O RECOMEÇO DE UM PEREGRINO DA VIDA

- Luiz Fernando Groetaers Vianna

Relato

Expectativa, emoção e uma pitada de medo foram os ingredientes principais da minha primeira "torta de Santiago" ou seja meu primeiro dia no Caminho de Santiago. Porque estou partindo para esta empreitada? Para que? O que estou procurando? Qual o meu objetivo? Perguntas não paravam de passar por minha mente. Respostas? Eu achava que as tinha mas, na realidade, até hoje as procuro. Naquele dia frio de maio de 2001, comecei a descobrir que não era fácil responder às minhas perguntas e aos meus questionamentos, mas estava pronto para tentar encontrar respostas. Comecei os meus primeiros passos confiante e agradecido a Deus pela oportunidade que estava tendo.

O "filme" começou a rodar: cada passo uma cena, cada cena uma reflexão - normalmente acompanhadas por lágrimas - , ora de alegria, ora de tristeza. Como era bom chorar, poder gritar sem que pessoas pudessem me julgar ou criticar. Estava livre !!!! Solto para viver intensamente os "meus momentos". Fazia planos lógicos na minha cabeça, tentando, como engenheiro, "organizar" meus sentimentos, minhas angústias... Coitado de mim!!!! Quanta ingenuidade!

O filme foi passando e logo percebi que não podia controlar nada, pois o turbilhão de emoções não parava. Pessoas apareciam em meus pensamentos e rapidamente sumiam. Tentava me fixar em algo para pensar e não conseguia. Desisti. Resolvi seguir o "script" que o "meu caminho" estava traçando para mim.

Coisas foram acontecendo e lágrimas caindo... mas eu estava feliz! E como estava! Lembrava dos meus filhos, chorava. Lembrava da minha mãe , dos meus irmãos e irmã, chorava. Lembrava dos amigos, chorava! Foram dez horas de caminhada, as dez horas mais importantes da minha vida, onde os sentimentos iam brotando a cada passo que dava, naquele terreno coberto de neve e muita esperança.

O cansaço e o frio embaralhavam tudo na minha cabeça. O medo da morte chegou... não sentia mais as pontas do meus dedos. O frio era intenso e eu não estava preparado. Procurava, em vão, as setas amarelas cobertas pela neve. Meus Deus, qual o caminho a seguir? Quanto tempo falta para chegar ao albergue de Roncesvalles? Perguntas e mais perguntas.... e não encontrava respostas. O desespero foi tomando conta de mim. Senti que não poderia fraquejar... tinha que vencer... ultrapassar meus limites! Lembrei da força e da fé de minha mãe para vencer uma enfermidade grave, lembrei das pessoas que estavam torcendo por mim, e tive consciência de que tinha chegado a "minha hora da verdade"!

Neste momento, explodiu dentro de mim, acredito pelo instinto de sobrevivência, uma força que embora presente nestes seis últimos anos, estava muito mais forte. Lembrei dos momentos difíceis por que passara e como os tinha superado. Fui ficando cada vez mais forte e as respostas foram aparecendo... sinais foram sendo encontrados... pegadas... barulhos... luzes... Enfim, a vida estava ali como sempre, me ensinando a acreditar e a ter fé!

Ao chegar ao albergue, mais um teste: após um frustrado banho gelado, uma hipotermia! Que dia! Mais uma vez o caminho mostrou o espírito de solidariedade, respeito e carinho do ser humano e, em particular do peregrino.O telefone celular toca. Fico confuso... Atendo e escuto uma voz meiga e linda que me diz: Alô, Luiz? Tudo bem? Dormiu? Vamos sair? Meu coração dispara... Onde estou? Ainda "vivendo" o caminho? Não!

Estou de volta do "Caminho sempre presente" para o presente que me foi dado pelo Caminho!

Hoje, quase um ano após minha chegada, me sinto mais preparado para brigar pelas coisas que acho importante para mim e, este telefonema, quando terminava de escrever este texto, foi mais um sinal.

Que bom estar vivo, ter recuperado a vontade de brigar e principalmente a capacidade de amar!

Luiz Fernando

R E L A T O S