MINHA PEREGRINAÇÃO

- Sônia Andrade

Relato

O espírito do caminho você leva, e o que é esse espírito? É a vontade ardente de descobrir-se, de resolver questões, de obter respostas certeiras, de voltar fortificado, mais sábio, mais tranquilo interiormente - tudo isso em, mais ou menos, 30 dias!

A subida muito íngreme dos Pirineus, logo no primeiro dia, me tirou o fôlego, me fez parar muitas vezes, me fez ficar preocupada com o relógio e a hora de missa em Roncesvalles, com o meu preparo físico zero, e o pior foi quando um grupo de alemães da 4ª idade, num ritmo bem mais avançado que o meu, passou por mim tagarelando e rindo alto. Este primeiro dia foi a prova de fogo, uma lição de persistência e de humildade. A sequência dos dias é sempre a mesma - acordar, caminhar, caminhar, caminhar, albergue, lavar a roupa e dormir, mas a qualidade dessa rotina é muito pessoal e diária. Podemos escolher ficar a sós com nossas orações ou dividi-las com outros peregrinos, que, mesmo sem entender a nossa língua, nos acompanham e nos emocionam, podemos colher maçãs e observar as cores das florestas e a beleza de uma teia de aranha no segundo de um clique de nossa câmera ou para e agradecer uma visão divina. Podemos nos deparar com um riacho, tirar as botas e banhar nosso cansaço, ou ir direto para o albergue, "pegar" a melhor cama e continuar uma sequência ilógica.

Peregrinos representantes de várias culturas cruzam nossos caminhos e nos mostram como realmente somos, como nos comportamos, nossos medos, egoísmos, manias, apegos - mas também nos mostra que somos capazes de um ato de solidariedade, de generosidade, de partilhar, de ajudar a ajeitar a mochila, de dar água, de pagar um "cortado", de dividir a macarronada e o vinho.

No primeiro dia de caminhada e sempre que me sentia muito cansada e sozinha em caminhos difíceis, me perguntava: - O que estou fazendo aqui? Pra que todo esse ornamento pesado, botas, mochila, casaco... Qual a finalidade de irmos tão longe, gastar toda a poupança, dormir num quarto cheio de estranhos, que talvez também não saibam porque estão aqui? Esse sentimento incerto, que ainda não encontrou sua resposta, logo é desvendado, quando encontramos um amigo peregrino perdido em seu próprio caminho, por uns dias, quando vemos um arco-íris ou sentimos a chuva em nossa pele e temos a opção dou não de nos proteger dela, quando vemos paisagens fascinantes e castanhas (dessas do natal!) penduradas nas árvores, quando cantamos sozinhos em voz alta nossas canções preferidas, nossos mantras e nosso Hino Nacional. São tantas as respostas ao longo do caminho que esquecemos a pergunta inicial. O espírito do caminho que você leva, não é o mesmo que você traz de volta pra casa. Ele é mais sutil, mais aprimorado... e as respostas certeiras, as resoluções de problemas e o auto-conhecimento tão almejados no começo da viagem, já não têm mais tanta importância. Eles vêm sem pressa, no tempo certo, por que o caminho verdadeiro continua além de Santiago.

Nesta viagem fui abençoada por Deus e São Tiago, pois percorri o meu caminho c serenidade, sem me perder e sem problemas físicos (só muitas bolhas, do 1° ao 33º dia).

Fica minha gratidão a todos da Associação, pelo trabalho, ajuda, carinho, dedicação, presteza e amor que vocês dão a todos os peregrinos.

Sônia

R E L A T O S