O GAROTO PEREGRINO - Parte VI

- Walter Jorge

Relatos

O CAPACETE VERMELHO

Fragmentos do diário de um peregrino no Caminho de Santiago de Compostela. O hospitaleiro Jesus Jato e Maricarmen no Brasil. Por: Walter Jorge de O . Almeida

Foi para mim um grande prazer quando solicitaram-me da possibilidade de acompanhar o famoso e controvertido hospedeiro do albergue de Villafranca del Bierzo, Jesus Jato e sua esposa Maricarmen, durante a sua estada no Brasil. O mesmo desembarcou em São Paulo e percorreu as cidades do Rio de Janeiro, Curitiba e Antonina, onde proferiu palestras, visitou pontos turísticos e como não poderia deixar de ser, brindou em todos os locais que passou, com a sua já famosa "Queimada".

Como fato trágico cômico, temos a comentar que a "a Queimada" realizada em São Paulo, foi uma verdadeira queimada, pois no restaurante aonde a mesma foi realizada, trouxeram uma panela de barro, nova, zero quilometro, para que a mesma nela fosse efetuada, resultado: a mesma rachou e o líquido da queimada escorreu por sobre a mesa em labaredas, necessitando o uso de um extintor de incêndio para que as chamas fossem debelada, foi uma verdadeira queimada.

No balneário de Antonina foi construída uma réplica completa e moderna de um verdadeiro albergue, não poderia dizer a semelhança dos existentes no Caminho de Santiago, pois o mesmo dispunha de uma espaçosa varanda dotadas de redes idênticas a do nosso querido nordeste.

Naquele local fomos agraciados com um magnifico luau, não só frente a praia como em seguida a sua continuação a borda da piscina (é isso mesmo, o albergue possuía uma piscina). Foi exatamente naquele local que sofri perseguições diabólicas de um grupo de bruxas, tinha todo o tipo de bruxas, tinha até uma bruxa importada do nordeste (garanto que não foi da Bahia), quando descobriram que eu era um elemento vindo do Rio, ai foi o meu grande erro, deveria logo de cara dizer que era nordestino (não sei porque bruxas não gostam de cariocas), efetuaram um congresso, reunião, ajuntamento não sei mais o que, o resultado é que baixaram o pau no velhinho e fritaram no azeite de dendê duas de suas costelas.

É isso mesmo fritaram duas costelas das flutuantes, após cair durante a madrugada de uma altura de mais de 1,5m, não houve emplastro, ungüentos da confecção de Jesus Jato que viesse a minorar a dor, o resultado é que não dormi, passei uma noite de cachorro (aliais cachorro de madame tem noites belíssimas, na próxima encarnação serei cachorro de madame rica).

Pela manhã fui levado para Curitiba direto para o Hospital acompanhado de uma linda peregrina, lá fui apalpado, alisado, apertado, radiografado, diagnosticado e depois medicado, descobriram o que desconfiava, tinha duas costelas quase quebradas (fissuradas), eram as costelas flutuantes do lado direito. Já estava para sair quando descobri de que não perguntara se podia tomar uma e outras, como um choppinho de leve ou uma loura estupidamente gelada, pois não sabia se a medicação proibia tal ato, não pensei duas vezes, solicitei à aquela peregrina amiga, que entrasse novamente e efetuasse a referida pergunta, não queria "pagar mico" e tinha certeza absoluta que, com aquela peregrina ninguém iria fechar as portas, ou não permitir que ela perguntasse o que quisesse, ela foi, efetuou a pergunta e a resposta foi um doloroso "não pode", analisando o "não pode", conclui que não existia problema, automaticamente cancelei os remédios até o termino dos eventos para o qual fui assistir.

Na volta para o Rio, tive a incumbência de trazer no trecho Curitiba a São Paulo e entregar a seus pais, o garoto Niso que lá se encontrava assistindo aos festejos. Estava no aeroporto de Congonhas antigo "Campus de Marte", havia chegado de Curitiba trazendo em baixo de meu braço esquerdo aquele neto que tinha ganhado, filho de LF (não sei se foi por adoção, roubo, rapto seqüestro ou outro meio), tínhamos compartilhado daquele magnifico albergue (no ap. de LF), ando inclusive a pensar, será que eu ronco?, na primeira oportunidade irei perguntar ao meu neto, pois dormimos no mesmo quarto, a realidade é que não poderia colocá-lo em baixo do braço direito porque como informei, tinha sofrido perseguições diabólicas de um grupo de bruxas.

Estava com aquele pensamento em minha mente, quanto senti algo dando uma furada em baixo do meu sovaco, olhando naquela direção verifiquei ser aquele neto maior do que eu, perguntei:

- O que foi ? - Meu chapéu, perdi; - Que chapéu ?, Nunca vi você de chapéu, se você esta falando de cabelo, esse sim, você perdeu lá no Caminho de Santiago. Onde? Não me pergunte, não sei responder, pergunte ao seu pai - O Sr. escutou errado, eu disse capacete - Desde quando um fedelho na sua idade presta serviço militar para usar capacete, mesmo assim capacete só é utilizado em treinos de combate e outra cousa, proíbo de me chamar Sr., fico parecendo um velho, velho é o seu pai - É o meu capacete de ciclista - Peraí, estas brincando comigo, viemos de avião e você vem dizer que perdeu seu capacete de ciclista e onde está a bicicleta ? esta no estacionamento?

A essa altura já estava a pensar que aquele neto adotivo já estava querendo gozar com a cara do seu novo avô, pedi que ele fosse mais detalhado sobre o assunto, foi quando ele relatou-me todos os detalhes sobre o capacete, fiquei a saber que o mesmo é como um amuleto, para onde ele vai carrega-o, disse-me inclusive que o mesmo é usado para sentar, abanar, dar umas pauladas nas moleiras dos seus colegas, etc, etc, etc.

E lá fui a procura de onde aquele neto tinha deixado seu capacete de ciclista, a primeira vitima foi o pessoal do controle da esteira de bagagem, nada conseguimos; fomos em direção a moça dos despachos, larguei aquele meu sorriso 38 somente usado para motivos especiais, acompanhado de um piscar de olhos 27, aí apareceu a primeira pista, ela nos informou que deveríamos procurar a Infraero e lá vai aquele vô e o netão a procura da Infraero, perguntas mil foram realizadas, quilômetros e mais quilômetros de caminhadas foram realizadas, quanto a sola do sapato, senti que a mesma tinha gasto mais de 3 milímetros, pois eu antes olhava para aquele neto na altura dos seus lábios e agora estava olhando quase que na altura do seu queixo, dedução lógica de uma mente altamente esclarecida, se eu não tinha encolhido naquelas vinte e quatro horas, lógico que a sola do sapato tinha sido reduzida, quando senti um pequeno frio nos pés parei, olhei para baixo pensando: - pisei em um xixi de cachorro, levantei o pé olhei para baixo, verifiquei que o motivo daquele frio era o aparecimento do primeiro furo, nesse momento descobrimos a tal sala da Infraero.

Adentramos com aquele passo garboso, eu na frente (o menor) e ele atrás (o maior) até parece o caso dos dois Tiagos, ao olhar para frente senti um arrepio na coluna, minhas duas costelas reclamaram, apertei um pouco mais a cinta que estava usando.

- O que eu disse? Falei em cinta?

Não é o que vocês estão pensando, possuo aquela barriguinha, mais não há necessidade de usar cinta, ate que a mesma da um toque de charme, mais a cinta estava sendo utilizada para manter aquelas duas costelas flutuantes avariadas nos seus devidos lugares. Não foi eu que inventei o negocio de costelas flutuantes foram aqueles homens e mulheres que se chamam doutores que informaram que elas eram flutuantes, pasmem, não sabia que elas flutuavam, ando até pensando em tentar ir para o nordeste nadando, deve ser um barato em não afundar, pois as costelas são flutuantes, mais voltamos a sala da Infraero.

Sentado naquela mesa em L existia um controlador tendo a sua frente 3 computadores da última geração (ano 3.000), uma dúzia de telefones e 3 dúzias de celulares, sentamos em sua frente em poltronas super anatômicas e expusemos o problema, informando o número do vôo que chegamos e detalhes outros.

Imediatamente como se o mesmo fosse dotado de dez mãos, é pouco, digamos umas trinta, imediatamente passou a dedilhar os computadores, falar simultaneamente por 3 telefones e 7 celulares, uma verdadeira maravilha de tecnologia, meus olhos quase pularam de suas orbitas, até pareciam que estavam assistindo um jogo de pingue-pongue entre dois exímios japoneses, quando eu já estava tonto sem mais saber onde encontrava-me, ouço uma voz atrás de mim informando que aquele capacete vermelho estava a nossa disposição sobre a mesa.

Inacreditável, olhei para frente e vi, ali estava ele, o capacete vermelho, impecavelmente lavado, engraxado e polido, virei para aquele garoto ao meu lado e perguntei:

- É esse o seu capacete?

Ele olhou para o mesmo, olhou para mim coçou a cabeça raspada e respondeu com aquele sorriso maroto nos lábios:

É sim SENHOR. É ele VOVÔ !!! ... Pela primeira vez tive vontade de estrangular alguém...

Walter Jorge

R E L A T O S