NO CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA - Parte III

- Walter Jorge

Relato

O MISTÉRIO DO CAJADO

De que é feito um cajado? Difícil dizer, compete ao leitor deduzir, bem como a sua forma, consistência e utilização.

Não, não podia ser verdade - lavou os óculos com água e sabão de coco e tornou a colocá-los. Olhou novamente e fez a triste constatação de que seu cajado havia desaparecido. Sumiu, evaporou-se, mas como? Havia tido uma noite intranqüila, tivera pesadelos um atrás do outro, chegou a pensar que pairava no ar daquele refúgio uma alma penada. O prédio era secular, fora construído á mais de 600 anos para servir como hospital para peregrinos e, com o correr dos anos, quase virou ruína. Reconstruído posteriormente, foi transformado num belo refúgio

Milhares de peregrinos passaram por aquele antigo hospital. Muitos, não suportando as agruras do caminho e ataques de bandoleiros, chegavam trazidos por seus companheiros de jornada com ferimentos graves e ali davam o último suspiro. Dizem os crédulos que suas almas até hoje perambulam pelos corredores e quartos daquele imenso prédio, aguardando uma oportunidade para continuar a sua peregrinação e depositar na cidade de Santiago de Compostela os pecados que carregavam.

O nosso peregrino precisava continuar a sua caminhada. Não poderia deter-se por tempo indeterminado à procura do cajado. Afinal, não tinha tanto tempo disponível, mas estava preocupado... sem a sua terceira perna, o cajado, como iria enfrentar os cachorros, como apoiar-se nas subidas íngremes, ou evitar os tombos no barro molhado e escorregadio das ladeiras? Praguejava cada vez mais nervoso, pois não se lembrava de onde o deixara no dia anterior. Procurou em todos os lugares possíveis e até inimagináveis como o bolso das próprias calças, no interior da mochila, ou no saco de dormir, que alguns peregrinos metidos a besta chamam de "sleep bag", procurou em baixo do travesseiro, mas nem sombra do cajado.

Não se dando por satisfeito, deu uma busca geral no refúgio, olhou por baixo das camas, nos armários, na cozinha, no banheiro, olhou até para dentro do vaso sanitário (por quê, não me pergunte), chegou a dar descarga e já xingando o nosso Mago Peter, acordou alguns dos peregrinos com perguntas incompreensíveis para eles, porque eram de várias nacionalidades: um alemão, um turco, um japonês, um russo... Até um holandês ele acordou. Mas não adiantou; ninguém entendeu nada. Por fim acordou um senhor, depois ficou sabendo ser de origem escocesa, que apesar de sonolento conseguiu compreender o que se passava, mas mesmo tendo compreendido a situação, no momento, não poderia ajudar em nada, só poderia começar a raciocinar sobre aquele caso depois do chá das 5 da tarde; antes não dava para pensar, inclusive por que também ainda não tinha dado suas baforadas matinais no seu cachimbo predileto. No entanto, prometeu para o nosso peregrino nervoso e afobado, que logo mais iria pensar sobre o assunto, garantindo que até o final do dia, o mistério do desaparecimento do cajado seria resolvido. Naquele momento aconselhava a aquele impetuoso peregrino que continuasse a sua maratona com apenas seus dois pés, pois já passavam das sete, aproximando-se da hora de desocuparem o refúgio.

Sebastião jogou a mochila nas costas quase que invocando o espírito do Mago Peter, e partiu correndo tal qual um foguete, acreditando que o seu cajado, tinha lhe passado para trás e que iria chegar na sua frente em Santiago de Compostela.

Após sua partida, o nosso peregrino inglês, calmamente saiu do refúgio, fez dez flexões com a perna direita e dez com a esquerda para completar o seu aquecimento, seguindo os conselhos daquela peregrina paulista especialista em alongamentos de velhinhos. Consultou a bússola que trazia a tiracolo, fez cálculos matemáticos, alisou o bigode, molhou o dedo indicador direito nos lábios e levantou o braço procurando captar a direção, intensidade, pressão e temperatura dos ventos predominantes. Depois desses primeiros cuidados matutinos colocou, com extrema cautela sua mochila sobre os ombros, ajustou as correias e iniciou a sua jornada, com passos firmes e cadenciados.

Pouco mais tarde, consultando o seu cronômetro de pulso, verificou que já tinha caminhado precisamente 59 minutos, 58 segundos e 3 décimos; pára, corre o olhar à sua volta procurando uma boa sombra e a uns vinte metros de distância descobre uma bela mangueira, tira a mochila e senta-se sobre um banco formado por raízes de uma arvore secular tombada.

Mais uma vez consulta a bússola, sorri, metodicamente tira seu cachimbo de um dos imensos bolsos de sua capa vermelha quadriculada. Alimenta-o com seu fumo predileto e acende. Aquela fumaça quase branca sobe em novelos, perfumando o ambiente; sorri novamente ao lembrar que aquele peregrino madrugador, nervoso e afobado, nem desconfiara que ele era o já famoso Sherlock Holmes fazendo pela décima vez sua caminhada a Santiago de Compostela camuflado de peregrino.

Com movimentos lentos e calculados, tira suas botas e meias, defuma-as na fumaça do seu cachimbo, e pachorrentamente mexe os dedos dos pés, fazendo o seu exercício de ioga. Pensativo, procurava no âmago de sua imaginação os motivos pelos quais desaparecera o cajado daquele peregrino; por mais hipóteses que formulasse, todas caíam por terra ao serem analisadas em detalhes. Quem teria apanhado aquele cajado? É sabido que todo peregrino possui o seu cajado. Será que aquele cajado era portador de algo importante que poderia despertar a cobiça de alguém? Será que no seu interior carregava algo secreto? Seria um simples furto ou um seqüestro? Em quanto estaria avaliado aquele cajado? As perguntas corriam céleres em sua mente, sem respostas.

Continuava pensativo. De repente ouve um farfalhar e, então, gira lentamente a cabeça fixando os olhos no horizonte. Vê o ondular suave dos juncos sob a força do vento que no momento soprava.

Seus olhos se aguçam parecendo ver algo mais através dos juncos. Sua mente passa a funcionar em velocidade surpreendente. Começa a associar o balanço dos juncos com o ondular de calças, camisas, cuecas e meias balançando no varal do refúgio; seus olhos arregalam-se como se estivesse vendo um fantasma. Levanta-se de imediato, joga a mochila nas costas, monta na bicicleta e pedala rapidamente em direção ao refúgio de onde há poucas horas havia saído (O quê? A bicicleta? Depois informarei aos meus leitores sobre o aparecimento da bicicleta).

Chega como um pé de vento, corre para a área lateral do refúgio e lá estava ele, pendurado pelos seus extremos servindo de varal para secar as roupas lavadas pelo peregrino chinês. Lá estava o cajado desaparecido.

Dedução lógica de uma poderosa mente: cajado de bambu e fino como aquele, só na cabeça de peregrino brasileiro, pois para peregrino chinês, bambu daquele tipo, só mesmo para servir de varal para secar roupas. Nosso Sherlock Holmes pegou a vara de bambu e despachou pelo correio para Singapura, digo, Santiago, no nome do dono, e tranqüilamente após dez flexões de pescoço, continuou sua caminhada devidamente camuflado de peregrino.

O que pensará aquele peregrino brasileiro ao chegar na cidade de Santiago de Compostela e encontrar o seu cajado ? E a bicicleta, como entrou na história?. Mistério!!!.

Walter Jorge

R E L A T O S