NO CAMINHO DE SANTIAGO DE COMPOSTELA - Parte V

- Walter Jorge

Relato

A VINGANÇA

O desaparecimento da bicicleta visto sob o ângulo de seu dono.

Aquele ciclista chegara cansado, o dia fora exaustivo; pedalara quase duzentos quilômetros e ao chegar naquele lugarejo suas pernas estavam trôpegas. Retirou os alforjes e a mochila da bicicleta e entrou no refúgio. Teve uma sensação acolhedora, a temperatura ali dentro estava fresca, ao passo que do lado de fora, apesar do relógio marcar mais de dezoito horas, estava quente. Escolheu uma cama em um dos beliches, colocando sobre a mesma seus apetrechos. O refúgio ainda não estava cheio, aproveitou para lavar suas roupas e meias. Tomou um bom e refrescante banho. Seu corpo estava exausto, sentiu dores na coluna. Voltou para o dormitório, jogou-se na cama sobre o saco de dormir e quase que imediatamente pegou no sono, um sono pesado e reparador.

Acordou no meio da noite, com fome, pois não tinha jantado. O dormitório estava em completa escuridão. Levantou-se silenciosamente para não despertar os demais peregrinos. Tateou o interior da mochila encontrando sua pequena lanterna. Acendeu-a, com a palma da mão encobrindo o foco de luz, deixando passar apenas uma tênue luminosidade por entre os dedos. Alguns peregrinos mexeram-se em seus leitos, outros emitiam, a determinados intervalos, sons sibilantes. Na movimentação da lanterna alguns raios de luz iluminaram um peregrino, que sorria dormindo. Se pudéssemos penetrar naquelas pesadas pálpebras, provavelmente veríamos olhos brilhantes. Ele havia cumprido mais uma etapa de sua longa jornada e dormia satisfeito com o sucesso alcançado, tinha o sono dos justos abençoado pelo nosso Thiago.

O peregrino ciclista, passo a passo, lentamente, encaminhou-se para a porta. Ao chegar, direcionou o facho de luz procurando abrí-la mas não conseguiu, estava trancada. Gira em torno de si mesmo procurando com os olhos um possível esconderijo para a chave mas não encontra. Deveria estar com o hospitaleiro. Ao passar por uma das janelas que encontrava-se aberta, seus olhos automaticamente fixaram-se no céu que estava sem nuvens e estrelado, permitindo observar a Via Láctea que, praticamente, situa-se sobre o Caminho de Santiago como a orientar o peregrino no seu caminho. Pensa em pular a janela mas, ao aproximar-se mais, lembra-se que está no piso superior de um daqueles refúgios construído a centenas de anos cujas paredes são de pedras, com um pé direito de mais de quatro metros de altura, e então desiste de tal empreitada. Esticando o pescoço, consegue ver a sua bicicleta lá fora. Estava exatamente onde deixara no dia anterior e, sentindo-se satisfeito, volta ao seu leito, retira de um dos alforjes algumas bolachas e frutas secas e as come procurando mastigar sem emitir ruídos, apesar de as bolachas crocantes algumas vezes o traírem, deita-se novamente.

Seu pensamento vagueia. Em sua mente, tal qual um filme, surgem as recordações dos diversos trechos percorridos, dos sustos levados, daquela queda que sofrera há vários dias e que o deixou de molho por um dia inteiro. Lembrou-se de ter cruzado com um grupo de ciclistas em plena corrida. Estavam totalmente equipados e precedidos de batedores para abrir o caminho bem como de uma infra-estrutura de retaguarda que tinha até ambulância. Corriam em formação fechada com diversos lideres na vanguarda. Lembrou-se de que na sua juventude, quando deitado na relva, gostava de apreciar a formação perfeita em "V" do vôo das aves. Só posteriormente quando andou participando de algumas corridas, é que veio a saber que aquele ciclista que estava à frente da formação, despendia mais de 30% de esforço em relação aos demais e que, periodicamente precisava ser substituído; parado no acostamento da estrada acenou para eles, vestidos com aquelas roupas coloridas e com os seus capacetes que mais pareciam representar corpos em movimento; envolvido pelas lembranças, pegou no sono.

Acordou tarde; esfregou os olhos e olhou ao redor. Poucos peregrinos ainda permaneciam no refúgio e mesmo assim já estavam prontos para reiniciarem a caminhada. Espreguiçou-se procurando relaxar os músculos ainda tensos. Levantou-se e foi fazer a sua higiene pessoal, retornou rapidamente para arrumar sua mochila e alforjes. Continuava tenso, não sabia o motivo. Revisou mentalmente todo o seu plano de viagem para aquele dia, achava impecável, sem erros que pudessem atrapalhar sua peregrinação. Depois de ter se certificado que tudo estava em ordem, fechou a mochila e os alforjes, estava saindo do refúgio quando ouviu o sino da igreja tocar, informando que eram nove horas. Estremeceu, não pensara ser tão tarde. Com passos rápidos dirigiu-se para onde deixara sua bicicleta.

Não chegou a dar dois passos. Não podia acreditar! Seus olhos se negavam a acreditar. Largou seus apetrechos no chão, tirou os óculos e limpou-os, tornou a colocá-los mas a imagem à sua frente era a mesma, apenas uma simples parede nua, nem sombra da sua bicicleta. Seu olhar passeou pelos arredores à sua procura, mas nada, não lograva vê-la em lugar algum. Correu os arredores do refúgio numa vã tentativa de encontrá-la. Tudo em vão, estava desorientado, perplexo, raivoso e com medo. Sentou-se sob a árvore frondosa existente em frente ao albergue para poder pensar e analisar a situação. O que teria acontecido? Só podia ter sido um roubo. Ou podia ter sido um simples empréstimo por um peregrino que saíra com urgência e logo a devolveria.

Com esse pensamento voltou ao refúgio a procura de informações, ninguém sabia de nada, ninguém vira ou tomara conhecimento do desaparecimento da sua bicicleta; não sabia o que fazer. Mais uma vez saiu para a estrada em uma nova tentativa de encontrá-la. Pensava: - se a perdi, como poderei continuar minha peregrinação? A pé? E o que farei com todo meu equipamento sobressalente? Dou? Envio para a cidade de Santiago de Compostela pelo correio? Não encontrava solução para o problema. Novamente voltou para a sombra da mesma árvore a procura de uma resposta racional. A essa altura já evocava os préstimos do nosso Thiago para que desse uma luz sobre o assunto.

Enquanto isso, começavam a passar os primeiros peregrinos madrugadores que tinham partido de pueblos anteriores por onde passara; passavam alegres e bem humorados e de longe acenavam para ele que estava sentado imerso em seus pensamentos. Em dado momento pensou: - porque não perguntar a eles sobre sua bicicleta ? Mas tal pergunta não teria lógica. Se alguém a levou, deve ter-se deslocado em direção à próxima cidade e não em sentido contrário. No entanto não viu nenhum peregrino indo em sentido inverso. Mas não custava nada tentar. Levantou e dirigiu-se para a margem da estrada pronto para abordar o primeiro que passasse.

Estava parado esperando a passagem de alguém, quando vê ao longe, delineados em seus olhos, três ciclistas que se aproximavam. Seus batimentos cardíacos aumentaram, suas pernas tremiam. Começou a balançar os braços num gesto de desespero; parecia clamar por socorro. Os ciclistas se aproximam e param, um diálogo tem lugar:

- Bom dia.

- Bom dia.

- Vocês cruzaram com algum ciclista?

- Não, até o momento não cruzamos com ninguém de bicicleta. Apenas ultrapassamos vários peregrinos à pé, porquê?

- Roubaram a minha bicicleta.

- Como?

E uma pequena história foi relatada para aqueles ciclistas, que, de bocas abertas, absorviam suas palavras e pensavam; "será que corremos o risco de passar por essa privação ? Teremos que tomar cuidado, embora nunca tenhamos sabido de roubos em todo o caminho; algo estranho deve ter acontecido."

- ... e aqui estou eu sem saber o que fazer.

- Qual o tipo da sua bicicleta?

Um relato sobre a mesma foi desenvolvido.

- Qual a cor?

- Azul.

- Quantas marchas?

- 32.

- Coisa rara !...

- É...

Nesse momento um dos ciclistas que havia tirado o capacete, bate a mão no alto da testa e exclama:

- Vimos uma parecida com a que você acaba de descrever, defronte do refúgio no pueblo anterior a esse, estava caída no chão. Nós a levantamos e deixamos encostada na parede, tinha até ... parece que era uma mensagem dobrada e presa no quadro, com esparadrapo, na parte visível estava escrito: "Obrigado Z........."

- Hei ! Você disse Z........?

- Sim, Z......

O nosso peregrino, criou alma nova, pediu todas as informações necessárias para encontrar sua bicicleta e agradeceu. Um dos ciclistas, já de partida virou-se e perguntou:

- Quem é Z.....?

- Sou eu.

- Ahan !!!... ahan!!!... ahan!!!...

O tempo passou e, posteriormente acessando a Internet entrei em um Site no qual, numa de suas facilidades, estava a de "classificados". Por simples curiosidade naveguei pelos anúncios e encontrei colocada à venda uma "bicicleta, cor azul, de 32 marchas". Pura coincidência ? Seria ela? O que estaria escrito naquele bilhete ?

Walter Jorge

R E L A T O S