13 DE OUTUBRO DE 2000 - SEXTA-FEIRA Sorte ou Azar?

- Alexandre Barros

Relato

Não sei, somente vou saber no final do dia. Mas este é um dia todo especial para mim. Há exatamente um ano eu descia do Monte do Gozo, em direção à Catedral de Santiago, após 37 dias de peregrinação, quando vivi a Aventura de Minha Vida.

Teve de tudo: alegria, tristeza, dor, felicidade, choro, risos, suor, sangue, sol, chuva, frio, calor, vento, dores, vontade de desistir, vontade de prosseguir, vontade de ficar sozinho, vontade de ter companhia, saudades de casa, vontade de nãovoltar mais, enfim, uma confusão de situações e sentimentos, representando toda uma vida, em 800 km.

As maiores alegrias: ver que o ser humano, em sua essência, continua bom, solidário, companheiro. Pelo menos na peregrinação e quero acreditar que ainda somos assim.

Os aprendizados: ver que precisamos, e muito, trabalhar nossas intolerâncias, preconceitos, pré-julgamentos. Eu sou o primeiro da fila, reconheci isto logo no início do Caminho e até hoje me esforço para não esquecer tais lições, para tentar colocá-las em prática dia a dia. Sei que não é fácil e às vezes cometemos deslizes. Mas vou continuar tentando melhorar, a cada dia.

Havia passado a noite no monte do Gozo e uma conversa de mais de três horas com um espanhol, no refeitório do albergue local, me impediu de chegar a tempo da Missa dos Peregrinos. Não me importei, aprendi muito sobre religião, sobre o cristianismo, com aquele senhor. Tinha todo o tempo do mundo e não queria descer na disparada. Não, desci devagar, cantando a plenos pulmões uma música que marcou minha infância, como é tradição, deliciando-me com cada passo.

O tempo estava nublado. Fui curtindo cada pedacinho daquela descida, da entrada na cidade, das ruelas em zigue-zague, contornando cada beco, sentindo a emoção aumentar, à medida que me aproximava da Catedral. De repente, a Plaza das Platerias, a Porta do Perdão (com uma fila enorme), mais uma curvinha à direita e, finalmente, a Prazo do Obradoiro, lotada: enfim, havia chegado!

Parei diante da Catedral, extasiado, contemplando suas torres, sua fachada, a multidão de peregrinos, turistas, estudantes, vendedores ambulantes, gente nova, gente mais velha, crianças correndo, gente de todas as partes do mundo, enfim, uma confusão. Uma gostosa confusão. Não importava. Para mim, o mundo parou naquele momento, diante da Catedral. Bati um longo "papo" com Santiago, agradeci por tudo o que tinha vivido, tudo o que tinha passado, até mesmo pelos supostos momentos ruins (que serviram de aprendizado), por ter me dado forças para prosseguir, até o final, enfim, por ter realizado um sonho de dez anos. Fiquei ali por muito tempo, antes de resolver entrar. E reencontrei vários peregrinos que havia conhecido ao longo do Caminho, todos se cumprimentando e felicitando.

Cheguei no exato momento em que acabava a missa dos peregrinos, então a confusão era geral na igreja, muita gente saindo, outros tantos querendo entrar. Não me preocupei com os rituais de chegada, que os peregrinos seguem. Deixei tudo para o dia seguinte, com mais calma.

Naquele momento eu queria apenas curtir, desfrutar da chegada. Entrei na Igreja, ajoelhei-me, rezei, agradeci de novo, pedi perdão por meus erros no Caminho. Dei uma volta em toda a Catedral, por dentro, extasiado. EU HAVIA CONSEGUIDO! HAVIA REALIZADO UM SONHO! Um sonho que poucos têm e, destes, menos ainda têm forças para lutar por ele, para realizá-lo. A maioria sequer entende este sonho. Chega a criticá-lo. Mas eu havia sonhado e lutado para realizar o sonho. E CONSEGUIDO!

No dia seguinte, voltei à Catedral, desta vez para cumprir todos os rituais, no Pórtico da Glória, na Porta do Perdão, o abraço no Apóstolo, a visita ao túmulo. Até me confessar com um padre eu fiz, apesar de achar que ele estava atendendo "por atacado" e não havia prestado atenção em nada do que eu disse. Azar o dele. Eu estava bem. E, por via das dúvidas, havia cumprido um dos requisitos para a indulgência plena, no Ano Santo, eh, eh.

Assisti à missa, em pé, no meio de um bando de adolescentes turistas, irrequietos. Assisti até a uma briguinha de senhoras, por um lugar no banco. Azar o delas. Eu estava ali, curtindo, apesar do desconforto da posição (afinal, o que era aquilo, para quem havia andado 800 km para chegar ali?).

Tive a maravilhosa surpresa de ouvir as palavras de uma brasileira, no altar, atendendo a um convite do bispo, falando, em português, aos peregrinos. Surpresa esta que se transformou em felicidade, ao perceber que era a Clarice, a presidente da AACS, à qual me apresentei, ao final da missa, e que me deu um dos mais calorosos e afetuosos abraços que já recebi em minha vida. Mummy, obrigado por tudo. Ao final da missa, a cerimônia do botafumeiro: inesquecível! Tudo bem, pode ter perdido o caráter inicial e se transformado mais em show. Mas e daí? Quem falou que a igreja não pode dar show? Se os fiéis gostam... Eu adorei!

Logo depois, conheci o "patrão" da lista (e hoje amigo) José Roberto, pessoa incrível e totalmente dedicada ao Caminho. Junto, o Djalma, nosso representante em Portugal, engraçadíssimo. Obrigado aos dois pela recepção e pelas "cañas" de noite.

Hoje, um ano depois, agradeço também à Aurora e ao Viajor, por tudo o que me ensinaram sobre o Caminho e por tudo o que já fizeram por mim. Obrigado à Dani, pela amizade e pelo carinho. Ao Teco, peregrino mineiro, mas que mora no Rio, que conheci no alto dos Pirineus, atleticano antes de tudo, companheiro dos primeiros dias do Caminho e que se tornou um dos meus melhores amigos até hoje (aguarde, amigo, a Estrada Real nos espera).

Obrigado a esta lista maravilhosa, pelo que me ensinaram, pelas lições de solidariedade, companheirismo, pelo perdão e compreensão à eventuais deslizes e intempestividade. Vocês são demais!

E, acima de tudo, obrigado à minha família, que sempre me apoiou e torceu por mim. E a Deus e a Santiago, que me deram forças para lutar por meu sonho e realizá-lo, aumentando ainda mais a minha fé.

Hoje é um dia especial. Aos que ainda não foram ao Caminho, lutem por seus sonhos, acreditem neles. Vocês conseguirão!

Beijos a todos e, mais uma vez, obrigado por tudo!

Xandi/BH

R E L A T O S