O Caminho no Inverno

- Ricardo Annes

- Peregrinos no inverno? Caminhando com esse frio?

Com essas palavras é que nós fomos recebidos por uma senhora que cuidava de uma criança na porta da sua casa em Obanos. O carinho, a hospitalidade, o calor humano com que os peregrinos são acolhidos pelo caminho são muito maior que o frio do inverno europeu. Eu, Ann e Hilary já estávamos a 3 dias caminhando. Dona Maria Pilar depois de muito conversar conosco sobre os peregrinos que por ali cruzavam o ano inteiro: alguns poucos no inverno, muitos na primavera e no outono e verdadeiras multidões no verão; fez-nos entrar em sua casa e ofereceu-nos vinho e biscoitos.

No ano de 1998 eu comecei a ler sobre o Caminho de Santiago, em sites na Internet e livros que comprei. Em pouco tempo eu já estava “contaminado” pela idéia de fazer o Caminho. Li que a melhor época para fazer o Caminho é o outono ou a primavera, porque o verão é muito quente e tem muita gente peregrinando e o inverno é muito frio e tem muitos albergues fechados. A minha idéia era fazer o Caminho desde a fronteira com a França, 750 km, trinta dias de Caminhada. Como conciliar minhas atividades profissionais com meu sonho? Embora a maioria das opiniões de peregrinos fosse contrária a fazer-se o Caminho no inverno, eu não tinha outra opção. Eram muitas informações e opiniões, mas eu decidi que seria mesmo no inverno. Um “e-mail” que recebi de Acácio da Paz, tocou-me profundamente e foi fundamental para a tranqüilidade da minha decisão.

Decisão tomada: marcar a data e ultimar os preparativos. Uma boa mochila (com barrigueira), botas de caminhada impermeáveis, já amaciadas seriam os meus equipamentos especiais, os demais eu escolheria de meus pertences do dia-a-dia. Saco de dormir, eu já tinha o que os meus filhos usavam para acampar, não era nenhum “high-tech”, de 600 gramas e -7º graus, mas pesava 1,2 kg e não ocupava muito espaço na mochila. Numa loja que vende material para pescaria, comprei uma boa capa de chuva, uma calça e um casaco parecidos com esses que os motoqueiros usam em dia de chuva. Comprei também uma capa para a mochila. Comprei uma lanterna pequena. Três pares de meias, duas calças de poliéster (quente, leve e fácil de lavar e secar), duas camisetas de algodão, duas camisa de flanela, toalha e par de chinelos, blusão de lã, casaco, gorro, material de higiene (escova e pasta dental, sabonete, talco, cortador de unhas, papel higiênico, sabão para roupa, alfinetes e corda), canivete, conjunto de talheres, carregador de pilhas e cabo de conexão para máquina fotográfica - computador. Mochila pronta e pesada, 6,5 kg, abaixo dos 10% do meu peso.

Eu ainda levaria uma pochete com: a credencial de peregrino, o passaporte, carteira com dinheiro (espécie e cartões) e documentos, máquina fotográfica digital, bloco e caneta para apontamentos, um guia do caminho e as informações que eu havia organizado em duas folhas de papel. Substituí a minha natação por caminhadas, diariamente, principalmente pela manhã, que é meu turno de folga. Aproveitava para caminhar 2 ou 3 horas, em quanto os dias ainda não estavam muito quentes. Ia para a faculdade, no início da tarde, a pé, 6 km.

Depois de estudar vários guias, “sites” na Internet e diários de peregrinos, montei um plano da Caminhada com as cidades onde iria pernoitar, a distância entre uma e outra, alguns locais que eu gostaria de visitar. Apontei, numa tabela, a relação dos albergues que ficam abertos o ano inteiro, informação importantíssima para uma peregrinação de inverno. De cada cidade, apontei os albergues, capacidade, telefone para contato e preço. Relacionei 102 cidades onde haviam albergues abertos o ano inteiro, inclusive muitas delas com mais de um albergue. Eram 134 albergues, não parecia tão ruim assim para uma peregrinação invernal. Estudei as distâncias entre os albergues abertos, em média 5 km, e a máxima não passava de 17 km, não haveria problemas.

Todo pronto, planos feitos, projeto detalhado, mochila carregada. Dia 15 de janeiro de 2006, domingo, embarquei por via rodoviária na minha cidade, Uruguaiana, para Porto Alegre de onde pegaria o vôo para Madri via Buenos Aires. Às 17 horas do dia 17 de janeiro cheguei a Madri, só, completamente só, e sem a minha mochila. A companhia aérea extraviou a minha mochila. Não me abati, somente alterei em um dia os meus planos, ao invés de ficar um dia em Madri antes de seguir para Roncesvalles de onde iniciaria o meu Caminho, fiquei dois. Registrei o extravio, recebi uma indenização da companhia aérea, contatei com a seguradora e em três dias estava depositada em minha conta a indenização da seguradora. Fui ao comércio e comprei nova mochila e todo o material que eu necessitaria.

Dia 20 de janeiro, lá pelas 8h30min, iniciei minha Caminha rumo a Santiago de Compostela. Eu e duas moças, uma inglesa e outra norte-americana que eu havia conhecido na viagem de Pamplona a Roncesvalles no dia anterior.

Nos arredores da “colegiata” havia neve depositada e na trilha em locais menos ensolarados também. As temperaturas que enfrentei na minha caminhada foram entre 10º C e -3º C. quando se caminha não se sente frio, eu usava um casaco tipo gamulã, um blusão de lã, uma camisa de flanela e uma camiseta de algodão, calças de tactel com forro e um gorro de lã.

Entre Santo Domingo de la Calzada e Belorado caminhamos nevando, o dia inteiro nevou, usávamos uma capa tipo poncho, a neve não molha, mas de tanto em tanto é necessário retirar os flocos que se depositam sobre nossas vestimentas. A neve que acumulava no solo não passava de 10 cm. Certamente se a nevada fosse mais intensa e acumulasse uma quantidade maior no solo poderíamos ter problemas. Dos trinta dias que caminhei somente nesse é que nevou, mas ainda caminhamos muitos dias sobre a neve que em muitos locais demorou dias para derreter.

Caminhando não se sente frio, mas nas paradas? Sim, nas paradas, ao relento e principalmente ao vento é complicado, a sensação térmica baixa muito com o vento, 0ºC e um vento de 40km/h representa -10ºC. Mas no caminho existem muitos onde podemos parar: albergues e bares que mesmo no inverso estão em grande número abertos. E nos albergues e bares existe calefação. Guias, mapas e principalmente informações que se obtém durante a caminhada são importantes para não sermos tomados de surpresa.

Planejar a etapa diária, começar a caminhar cedo para terminar também cedo para não sermos surpreendidos pela noite é fundamental, no inverno os dias são mais curto: no início de fevereiro o sol nasce por volta das 8h30min. e põem-se 18h30min.

Outro problema de fazer a Caminhada no inverno é que alguns locais: igrejas, albergues, prédios históricos estão fechados ou tem um horário de visitação diminuído.

Durante a minha preparação, imaginei que iria caminhar muitos dias completamente só, pois a procura pelo caminho é bem menor no inverno. Realmente caminhei só por poucos dias, de saída encontrei Ann e Hilary, no quarto dias Jose(catalão) e Ramon(basco) juntaram-se a nós. Por quase uma semana formamos um grupo, caminhamos juntos, cozinhávamos juntos e muito vinho bebemos.

Ann e Hilary caminharam só até Burgos, lá encontramos Zeze(galega) e um casal de dinamarqueses. Mais alguns dias esse novo grupo foi desfeito e ai eu caminhei por 6 dias só, mas nos albergues encontrava-me com outros peregrinos. Em Leon encontrei-me com um casal de espanhóis: Adriana de Zaragoza e Mario de San Sebastin e percorremos os 306km restantes até Santiago juntos.

Caminhar no inverno não é ruim, não é perigoso e não inconveniente, acredito que enfrentar o sol e o calor do verão nas Espanha deve ser muito duro, disputar vaga em albergue e caminhar com verdadeiras multidões deva ter seus problemas.

De 20 de janeiro a 18 de fevereiro de 2006 percorri 733 km do Caminho Francês, uma aventura de vida sem descrição, tanto que gostei que escrevi um livro para compartilhar com os amigos: “Histórias do Caminho” e no próximo ano, no inverno novamente estarei peregrinando novamente, mas dessa vez com a minha esposa e mais 4 amigos.

Ricardo.

R E L A T O S