A difícil arte de "Volver"

- Naide Nóbrega

Relato

Caminho de Santiago no ano 2000, de Sean Jean Pied Port a Santiago de Compostela. Saída do Brasil no dia 15 de outubro. Volta, 10 de dezembro ; Caminho de Santiago em 2003, de Somport a Santiago de Compostela. Saída do Brasil no dia 25 de abril. Volta, 24 de julho ; Caminho de Santiago em 2007, de Le Puy en Velay a Finisterre. Saída do Brasil no dia 23 de abril. Volta, 20 de julho.

Todos os Caminhos, sejam de peregrinação ou não, têm seus marcos, seus momentos e suas datas. Datas para ir e voltar. Mas, de fato, o que essas datas representam? O quanto pesam, no resultado final dessas experiências? E principalmente, são verdadeiras? Aplicam-se à realidade?

Sobretudo sob a ótica do Caminho de Santiago, entendo que essas datas são como hologramas, existem e não existem, pois apenas marcam momentos do corpo físico. As idas e voltas são tão relativas que, ao final, o que menos importa é saber, de fato, que dia o peregrino colocou a mochila nas costas e começou a caminhar, ou em que dia voltou ao seu cotidiano.

Eu, por exemplo, tive que fazer um esforço enorme para lembrar das datas exatas que saí do Recife, ou que voltei. Até porque, seguramente, saí daqui muito antes.... em pensamentos, em sonhos, em vivências que antecederam os meus Caminhos. E voltei.... bem, isso é um caso a parte!

Lembro perfeitamente, embora sete anos já tenham passado, da péssima sensação que tive ao desembarcar na cidade de Madrid, imediatamente após o meu primeiro Caminho. Embora uma cidade de luz e encanto estivesse ali, aos meus pés, prontinha para me receber, eu não gostava, eu não queria, eu rechaçava.

Fui de Santiago a Madrid de avião. Chegando em terras ibéricas, peguei um metrô que me deixaria no coração da cidade e, logo ao sair da estação, com aquele corre-corre de gente, encontrei a “vida real”, gritando com todas as suas cores intensas. E eu pensei: onde estão os peregrinos, a “coisa simples”, onde está o meu povo?

Foi batendo um banzo tão profundo, uma saudade do meu Caminho.... e eu queria tudo, menos estar ali. Isso, claro, foi algo que passou rapidamente, logo no dia seguinte, depois de uma boa noite de sono. Mas o que estava por vir, o impacto veramente maior, era muito mais complexo e horas de sonos não resolveriam.

Os dias no Caminho eram só meus. Era como se eu tivesse a oportunidade de respirar por mim mesma e caminhar pelas minhas próprias pernas pela primeira vez na vida. Era como se, sozinha, eu estivesse reaprendendo a andar, a sorrir e a sonhar. Embora eu tivesse uma vida muito feliz e tranqüila no Recife, o Caminho tinha me proporcionado a dúvida, os questionamentos, as muitas interrogações e a recusa ao acomodamento. E o mais estranho é que eu tinha aprendido a gostar disso.

Quando voltei ao meu cotidiano de casa, trabalho, namorado, família e amigos, percebi, pela primeira vez, que uma grande parte da magia do Caminho pode ser trazida para o dia-a-dia, mas o maior pedaço dela fica por lá, como um pó, que nunca decanta. Fica no ar, nas pedras, nos albergues e no barro pisado por tanta gente, tão diferente. É exatamente aquilo que se chama espírito do Caminho, energia, algo especial, ou o que seja.... E, de repente, em casa, a gente percebe que está longe daquilo tudo, como se alguém tivesse nos acordado do sonho mais lindo, na hora exata de beijar o príncipe. E a gente se pergunta: e agora? E aquelas dúvidas todas? E aquelas verdades que me foram colocadas nas mãos, o que faço com elas?

Eita, companheiro!!!! É chegado o momento mais difícil. Lidar com o dia-a-dia, a “vida real”, tendo toda aquela carga do Caminho a digerir...

De repente, a gente lembra do encontro que teve com um monte de coisa que estava guardada no peito. Sentimentos que, mesmo que a gente queira devolver pro cantinho deles, não voltam mais. E eles ficam ali... pairando no ar, como o tal pó mágico do Caminho. E lá vem a bronca! São como se fossem dores, nas articulações de quem está crescendo.

Passei exatamente por isso no ano 2000, de forma muito intensa, embora lenta. O “cair de fichas” não foi imediato. A minha vida foi se readaptando à nova Naide que estava de volta. E muita coisa mudou, pessoalmente, profissionalmente, espiritualmente.

Embora eu tenha passado uns dias de turismo após o Caminho, a chegada ao Recife proporcionou uma bagunça estratosférica na minha vida. Era como se nada tivesse no seu devido lugar. E eu, com a força das minhas mãos e do meu coração, tive que colocar uma a uma no seu lugar correto, mesmo que para isso umas precisassem ser jogadas fora, outras substituídas e outras, simplesmente, encaradas de frente. Diria que foi uma faxina geral, trabalhosa e demorada.

Dois anos depois, eu percebia as mudanças, a nova cara, a nova alma, o novo brilho nos olhos. E, por conta desse “volver” tão traumático, no entanto, tão decisivo e revolucionário, eu resolvi, mais uma vez, ir, ou seja, percorrer um novo Caminho de Santiago, em 2003.

Todas as mudanças, as dores e as lágrimas tinham se transformado em resultados práticos, pelos quais eu só tinha que agradecer. Um novo eu estava prestes a percorrer a rota do Campo das Estrelas. E, dessa vez, preparada para ir e... para “volver”!

O segundo Caminho foi igualmente lindo, com seus dias fáceis e difíceis. No entanto, a segunda volta foi menos traumática. Não pelo fato de não existir a tal poeira que o Caminho deixa, porque esta sempre estará presente, mas, por existir a compreensão de que esse qüiproquó seria uma das fases mais ricas desse mesmo Caminho. Mais uma vez, a volta ao mundo real deixava a minha vida completamente bagunçada, mas eu já tinha aprendido que melhor seria arrumar a bagunça sorrindo.

Quatro anos depois, muita vida depois, resolvo voltar ao Caminho. Volver, volver, volver...

Diferentemente das outras duas vezes, eu parti do Recife na poeira. A vida tinha dado reviravoltas incríveis e eu as tive que driblar, com maestria. Saí com o coração feliz, segura de que estava no Caminho certo, mas, como já disse, saí na completa poeira, com paisagens nubladas. Era a hora exata de cumprir a lógica inversa: arrumar o que estava fora do lugar durante o Caminho.

Os 1700 km que separam Le Puy de Finisterre me fizeram organizar, arrumar tudo, colocar tudo no seu cantinho devido. A cada passo que eu dava, eu ganhava um pouco mais de mim. A cada momento, eu me sentia mais eu mesma. Sentia pulsar a minha vida em minhas mãos, num verdadeiro reencontro com os meus sentimentos e com os meus propósitos de vida. Com perdão do trocadilho, estendi as mãos para aceitar, do Divino, o meu presente, como presente.

Aprendi e vivenciei momentos doces, ganhei presentes mágicos e, graças à experiência de “faxineira” das poeiras deixadas pelos outros dois Caminhos, eu soube trazer esses presentes, com cuidado, um a um, para o meu cotidiano, sem grande esforço, como quem carrega um bebê nos braços.

O fato é que os meus três Caminhos se completam. O primeiro foi a história de uma menina de 25 anos que encontrou a mulher dentro de si. O segundo, a mulher que encontrou um sonho e agora, aos 31, o sonho que reencontrou a vida.

Deixar a atmosfera mágica de Compostela e voltar ao cotidiano não é como fechar um livro, como acabar uma boa garrafa de vinho ou como terminar uma viagem de turismo. O “volver” é uma tarefa difícil e muitas vezes doída. No entanto, após o meu terceiro Caminho, devo ser sincera para dizer que esse “volver” tem sido lindo e mágico. Respiro como nunca. Enxergo claro, mesmo em dias nublados, e rio muito. Tudo isso porque, em um determinado momento, eu entendi que o “volver” é só o primeiro passo para um novo ir.

Naide

R E L A T O S