O GAROTO PEREGRINO - Parte IV

- Walter Jorge

Relato

ESTELLA

Fragmentos do diário de um peregrino no Caminho de Santiago de Compostela. Na cidade de Estella. Por: Walter Jorge de O . Almeida

Como são as coincidências da vida, algumas pessoas que estão imbuídas no sentimento de efetuarem a peregrinação a Santiago de Compostela, dizem que é um sinal, no entretanto a realidade é uma só, aquele assunto ou aquela situação fica gravada na mente das pessoas e existe uma necessidade de ser relembrada, repetida, mesmo que em uma outra situação. Lembro-me de no aeroporto de Madri ter encontrado um peregrino que iria com um grupo sair de Saint Jean Pied de Port de bicicleta para efetuarem a sua peregrinação, aquele peregrino tinha apenas 14 anos e estava com os seus longos cabelos na cor de cobre caindo sobre os ombros brincando com o carinho de bagagem, parecia perdido naquela imensidão do aeroporto, era gostoso vê-lo correndo com o mesmo e efetuando aquelas curvas fechadas, lembrei-me de minha infância e recordei pedaços do passado quando ganhei a minha primeira bicicleta, era velha e bastante enferrujada pois não dispúnhamos de dinheiro suficiente para comprarmos uma nova, éramos quatro irmãos e a vida era dura mais alegre, lembro-me que nem a sua cor poderia distinguir, as suas rodas só dispunha de metade dos seus raios.

Durante quase um mês a minha maior alegria era chegar do colégio e imediatamente começar a lixar até que não ficasse nenhum ponto de ferrugem, necessitava seguir as instruções verbais deixada por aquele que foi o meu verdadeiro herói e modelo de vida (meu pai), nos fins de semana entrava ele com a parte técnica de colocação dos raios faltantes e acertos para evitar que a mesma ficasse com as rodas empenadas, abertura da caixa onde continha os rolamentos e o equipamento do freio que era do tipo contra-pedal. Em seguida passou a operação de pintura e montagem, para mim era o máximo sentir a sua transformação até a sua conclusão quando ficou pintada na cor vermelha iguais aos veículos do Corpo de Bombeiro. Olhando aquele garoto, transportava-me para o seu lugar e sentia estar fazendo a minha peregrinação naquela bicicleta vermelha, cuja marca de fabricação escrita em baixo relevo, estava marcado no seu quadro Brenabor.

Naquele aeroporto frio de sentimentos humanos, senti a meiguice e a tranqüilidade daquele garoto, entretanto tive com ele poucos momentos de convivência pois meu vôo para Pamplona estava para sair e o dele só no final do dia. Apesar das nossas peregrinações serem diferentes, ele de bicicleta e eu a pé, tivemos uma outra coincidência, dessa vez foi na cidade de Estella.

Apesar do tramo (trecho/trilha) até Estella ser feito num esplendoroso dia de sol, meu humor não estava lá dos melhores com certeza. Isso devido ao cansaço das explorações efetuadas na cidade Puente la Reina através da calle Mayor e seus arredores sempre ávido de tudo registrar em minha Canon , aliada ainda a minha saída de lá sob uma escuridão total, mais precisamente às 5 horas da manhã, não esquecendo também do problema de natureza fisiológica que tive apos passar por Villatuerta, bem como a tarefa da lavagem de minhas roupas as quais tiveram de ser secadas na rua, ou seja na praça em frente ao albergue.

Chegar em Estella me dava esperança de encontrar um albergue acolhedor, pois as informações que tinha sobre o mesmo era de que haviam boas acomodações, água quente (nada do que um bom e reconfortante banho para melhorar inclusive meu humor) e até maquinas automáticas que forneciam garrafas de vinho.

Em parte, nada disso se sucedeu. Logo na chegada o hospedeiro ao olhar-me portando um par de luvas comentou que peregrino não deve usar luvas e sim ter calos nas mãos. O aconchego que tanto ansiava foi para o brejo aumentando, isso sim, meu mau humor.

Após acomodar-me, tomei um excelente banho (estava a necessitar) e em seguida desci para o ponto de encontro que era a cozinha, com a finalidade de abortar determinados pensamentos que afloravam à minha mente devidos aos problemas que tinha deixado, juntei-me a um grupo de brasileiros que estavam tomando vinho, naquele momento chegou cansada e portando a sua pesada mochila a Dra. Júlia, foi um grande prazer de revê-la, pois caminhei um bom trecho ao seu lado desde as proximidades de Zubiri, donde pernoitei, até Trinidad de Arre onde fiquei, ela informou-me que seguiria até Pamplona onde tinha marcado encontro com um grupo de amigas. A Dra. Júlia informou-nos que o albergue não tinha vaga disponível para ela e que teria de ir para um hostal, convidamos para que permanecesse algum tempo conosco tomando um bom vinho para depois ir para o hostal.

Sentou-se ao nosso lado e estava a tomar um copo de vinho, quando, o Sr. Carlos, perante a todos os presentes convidou-a a sair, informando que o albergue estava cheio e a mesma não poderia nele permanecer, considerei uma falta de educação a maneira pela qual a tratou, virei-me para ele e disse: Carlos tú es um hombre malo o que ele me retrucou Walter, Carlos no es um hombre malo es um hombre precavido. Não entendi de imediato a sua resposta, posteriormente deduzi que outros peregrinos usaram dessa estratégia para ficar e dormirem no chão, o que não era aquele caso.

Apesar do vinho tomado, o mesmo não aplacou o meu mau humor não só para com aquele hospedeiro, como também pelo que eu estava sentido no meu interior, apesar de procurar estar alegre por fora meu interior chorava, não tinha como deter a voracidade do tempo e dos acontecimentos, saí perambulando pela cidade a procura de um restaurante para jantar, estava calmamente sentado em uma das mesas quando chegou um grupo de peregrinos que estavam efetuando o caminho de bicicleta e entre eles encontrei novamente o garoto Niso, completamente pelado de sua basta cabeleira sob o comando do peregrino Luiz Fernando que a esse altura era o seu pai adotivo segundo informações colhidas.

Aquele garoto fez a minha alegria voltar um pouco a reinar, não só ele como o grupo estava alegre por terem conseguido efetuarem as etapas sem maiores problemas, a conversa rolou solta e descontraída, fiquei sabendo que o albergue não permitia peregrinos com bicicleta, motivo pelo qual uma parte do grupo teve de ir para um Hostal levando as bicicletas e a outra pernoitou no albergue para dessa maneira reduzirem os custos de peregrinação. Como sempre o garoto Niso portava sua inseparável camisa da Seleção Brasileira.

O vinho rolou novamente no grupo e muita conversa foi jogada fora, a tudo o garoto Niso ouvia calado, observando a todos e acredito, tirando as suas próprias conclusões, foi quando alguém olhando para o relógio, informou que teríamos de sair, pois poderíamos chegar no albergue e encontramos o mesmo fechado devido ao adiantado da hora. Pagamos a conta e saímos do restaurante com receio de que o Sr. Carlos fechasse a porta do albergue antes que lá chegássemos deixando-nos no olho da rua, o grupo dividiu-se, uns foram para o hostal e eu e um pequeno grupo fomos para o albergue, como o mesmo estava distante, solicitei ao garoto Niso que corresse até a porta e a mantivesse aberta até a nossa chegada. O garoto com um vasto sorriso nos lábios, saiu em desembalada carreira e cumpriu rigorosamente o solicitado, permitindo assim que chegássemos ao albergue e pudéssemos dormir tranqüilamente em nossos beliches.

Eu na realidade não consegui dormir plenamente, tinha de efetuar a lavagem de uma cueca suja no caminho (vide Aquele Problema), e estava fragilizado. Chorei pelos problemas que deixei em casa e chorei ao me lembrar do que tinha se passado com a Dra. Júlia.

Obrigado, garoto NISO. Na vida não podemos parar. Temos que continuar a nossa peregrinação.

Walter Jorge

R E L A T O S