NO CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA - Parte II

- Walter Jorge

Relatos

A DESCIDAD DO CEBREIRO

O presente relato foi-me feito por um grupo de pessoas que habitam ao longo do Caminho de Santiago, no trecho entre o Cebreiro e Samos...

O peregrino Sebastião não estava lá de muito bom humor, perdera o seu cajado, e por mais que procurasse não o encontrava. Já estava pensando que almas penadas deixadas no caminho e não exorcizadas pelo mago Peter (um grande escritor esotérico do Caminho), estavam lhe pregando uma boa peça. Havia pernoitado no pequeno e acolhedor vilarejo chamado de Vega de Valcarce.

Lembrou-se que ao passar por Foncebadón, não viu nenhum cachorro; levou quase que uma hora procurando. Não houve viela em que não procurasse, chegou ao cúmulo de procurar em algumas das casas em ruínas mas não encontrou viva alma, culpou o mago pelo seu infortúnio. Pensava: "- acabaram-se os cachorros, nem um pequenez apareceu. O que terei para contar aos meus amigos, se todos esperam um grande combate com dois ou, dependendo da sorte, com três pit-bull e não vejo nem a sombra de um franzino vira-lata? O caminho não é mais como era, tudo mudou... até os cachorros se mudaram! Alguém está querendo boicotar o Caminho de Santiago, mas não perde por esperar. Logo que eu chegar a cidade de Santiago de Compostela, apresentarei minhas queixas.

Não dormira bem pois o refúgio ficava nas proximidades de um viaduto e o tráfego pesado na estrada, durante a noite, não lhe permitira, ao menos, sonhar com os braços de Morfeu. Mas, em compensação, na manhã seguinte, a hospitaleira preparou um bom "desayuno e na véspera havia jantado no Café Español acompanhado por um bom vinho.

Colocou a mochila nas costas, xingou novamente em surdina o Mago e começou a andar. Pegou a carretera comarcal e iniciou a subida para o Cebreiro, passando a ganhar altura. Passou por Ruitelán, Herrerías e continuou a subir. Em La Faba o caminho amenizou um pouco, mas somente por uns míseros 2 quilômetros. Passou por Laguna de Castilla e continuou em frente. Apesar da temperatura amena, em torno dos 21º C, estava suado e cansado. Praguejava o tempo todo. Tinha vontade de roubar um cajado, ou atacar uma árvore para lhe tirar um galho, mas pensava: "aqui também deve existir um IBAMA e se eu entrar em cana o que vou dizer ao meu eleitorado?.

Já estava a 1300 m de altitude, tinha passado no caminho por uma placa que dizia: "Camino muy duro, solo para buenos caminantes e aí deu o seu primeiro sorriso do dia, pois julgava-se um "bueno caminante. Conseguira chegar inteiro ao Cebreiro, mesmo sem a ajuda do seu cajado perdido misteriosamente. Foi visitar a "Palloza-Museo e depois o primitivo templo de "Santa María la Real, para contemplar o "Cáliz del Milagro.

Aproveitou para fazer uma boa refeição na Hospedaria San Giraldo de Aurillac. Estava sentado tranqüilamente, saboreando um bom vinho, o que muito apreciava pois era enólogo, quando viu um garoto fazendo malabarismos com um skate.

Até pouco antes da ótima refeição e excelente vinho, estava a insultar mentalmente o Mago, pela frustração de não ver o que ele tinha visto. Mas agora esquecera-se do Mago, centrando sua atenção no garoto e suas manobras com o skate. Seus pensamentos voltaram ao passado, aos tempos em que ainda morava em "Barreiras sua cidade natal. Também gostava de fazer aquelas manobras radicais com o seu skate. Quantas e quantas vezes chegava em casa com os joelhos esfolados...

As lembranças desfilavam por sua mente em uma velocidade surpreendente, tal como um caleidoscópio. Em dado momento, não se conteve mais e chamou o garoto. Ele parou e, segurando seu skate, ficou a olhar para aquele peregrino desconhecido - lembrau-se de que a sua mãe sempre lhe dizia para não falar com estranhos. "- Meu nome é Sebastião. Sou do Brasil... Pelé...!, As poucas palavras pronunciadas pelo peregrino foram mágicas. Deixou de ser um estranho para o garoto, que gostava de futebol e conhecia Pelé, e um largo sorriso abriu-se em sua face.

Sebastião pediu emprestado o skate e durante uns quinze minutos recordou o seu tempo de skatista. Parou, pensou e em seguida disse ao garoto que queria compra seu skate. Imediatamente ele se recusou a vender, segurando com força o skate, como se alguém o quisesse levar. Sebastião aumentou a quantia oferecida para 3000 pesetas, o jovenzinho continuou irredutível. Sebastião não se deu por vencido, chegando a oferecer 10.000 pesetas, o garoto arregalou os olhos, pensou... e pensou... e finalmente cedeu . Trocou seu skate pelas 10.000 pesetas.

O peregrino Sebastião estava eufórico; não tinha mais o seu cajado mas tinha um skate! ajeitou a mochila nas costas e impulsionando o skate com extrema destreza partiu embalado, descendo o Cebreiro.

Passou como um cometa pelos povoados de Liñares, Hospital da Condessa, Pardonelo e, no embalo em que vinha, subir o Alto del Poio foi uma barbada. O vento zunia nos seus ouvidos, obrigando-o a "enterrar um pouco mais o boné na cabeça. Dobrou mais as pernas para diminuir a resistência ao vento, parecia mais um esquiador descendo em uma pista de neve, e continuou a sua corrida. Passou por povoados como Biduelo, Vilar, Filloval, As Passantes e Ramil num piscar dos olhos, chegando rapidamente a cidade de Triacastela. Atravessou a Plaza do Concello e imediatamente seguiu em direção ao Monastério de Samos. As crianças vibravam e os moradores corriam às janelas e portas para assistir a passagem daquele estranho e incomum peregrino, que a essa altura já mantinha desfraldada, no alto de sua mochila, a bandeira brasileira.

Ao entrar triunfantemente, na cidade de Samos, tomando a direção do Monastério, foi que se lembrou de que não se lembrava mais como se freava o skate. Ao entrar com velocidade numa curva fechada, derrapou numa casca de banana e foi parar sob a fonte do "Claustro de las Nereidas com os joelhos esfolados e com um belo rasgão no traseiro. As nádegas, branquelas e sardentas, ficaram expostas aos risos dos passantes.

Ele foi dormir no refúgio do Monastério dos Padres Beneditinos. Apesar do vexame, sentia-se satisfeito, pois tivera a oportunidade de reviver momentos da sua infância e adolescência.

Querido leitor, será que ele conseguiu no outro dia sentar para tomar o seu desayuno? Por onde andará o seu cajado? Mistério !!!.

Walter Jorge

R E L A T O S