A HISTÓRIA DE UM CAJADO

- Manoel Brasília

Relato

No primeiro ano o caminho passou tão rápido que não me dei conta do cajado e de muitas coisas ao longo do caminho. Fiz a caminhada sem o mesmo e não senti a sua falta.

No segundo ano como resolvi filmar trechos do caminho, levei aquele trambolho pendurado no pescoço. Uma noite conturbada de grandes pesadelos me faz chutar a parede da casa onde estava hospedado e quase quebro os dedos dos pés.

Como perdi o sono, às 04.30 horas estava saindo de Frómista. Um trecho fácil à beira da estrada e com um andadero ao lado. Estava escuro, mas aquela brita clara do caminho ia ajudar. Na entrada do andadero escutei uns latidos e barulho no mato.

Em seguida pula do mato um, dois, três, quatro, cinco cães, e pelo medo perdi a conta. Uma situação difícil. Tirei a filmadora que estava pendurada no pescoço e começo a rodar pela alça como proteção. O maior deles tenta de todas as formas me morder. Eles me cercam por todos os lados e eu rodando com o meu cajado/máquina.

É óbvio que comecei a ficar cansado. Em dado momento começo a rezar em voz alta, e em seguida os cães se afastam. Continuo a caminhada e mais adiante aquela cachorrada volta correndo. Volto a rezar eles se afastam. E assim foi até chegar perto de Población de Campos.

Comecei achar que era hora de arranjar um cajado. Mesmo assim continuei sem o mesmo, por teimosia.

Após alguns dias, ao entrar em Rabanal Del Camino, um senhor me perguntou pelo meu cajado. Ele tinha uma lojinha que vende cajados. "Eu te vendo um, barato", disse".

A próxima passagem era Foncebadón e fiquei intrigado. É um sinal. Finalmente vou comprar o meu cajado.

Chegando em Foncebadón vejo um peregrino retornando para pegar a estrada e escuto latidos no povoado. E agora. Vou fugir também? Afinal tens ou não tens fé?

Entrei no povoado e na altura da cruz vejo ao fundo daquela rua pedregosa, um cão preto em uma viela, em pé em estado de alerta.

Na frente da cruz começo a pensar. Eu tenho agora o cajado. Mas se o cão for bravio mesmo ele vai me pegar de qualquer jeito.

E aí começo a rezar e continuo a minha caminhada. O cão desaparece na viela e sigo o meu destino.

Quando chego a Cruz de ferro eu tinha certeza que tinha encontrado o melhor cajado do mundo. A Fé. Portanto peregrino, segura na mão de Deus e vai.

Ele é o nosso cajado, muleta, terceira perna ou qualquer outro nome que queiras usar.

Manoel Brasília

R E L A T O S