O GAROTO PEREGRINO - Parte II

- Walter Jorge

Relato

O GAROTO NISO

Fragmentos do diário de um peregrino no Caminho de Santiago de Compostela. Uma Reunião da Associação. Por: Walter Jorge de O . Almeida


Na minha peregrinação a Santiago de Compostela, conheci um garoto que efetuou o Caminho de bicicleta, sua tenacidade e sua vontade, bem como as suas aventuras, deu-me vontade de transmitir para que, aqueles que ainda no recôndito de seus pensamentos, perdura alguma duvida, tomem conhecimento de que o Caminho está aberto para todas as pessoas, sem limite de credo, sexo, nacionalidade e também de idade.

Estava tranqüilamente a assistir a uma das reuniões da AACS-BRASIL (Associação Brasileira dos Amigos do Caminho de Santiago) no Rio de Janeiro, quando fui despertado dos meus pensamentos por uma mãe que externava a sua preocupação com o seu rebento o garoto NISO, ele simplesmente colocara na cabeça que deveria efetuar a peregrinação a Santiago de Compostela de bicicleta. Vejam só, além de somente ter 14 (quatorze) anos, é isso mesmo 14 anos, não tendo atingido a sua maioridade (atualmente não sei se é com 18 anos ou 21 anos), iria efetuar uma viagem transcontinental de São Paulo para Madri, pegar uma outra conexão de Madri para Pamplona, novo deslocamento de Pamplona para Saint Jean Pied-de-Port carregando uma bicicleta desmontada e em lá chegando, efetuar a sua montagem e pedalar cerca de 800 km até atingir a cidade de Santiago de Compostela.

O que estaria pensando a mamãe do NISO ao ouvir tal solicitação? Ver o seu filho ir para aquele Caminho efetuar uma peregrinação, em um país distante, sozinho, pois, para qualquer mamãe se o pimpolho sai de suas vistas nem que seja para a casa vizinha, saiu sozinho e ainda mais de bicicleta, uma completa loucura.

O garoto NISO tentou com todos os seus argumentos possíveis informar da não existência do perigo, dizendo que não estaria sozinho, ia com um grupo de ciclistas comandados por um tal de LFLV, sua mãe ponderava:

- Será que as estradas ficam bloqueadas pela policia para vocês passarem?; - Não senhora; - E como você quer que eu permita essa viagem, já pensou em um acidente?; - Não senhora; - Pois devia pensar, você já pensou em sua mãe, aqui se descabelando pensando em você, onde iria dormir?, quem cuidará de você?, sua alimentação? E se furar um pneu? e se você cair da bicicleta devido a esses famigerados buracos nas estradas que aqui no Brasil faz parte integrante das mesmas, quem iria cuidar de você?; - Mãe, a turma cuida e as estradas são lisinhas que faz gosto; - Se são lisinhas você pode derrapar na chuva, não, não posso permitir tal aventura; Oh mãe !!!, Santiago ira me proteger, ele protege todos os peregrinos, se a senhora não está acreditando, dá um pulo no Rio de Janeiro e consulta a turma da Associação, ouvi dizer que o grupo dos que já foram costumam fornecer todas as informações.

E aquela mamãe pensou, pensou, adorava aquele filho e queria protegê-lo de tudo e de todos, mais também pensava, não posso criá-lo somente para mim, tenho de cria-lo para o mundo, tenho que incutir a ele um voto de confiança e segurança, com esse pensamento decidiu-se ir a tal reunião, teria apenas que pegar a ponte área SP/RIO para ver e ouvir o que aqueles fanáticos (pensava assim) teriam a dizer, mas internamente pensava:

Como gostaria de ir, como gostaria de efetuar aquela peregrinação, como gostaria de durante um certo período livrar-se de certas obrigações, dedicar-se somente a ela, percorrer aqueles campos, sentir pela manhã o cheiro do orvalho, o sol castigar o seu corpo, a chuva bater de encontro ao seu rosto, sentir a exaustão tão falada e ao final de cada dia, trocar idéias com pessoas de outras terras as quais certamente jamais as viriam novamente, mas os seus deveres naquela oportunidade não permitiam, mas quem sabe, algum dia ela também estaria lá, no momento efetuaria a sua peregrinação através dele, do seu querido NISO.

Com aquele pensamento embarcou para o Rio, estava agitada, ansiosa para saber a opinião daquelas pessoas, os que iriam e os que já tinham realizado tal façanha, mesmo assim não deixava de pensar: mais de 800 km, é muita estrada, será que o meu rebento consegue?, ela tinha confiança naquele moleque que muitos sustos já tinha lhe pregado, mais era fácil ter confiança quando ele estava sempre ao seu lado, longe dos seus olhos era demais para o coração de uma mãe.

Eu conseguira despertar completamente de meus devaneios e estava a ouvir aquela jovem e simpática mãe externando a sua preocupação com a peregrinação de seu filho quando, em dado momento, ela lança a seguinte frase que mais parecia um brado, sabendo de antemão a sua resposta, pois percebia que seu interior já tinha aprovado a viagem e o que ela queria era apenas receber o aval do grupo:

Será que ele tem condições de efetuar a peregrinação de bicicleta, sair de Saint Jean de Pied Port e ir até Santiago de Compostela?

E a turma uníssona como que comandada por uma voz divina exclamou:

TTTT... ÊÊÊÊ... MMMM...

E eu sem saber o porque, senti naquele momento a minha boca abrir e juntar-se ao grupo ao pronunciar aquelas três letras.

Walter Jorge

R E L A T O S