O GAROTO PEREGRINO - Parte III

- Walter Jorge

Relato

MEU PROFESSOR DE ESPORTES RADICAIS

Fragmentos do diário de um peregrino no Caminho de Santiago de Compostela.Passagem pelo aeroporto de Madri. Por: Walter Jorge de O . Almeida

Estava perambulando pelo aeroporto de Madri, tinha chegado cedo de um vôo do Rio de Janeiro e a minha conexão para Pamplona estava marcada para às 13:00 hs, hora local, também encontrava-se no aeroporto mais 3 peregrinas com o mesmo destino, o principal problema era matar o tempo, mesclando aquela ansiedade de iniciar a peregrinação, (pois estávamos para iniciar a nossa peregrinação à Santiago de Compostela) com a hora da chamada do novo vôo.

Tiramos sonecas nos bancos, visitamos livrarias, lojas e mais lojas, lanchamos e nada do tempo passar, não sabia mais o que fazer, olhava mais nada enxergava, via mais não olhava e nesse estado meio vivo meio em transe, senti uma onda de vento passar pelas minhas costas e em seguida novas ondas, pensava: alguma janela deve estar aberta, será que o equipamento de ar condicionado não está funcionando e eles abriram alguma janela ?. Corri lentamente meus olhos ao redor e nada vi que pudesse estar ocasionando aquelas lufadas de vento.

Fiquei preocupado, sou portador de uma forte alergia que em determinadas circunstâncias inicia um processo de uma bronquite asmática difícil de se controlar a não ser com aquelas bolinhas brancas homeopáticas que sempre carrego nos bolsos, também pensava: se efetuarem uma vistoria e pegarem as minhas bolinhas e confundirem com craque ?, - era uma vez um velho peregrino.

As lufadas de vento continuavam, já estava intrigado, continuava com a vista a correr o ambiente procurando verificar o que estava acontecendo, tinha de sair daquela posição, teria de procurar um refúgio, um abrigo longe daquela ventania, quando, montado em um carrinho de transporte de bagagens um garoto passou por mim a mais de 60km/h ocasionando um forte deslocamento de ar, - estava aí o segredo das lufadas - o mesmo sorria ao efetuar suas manobras radicais com o carrinho. Sorri e recebi de retorno um sorriso ainda mais franco, estava vestido com uma camisa da seleção brasileira de futebol, bermudas abaixo do joelho e calçava duas enorme botas que deveriam servir de dormitório.

Comecei a prestar atenção as suas manobras e as mais sensacionais era as curvas acompanhadas com derrapadas controladas as quais invertiam a direção daquele bólido, o garoto era fantástico, possuía uma vasta cabeleira abaixo dos ombros que quando corria a mesma voava e ondulava ao sabor das correntes de vento que produzia com as suas manobras, a principio pensava que era uma garota, mais depois percebi que era um garoto, pois suas manobras com o carrinho eram bastantes radicais como de meu neto Breno ao pedalar a sua bicicleta, seus olhos eram de um capetinha alegre e divertido, naquele instante, meu desejo foi de querer praticar um daqueles malabarismos com o carrinho. Por um segundo revivi minha infância. Retomada a lucidez, me veio ao pensamento uma pergunta:

- Onde estaria aquela mamãe que permitia que seu filho praticasse corrida com o carrinho de bagagens naquele aeroporto europeu, só poderia ser uma espanhola despreocupada.

Olhei para os lados nada encontrei que se assemelhasse a mãe daquele garoto, tinha vontade de pedir emprestado o carrinho para dar um pequeno treino de malabarismo - se caísse, quebrasse os meus óculos e se torcesse um tornozelo, adeus peregrinação.

Na décima ou décima primeira manobra radical, percebi que aquele garoto estava efetuando aquelas demonstrações somente para nós e parecia com alguém que já conhecia, não conseguia raciocinar aonde tinha visto aquele garoto, mais sabia que já tinha visto em algum lugar, procurava nos escaninhos de minha memória onde estava aquela imagem, forçava a mesma, pensava:

- estou ficando velho, já não me lembro de nada.

Em dado momento um estalo bateu na cabeça, uma luz foi acessa e exclamei:

- É o Niso.

Ao mesmo tempo como se fosse um eco, uma das peregrinas também clamou:

- É o Niso.

Pegamos o garoto, efetuamos um longo interrogatório do tipo DOI-CODI, descobrimos que o mesmo estava com fome, o raptamos, o seqüestramos, o alimentamos (acredito também que elas deram uma boa mamadeira) e com os espíritos maternais que só as mulheres o possuem, enquadraram dentro de determinadas normas, deram todas as instruções necessárias inclusive indicando o GATE onde deveria embarcar. Ele estava a espera de um grupo de outros peregrinos que com suas bicicletas iriam efetuar o caminho saindo de Saint Jean Pied de Port.

Novamente fiquei a pensar na minha infância quando era cerceado de efetuar determinadas brincadeiras e ali, naquele vasto aeroporto, sentei mais uma vez em uma daquelas cadeiras dando um longo suspiro, disse para os meus botões:

Perdi meu professor de esportes radicais com carrinho de bagagens.

Walter Jorge

R E L A T O S