NO CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA - Parte IV

- Walter Jorge

Relato

A BICICLETA

Ela é um ser. Tem sentimentos. O desenrolar do desaparecimento do cajado visto sob o ângulo feminino de uma bicicleta.

Ele estava satisfeito. Conseguira pedalar 200 km naquele dia. Sua boca só um sorriso; era difícil dizer onde terminava a curva dos lábios e iniciava sua bochecha. Estava cansado, mas satisfeito; subira e descera um sem número de morros. Estava orgulhoso de sua companheira, aquela magnífica bicicleta de 32 marchas. Nem um furo nos pneus, nem uma derrapada. Atravessou riachos e atoleiros, caminhos pedregosos e asfalto, e ela, sempre impávida, vencia as distâncias sem se queixar. Ele sim, parava para beber água que passarinho não bebe, descansar, fotografar paisagens, pontes, castelos e igrejas, e ela nada dizia.

Todos nós temos nossos sentimentos, nossas manias, nossos traumas e desejos, mas, egoísticamente, só pensamos em nós, seres vivos. Jamais pensamos naquelas figuras ditas inanimadas. Nem uma só vez durante aquele longo percurso, quando parava para descansar, ele tirava os alforjes para aliviar o peso sobre suas rodas; nem uma vez ele colocou-a junto a um monumento histórico para ser fotografada. Nem uma vez ela ganhou um alisar de suas mãos sobre o seu quadro ou seus garfos. Quando muito, ele colocava um pano sobre o seu selim para que não estivesse quente quando fosse se sentar. Sentia-se humilhada apesar das palavras elogiosas que, algumas vezes, ele pronunciava a seu respeito.

A alma feminina é difícil de ser compreendida; tem os seus meandros e não é qualquer peregrino que consegue palmilhar o seu interior sem derrapar, sem tropeçar e sem sofrer. Feliz é aquele que consegue compreendê-la. Ele iria descansar e pernoitar naquele refúgio acolhedor. Com gestos apressados, devido ao sol inclemente, tirou os alforjes carregando-os para o interior, que estava relativamente fresco. Lá fora, nem uma brisa soprava e ela simplesmente foi largada, encostada próxima à porta.

Defronte ao refúgio, no outro lado daquela estrada poeirenta, existia uma frondosa árvore. Seria uma mangueira ? Ela não sabia dizer, mas gostaria de estar protegida sob aquela copa acolhedora; ao menos estaria fora do alcance dos raios fortes e impiedosos que a estavam maltratando. Pensou: "bem que poderia cair uma boa chuva ..."; dessa sim, ela gostava. Quando chovia, sentia-se rejuvenescida, andava com mais garbo, seus pneus não esquentavam tanto, sentia-se mais limpa. Que prazer sentia quando ele aumentava sua velocidade fazendo com que os pingos de chuva batessem furiosos em seu guidom! Mas, nesses momentos, ele sempre procurava um lugar para se abrigar; embaixo de ponte, porta de igreja e muitas vezes era num sujo e fedorento curral. No entanto, quando o sol estava naquele apogeu, ele simplesmente a largava à sua mercê, sem dó nem piedade.

Não tinha muito a se queixar da sua manutenção. Ele periodicamente a lubrificava, procurava ver a tensão de sua corrente, o ajuste dos freios e a pressão dos pneus. A noite chegou e ela adormeceu vendo as estrelas brilharem na Via Látea. As horas passaram inexoravelmente e o dia veio nascendo lentamente. Os peregrinos começaram a passar com suas mochilas coloridas. O sol despontou mais uma vez, forte, radioso e quente. Seus olhos estavam novamente fixos naquela árvore, na sua sombra. Por trás da mesma, descortinava-se um imenso platô onde alguém plantara juncos. Estava em estado contemplativo quando viu aproximando-se pela estrada, a mesma estrada por onde passara no dia anterior, um peregrino baixo, esbelto, com passos cadenciados. Usava um chapéu de duas pontas que o protegia dos raios solares e uma longa capa vermelha enxadrezada.

A uma dezena de metros ele parou, olhou em volta e seus olhos fixaram-se na frondosa árvore. Caminhando em direção a ela, tirou a mochila e sentou-se, colocando o cajado ao seu lado. Não estava ofegante e nem parecia cansado. A bicicleta observava minuciosamente. Quando tirou o chapéu, um pequeno sopro de vento fez ondular os cabelos brancos. Parecia um jovem mas não o era; tinha as feições alegres, sorriso um pouco tímido, charmoso. Ela continuava observando-o . Em dado momento, sentiu-se atraída por aquela figura que estava sentada à sua frente. Gostaria de estar ao seu lado, de tê-lo no seu selim, pedalando, sentindo o vento de encontro aos seus raios.

Aquele homem que aparentava ter apenas uns 60 anos, tira o cachimbo do bolso, enche-o com um fumo perfumado e acende-o, soltando no ar um aroma adocicado, perfumando o ambiente. Após alguns minutos, apaga o cachimbo e suspira longamente. Sua cabeça pende, parecendo que cochilava. Não se passou nem meia hora quando, de repente, levanta-se, olha em volta e fixa os seus olhos nos juncos. O vento começava a soprar com mais intensidade e aquela vastidão plana oscilava como as ondas do mar.

Ela olhava extasiada para aquela figura. Alguma coisa estava acontecendo. Ela tremia, apesar do calor reinante, suas rodas balançavam tal qual os juncos à sua frente. Sentia algo no seu quadro e garfos - algo que não podia compreender e que jamais sentira. Estava fascinada por aquela figura. O que seria ? Amor ? Paixão ? Não sabia explicar. De repente, ele olha para ela, fixa nela o seu olhar penetrante e acariciante, apanha sua mochila e cajado e encaminha-se para ela que, ao vê-lo aproximar-se, quase desmaia. Ele pára, olha-a longamente, passa a mão sobre o selim, faz uma carícia e suspira. Ela rende-se aquele gesto de carinho e encanto.

Os dois se olham e, de repente, com gestos rápidos, seguros e cuidadosos ele a pega. Desliza o seu corpo sobre o dela, segura seu guidom firme e amorosamente e aciona o pedal tomando rumo oposto ao que estava trilhando.

Ela fica assustada, tenta dominar-se, frear, impedir aquele roubo, rapto, seqüestro, fuga ou seja lá o que for. Não sabia analisar o que sentia, pois estava fascinada. Ele a tratava de modo diferente. Suas pedaladas eram fortes e ritmadas e ela sentia prazer nas mesmas. Não forçava as marchas, passava-as suavemente e no tempo certo. E com que maestria ele a desviava de certas pedras para que os seus pneus não sofressem impactos! Não sentia o peso, mesmo com a mochila e o cajado. Lentamente foi-se entregando aquele desconhecido; sua estrutura gradativamente entrava em ritmo com aquele corpo, amoldava-se ao mesmo. O vento fustigava-a devido à velocidade imposta, mas ela não sentia, estava em êxtase absoluto. O tempo passava e ela não percebia.

Ao chegar num certo refúgio ele pára, salta, respira fundo e, lentamente, a conduz pelo guidom até uma sombra onde corria uma aragem de temperatura agradável. Encosta-a, acaricia seu selim, deposita um longo e doce beijo no centro do guidom e em seguida dá duas palmadinhas amorosas em suas ancas. Um ligeiro frêmito a percorre de ponta a ponta. Com movimentos graciosos, retira a mochila e coloca-a com o seu cajado junto à mesma, demonstrando a confiança que depositava na sua companheira. Em seguida atravessa a estrada e entra no refúgio.

Ela pensa: "quem é este peregrino ? Porque roubar-me e retornar àquele local? O que o mesmo estaria fazendo naquele momento?" Enquanto amorosamente ela formulava perguntas sem respostas, ele aparecee na porta carregando uma fina vara de bambu. - O que significaria ? Será que iria continuar a peregrinação com dois cajados? Não pode ser, aquela fina vara de bambu não se prestaria a tal finalidade.

Ele estava sorridente. Atravessou novamente a estrada e a pegou carinhosamente, dessa vez sem montá-la, apenas colocando sua mochila na garupa e seguindo até o correio que ficava nas proximidades. Mais uma vez procura uma sombra e a deixa como encarregada da guarda de sua mochila e cajado, levando apenas aquela fina vara de bambu. Passaram-se alguns minutos e ele voltou. Ela sentiu algo no ar. Novamente leva-a até aquele refúgio e, delicadamente, coloca-a na mesma posição anterior, naquela sombra aonde corria uma fresca aragem. Ela nada compreende. Ele pega a mochila e coloca-a sobre os ombros. Olha-a com aquele olhar lânguido e amoroso e ela estremece. Seu coração dispara. Ele tira de um dos bolsos um caderno, escreve algo. Arranca a folha escrita, dobra em quatro partes e, com um sorriso no canto dos lábios, prende no quadro com um pedaço de esparadrapo. Em seguida dobra o corpo e com todo o cuidado, abraça seu corpo (quadro) e beija voluptuosamente o seu selim.

Ela parece estar em estado de choro, mal consegue ficar encostada, suas rodas tremem. Ele se refaz, apanha seu cajado e, tranqüilamente, após dez flexões de pescoço, reinicia a sua caminhada. Percorre alguns metros e pára, volta-se para ela e envia um saboroso beijo entre os dedos, continuando imediatamente sua peregrinação.

Ela continua com os olhos pregados naquela figura que, gradativamente, vai sumindo na longa estrada. Após uma curva ela o perde de vista e não resiste, chora longamente e desmaia.

Peregrinos que passaram por ali horas depois, contam que o local estava impregnado de óleo derramado (lágrimas) e que por fora do bilhete estava escrito: "OBRIGADO Z........". O drama continua. A quem pertence a bicicleta? Mistério....

Walter Jorge

R E L A T O S