as mochilas de todos até San Juan. Os mantimentos foram conosco montanha acima e tive a impressão que pesavam mais que as mochilas. Encontramos um casal vindo de Logroño e que já tínhamos trocado algumas palavras no refúgio de Azofra. Seguimos com eles (Ignácio e Carmem) contando sobre a Espanha. A paisagem era linda e estávamos todos em paz. Resolvemos parar num lugar cheio de vegetação rasteira e coberta por um tapete de flores. Pegamos nossos mantimentos e fizemos um piquenique ali, no meio da tarde.

Em San Juan a temperatura estava baixando. Só havia uma Igreja, um bar fechado e o refúgio onde ficamos. Não havia água quente e nosso banho foi gelado. Fomos selar nossa credencial e conhecer a Igreja. Voltamos para o refúgio e conversamos bastante com os outros perês. A noite nos agasalhamos bem e nos enfiamos dentro dos sacos de dormir pois os quartos eram enormes e gélidos. Alguns foram tomar a famosa sopa de alhos. Dentre nós havia um espanhol que roncava muuuiiito e como já sabíamos disso, não pegamos o mesmo quarto que ele, e aqueles que pegaram, foram se mudando durante a noite. Esse era um problema rotineiro. Em todos os lugares sempre tinha alguém que roncava e sem querer atrapalhava o sono dos outros. Geralmente o povo não reclamava muito, mas esse espanhol era demais!

- Devemos ter paciência para com nossos semelhantes e aceitá-los como são. Todos temos qualidades e defeitos.

12.06.1994 - 11º dia - San Juan de Ortega à Tardajos

Tomei meu café e saí. A temperatura estava em 4 graus e o vento era de congelar. Minha irmã ficou conversando com o padre que entregou a ela rosários para nós duas e mandou me dizer que eu era uma bruxa por não ter ido vê-lo. Legal, as bruxas são poderosas, pensei!

A paisagem era lindíssima. Pueblos e montanhas. De Villafría a Burgos não existia qualquer sinalização e o jeito era seguir o movimento dos carros e caminhões. Era a paisagem urbana aparecendo a nossa frente novamente e confesso que não gostei. Um trajeto horrível de asfalto até a cidade.

Chegando lá parei para tomar café e comer algo, afinal já era hora do almoço e eu queria também me livrar do frio e do vento que rachava meus lábios.

Sentei em frente a uma janela que dava para a avenida principal e fiquei escrevendo meu diário. Vi quando minha irmã passou e saí para chamá-la a me acompanhar no café. Depois de alimentadas e reaquecidas seguimos em frente. Do outro lado da Avenida, um rapaz com uma filmadora profissional na mão e uma mulher com fisionomia alemã, nos observavam. Ela atravessou a rua e veio em nossa direção. Ela pedia em espanhol que parássemos.Pensei: de novo não! E eu via que o cara estava filmando tudo de longe. Ela perguntou se conhecíamos uma das brasileiras (Magda). Minha irmã respondeu que sim e que também éramos brasileiras. Pronto! Brasileiras? Mas eu também sou. Sou a Ana, disse ela. E eu: Ana Sharp? Sim, e estendeu os braços pra nós. Perguntou-me se eu era a Lília e disse que a Baby contou a ela sobre nós duas. Conversamos rapidamente, pois ela estava fazendo umas filmagens e iria para Santiago assim que encontrasse o pessoal. Tiramos uma foto, contamos a ela que o Nando devia estar na Catedral e ela correu para lá. Na despedida recebemos sua benção e felizes seguimos em frente.

No trajeto assistimos uma festa de rua com danças típicas. Entramos na imponente e maravilhosa Catedral de Burgos. Rezamos e agradecemos a Deus por tudo o que estava acontecendo conosco. Na saída ficamos sabendo que a Ana já havia se encontrado com o Nando, que a Baby estava há alguns dias atrás de nós, que a Shirley Mclaine passou na frente dela e que no dia seguinte sairia uma foto das duas juntas no jornal de Burgos. Fofocas do Caminho. Incrível como todos se conhecem, ou já ouviram falar. Sabemos quem está atrás ou alguns dias a frente, com quem está andando, onde dormiu, etc. Quer privacidade? Não faça o Caminho (rss). É uma irmandade onde todos se cuidam e se ajudam. Os ciclistas são o correio do Caminho. Quem está caminhando atrás sempre pede a um ciclista para entregar recadinhos e notícias. E eles cumprem o papel direitinho. Saímos de Burgos com o casal de espanhóis, mas depois cada um seguiu seu ritmo.

Encontrei um passarinho morto na estrada e fiquei pensando sobre a fragilidade do corpo e a força da mente. Faltava 1km para chegar em Tardajos quando senti uma fisgada no dedão do pé esquerdo.

Continuei devagar e novamente a dor. Era como se estivesse levando choques. Parei, sentei no chão, tirei o tênis e coloquei o chinelo. Continuei devagar com o pé meio de lado e me segurando no cajado que arranjei dois dias antes. Demorei para achar o refúgio e quando achei, meu humor já estava péssimo, pois caminhei muito mais que o necessário. Minha irmã esperava assustada, achando que eu havia passado reto sem parar naquela cidade. Como normalmente eu era a primeira a chegar, todos perceberam que algo errado havia acontecido comigo e foram me ajudar.

O refúgio estava lotado e a cidade toda estava sem água. Sorte nossa que havia lá um hotel/restaurante onde pudemos nos instalar.Me lavei com um restinho de água que havia no banheiro, passei pomada nos pés e massageei o dedão. Depois enrolei com gaze e coloquei as pernas para cima. Minha irmã foi buscar comida no restaurante para jantarmos no quarto. Fiquei apavorada achando que não conseguiria andar no dia seguinte.

- Através da dor descobrimos não só a nossa fragilidade mas também a força espiritual que nos empurra a vencer nossos limites e seguir em frente.

13.06.1994 - 12º dia - Tardajos à Castrojeriz

Tomamos o café da manhã no hotel e saímos. Fiquei com medo de firmar o dedão no chão, então adquiri a técnica de caminhar com o dedo voltado para baixo para não distender o nervo (ou sei lá o que estava acontecendo). Neste dia as passadas foram curtas e minha irmã não me largou um só instante. Subimos uma montanha onde haviam borboletas brancas e lilases. Almoçamos ali. A paisagem era belíssima com flores por todos os lados. Abaixo viam-se muralhas que circundavam o povoado de Hontanas. Seguíamos pela rua principal quando avistamos dois cães enormes da raça pastor alemão. Passamos bem quietinhas por eles e sem bater o cajado no chão. Um senhor chamado Victorino saiu de uma das casas e convidou-nos a entrar. As atitudes dele eram muito estranhas e sua conversa totalmente fora de propósito. Tomamos um pouco de vinho e saímos dali rapidinho, com medo dos cães que ficaram em frente a porta nos observando.

Continuamos e o sol foi aparecendo até que o calor voltou. Passamos pelas ruínas do Convento de San Anton e ouvimos cachorros latindo ao longe. Não paramos.

Em Castrojeriz havia um senhor chamado Vicente que recebia todos os perês. Conosco não foi diferente. De longe já nos esperava para mostrar a Colegiata, selar nossas credenciais e nos dar água. Além disso ele também fazia massagens no pessoal. O refúgio era péssimo, mas todos estavam dispostos e prontos para entrar na fila da massagem. Como já tínhamos passado dois dias tomando banho frio e dormindo mal, resolvemos novamente ficar num hotel .Nos demos de presente também, um jantar maravilhoso em um restaurante muito aconchegante perto de onde estávamos hospedadas.

- Dominar o medo não é tarefa fácil, mas devemos combatê-lo, pois do contrário ele tomará conta de nosso corpo e nossa mente.

14.06.1994 - 13º dia - Castrojeriz à Carrión de los Condes

Saindo de Castrojeriz pode-se avistar ao longe a Colina de Mostelares. A subida é dura mas a paisagem que se tem de cima é singular. Olhando para trás pode-se avistar o Caminho percorrido e a frente só se vêem montes de pedras e cruzes de sinalização. Saímos cedo e quando chegamos no pico pudemos observar a neblina baixando na cidade de Itero de la Vega. Fiquei pensando o quanto somos pequenos em relação ao Universo.

Em Fromista paramos para comer e trocar dinheiro. Como só demos notícias aos familiares uma única vez desde que inciamos o Caminho, tentei entrar em contato, mas não consegui. Comecei a perceber que minha casa, minha família, meu trabalho, tudo parecia fazer parte de um passado muito distante. Eu quase já não pensava mais em nada além do Caminho. Era como se eu fizesse parte dele, como se minha vida fosse só aquilo. Caminhar, caminhar,.... As vezes me sentia tão parte dele que nem sentia minhas pernas. Eu simplesmente flutuava. Paramos no refúgio para um descanso e para fugirmos do sol que estava muito forte. A maioria dos peregrinos que conhecíamos resolveram parar por ali, mas nós decidimos seguir em frente e o casal de espanhóis decidiu nos acompanhar.

Saímos ás 17 horas, mas mesmo assim o calor era forte.Quando chegamos e Villalcázar eu já estava cansada. A palmilha do meu tênis se soltou e ficou dançando justamente no pé que estava com problemas. Aquilo foi um martírio para mim. Parei de flutuar para sentir a realidade. E a realidade era que eu estava com o corpo todo dolorido e precisava muito descansar.

Chegamos em Carrión, compramos mantimentos e jantamos no refúgio que estava lotado de ciclistas e não havia mais espaço para nós. Conseguimos a chave do andar de cima onde havia uma sala com colchões e uma mesa. Comemos pão com queijos e salames, conversamos um pouco e fomos dormir.

- A solidão nos ataca quando menos esperamos. Quando ela aparecer deixe-se levar, pois ela pode nos proporcionar instantes de grandes reflexões.

15.06.1994 - 14º dia - Carrión de los Condes à Sahagún

Tive que jogar fora meu cajado. No dia anterior em Carrión, deixei-o encostado numa calçada e ele caiu justamente quando estava passando um carro, que passou por cima e partiu-o ao meio. O cinto que prendia a mochila à minha cintura também arrenbentou e tive que improvisar. Saímos cedo e ao avistarmos uma ponte paramos para colocar os pés na água e fazer massagens.

Chegando em Calzadilla de la Cueza avistamos a placa de um bar. A temperatura era de aproximadamente 35 graus. Entramos e eu já fui me jogando em uma cadeira. Como o ambiente era gostoso, resolvemos tomar café e comer algo. Ficamos conversando e quando já estávamos quase acabando nosso lanche, um rapaz muito gentil e de uma simpatia contagiante, veio até nós dizendo que ouviu nosso papo em português. Ele sentou conosco e começou a nos contar que tinha uma grande amiga brasileira chamada Ana, que escreveu um livro e nesse livro ela falava sobre ele, que se chamava César. Ficamos sem palavras porque várias vezes comentamos sobre onde deveria ser a cidade (não lembrávamos mais) em que ela encontrou-o para irmos conhecê-lo. Realmente as coisas acontecem como e quando tem que acontecer. Conversamos bastante e tiramos fotos. Ele nos deu ânimo para seguirmos e disse que aquele lugar era o melhor e mais lindo de toda a Europa. Entregou-nos um cartão dizendo que se algo nos faltasse estaria a nossa disposição. Saímos dali comentando que realmente existe uma magia nesse Caminho.

O resto do percurso foi bastante pesado e na entrada de Sahagún encontramos Ignácio e Carmem novamente. No refúgio conseguimos um quarto para nós duas e eu fiquei escrevendo com uma lanterna pois não havia luz. - O otimismo faz com que as pessoas encarem a vida com mais leveza, mesmo quando nem tudo é tão belo e tão fácil.

16.06.1994 - 15º dia - Sahagún à Mansilla de las Mulas

Mais um trajeto duro. Reta, reta, reta, mas com menos cascalhos. Neste trecho foi construído um "andadero" exclusivo para peregrinos com uma árvore plantada a cada 9 metros. O problema era que ainda não haviam crescido o suficiente para criar sombras, num percurso de mais de 30 kms de aridez. Saímos cedo pois sabíamos que o dia seria difícil. Todos os dia eu fazia massagem e passava pomada nos pés e pernas, além de fazer muitos alongamentos, mas mesmo assim comecei a sentir meu tornozelo. Isso fez com que eu procurasse outro cajado para me apoiar.

Quando entramos em El Burgo Ranero, um carro passou por nós e parou logo a frente. O motorista desceu e veio falar conosco. Apresentou-se como sendo o autor de um dos Guias do Caminho. Seu nome era Milan. Sua conversa resultou em duas horas de atraso e um Guia com dedicatória, que minha irmã carregou (sob protesto) até Santiago. Tal atraso acabou por atrapalhar nossos planos e caminhamos com o sol a pino. Comecei a achar que aquela reta jamais acabaria. Meus pés já não respondiam ao meu comando, as dores eram ferozes, cheguei no final das minhas forças. Avistei uma choupana feita de feno e barro com um poço ao fundo. Segui com o resto que tinha de forças. Minha irmã e eu desmoronamos no chão. Estávamos muito enfraquecidas e desidratadas. Nos alimentamos, fizemos massagens nos pés e em seguida adormecemos. Fomos acordadas por uma forte rajada de vento. Com as forças renovadas, partimos vagarosamente e conversando. Disse a minha irmão que descobri o que era o "inferno" pois estive nele.

Em Reliegos paramos para um sorvete e resolvemos ir mais além porque nossas energias haviam voltado. Já era noite quando chegamos ao refúgio. Ignácio nos esperava aflito na porta. Contamos o motivo do atraso, comemos, tomamos banho e fomos deitar. O quarto era muito bonito e estava lotado, porém nossas beliches já estavam reservadas. Peguei minha lanterna e fiquei escrevendo no escuro para não incomodar aqueles que já dormiam. Minha irmã me perguntou se eu ainda continuava caminhando por teimosia já que sentia muitas dores. Respondi que era teimosia e orgulho.

- Somos cruéis com nós mesmos quando tentamos provar que somos capazes de fazer coisas que estão além das nossas forças. O orgulho e a teimosia acabam passando por cima da humildade.

17.06.1994 - 16º dia - Mansilla de las Mulas à La Virgen del Camino

Pesamos nossas mochilas. A minha estava com 10,3 kg e da minha irmã com 10,6 kg. Continuavam pesadas e não tínhamos quase nada dentro. Eu havia chegado num ponto em que não precisava de nada além de água, comida e uma vestimenta. Tudo mais era supérfluo. Olhava as pessoas e ficava pensando - Pra quê tudo isso? É tão simples viver e ser feliz. Não precisamos de praticamente nada, mas acabamos complicando tudo. Seguimos o que a sociedade nos impõe e vivemos como robôs. Em vez de pensarmos em satisfazer nossos sonhos, ficamos juntando bens. E são esses bens que nos aprisionam, que nos fazem ficar parados, criando raízes difíceis de serem arrancadas.

Tomamos café com Ignácio e Carmem, depois saímos debaixo de chuva fazendo muita bagunça, cantando e provocando uns aos outros. Ignácio cantou para nós a canção dos peregrinos: ".....Al andar se hace camino, y al volver la vista atrás, se ve la senda que nunca se ha de volver a pisar. Caminante, no hay camino, se hace camino al andar. Golpe a golpe, verso a verso...". Nossas energias foram se renovando e com isso a paz e a alegria voltaram a reinar. O tempo estava maluco e era um tal de colocar e tirar as capas de chuva.

Andamos bem devagar e na entrada de León vimos um hiper-mercado. Entramos para comer num "fast-food". Continuamos felizes até a maravilhosa Catedral, onde tiramos algumas fotos. Dentro havia um coral de crianças ensaiando música sacra. Vitrais enormes circundam a Catedral. Ficamos ali observando toda aquela riqueza...Depois demos umas voltas, fomos a uma cafeteria e no final da tarde seguimos em frente descansados e de bem com nossos corpos. Chegamos em La Virgén del Camino às 21 horas e nos instalamos em dois quartos de um hotel chamado Júlio César (nome de um dos meus irmãos), pois não havia refúgio ali. Combinamos que a partir do dia seguinte cada um seguiria sozinho, pois apesar de estarmos nos dando muito bem achávamos que cada um deveria seguir seu próprio rumo, seu próprio ritmo... Se voltássemos a nos encontrar tudo bem, se não, sabíamos que nosso objetivo era o mesmo e que todos estávamos com Deus, Santiago e a certeza de que chegaríamos ao nosso destino.

- Os amigos verdadeiros são aqueles que não criam amarras. Que não cobram. Que não sufocam. Não criam expectativas. Apenas deixam cada um ser aquilo que realmente é.

18.06.1994 - 17º dia - La Virgen del Camino à Astorga

A conversa foi longe e acabamos indo dormir tarde. Mesmo assim meu sono foi agitado e tive um pesadelo com minha mãe. Acordei pensando que deveria ligar para ela. Se tinha alguém que eu sentia falta, esse alguém era ela. Minha mãe sempre foi muito amiga minha e como não podia deixar de ser, foi a primeira a nos incentivar quando contamos que faríamos o Caminho. Tomarmos o café juntos. Demos um tempo e seguimos em frente até Villandangos del Páramo onde paramos para descansar. Sentamos em um banco de rua bem em frente ao refúgio e ali ficamos conversando, até que apareceu num táxi, um dos espanhóis que conhecemos no início do Caminho. Ele nos contou que machucou o pé e não estava conseguindo caminhar. Era bem comum ver pessoas desistindo de fazer o Caminho. Os motivos eram diversos, mas a sensação de fracasso era a mesma em todos os rostos.

Continuamos até chegar na Puente del Paso Honroso, onde descemos para almoçar e eis que encontramos o casal de espanhóis novamente. Fizemos nossa refeição enquanto assistíamos a sessão de fotos de um casamento. Na saída de Órbigos o tempo começou a mudar e por isso resolvemos ficar mais um pouco e tomar um delicioso café. Que saudade! Mesmo com a chuva teimando em cair, saímos dali e fomos cantando e brincando uns com os outros. Começou a chover muuuuito e a única coisa que encontramos pela frente foi uma casa de ferramentas em meio a um campo aberto. O dono da plantação estava passando por ali na mesma hora e abriu para nos protegermos um pouco. Ofereceu-nos um vinho e ficamos batendo papo até que o sol apareceu novamente e seguimos em frente.

Chegamos em Astorga e minha irmã insistiu para ficarmos em um hotel, pois estava muito exausta, com dores e com fome. Deixamos o casal no refúgio e fomos até a Pensão Garcia onde deixamos nossas mochilas. Minha irmã saiu para dar uma volta, pois a cidade estava em festa e eu fui atrás de um telefone para ligar para minha mãe. Ela própria atendeu dizendo que estava com muita saudade. Disse a ela que passei o dia lembrando o quanto ela era maravilhosa e quanta falta fazia para mim. Ela então disse para eu parar com aquela conversa, senão não aguentaria. Fiquei segurando minhas lágrimas e quando desliguei cai em prantos. Minha saudade aumentou mais ainda e comecei a ter febre (minha irmã dizia que a tal febre é resultado da minha "síndrome de falta de mãe", pois sempre que ficava sem ela, a tal febre logo aparecia). Voltei, tomei banho e desci para o jantar no andar térreo. Pedimos um cozido de cordeiro que era delicioso. A dona da pensão era muita querida e ofereceu uma bacia com água, sal e vinagre para eu colocar os pés e tornozelos, pois eu estava com tendinite. Subimos e depois de ficar de molho, fazer massagens, tomar antiinflamatório, deitamos as duas numa cama de casal com molas, daquelas que afundam quando se deita. Com o barulho da chuva, estômago cheio, medicada e cama aconchegante, sonhei até com os anjos.

- Nossa família é nosso porto-seguro, mas mãe é tudo na vida de uma pessoa. Mães são Deusas encarnadas.

19.06.1994 - 18º dia - Astorga à Cruz de Hierro

Dormimos até mais tarde porque estava difícil levantar daquela cama. Havia uma festa com desfile de soldados e tiros de canhões. Fomos ver a Catedral e o Palácio Episcopal. A cidade é muito bela e o povo muito charmoso.

Na saída da cidade paramos para comprar "madalenas" numa confeitaria. Enquanto andávamos apareceram dois ciclistas perguntando por mim e disseram que o Nando mandou avisar para eu não correr demais (ele reclamava o tempo todo que eu andava muito rápido). Este foi o último contato que tivemos com os brasileiros no Caminho.

Em Rabanal del Camino encontramos Ignácio e Carmen. Chegamos a conclusão de que não adiantava tentar lutar contra, o Caminho queria que andássemos juntos. Tínhamos a mesma estrutura e preparo físico, além das mesmas aspirações. Paramos no refúgio repleto de perês fazendo a "siesta" e sentamos numa mesa ao ar livre para conversar. Foi aí que surgiu a idéia de dormirmos na Ermida atrás da Cruz de Ferro. O pessoal que estava por ali ficou dizendo que estávamos ficando doidos. Demos risadas. Dizem que todo peregrino é meio louco, então...Compramos provisões e saímos dali às 18:30 horas, como sempre fazendo a maior bagunça. Em Foncebadón entramos conversando e olhando as ruínas. Ignácio nos disse que antigamente naquele lugar, havia um centro hospitalar para peregrinos. Procuramos pelos ferozes cães e o que encontramos foram alguns filhotinhos escondidos com medo de nós. Na saída de Foncebadón, já na subida para a Cruz de Ferro, olhei para trás e vi um casal de trabalhadores revirando a terra e dois cães, um preto e o outro marrom, realmente assustadores.

Chegando à Cruz de Ferro ainda tivemos tempo de apreciar o pôr do sol. A vista dali é realmente estonteante. Depositei a pedra que carreguei desde o Brasil naquele monte enorme, pedi perdão por todos os meus erros e agradeci a Deus por tudo que estava aprendendo. A Ermida estava fechada, portanto montamos acampamento ao lado. Primeira coisa que fizemos foi catar gravetos secos antes que escurecesse, para então fazermos uma fogueira. Depois selamos um acordo, de que cada um estava ali por sua livre vontade e se algo de errado acontecesse, não poderíamos culpar um o outro, pois cada um possui seu livre arbítrio. Em seguida pegamos nossas capas de chuva, amarramos umas as outras e prendemos no pilar da Ermida para nos protegermos do vento e do frio. Vestimos todas as roupas quentes que possuíamos, acendemos a fogueira, brincamos em volta dela, comemos, tiramos fotos, contamos histórias....Entramos em nossos sacos e o calor que emanava de nossos corações contagiou tudo a nossa volta.

- O sentimento de total liberdade aparece já nos primeiros passos do Caminho. Com o passar do tempo essa liberdade começa a tomar conta do nosso espírito. Aí percebemos que passamos a vida presos não aos outros, mas a nós mesmos.

20.06.1994 - 19º dia - Cruz de Hierro à Cacabelos

Noite linda, de liberdade, de contato direto com a natureza, de simplicidade, amizade, enfim...Tudo de bom! Acordamos por volta das 8 horas, desmanchamos o barraco e quando estávamos tomando nosso café da manhã, apareceram uns perês atônitos, contando que os cães de Foncebadón estavam "atacados" tentando morder todos que por ali passavam e que algumas pessoas tiveram que dar a volta por fora das ruínas com medo de enfrentá-los.

Começamos nossa marcha às 9:15h com muita neblina. O visual era maravilhoso, mas o frio de lascar. Chegamos em Manjarín e fomos tomar um café no refúgio. Conhecemos o Tomas. Contei a ele que sentia muita dor nos tendões e para minha surpresa ele começou a fazer massagens em minhas costas. Ele rezava algo que eu não compreendia e ia descendo as mãos pelas laterais do meu corpo. Eu sentia uma sensação de frescor e o peso saia de mim. Ele comentou que eu estava muito "carregada", mas estava vindo muito bem até ali. Mostrou um ponto em minha mão onde deveria ser constantemente massageado. Em seguida fez o mesmo com o meu pessoal. Ele conversou bastante com minha irmã, pois viu nela o mesmo "dom" que ele possuía. A paisagem era muito linda. Muita descida e pueblos quase abandonados. O casal de espanhóis seguiu em frente e nós paramos em Molinaseca onde almoçamos num lindo restaurante ao ar livre e a beira do rio. Descansamos por ali, pois a cidade é uma gracinha.

No final da tarde seguimos até Ponferrada. O sol estava abrasador. A partir daí o Caminho começou a ficar asfaltado novamente. Chegamos no Castillo de los Templários. Paramos para um sorvete com direito a vista panorâmica do Castelo. Ao contrário do que eu imaginava, a cidade era grande e atravessá-la não foi tarefa fácil. As igrejas estavam fechadas e o trânsito era terrível. Sinalização nenhuma. Encontramos uma ponte tão alta que cheguei a sentir vertigens ao atravessá-la.

Não foi fácil chegar até Cacabelos pois nada batia com nosso guia. Não sei o que houve mas calculamos que andamos uns 8 km a mais do que o guia indicava. Achamos um hotel e antes mesmo de subirmos para o quarto, paramos para jantar. A comida estava deliciosa e na TV passava um jogo de futebol entre Brasil x Rússia pela Copa Mundial. Depois que o Brasil fez gol, subimos para descansar. Descobri uma bolha embaixo de um dos dedinhos e tratei-a.

- Quando estabelecemos metas e temos perseverança conseguimos seguir em frente realizando todos os nossos sonhos, não importando se grandes ou pequenos, fáceis ou difíceis.

21.06.1994 - 20º dia - Cacabelos à Cebreiro

Todos os dias tinha a impressão que não conseguiria dar mais nenhum passo, mas não sei como, as forças iam se renovando e eu seguia para mais uma etapa. Dizem que após uma semana as dores acabam. Comigo não foi assim. Cada dia eu sentia num lugar diferente, mas sempre sentia. Acho que acabamos acostumando com a dor, que também faz parte do Caminho.

Saímos de Cacabelos e uma hora depois estávamos no refúgio Ave Fênix, de Jesus Jato. Sua esposa Maria Carmen veio nos receber dizendo que ele estava fora e só retornaria a tarde. Sentamos para conversar. Minha irmã aproveitou o Livro de mensagens e escreveu uns recadinhos para nossos amigos brasileiros.Mesmo sem termos ficado lá, deixamos uma contribuição em dinheiro pois o refúgio era bastante precário, porém com muito calor humano. Nos despedimos de Carmem e ela nos deu um pacote de cerejas e nos abençoou. Em Villafranca conhecemos as igrejas e seguimos para almoçar em Trabadelo que era mais sossegado. Os povoados seguintes eram todos muito agradáveis. Em Ruitelan paramos para um lanche e para adquirir alguns mantimentos, pois não sabíamos a que horas chegaríamos no Cebreiro.

A partir de Herrerias começa a subida. Antes de iniciá-la paramos para colocar nossos pés na água e na lama a fim de energizá-los. Minha irmã me fez uma massagem maravilhosa e eu iniciei os mais de 6 kms de subida feliz da vida. A paisagem e o esforço contínuo quase tiravam meu fôlego, mas lá ia eu, falando mentalmente a cada passo, como se fosse um mantra- Meu-Deus-o-bri-ga-da, Meu-Deus-o-bri-ga-da,...

Arbustos repletos de flores amarelas indicavam o trajeto a seguir. Quando percebi, já estava lá em cima olhando toda aquela imensidão. O Caminho faz com que percebamos nossas verdades básicas, elevando-nos espiritualmente, colocando-nos mais perto de Deus....

Ficamos sabendo que as pallozas não eram mais utilizadas pelos perês e que havia sido construído um albergue ali. E que albergue! Novinho e quase desabitado. Nos instalamos e eu me dei conta de que Santiago estava perto e eu iria chegar lá. Faltavam apenas alguns dias para o sonho tornar-se realidade, mas já não sabia mais se queria isso.

- A realidade nos faz retornar dos nossos sonhos. Aí percebemos que poderíamos ter ousado mais, pois estes instantes de sonho é que nos impulsionam para seguir em frente e viver plenamente.

22.06.1994 - 21º dia - Cebreiro à Triacastela

O dia estava lindo. Eu já não sabia mais se queria chegar em Santiago. Ali eu estava me conhecendo melhor, me redescobrindo. Ali não havia cobranças, não havia responsabilidade para com os outros, não havia máscaras, não havia amarras. Eu olhava para dentro de mim mesma e me surpreendia a cada dia. O refúgio era enorme, equipado e novíssimo.Pela manhã conhecemos um peregrino vestido "à caráter", com manto, chapéu... Ele nos contou que passou muito mal tomando água de uma das fontes e precisou ser levado ao hospital. Fomos tomar café no hotel e depois passeamos pelo povoado, conhecendo as palozzas e a igreja com seu Santo Graal. Saímos dali na hora do almoço com um sol muito forte. Enquanto caminhava, uma pequena cobra passou por mim e nem eu, nem ela, nos incomodamos com a presença uma da outra. Coisas do Caminho!

Paramos para almoçar em Padornelo e seguimos em frente conversando. Já estávamos totalmente familiarizadas com a rotina dos espanhóis e tudo estava mais fácil. Chegávamos no horário do almoço depois fazíamos a siesta. Retornávamos quando o sol diminuía de intensidade e seguíamos até a hora do jantar para nos alimentarmos bem. Percebemos que os peregrinos não tinham como hábito comer em restaurantes. Alimentavam-se muito mal e achavam o tempo todo que deviam fazer penitência. Eu não pensava assim, sentir dor tudo bem pois fazia parte daquilo tudo, mas alimentar-se mal, não mesmo! Banho todos tomavam, mas não sei se nosso cheiro era bom, pois era uma economia de sabonete....

Chegamos em Triacastela e não resistimos ao refúgio que era muito aconchegante. Havia uma saleta contornada por vidros e com vista para as árvores e um riacho ao fundo. Vários peregrinos a pé e de bicicleta estavam lá, inclusive nossos amigos Ignácio e Carmem. Resolvemos ficar por ali para lavar cabelos, roupas, cortar unhas.....e descansar.

- Não devemos ter vergonha de errar. Faz parte do ser humano, faz parte do caminho de cada um. O importante é que aprendamos a reverter esses erros em aprendizado para novas situações que a vida irá nos impor.

23.06.1994 - 22º dia - Triacastela à Portomarín

Não vi nem escutei nada, pois tomei um comprimido para dor muscular e logo adormeci. Acordei cedo com o pessoal reclamando da bagunça que alguns ciclistas fizeram durante a noite. Além disso, alguém passou mal e teve que ser levado ao hospital com cólicas horríveis. Disseram que a causa devia ter sido o consumo de água de fonte contaminada.

Ainda estava escuro quando saímos. Fomos andando e assistindo o dia clarear. Paramos em Sarria para nos abastecer de comida e o sol começou a ficar forte. Enquanto minha irmã fazia compras, fiquei sentada num degrau, observando as pessoas passarem. Não adianta querer fugir da rotina, pensei, até no Caminho entra-se nela, com a diferença de ser mais descompromissada. Eu via pessoas indo ao trabalho, crianças indo para a escola, comerciantes abrindo seus estabelecimentos, idosos saindo para conversar com os amigos no banco da praça, donas de casa cuidando de seus afazeres. Cada um com seus problemas, alegrias, tristezas, sonhos,esperanças...Enfim, pensei, é a vida das pessoas comuns como nós.

Entramos num bosque para fazer um piquenique tranquilo, mas o dia estava movimentado. Passaram por ali alguns peregrinos, um rapaz de moto e até um cara com um trator que quase nos atropelou. Desistimos e seguimos em frente. O caminho era cheio de subidas pedras, riachos, asfalto, bosques.

Em Ferreiros paramos no refúgio para descansar do sol e comer algo. A temperatura estava em torno de 40 graus e suávamos por todos os poros. Conversamos com alguns perês e pudemos ver que o refúgio era muito bom, mas resolvemos seguir até Portomarin que estava logo a frente. Atravessamos uma ponte enorme. Não paramos no refúgio da cidade e fomos direto para um hotel onde tomamos banho e jantamos. Com todo aquele calor adquiri mais uma bolha.O quarto parecia uma sauna!

Nesses últimos quilômetros do Caminho a sinalização era maravilhosa. A cada 500 metros havia um pilar fazendo contagem regressiva até Santiago. Era legal, mas batia uma ansiedade muito grande.

- Resolva seus problemas. Não tente fugir, pois eles continuarão andando com você não importa onde, sendo um peso a mais em suas costas. Muitas vezes a solução está em frente aos nossos olhos. Assuma, encare de frente, e tudo será mais fácil.

24.06.1994 - 23º dia - Portomarín à Ribadiso de Baixo

Fez tanto calor durante a noite que não conseguimos dormir. O barulho vindo da rua também nos incomodou bastante.

Iniciamos nosso trajeto bem cedinho, sentindo o orvalho da manhã. Não havia sol e a chuva e frio anunciavam sua chegada.

Até Palas de Rey foi muito agradável. Demos uma parada para um passeio e encontramos Ignácio e esposa numa cafeteria onde ficamos para um descanso. Eles se foram e nós resolvemos almoçar num restaurante na saída da cidade. Não estávamos com pressa e por isso ficamos um tempão conversando e observando uma turma de espanhóis que almoçavam perto de nós. Conversavam alto, riam e se divertiam. Eta povo alegre!

A sinalização era ótima e em Melide paramos no refúgio, mas como estávamos bem fisicamente, resolvemos seguir em frente, após tomarmos um café com o pessoal que resolveu ficar por ali. Nosso ânimo estava ótimo e não estávamos acreditando que faltava apenas alguns poucos quilômetros para chegarmos. Era uma mistura de ansiedade e alegria. Ao mesmo tempo uma grande sensação de tristeza e saudade de tudo que ficou para trás. Eu chorava muito e tudo me emocionava. Sensibilidade em pessoa. Muitas pessoas vinham falar conosco querendo saber de onde vínhamos e o que estávamos achando de tudo aquilo. Em vários momentos do Caminho cheguei a achar que não chegaria até o fim. Muitas vezes o cansaço e o desanimo me pegaram de jeito,´ mas uma força me empurrava para frente. Vimos tantas pessoas desistirem; ou porque se machucaram, ou porque suas forças simplesmente acabaram... Ficamos sabendo de um paraplégico que estava fazendo todos os trajetos pela "carretera" numa cadeira de rodas e que acabou virando notícia no Caminho.Diziam que o cara era meio doidinho e num determinado dia acabou sendo multado por "excesso de velocidade".

Fomos para Ribadiso de Baixo e ali nos instalamos. O refúgio era lindo. Todo em pedras com um riacho passando ao lado. Bem longe de tudo. Era o que estávamos precisando para colocar as idéias em ordem.

- A distância daqueles a quem amamos faz com que nossos sentimentos se tornem ainda mais fortes, porque aí percebemos que até os defeitos acabam se transformando em virtude.

25.06.1994 - 24º dia - Ribadiso de Baixo à Monte del Gozo

Acordamos com o som da chuva batendo no telhado e era um convite para voltar a dormir. Na verdade não sabia mais se queria chegar ao fim daquela jornada. De repente tudo estava acontecendo tão rápido... Esperei que todos levantassem para ser a última a sair e só levantei porque não era permitido ficar no refúgio até mais tarde, se não...

Chovia de verdade. Começamos a caminhar sentindo toda aquela água escorrendo pelas capas de chuva. A estrada estava cheia de lama e poças de água, mas isto não nos incomodava, pois sabíamos que Santiago estava mandando aquilo tudo para nos purificar.

Em Arzúa topamos com Ignácio e Carmen. Resolvemos seguir juntos até Santiago já que nossos caminhos estavam sempre se cruzando... Era uma manhã de sábado, não tínhamos trocado grana e os bancos estavam fechados. Encontramos um perê espanhol que se ofereceu para trocar nossos dólares. Somente aí é que nos flagramos que, sem que tivéssemos programado, chegaríamos em Santiago no domingo! Puxa, que presente. Será que haveria Botafumeiro na missa dominical? Tomamos um café juntos e saímos contentes. A chuva caía e quase não conseguíamos ver onde estávamos, mas ríamos o tempo todo e brincávamos feito crianças voltando da escola.

Paramos em Empalme para almoçar. Como estava frio e a única coisa que encontramos aberta foi um boteco de beira de estrada, resolvemos tomar um café com pão e ovos fritos, mas estava maravilhoso. Era nosso último almoço no Caminho.

Continuamos e enquanto andava, fiquei imaginando minha chegada a Santiago e meus olhos encheram-se de lágrimas, afinal foram muitos meses de preparativos. Lembrei das aulas de musculação, ginástica e das caminhadas pré-caminho. Da compra dos equipamentos, das botas que não deram certo em meus pés e das enormes bolhas que ganhei com isso. Dos conselhos, das recomendações, dos livros que li sobre o assunto, das reportagens, dos ensinamentos do Máqui, das pessoas que nos apoiaram, daquelas que não acreditaram,... Enfim, tudo foi passando como se fosse num filme. Agora eu estava ali na reta final e querendo mais.

Da entrada em Lavacolla até o Monte del Gozo o percurso não foi fácil devido ao movimento na estrada. Aquilo tudo era estranho aos nossos olhos, porque tínhamos passado tanto tempo longe da "civilização" que acabamos nos acostumando com o contato direto com a natureza, com o silêncio, com o barulho dos nossos passos....e agora estávamos retornando a vida cotidiana. Um carro passou e dentro dele havia uma mulher sorrindo e batendo palmas freneticamente para nós. Voltei a chorar e meu coração começou a bater mais forte. A chuva se foi, o frio também e o sol voltou com toda a força para nos aquecer mais ainda.

Chegamos em tempo para assistir o sol se pondo. O refúgio do Monte del Gozo parecia um campus universitário. Enorme! Peregrinos chegando a todo momento. Escolhemos um quarto, guardamos nossas mochilas, tomamos banho e saímos para mais uma vez olhar a cidade de Santiago a poucos quilômetros dali. Parecia que eu estava sonhando. Sentei num banco, comi um "sanduba" e ali fiquei até a noite chegar por inteira e o frio tomar conta do meu corpo. Levantei e avistei no chão a minha frente, um broche com a Cruz de Santiago. Peguei, coloquei no peito e fui descansar. Eu estava totalmente purificada.

- Dentro de cada um de nós existe um Deus. O Deus do amor, da paz, da fraternidade, da esperança, da bondade, da humildade, da doação, da virtude,da união....

Acordamos às 8 horas e parecia que ninguem estava com pressa de sair. Todos meio perdidos de um lado para o outro, conversando e tentando fazer o tempo se arrastar. Acabamos sendo os últimos a sair depois de fazermos nosso desjejum.

Nem bem descemos o Monte del Gozo e já estávamos pisando em Santiago. Tudo passou muito rápido e quando percebi, já estava em frente a Catedral, repleta de turistas esperando pela missa de domingo e observando os peregrinos que iam chegando. Entrei pelo Pórtico de la Glória e coloquei meus dedos naquela Coluna tantas vezes tocada, agradecendo a Santiago por ter me dado forças para chegar até ali. Em seguida fomos pegar nossa Compostelana juntamente com nossos companheiros de caminhada Ignácio e Carmem. Tudo estava tão claro e tão óbvio de repente, que não pude entender como consegui sequer pensar que não chegaria. Fizemos a maior festa e tiramos fotos. Eu estava eufórica. Depois saímos e sentamos na escadaria da Praça de Praterias juntamente com os outros perês e esperamos pela "Missa dos Peregrinos".

A Catedral estava lotada. Nos posicionamos num pilar perto da nave central e nem bem a missa começou já estávamos todos abraçados deixando nossa emoção fluir. Eu estava tão "anestesiada" que nem ouvi quando o padre começou a dar o nome e o País de onde vieram cada um dos peregrinos que chegaram naquele dia. Só lembro do Botafumeiro, passando perto de nossas cabeças e deixando uma nuvem de fumaça. Ele ia e vinha, ia e vinha, deixando seu rastro. E eu pensava - é como os peregrinos que deixam a marca de seus passos, que vão se apagando aos poucos, aí vem outro e outro,....e o Caminho de Santiago continua ali esperando pelos passos de novos peregrinos, atravessando séculos de história. É uma loucura pensar que tantas pessoas já fizeram aquele percurso; que sofreram, que riram, que foram abençoados, que deixaram seus nomes no livro da Catedral...

Após a missa fui até Santiago para dar-lhe um abraço peregrino. Desci também até sua cripta para fazer uma oração.

Saímos ouvindo o som do "Bolero de Ravel" sendo tocado na Praça do Obradoiro. Ali acabava minha peregrinação e iniciava uma nova etapa da minha vida. O Caminho não me ensinou coisas, ele apenas me fez lembrar de verdades básicas que o cotidiano havia feito com que eu esquecesse. A vida é simples, nós é que acabamos complicando tudo. Não precisamos de quase nada para sermos felizes e basta que tenhamos o coração aberto para receber todas as dádivas que Deus nos envia a cada dia.

Fomos almoçar e seguimos para a rodoviária onde compramos bilhetes para Finistérre. Enquanto esperávamos pelo ônibus liguei para casa contando aos meus pais que havíamos chegado. Ô saudade danada!

Até Finistérre foi uma aventura, pois tivemos que trocar de ônibus três vezes. Depois de 25 dias andando somente a pé me senti muito estranha com aquele veículo deslizando pela estrada. Quando chegamos, Ignácio ligou para um amigo ( Antonio) em Madri pedindo a ele que nos emprestasse seu apto e nos ciceronasse enquanto estivéssemos por lá. Nos despedimos com lágrimas nos olhos e seguimos cada um, seu próprio caminho.

Arranjamos um hotel muito gracioso, com um quarto com vista para o mar, onde jantamos e fomos dormir cedo.

- Nossa peregrinação acabou, mas o Caminho que percorremos foi apenas mais um dentre tantos que haveriam de vir ..."Caminante son tus huellas el camino y nada más; caminante no hay camino se hace camino al andar..."

Dia 27.06.1994

Saímos rumo ao farol de Finistérre pela manhã. Passamos pelo cais do porto repleto de gaivotas e barcos de pesca. O sol já estava forte. Caminhamos uns 3 kms até chegar em sua ponta. Tiramos as roupas que haviam em nossas mochilas e fizemos a queima. Ficamos ali sentadas olhando para aquela fogueira e para o horizonte. Era o momento da nossa renovação, de repensar nossas vidas. Devolvemos nossas conchas ao mar e nossos cajados à natureza. A partir daí seria o momento de voltarmos para tudo aquilo que deixamos para trás pois nossa missão estava cumprida. Voltamos para pegar o ônibus de retorno com a roupa do corpo, uma mochila vazia, os pés flutuando, os ombros leves e com a certeza de que o Caminho não mais sairia de nossas vidas...

Agora éramos apenas turistas indo à Santiago!

Lilia

R E L A T O S