UM GOSTINHO DE QUERO MAIS

- Sinaida Castro Rodrigues

Relato

Em 2015 numa viagem com amigas em Portugal, resolvemos incluir no roteiro fazer o Caminho de Santiago de Compostela de carro....era uma curiosidade de todas e uma das amigas já tinha feito o caminho e sabia todo o percurso. Saímos de Braga em Portugal até Santiago na Espanha, passamos por lugares pitorescos e apaixonantes até chegar em Santiago, e confesso a vocês fui me emocionando em cada lugar que conheci, era como um retorno, como se eu já estivera ali.

Pois bem, depois dessa viagem ficou em mim um gostinho de quero mais. E quando meu marido propôs que fizéssemos o Caminho de Santiago como peregrinos, para comemorarmos 24 anos de casados, topei na hora, sem pestanejar.

Compramos as passagens e começamos a fazer os planos da viagem. Li muitos blogs sobre o assunto e o site da Associação dos Amigos do Caminho de Santiago do Brasil foi fundamental para conhecer um pouco mais sobre a peregrinação e sobre tudo, ou quase tudo que enfrentaríamos pelo Caminho.

Em abril de 2016 partimos rumo a Lisboa, de lá fomos até Aveiro (a Veneza de Portugal), cidade onde mora uma amiga, onde ficaríamos hospedados e que seria nosso ponto de apoio para deixarmos as bagagens e seguirmos nossos planos.

Dia 20 de abril pegamos o comboio (trem) até Porto e de lá com nossas mochilas nas costas (contendo só o necessário) seguimos nosso itinerário de peregrinos. Seriam 10 dias de caminhada, 260 quilômetros andando sob sol, chuva, frio, mas como bonificação teríamos lindas e exuberantes paisagens para curtir.

Fazer o Caminho não é para qualquer um, é preciso se despir da vaidade, do orgulho, do preconceito. É se abrir para as experiências que surgirem, é conhecer novas pessoas, novas histórias, é se emocionar a cada instante com uma bela vista, com estradas e pontes romanas, com o carinho e o respeito dos que acolhem os peregrinos. Mas não é só isso, é conviver com a dor (nos pés, nas costas, nas pernas, enfim, dói tudo...rsrs) pelas horas de caminhada todos os dias e mesmo assim, aceitá-las como parte do pacote, afinal peregrinar é isso, é ultrapassar seus limites todos os dias.

Tenho que confessar que os primeiros dias foram difíceis, o cansaço é grande e dá um desânimo ao pensar em quantos dias faltam até chegar a Santiago. Mas ao longo do Caminho, percebemos que o que importa é a entrega, é deixar tudo para trás e curtir o que está a sua frente. A mochila e o bastão de caminhada já faziam parte do meu corpo e até me habituei com as dores e com a fadiga. Resolvi que eu iria passar pelo Caminho e não ele por mim, por isso, curti cada momento, cada lugar e cada pessoa de forma única.

Tiveram percursos de quase 40 quilômetros num só dia, eram bem exaustivos, mas as flores do caminho (fomos na Primavera), a culinária espetacular, os vinhos deliciosos e a ótima companhia (do meu marido e dos amigos que fizemos ao longo da jornada) levantavam qualquer astral e davam gás para o dia seguinte.

Começamos nossa peregrinação na cidade do Porto e passamos por Vilarinho, Barcelos, Vitorino de Piães, Ponte de Lima, Valença (até aqui Portugal, e então, entramos na Espanha) Redondela, Pontevedra, Caldas de Reis, Padron e enfim, Santiago de Compostela.

Chegar a Santiago é indescritível, é como se você entrasse num livro de história e voltasse no tempo, séculos atrás. Chegar como peregrino tem um gosto especial, é o final de uma jornada, é saber que você conseguiu superar suas limitações e chegou ao seu objetivo. Depois disso é só aproveitar a cidade e conhecer cada cantinho, aproveitando tudo que ela tem a te oferecer.

Durante o Caminho, temos que carimbar o passaporte de peregrino em todos os lugares que passarmos para apresentar na Catedral de Santiago para recebermos a Compostela (comprovação por escrito, de que você fez o Caminho e cumpriu os 260 km da rota que você escolheu, nós escolhemos o caminho central Português).

A todos eu recomendo fazer esse roteiro. Para quem não quiser fazer caminhando, faça de alguma maneira (carro, trem, bicicleta, à cavalo) porque realmente vale a pena.

Todos falam que fazer o Caminho de Santiago é estar em busca de algo.....eu não fiz o caminho pensando em achar respostas, mas ele me trouxe uma experiência única, de humildade e entrega em tudo que nos propomos a fazer!

Quero agradecer ao meu marido, Franco Soares, que foi o maior incentivador dessa jornada e dizer a ele que iremos novamente, não sei quando, mas esse Caminho faz parte da nossa história...

Sinaida Castro Rodrigues – Boa Vista/Roraima/Brasil

R E L A T O S