O GAROTO PEREGRINO - Parte V

- Walter Jorge

Relato

A CONQUISTA DO CEBREIRO

Fragmentos do diário de um peregrino no Caminho de Santiago. Sua chegada ao Cebreiro. Por: Walter Jorge de O . Almeida

Tinha passado por "La Faba" e "Laguna de Castilla", uma das últimas etapas da minha subida para "O Cebreiro", estava cansado, creio que a palavra correta deveria ser "exausto", minhas pernas bambas teimavam em não se movimentarem, a respiração estava ofegante e a pulsação ultrapassava a marca de 140, marca que a conselho do meu cardiologista não deveria ultrapassar, parei para descansar, novamente olhei para o meu pulso e o "Blitz" inexoravelmente mantinha-se nos 140, não queria descer, procurei um lugar para sentar, não achei, pensei: - O que fazer?, procurei respirar profundamente, no entretanto o ar parecia ter desaparecido, pensei que deveria ser o efeito da altitude.

O manto da noite começava a sua descida suave mais constante, sabia que tinha de correr contra o tempo se quisesse chegar antes do albergue fechar, não via nenhum peregrino dentro do raio de minha visão, acreditava que todos eles já estariam com o seu banho tomado, suas roupas lavadas, conversando e aguardando a hora de irem jantar, pensava: - Deveria ter ficado no albergue em "La Faba". Porque prossegui na minha Caminhada?. Não sabia explicar, cada um tem a sua peregrinação.

Após uns 30 minutos de descanso prossegui, a cada 10 minutos parava e levava outros 10 minutos descansando, as sombras se avolumavam e no horizonte distante olhava o sol descendo por traz daqueles altos morros, minha vista se deslumbrava com a paisagem, tinha de forçar minha caminhada mais não conseguia, acreditava que o receio de estar sozinho àquela hora aumentava o meu ritmo cardíaco, não queria que por erro de estratégia na minha peregrinação tivesse de ficar ali para sempre, com esse pensamento parei, perdi o medo e passei a olhar aquele magnífico pôr do sol, o disco de ha muito já tinha desaparecido no ocaso, restava apenas seus raios avermelhados refletidos naquelas poucas nuvens em uma tonalidade de um cinza claro.

Lentamente com os olhos percorri a estrada em minha frente, o negrume da noite descia e ao longe começava a antever pequenos pontos luminosos proveniente daquele pueblo guindado no topo daquele morro. Como um caleidoscópio recordava do que tinha lido sobre o local, era um dos lugares mais emblemáticos do Caminho de Santiago, estava situado a 1293 metros de altitude. Naquele local o seu Hospital foi um dos primeiros pontos assistêncial da Caminho. Registra a história que muito anos antes das peregrinações, aquele local foi habitado pelos Celtas, cujas "Pallozas", conservadas até os nossos dias, representam um atestado vivo de sua realidade.

Lembrava também da lenda existente referente ao "Milagro del Cebreiro", fato ocorrido provavelmente no início do século XIV

"Conta a lenda, que em um dia de muita neve e tormenta, um camponês do pequeno pueblo de Barxamayor, subiu com grande sacrifício e perigo devido ao forte temporal que caia, até o alto do Cebreiro para orar a Santa Missa. Um monge leva a cabo a celebração da missa, no entretanto fazendo-a com pouca fé, ademais depreciando o sacrifício do camponês única pessoas presente. No instante da Consagração, murmura: "!A qué vendrá éste, com semejante tempestad, si sólo se trata de ver un pedazo de pan y um poco de vino!", nesse instante a hóstia e o vinho se converteram em Carne e Sangue visíveis a ambos, que permaneceu durante muito tempo sobre o altar". Os peregrinos divulgaram este milagre por toda a Europa, os anônimos protagonistas desse milagre, o camponês devoto de Barxamayor e o incrédulo celebrante, estão enterrados na mesma Capela dos Milagres. Atualmente ainda se conserva naquele local o cálice do milagre uma jóia românica do século XII, junto com o relicário que, em 1486, os Reis Católico doaram quando lá chegaram para contemplar o milagre.

Voltando dos meus pensamentos, caí na realidade, o manto escuro da noite tinha caído, mal conseguia antever o Caminho, cada passo que dava era devidamente analisado, não queria perder de vistas aqueles pontos luminosos ao longe, que para mim representavam o farol a orientar minha subida, mais uma vez olhei para o relógio, passava das 22 horas, não tinha mais esperanças de encontrar o albergue aberto, teria de pernoitar em uma hostal, caso encontrasse lugar, ou então teria de dormir um uma daquelas "pallozas". Caminhava lentamente ganhando o terreno palmo a palmo, as luzes aproximavam-se lentamente, já distinguia ao longe os contornos do albergues de encontro àqueles tênues reflexos das luzes, não tinha mais nenhuma ilusão, o mesmo estava fechado, nem um único raio de luz filtrava na escuridão saindo daquele local.

Lentamente aproximava-me, minha visão detectara algo em movimento, ao longe, aqueles pontos acinzentados de encontro a semi claridade existente, pareciam dançarem, meu coração disparou: - O que seria aquilo?, estaria sendo vitima de uma alucinação ?, parei, fixei as minhas vistas já bastante acostumadas com a escuridão naqueles pontos em movimento, pareciam que estavam aproximando-se do albergue, silenciosamente apressei meus passos afim de que minhas vistas pudessem melhor identificar o que estaria ocorrendo àquela hora tardia. Em dado momento percebi sons de vozes humanas no silencio da noite, lentamente aproximei-me, quando consegui focar as minhas vistas, verifiquei que mais pareciam um bando de terroristas a tentarem tomar de assalto aquele albergue. Mais uma vez parei e procurei melhor observar, notei que o mais alto parecia ser o comandante da tropa, toda ela tinham passos trôpegos, ao chegaram ao lado do albergue, pararam e como um todo, passaram a confabularem, pressentia que estavam planejando a maneira estratégica de invadirem aquela fortaleza de pedras, mais como estava fechada e suas paredes eram bastante resistentes, não sabia como iriam proceder, notei que, no meio daquele grupo de combate, existia uma figura pequena que mais parecia a de um anão.

O mais alto que considerei o comandante, dirigiu-se a uma das janelas, forçando minhas vistas notei que era a única que estava aberta, no entanto nenhum raio de luz emanava da mesma, fiquei a pensar: - Como iriam proceder a invasão, a mesma estava bastante alta mesmo para aquele terrorista, foi quando para minha surpresa, ao comando daquela pessoa, tal qual como costumava ver nos circos quando da minha infância, efetuarem uma pirâmide humana e no silencio da noite, aquele anão terrorista, rapidamente subindo pelos ombros dos demais, galgou a janela e penetrou no interior do albergue, rapidamente a um novo comando, a pirâmide se desfez e o grupo dirigiu-se para a porta.

Rapidamente e silenciosamente, aproveitando o manto da escuridão, aproximei-me até um determinado ponto que julgava estar seguro, não sabia o que estava acontecendo, aguardava o desenrolar daquele desfecho, foi quando verifiquei que a porta lentamente se entreabria e aquelas figuras noturnas que julgava serem terroristas, uma a uma penetravam no albergue, rapidamente joguei em cima dos meus ombros a minha capa e antes que aquela porta de fechasse, penetrei no albergue quase colado ao último homem como se sombra do mesmo o fosse.

No interior, como tinha a meu favor várias horas andando em uma completa escuridão, as minhas pupilas já inteiramente dilatadas, permitia movimentar-me sem ser pressentido, dando-me a oportunidade de rapidamente puder ocupar um cama vaga em um dos beliches sem ser pressentido.

Exausto e tenso, após colocar silenciosamente a mochila ao lado do beliche, deitei-me e um sono rápido e pesado abateu-me sem ter dado tempo suficiente para verificar o que estaria acontecendo com aqueles homens acompanhados daquele anão que tinham tomado de assalto o albergue do "O Cebreiro".

Acordei sobressaltado com alguém tocando de leve o meu ombro, era o hospitaleiro que avisava da necessidade de desocupar o lugar a fim de procederem a limpeza. Semi acordado, passei a costa da mão pelos meus olhos, coloquei os óculos e pedi permissão para proceder a minha limpeza matutina, garantindo que estaria pronto a desocupar o albergue dentro de quinze minutos.

Enquanto escovava os dentes e lavava o rosto espantando o sono, perguntei ao mesmo se no dia anterior, havia pernoitado um anão, em resposta disse-me que não, apenas um garoto que fazia parte de um grupo de ciclista, comandados por um jovem bastante alto os quais já haviam partido há mais de duas horas, informando-me também que o nome do mesmo era NISO.

Após aqueles quinze minutos a mim concedidos por magnanimidade do hospedeiro, coloquei minha mochila nas costas e parti para visitar a parte histórica daquele pueblo antes de seguir rumo a Triacastela.

No Caminho, eu pensava: "Mais uma vez o garoto Niso cruzava com o meu Caminho, quem seria aquele comandante jovem e alto?".

Walter Jorge

R E L A T O S