DEIXEI DE VER... APRENDI A ENXERGAR!

- Palma

Relato

Conheci Gilmar uma semana antes de partir em busca da imagem de Santiago, que Jato havia nos doado.

Era o dia 18 de maio, lançamento oficial do Caminho do Sol. Pleno de emoção de ver um sonho há muito acalentado tornar-se realidade, e pelo acalento de tantos peregrinos, amigos, familiares, políticos e convidados, que lá foram nos prestigiar, entre abraços, cumprimentos, tapinhas, conversas ao pé do ouvido, fui apresentado a ele.

Suzete, sua professora de pintura (pintura?), foi quem o selecionou, entre tantos candidatos. Pele morena, barrigudinho, muito tímido, me pareceu um pouco frágil. Mas, afinal, era um compromisso meu para com o universo, e haveria de cumprí-lo, custasse o que custasse.

Foi uma conversa meio rápida. Perguntei de seu preparo físico, seu estado clínico, sua condição psicológica, tentei medir sua ansiedade, saber o por quê de sua intenção de fazer o Caminho e mais algumas informações, para que se ampliasse um pouco mais nossa intimidade e para que ele ficasse mais à vontade.

Em pouco mais de meia hora nos despedimos, acertando os detalhes de nosso encontro no Aeroporto de Guarulhos. Aos poucos chegaram todos: padre Ronan, Gilmar, Carla e eu.

Com as explicações que a Suzete(também deficiente visual) tinha me dado, dei início à minha atividade de guia. Coisas tão fáceis, como desviar de alguém, ou algum obstáculo, passaram a ser objeto de muita atenção. Um degrau ou alguma irregularidade no piso...alerta vermelho! Comecei então, aos poucos ,e com certo acanhamento, a perceber a diferença, entre ver e enxergar.

A cada passo uma nova lição, meu Deus! A vida de um deficiente não é fácil. Coisas tão simples, como procurar o lado correto do sanitário, passa a ser um trabalho de investigação.Sm falar nas escadas rolantes, que, no mínimo, deveriam ter como opção um elevador, ou até mesmo uma escada normal. Nem sempre elas existem...e como fazer! É problema do deficiente; quem mandou não enxergar? O mundo foi feito para as pessoas normais(normais?), que são a imensa e esmagadora maioria. O resto é apenas o resto.

Bem, embarcamos. Nossa! E o corredor do avião? E para andar, sentar, levantar e ir ao banheiro? Que banheiro! Se para nós, normais, já é difícil, imaginem para o deficiente acertar a torneira, o sabão, o papel e o danado daquele fechinho, que abre e fecha.

E a hora da comida ? Abaixa a mezinha, abre aquele mundo de embalagenzinhas, acomoda o copo num ladinho, pega o guardanapo, abre os talheres (não dá para abrir os braços), vêm o café, o cara ao lado quer sair, a aeromoça quer retirar as coisas, têm que apertar ou desapertar o cinto... Ave, caiu o tal do fone de ouvido no chão, Não dá para abaixar...

Mas...Gilmar nem se abala, para ele tudo é normal, o seu mundo é este, seu dia a dia é assim; eu é que não enxergava!

Madrid, carro, estrada, e lá estamos em villafranca. Quem bom ver jato. Esperava-nos para comer e festejou a todos, mas deu especial atenção ao Gilmar, cuidando para que tivesse tudo; E ele enxergou isto.

Hora de arrumar, ou melhor, desarrumar a mochila, o ritual, tira tudo, põe tudo...

- Está escuro Ggilmar, vou ajudar.

- Não precisa, para mim sempre está escuro. - é verdade, quem não via era eu, êle enxergava; e muito bem.

Hora de levantar, banho, desayuno, mochila....e pé na estrada. Começava ali o verdadeiro desafio: Iria ele (ou eu?) agüentar firme?

Ritmo lento, cadência nos passos, todo cuidado é pouco. Me preocupo em dar-lhe água, em pingar o colírio que controla a pressão dos olhos, com as pedras, as oscilações do piso, a curvinha, a subidinha, etc, etc.Eu me preocupava em ver tudo e não estava enxergando nada! Passo a passo fomos vencendo. Ele a distância, eu os meus receios. Quem bom! Estávamos ambos aprendendo, eu a enxergar e ele a peregrinar.

O Cebreiro estava chegando.A estrada, ou o caminho?. A primeira me oferecia o conforto do amparo e da assistência, no caso dele não agüentar. O segundo, a energia universal, o desafio, a fé e a obstinação pelo cumprimento do dever. Venceu o caminho!

Gilmar, ali, firme, de passinho constante, água, pão e... tome subida!

Contou-me aos poucos sua história, seus medos, inseguranças, dúvidas, as provocações e gozações dos próprios companheiros, que duvidavam de seu sucesso, e do preconceito dentro de casa. E ele, ali, firme e decidido a chegar.

Um carro nos para. É um repórter que soube que ele estava no caminho. A entrevista o motivou mais, um plus para provar a si e à todos que era capaz, que iria conseguir.

Eu via as árvores, ele enxergava a beleza.

Eu via as pedras, ele enxergava os obstáculos.

Eu via as alturas, ele enxergava o nirvana.

Eu via as plantas, ele sentia o aroma.

Eu via o vento, ele sentia a bruma.

Eu via a chuva, ele sentia a benção.

Eu via as pessoas, ele sentia a energia.

Aos poucos, fomos vencendo cada metro da subida, e, mais ou menos às 16:00hs começamos a vislumbrar as imagens celtas de um paraíso chamado Cebreiro. Gilmar tinha vencido. Muito frio, dores, tremores - era.o primeiro cansaço forte. O primeiro jantar voraz... haja pão e coca cola. Confraternização após a missa que benzeu nossa imagem, nova entrevista do Gilmar e novo ânimo.

A descida à Tricastela, as gozações, a descontração, as dores musculares, as pernas quase travando. Uma batalha de vencedor, de obstinado, uma batalha de determinação, que eu, sinceramente, não esperava. Aquela figura franzina e insegura me surpreendia a cada passo. Eu já estava mais confiante, passava a ele, o máximo de detalhes, para que pudesse ver com meus olhos o seu caminho, e ele enxergava com sua alma, de uma forma muito ampla e profunda.

E assim, passo a passo, fomos os dois, às vezes alternando com outros companheiros, que fizeram questão de guiá-lo; o que foi muito bom, porque Gilmar sentiu o quanto era aceito em nosso mundo, sem nenhum preconceito ou prevenção e isto lhe fez muito bem. Em Palas del Rey, encontramos Laura, deficiente visual, do Canadá. Que bonito encontro! Quanta emoção! Se conheceram, conversaram, trocaram endereços e a promessa de um novo encontro, aqui, no caminho do sol, talvez um sol em suas vidas.

E assim, de passinho, chegamos à Santiago. A emoção da entrada, da Compostelana, da missa, da cumprida.

Obrigado Senhor! Obrigado Santiago!

Hoje sou outro, bem diferente de minha primeira peregrinação,sete anos atrás. Gilmar,aprendeu a romper seus limites, a vencer desafios, a buscar o inatingível, a se superar, a ter fé e objetivos.

Aprendeu que a vida é feita de sonhos, e que, quando muitos sonham o mesmo sonho, ele se transforma em realidade.

Eu aprendi com ele, que o importante não é ver é......enxergar!

Obrigado amigo Gilmar, obrigado Santiago, obrigado Senhor!

Palma.

R E L A T O S