CAMINHO DE SANTIAGO - Um Pouco de História

- Paulo Bastos

Relato

A história do Caminho é de muitas datas, nomes e povoados. Sua origem e alguns episódios são muito mais uma lenda que fatos verídicos, como a fundação da cidade de Santiago de Compostela, e a veneração do seu santo.

Contam os livros que Santiago o Maior, um dos apóstolos de Jesus Cristo, depois de vários anos de evangelização na península Ibérica, principalmente na Galícia, regressou a Jerusalém com seus discípulos, Atanásio e Teodoro, para ali continuar seu trabalho. No ano de 42 d.C., Herodes Agripa o prende e decapita. Seu corpo foi jogado fora dos muros da cidade, onde foi recolhido por seus discípulos, e embarcado em um navio no porto de Jaffa, para ser enterrado na Galícia, onde tinha pregado. Chegaram a um lugar chamado Iria Flavia, hoje Padrón, e buscaram um lugar adequado para sepultar o corpo do Apóstolo. Perto dali vivia uma rica mulher, que chamavam de Rainha Lupa. Os discípulos queriam sepultar Santiago num grande sepulcro, dentro de suas terras, mas esta, que não era cristã, quis desfazer-se deles prendendo-os e martirizando-os em sua masmorra. Sucessivos milagres converteram a Rainha Lupa ao cristianismo e esta permitiu, finalmente, a construção de uma cripta e uma pequena capela em sua propriedade. Ali ficou definitivamente enterrado Santiago junto aos seus discípulos, que tomaram conta do lugar até suas mortes. Depois aquele santuário foi esquecido por todos, exceto pelos habitantes do lugar.

A história poderia ter terminado aí, mas ela dá muitas voltas. Nos séculos que vieram, a península Ibérica foi invadida por bárbaros, e depois pelos mouros. Inicialmente, estas invasões provocaram uma perda da força do cristianismo, mas depois se transformaram na bandeira da reconquista. A religião foi um motivo para unificar os novos reinos que nasciam na Espanha. Pouco a pouco, novas cidades, povoados, templos e monastérios surgiram por toda a península.

Novamente a lenda. Nos primeiros anos do século IX um monge ermitão chamado Pelayo foi a Teodomiro, bispo de Iria Flavia, para contar o estranho fenômeno que vinha presenciando há alguns dias num monte próximo, de nome Libredón. No meio de um bosque apareciam estrelas e se ouviam vozes angelicais. O bispo ordenou uma inspeção no lugar, e ali apareceram as ruínas de uma capela e um sepulcro com os restos mortais que Teodomiro concluiu serem do apóstolo Santiago e de seus discípulos. Era o ano de 813. Inteirado da notícia, o rei Alfonso II, o Casto, que poderia ser considerado o primeiro peregrino, viajou de Oviedo àquele local, onde ordenou construir uma ermida em honra e memória do santo. Alguns anos antes, seguindo as idéias do Beato de Liébana, o monarca havia declarado Santiago como o patrono do reino. O cristianismo tinha, então, um ídolo a defender, um mito por quem lutar, e um lugar para venerá-lo, Compostela, que vem de campus estellae (campo de estrelas) ou de compositum (cemitério).

A notícia se espalha por toda a Europa e começam a aparecer, assim, devotos de todo o continente. O santo ganha maior fama ainda ao aparecer na batalha de Clavijo (842 d.C.), com espada na mão, e montado num cavalo branco, para ajudar as tropas cristãs a reconquistar o território invadido pelos mouros. Nasce o mito de Santiago Matamoros.

Até aquela época, o Caminho era perto da costa cantábrica, aproveitando antigas vias romanas , rotas de livre acesso pelo sul dos sarracenos e pelo norte dos normandos, que passavam obrigatoriamente por Oviedo, capital do reino, onde estava a catedral de São Salvador. Milhares de peregrinos vinham todos os anos Foram construídos hospitais, albergues, igrejas e novos povoados. Os reis de Navarra, Asturias e Leon fomentavam a rota, construindo pontes e novos caminhos. Até Almanzor ficou surpreso pela intensa devoção a Santiago. Quando arrasou a cidade, no ano de 997 respeitou o sepulcro do santo.

No início do milênio, pouco a pouco, se vai abandonando a rota pela costa. Os reis traçam outros itinerários para ajudar a repovoar as terras reconquistadas, e converter o Caminho numa rota militar, comercial e de expansão do cristianismo. Aproveitam-se as calçadas romanas que vem da França, passando por Roncesvalles e Astorga, até Iria Flavia. Foi a época dourada do Caminho. O rei Alfonso VI e o bispo Diego Peláez promoveram a construção de um templo digno da fama e grandeza do santo, e em 1075 começam as obras da catedral. Em 1122 o papa Calixto II proclama Ano Santo Compostelano todo aquele cujo dia 25 de julho seja domingo. É o século de máximo esplendor de peregrinações.

O próprio papa calixto II promoveu a edição do primeiro guia para peregrinos. Assim nasceu o Codex Calixtinus , publicado no ano de 1139, e cujo autor foi Aymeric Picaud. Nos seus cinco livros se falam de cantos , feitos e milagres, a história do sepultamento do apóstolo Santiago. A crônica das incursões de Carlomagno na Espanha e, no quinto livro, chamado Liber Sancte Jacobi , a descrição do caminho, suas versões, etapas, povoados e hospedarias. Em 1170, foi criada a Ordem de Santiago, para proteger os peregrinos dos bandidos.

Do auge dos séculos XI e XIII, passa-se à decadência. O avanço da reconquista transforma a importância das cidades cristãs para terras mais ao sul. Espanha converte-se em um grande reino com o descobrimento da América, surge o protestantismo e o mundo católico se divide, ao que se deve somar as pestes, guerras e fome. Santiago de Compostela fica esquecida.

Em 1588 o arcebispo de Santiago, Clemente, temendo que os piratas ingleses, liderados por Francis Drake, roubassem as relíquias do santo, esconde o sepulcro. Foram trezentos anos em que permaneceram escondidas as relíquias, e mais trezentos os que ficaram esquecidos da devoção por Santiago. Em 1867 chegaram apenas quarenta peregrinos em todo o ano. Pouco se sabe do caminho nesses séculos.

E, em 1878, ao realizar uma obra na catedral, são encontrados os restos do apóstolo. O papa Leão XIII tenta revitalizar as peregrinações difundindo o acontecimento na sua bula Deus Omnipotens, mas, mesmo assim, as peregrinações não aumentaram.

Talvez 1965 tenha sido o próximo ano importante para o Caminho. Neste ano Elías Valiña, padre de O Cebreiro, fez sua tese doutoral sobre o caminho de Santiago. A partir daquele ano criam-se as primeiras Associações dos Amigos do Caminho de Santiago. Começa, então, um trabalho de promoção da rota, que, aos poucos, multiplica a peregrinação. Em 1976, são 31 peregrinos que recebem a Compostelana, que comprova e atesta que fizeram ao menos os últimos cem quilômetros a pé, a cavalo ou em bicicleta, e no ano santo de 1982 foram 1.868. As comunidades autônomas da Espanha começam a melhorar as infra-estruturas, albergues, sinalização, e trilhas. Em meados dos anos 80, coincidindo com a declaração de Santiago como Cidade Patrimônio da humanidade, começam a chegar mais peregrinos. Para nós brasileiros, o Caminho teve enorme impulso e divulgação no início dos anos 90, com a divulgação do livro Diário de um Mago, de Paulo Coelho. Além dele, várias outras personalidades também foram responsáveis por sua divulgação, como jornalistas, cantores, e profissionais de diversas áreas, entre eles Anna Sharp, Maqui, Lízia Azevedo, Paulo Sergio Valle, Magda Von Brixen e Baby do Brasil. Já no ano de 1993, investe-se violentamente na promoção do Caminho, resultando em cerca de cinco milhões de visitantes em Santiago, entre turistas e peregrinos. 1999, último ano compostelano do século, foi um ano em que Santiago de Compostela voltou a efervescer, e mais de oito milhões de pessoas passaram por Santiago.

Naquele ano de 1999, foi fundada a Associação Brasileira dos Amigos do Caminho de Santiago (AACS-BR), como uma natural evolução da antiga Amigos da Rota Jacobea , liderada por Clarice Ferté, sua primeira Presidente. Hoje, a AACS-BR vive o período de sua afirmação e desenvolvimento. Novos peregrinos estão se associando, e, cada vez mais, trazendo novas idéias e contribuições, permitindo, assim, não só a divulgação do Caminho, mas, principalmente, aproximando e unindo pessoas em todo o território brasileiro, e em outros países.

Paulo Bastos

R E L A T O S